Se são vazias as emoções

Acho que posso dizer que estou de luto, de certo modo. Que estou me recuperando de uma grande perda. Aprendendo a viver de outra maneira, a pensar em outras coisas, a me relacionar com outras pessoas. O silêncio com que me comporto diz um monte. Mas é que estou numa espécie de luto, sim.

A grande perda é bem grande mesmo. Quando nos dizem sobre nossos “anos formativos”, aqueles que moldam nosso eu-adulto, nosso eu-maduro, falam disso que venho vivendo. E no meio de um viver robótico me pego rememorando. E toda vez que rememoro me paro, sinalizo:

– Não quero criar uma emoção vazia.

Porque quero soar trivial, nomeio então como meu cânone. Uma história a mais pro meu cânone. Como se um dia eu pudesse descrevê-lo como “um a mais”, como se eu já não fosse outra. E se eu tenho vários lutos escritos e reescritos, agora vejo que minha maneira de lidar com esse luto também não é mais a mesma. Se um dia fui de choro, fui de escrever longos textos comoventes, hoje me encontro na mais covarde apatia, recusando imagens, lembranças, memórias – como se fosse possível.

Meus anos formativos no final foram então assim, e foram. E agora tenho que me repensar – de novo. Por que será que dessa vez é tão diferente? Esvaziar tudo, as caixas, os porta-retratos, os livros, a mente. Botar coisa nova no lugar. Tenho que me refazer por inteira.

E então vivo no luto, num choro que quase não sai, numa angústia em segundo plano, pairando por trás de todo o meu esforço pra parecer que saí intacta. E me contento com “é assim mesmo, acontece!”, tento me convencer de que as frases feitas que um dia eu usei para viver meus lutos ainda surtem qualquer efeito. Uso as mesmas ferramentas pra uma solidão inédita.

Mas hoje, soube: estou muito triste. Tão triste que nem parece que estou.

E a razão de tanta tristeza era que eu acho que não sei mais ser eu. Eu desaprendi, ou tinha virado outro eu, um que dependia, e agora que me privei da dependência, estou perdida.

E a segunda tristeza é saber que ele não está mais lá.

Digo, ele está lá. Mas é outro ele. Eu sou outro eu, ele é outro ele. Somos outros e não podemos ficar mais juntos e é por isso, penso, racional.

Me pego pensando: por que e como as pessoas se transformam, e quando é que nos damos conta disso. Por que nós nos transformamos e assim não servimos mais um para o outro? O que foi realmente que mudou? Nossas palavas ficaram vazias agora que não significam mais as mesmas coisas?

Inevitavelmente, remonto um trajetória, sem motivo algum. Fazer é inútil, criar a falsa emoção, a emoção que se baseia no que não está mais lá. Esse era meu medo, e hoje eu fiz. Remonto peça por peça, palavra por palavra, mesmo que chegue a lugar nenhum, que só me sirva pra arrancar lágrimas vazias.

Por que ainda não consigo pensar no fim e me sentir grata por tudo que passou? Olhar feliz pras memórias, porque elas são boas, porque elas são um pedaço de tudo que hoje eu tenho de concreto. Só consigo sentir que eu perdi e tudo mais não importa. Perdi, assim, intransitivamente.

Vou dizer pra mim que isso acontece o tempo todo e que já me aconteceu, inclusive. Vou dizer que no dado momento eu vou me sentir melhor, inteira de novo, um novo eu, de novo. E ele vai ser, enfim, parte do meu cânone, vai fazer finalmente seu papel: ser quem me ajudou a passar pelos meus anos formativos com mais graça e coragem. E vou deixar de lado a melancolia vazia, baseada no que já deixou de existir.

Então, o luto é de uma parda de mim mesma. Percebo que se nem eu sou mais a mesma, ele não é mais o mesmo, não temos como ser nós dois. Eu vou ter que aprender a preencher suas lacunas. Ceder seu espaço para mais de mim e ver quando é que vou me arquear de novo.

Talvez amanhã eu volte para aquela imobilidade confortável, que eu continue sem arrumar minhas coisas, que eu continue sentido raiva, ou remorso, ou me encontre novamente procurando entender o inexplicável. Hoje eu rememoro, me encho das emoções – que talvez não sejam tão vazias, que seja! Me amparo no que um dia eu soube. Um dia eu vou perceber.

 

Quem sabe, tudo isso é um descompasso momentâneo entre emoção e linguagem. Um abismo entre sentir e dizer. Talvez o tempo seja capaz de construir essa ponte no momento certo, talvez eu nunca consiga fazer essa travessia. Mas por enquanto é um luto, uma esquiva. Um jeito de andar pra frente.

Escolhas de Mariana

Torradas, todo lugar que olhava via torradas, e filhos. Mariana tinha três opções: a da mãe, a do clube e a do infinito. Não sabia nada de nada, coitada. Tinha escolhas e só. Certo dia acordou atordoada, desconfiada de que tudo que vivera não era ela. Tudo que vivera era outro ela, outra versão dela, e na bela manhã que se iniciava, comendo suas torradas, já era outra. Via a barriga crescendo, as pessoas mudando, a grande escolha, que a cada dia virava menos dela. Acordava na cama, de ponta cabeça, aos beijos secos de um amor gasto. Dormia de costas encolhidas, num cê invertido, com medo da pele dele, do toque dele – mesmo assim agora era tomada por uma maternidade alheia, a escolha.

As escolhas.

Querer não queria, mas era meio que O Certo. Numa manhã de sábado tomou o café com torradas na companhia dele, que não era muito mais do que uma companhia corporal, como uma conversa de chat, que é e não é uma pessoa. Disse-lhe que estava bem, – não estava. Disse que precisava apenas descansar, tomar um ar, um rumo, cortar as unhas e fazer uma mascara de maracujá pro rosto. Voltaria renovada, pronta para amá-lo virtualmente mais um pouco. Mariana engravidara de outro homem.

Na volta para casa, num táxi pouco limpo, não podia dizer exatamente quais decisões a trouxeram àquela situação. Abdicar de um desejo primitivo e sagrado, fazer pouco caso de sua preciosa identidade, seus escassos valores morais. A verdade é que as escolhas que tinha de fazer podiam multiplicar-se num estalar de dedos. De repente, nada em sua vida estava certo – como um castelo de cartas, uma peça cai e leva consigo tudo o mais. E mudava todo rumo.

Mariana duvidava então de suas escolhas anteriores, de tudo que achava saber. Da própria índole – como foi se deitar com um estranho? Como podia contribuir silenciosamente com nada, com o que supostamente não concordava. A lástima. O táxi fazia curvas, Mariana enjoava muito, até que desceu, e se viu perdida num bairro pouco movimentado, as mãos cansadas, a vista turva. Não o amo mais, pensou sem coragem, subiu a primeira rua que viu. Ele, ela. O futuro ele, ou ela.

E subindo refletia sobre toda uma existência, sobre o que iria ou não existir, dependendo de suas escolhas. Queria muito ser um fim em si mesmo, como ele costumava dizer sobre outra coisa, mas que ela aplicava a tudo. Na subida, um paralelo se montava entre o caminho e a sua vida. A barriga, meio a mostra, era tudo que ela nunca quis. Ser mulher é tudo que ela nunca escolheu. Vivia, então, subindo, escalando, a própria vida. Lembrara-se das conversas antigas, tão antigas quanto quarta feira à tarde, quando baixou a voz pra ele, abriu alas pra ouvir de orelhas abaixadas o sermão que a historia fez ser digno. Que fosse uma prostituta, uma qualquer. Se ele diz deve ser verdade, pensou na ocasião. Mariana rodava em volta de si mesma, fazendo bambolear o enraizado, o relacionamento de anos, que agonizava na esquina daquele bairro, enquanto a voz dele era uma sinfonia. Subia a rua sozinha, afinal, era e estava sozinha.

A mãe de Mariana dizia que ela deveria querer. E Mariana queria mesmo muito.

A juventude de Mariana era um querer inesgotável. Tinha o apreço conquistado pelos seios pequenos, as curvas leves. Vivia a adornar o corpo magro com pequenos elásticos e sutiãs. De uma coisa sabia: seu toque em si é como um acontecimento abençoado. Como é que não pode? Descobriu pouco mais tarde que não devia se gabar de um Pecado.

Cobria a barriga com as mãos espalmadas, como se doesse. O empecilho, pensava constrangida, o empecilho. Com vinte e três anos tinha conhecido poucos corpos e sabia que havia de conhecer mais. Uma carne pouco degustada, um corpo. Não se importava muito com coisas práticas como pagar as contas, ser intelectualmente relevante, receber  uma promoção: não se aplicava. A subida era mesmo assim uma realidade, pois não começara no solo plano como ele. Disso começava a sentir uma raiva úmida, fértil. Não tem nenhum cabimento continuar com isso. Apertava e fazia quase uma escolha.

Mariana talvez não o amasse mais mesmo, mas de um jeito não definitivo. Amor é amor – o que sentia tinha outro nome. Chamava de dependência, às vezes, mesmo que tivesse que esticar o significado dessa palavra para servir. Disso tinha consciência. Mas não tinha até então atribuído isso ao medo de ser uma mulher desamparada, mesmo que clamasse apoiar-se em si mesma. A mulher pode e deve estar sozinha? indagava aos postes da rua deserta na subida implacável. Uma mulher sozinha, que nada sabe de nada, que mal se enxerga.

Mariana achava que não podiam vê-la, então. Só ele a vê, a via, que seja. Agora não mais veria, voltaria a ser invisível. Um aborto invisível, um problema a menos. Não achava que o que sai dela é dela, ou de alguém, ou seria alguém. Pensava nos tempos, no que esperava dos tempos e era muito pouco, até mesmo para si. Não achava que seu corpo merecesse tamanha violação.

Tudo voltava ao corpo. Um corpo cheio de receios que era livre só que não essencialmente, como o verso, que eventualmente teve que se libertar. Vivia sob a suspeita de que estava sendo imprópria, pois nunca a desejavam, senão na sua própria narrativa. Cada um tem sua ficção. Nem ele a deseja, talvez nunca a tivesse desejado. Um dia ela desejou que outros desejassem seu corpo, assim viveria menos uma fantasia e mais um caso extra conjugal, que não era imaculado, mas inteiramente seu. Conheceu então um homem, da maneira que se pode conhecer homens – por vontade. E dele, sim, não dependia.

Que seria da vida de Mariana se ela o tivesse. E se não? Alguém apontaria, diria coisas horríveis a seu respeito, faria disso um palanque?

Ter ou não ter era a mais branda das escolhas. Amar não.

Um banquete

Me perco no infinito entre dois dentes retangulares e astutos, que me dizem pra ficar. No puxar das cadeiras, no atravessar das ruas, as mãos se tocam, vejo o par de dentes lindos e distantes com a excitação perdida desde o último julho, quando me sujei; as sardas no nariz ligeiro não ajudaram em nada. Quando vi, sentava num banco de madeira acolchoado, em meio a milhões de fotos dos dois juntos, mas que, do alto dos meus quase trinta, nunca poderiam me alcançar.

Vamos dizer que quem tinha dentes tinha também muita saliva, uma disposição inesgotável pra falar da metafísica das nossas relações conjugais. Em umas três horas, me lecionou sobre a vida secreta da sua namorada e quis saber um pouco do mesmo sobre mim. Contei e se riu. Faço cada coisa por pênis! E agora que puxo pela memória, ficaram os dentes, as sardas, o arrepio de lembrar disso quando a luz já tinha ido embora. E, mesmo quando nem lembrava, continuava arrepiando, mas era por movimentos de mão, por espessura. Pela alegria de ver saliva e nenhuma palavra.

Pra quê é que eu vou querer palavras? Eu poderia balançar ao som de nada, ao ocasional aviso da velocidade ou intensidade, que seja. Mas aí, eu já estava entregue. Quero ser guiada de vez em quando, percorrida. A minha própria natureza, o jeito como vejo o mundo, o que penso toda hora. Tinha um par de lábios de moldura pro par de dentes indecentes, que sabiam fazer de um tudo (é o eixo da memória).

Uma apreciação devota dos meus ziguezagues, um olhar faminto, como um espelho, como quem esperou à mesa.

Glendinha

– Você já ficou com alguém e, de repente, pensou “nossa, que boca enorme”, e vocês não estavam nem se beijando?
Perguntou a Glenda, no meio de um torneio de basquete da segunda série, ela que trabalhava lá só desde o começo do semestre. As outras professoras, boquiabertas, pensaram que talvez as pessoas compartilhassem coisas demais, e isso era um malefício advindo da exposição excessiva nas redes sociais.
– Glendinha, meu bem, olhe a boca, disse a mais velha, com medo de que algum aluno ouvisse e começasse a interrogar – mas o que vocês faziam, prô?
Glenda dava dessas, às vezes. Mal pensava e já estava lá: no mundo, só aguardando a reação dos outros.
Outro dia, passou por um gato na rua, pegou, acariciou o bicho desconhecido e o devolveu para a calçada, e continuou andando e coçando os olhos, o nariz, como se não pudesse pegar uma doença nessas épocas em que tudo tem germes. Na escola estava há poucos meses com um esforço tremendo, já que não era muito fã de trabalhar. Tinha feito o magistério em 1999, como se não fosse ultrapassado, já no final dos anos noventa, “fazer magistério”. Nunca mais estudou e por muito tempo trabalhou de babá. Agora que completara quarenta anos redondos, a cautela passava longe.
Semana passada fez um bolinho e chamou a meia duzia de amigas para cantar um parabéns. O Júlio César também, o único homem do bando.
– Não vai cortar o bolo, Glendinha? O primeiro pedaço é pra quem?. disse o Júlio César, porque estava com fome. Glenda não só deu o primeiro pedaço a ele como preparou-lhe uma cilada e ele foi o último a deixar sua casa de 3 cômodos no Jardim Clemência. Tomaram cerveja em copo americano, fizeram um pouco de amor e depois seguiram sendo amantes escondidos, mesmo que não tivessem por quê esconder isso de ninguém.
Na escola Glenda era conhecida pelas unhas roídas em carne viva. Minha ansiedade, reclamava, cheia de band aids e esparadrapos. As mães buscavam as crianças, horrorizadas, passando álcool gel até na alma. Mas Glenda era bem limpa, uns dois banhos por dia, porque suava muito. Totalmente desatenta da ojeriza que causava, entregava as lições de casa junto com a criança ranhenta, ou um bilhete de mal criação. Dava um tapinha nas costas, mandava um beijo beijado molhadamente na mão.
Júlio César tinha dentes bons, pensava Glenda sempre que o via da esquina, antes de seus pequenos encontros. Dentes bons igual cavalo, retinho, bom pra morder. Glenda tinha dessas coisas, mordidas, nem sempre marcava, o que já estava de bom tamanho. Se encontravam meio que na hora do almoço para trepar no depósito do bar onde Júlio César trabalhava. Glenda fazia um esforço imaculado para conter o barulho, embora achasse pecado conter genuínos gritos de felicidade. Prazer, felicidade, é tudo questão de terminologia, de hora do dia, pensava enquanto se equilibrava na ponta dos pés tamanho 39, porém delicados, na medida do possível.
Tinha manias inexplicáveis, como a de tomar banho de chinelos e depois ter que esfregar com bucha o chão lamacento e cor de chumbo, porque o chinelo era o mesmo com o qual passeava por todo o bairro. Queria subir na vida, tinha crenças, mas não achava que o Júlio César era pau para toda obra como um companheiro deveria ser. Por isso, ele não sabia que ela guardava uns dois terços de seu salário numa caixinha feita de palitos de sorvete que havia ganhado de um aluno depois da aula de artesanato. Todo mês colocava lá o terço do salário de pajem escolar enrolado e amarrado com um elástico amarelo. Diariamente, de manhã, espiava a caixinha, que ficava enfeitando um criado mudo de design moderno e que em nada combinava com o resto da casa térrea sem quintal. Plantava bromélias em um vaso minúsculo para representar sua própria existência, pois também era imbicada e folhuda, robusta demais para aquela casinha/vidinha modesta – que tinha preguiça demais de mudar.
Tinha alma de mulher metropolitana, porque achava pouco ter só o Júlio César lhe adentrando de vez em quando. E um fogo incontrolável na mexerica, como sua mãe costumava dizer. Tinha plena consciência de que podia e devia distribuir seu amorzinho modesto pela cidade. Como não era adepta de celulares e afins, usava o velho método: sair e tomar umas cachaças, dançar uma dança por aí e achar um benzinho temporário para lhe acalmar a chamuscaria. Nada contava a Júlio Cèsar, já que pretendia mantê-lo como o macho fixo, embora oculto. Todos eram ocultos, na verdade, porque queria manter o ar assexuado na frente das crianças e parentes, como se fosse uma virgem de 40 anos, mesmo que não pudesse evitar de dizer putarias aleatórias na hora da merenda. No fechar das paredes, sabia encostar as mãos nos pés, e fechava-se com uma tábua de passar, como se pudesse facilmente sair em turnê com um circo. Dormia em cama de viúva, mas amava solteira com desenvoltura, na maioria das vezes tapava a boca do visitante quando nele estava sentada, e gostava de olhar muito para sua caixinha. Pensava em progresso, e em encher a caixinha, em preencher um vácuo seu ao mesmo tempo.
Chegava de manhã e abria o portão da escola com vontade, beijava as crianças no centro da cabeça com uma pureza de aquecer o coração.
– Tia Glenda, por que sua boca solta pelinha?, as crianças mais observadoras diziam, e ela se ria, passava manteiga de cacau depressa, como se adiantasse, já que raramente bebia água.

Júlio César sugeriu fazer um ménage à trois com Glenda e sua amiga Roberta, numa terça feira, depois das 18 horas, e podia ser lá no bar mesmo. Glenda ficou surpresa pelo lado sem vergonha que nunca imaginou em JC e curiosa por que havia de ser a Roberta, que tinha peitos minúsculos. Sempre que se imaginava tocando outra mulher, queria só saber de peitos grandes, como se tivesse sido aculturada na América dos anos 90. E se imaginava, de vez em quando, com umas moças mais novas, normalmente irmã de aluno, mas não deixava de achar mais negócio sair com macho.
– Tudo bem, vamos fazer méjage à toá, achei bacana.
Glenda passou a semana fazendo abdominais na cama de viúva, porque pensou que mulheres são mais exigentes, conhecem seus corpos muito melhor, não iam se contentar com uma barriga flácida. Homem tudo bem, que gosta de “ter onde pegar”. Mulher deve gostar de corpo saradinho. Limpou a casa também, porque estava disposta a sugerir seus aposentos como cenário – o depósito do bar cabe dois no máximo, ia ficar muito cheio e podiam quebrar alguma coisa. Era zelosa com coisa dos outros, isso era, mas andava mulambenta na rua. A cama de viúva, por sua vez, rangia como velha surda a cada abdominal. Rangia porque era velha, de segunda mão. Imagine três pessoas trepando nessa cama, os vizinhos vão chamar a polícia e Glenda detestava incomodar a vizinhança com barulho. Ligava um CD do Buddy Holly todo domingo quase no volume 100 porque não considerava isso barulho, e nem sabia quem era Buddy Holly porque o CD não tinha capa. Glenda tinha dessas.
Foi nas Lojas Marabraz comprar uma cama nova, por isso, recorreu à caixinha de palitos, porque não gostava de fazer dívida. Carnê era a morte. Comprou então a cama de alumínio cor magenta, com espirais intermináveis na cabeceira e pontas douradas e um colchão do mais barato. Mandou entregar mas teve que postergar o encontro a três por conta do prazo de entrega.
No dia seguinte, lembrou que havia esquecido de contar a novidade para Roberta, a pajem moça da Escola Professor João Neto, a Netinho da rua Abraão. Moça mesmo, porque se emperequetava toda, chegava na escola emperequetada todo santo dia, cheirosa que só. Devia de ter seus 20 anos, julgando pela bunda firme. E era a única que dava mais ouvidos à Glenda quando ela desembestava a falar asneira.
– Se você quer saber, eu é que não como coração de galinha. Seria como se eu comesse o amor de dentro de seu recipiente. Uma loucura.
– Glendinha, coração não tem amor, é na cabeça que está o amor.
Glenda tinha convicções estáticas mesmo sabendo quase nada de nada.

Júlio César queria saber em que pé andava o convite para Roberta. Glenda, por sua vez, queria saber que tanto JC enchia seu saco por conta do ménage, se ela já havia concordado.
– Não dá pra fazer de qualquer jeito também, pare de ser desleixado!
No mesmo momento, ficou com a pulga atrás da orelha porque, querendo ou não, era ciumenta. Deitou pela última vez na cama de viúva, pensando que talvez o JC não desse a mínima para trepar de três, só queria mesmo era ver a Roberta pelada. Ela queria também, mas JC tinha que segurar o facho. Depois pensou que JC não lhe deve nada porque nem mesmo eram um casal oficial real, e depois de incluir mais gente é que não iam ser mais porcaria nenhuma. Não que Glenda quisesse. Só pensou porque vivia pensando em possibilidades. Será que nunca vai ler essa meia duzia de livros que comprou por causa da capa? Não vai contar para Júlio César que costuma passar mel na mexerica, ele que detesta abelha? Se achava desonesta porque escondia essas coisas.

Na feira pedia sempre produtos orgânicos: Vou querer orgânico, viu Seu Antonio, orgânico. Gostava como isso soava, mesmo sem fazer ideia do que de fato significava ser orgânico. Quando ia lavar roupas, usava vinagre de maçã. A moça do Bem Estar disse uma vez que tira mais os germes da roupa. Mesmo assim, não gostava de lavar as mãos depois de ir ao banheiro, porque demora muito tirar todos aqueles anéis.

A cama tinha chegado há dois dias mas ela nada disse a Júlio César, porque estava arrumando o resto da casa. Algum móvel havia de ser descartado para acomodar a cama nova de casal, porque ela já estava na idade de ter cama de casal. Desfez uma cômoda com chave de fenda e jogou as táboas na esquina mais suja de seu bairro, como todo mundo costumava fazer, afinal, depois os lixeiros passam ou algum mendigo dá bom uso. Tudo que estava sobre a cômoda ficou sem propósito: uma fotos de seus pais quando jovens num porta retrato de madeira; uma concha gravada de Porto Seguro de quando ficou sete dias lá por conta de um pacote da CVC; um Bom Ar; um batom da MAC; Os Sofrimentos do Jovem Werther; um abajur. O livro jogou na pilha com outros livros no canto da sala, usava para apoiar as cervejas quando se sentava na cadeira de balanço em frente à TV. O quadro dos pais guardou na primeira gaveta do criado mudo, aproveitando para se livrar desse julgamento quando estivesse trepando de três na semana seguinte. O abajur e a concha, manteve ao lado da cama e o batom passou a usar todos os dias.

Mas a casa ainda não estava boa para o evento, apesar de dormir agora muito mais esparramada. Tinha menos dores na lombar, pelo menos. Julio César não insistia tanto na proposta, já que Glenda posava com aquela boca mais carnuda cheia de batom, ficava mais mulherão. Por isso, se encontraram novamente no depósito para mais uma vez a sós antes de incluírem a Roberta, que nesse dia já não foi mais o centro da conversa. Júlio César se lambuzava no batom rosa, embora tenha passado mais tempo ao sul, dessa vez, o que deixou a Glenda glendíssima, um mulherão.

Roberta ficou tentada quando Glenda a convidou, duas semanas depois, embora se considerasse uma puritana. Pensou, será que tudo bem fazer essas coisas, meu deus!. Olhou para Glenda de cima a baixo, viu que a calça marcava um dáblio salientíssimo, mas desanimou-se com os culotes pontudos demais, uma bromélia! Mulheres devem mesmo ser mais exigentes. Mas aceitou mesmo assim, porque pensou que, no mundo de hoje, as mulheres tem que tomar posse de sua sexualidade, esta que pode ser sempre muito flexível para as mulheres na mente dos machos. Ela via uns pornôs normais.

Glenda foi para a escola no dia 3 de maio usando uma cinta modeladora, porque percebeu os olhares afiados de Roberta, e assim ficou super atraente naquele grande dia. Júlio Cesar a olhou do bar com grande atenção, ela parecia um sino balançando a bunda pra lá e pra cá.
– Oi Roberta, tudo bem?, disse segurando seu queixo, o que pareceu uma piada interna entre as amigas e, por isso, ninguém disse nada. O dia demorou a passar. Várias crianças tiveram diarreia, o que nunca acontecia, mas era um dia especial. A merendeira fez polenta com almôndega e molho Pomarola.
No jogo de basquete da segunda série, Glenda finalmente permaneceu calada, olhando os peitos minúsculos de Roberta, que agora pareciam um pouco mais divertidos, ela devia estar sem sutiã. No vai e vem das bolas, o dia passou arrastado. Glenda comeu polenta, ficou toda satisfeita, lambia os dedos sensualmente porque já se aquecia.
Chegando em casa, com a cama nova, sem o porta retrato, retocou o batom.
– Entra Júlio César, Roberta, meus queridos.
Lhes serviu água da torneira num copo de requeijão, com muita vergonha, por que foi se esquecer de comprar taças?
Os três sentaram-se na cama de alumínio, ouvindo um pouco de Buddy Holly para criar um clima: Glenda achava esse gringo um tesão mesmo que nunca tivesse visto sua face. Julio César tirou debaixo do braço uma sacola verde de mercado contendo um vinho pelo qual pagara mais do que o usual e sugeriu que começassem bebendo. Puxou assunto.
– Então, Roberta, tudo bem? Não nos vimos desde o aniversário da Glendinha, que coisa, não?
– Pois é, disse Roberta um pouco encabulada, olhando as unhas sujíssimas segurando a sacola úmida.
– O que vocês acham um do outro, disse Glenda do alto de sua falta de cautela.
– Eu acho você um mulherão, Roberta.
Glenda pegou a garrafa da mão de JC e levou para a cozinha, onde encheu três dos copos de requeijão. No fundo, ficou ofendida, pois achou que mulherão era um adjetivo exclusivo seu, agora que usava batom da MAC. Foi ao banheiro, passou um lenço umedecido na vagina e manteve a cinta. Quando voltou com uma bandeja prateada, deparou-se com JC e Roberta inclinando-se para um beijo. Achou esquisito, pois os quadris estavam muito distantes, isso devia significar que eles estavam nervosos.
– Já começaram, então, queridos? Que pressa.
Curiosamente ficou glendíssima com as formas que faziam na parede iluminada pelo abajur. Os três beberam vinho, se despiram, salivaram, usaram todos os centímetros da cama novíssima de Glenda, como se tivessem nascido para trepar de três. Quem nasce para amar de dois, nasce para trepar de três, Glenda pensou já toda recomposta, deitada à direita enquanto Roberta deitava-se à esquerda de Júlio César.
– Vocês querem fumar? Vi que as pessoas fumam depois de fazer putaria.
Roberta riu e descobriu que nenhum deles fumava.
Júlio César abriu os braços como quem faria um anjo na neve, e acariciou as mexericas das meninas, levantou-se e botou de volta uma camisa de mangas curtas.
– Tchau Glendinha, Roberta! Foi um prazer.

(…)

Imunda e cândida

Uma parte de mim é imunda.
Percebi porque vi minhas mãos carimbadas na parede como um desenho primitivo. A sujeira era noventa porcento ferrugem, o resto tinta e não estava só nas minhas mãos.
Começou com uma dança esquisita como sempre começa, o vi só quando já estava perto. O nome não sei. Sei que queria segurar o meu pescoço, violento e macio. Vamos pra minha casa, pra fazer direitinho?, eu disse, porque só uma parte de mim é imunda.

Volto a falar sobre sexta feira, mesmo que tenha sido sábado. Sexta significa mais pra mim. Acho que era José, vamos chamar de José e era simples. Tinha cabelo simples, mãos simples, movimentos simples. Me chamou de lunática, falou que eu precisava me amar mais. E não me amo já muito, José? Não estou aqui?

Se era para beijar, beijamos. A boca redonda, convexa, com gosto de bebida. Eu olhei só pra ela e beijava de olhos abertos como se ele fosse fugir, como se nem estivesse ali. A altura era ideal: meu nariz se encaixava no espaço entre suas clavículas. Tinha ossos, isso tinha, um monte deles. Os braços finos, as pernas também, era simples.

Os olhos não sei, não os vi a não ser pela vermelhidão de em volta do direito. Podiam ser verdes, ou cor de mel, vamos dizer que eram cor de mel. Mas nem serviam pra olhar. No escuro, na ferrugem, não dava pra ver de cima pra baixo, no meio das minhas pernas. Não disse nada.

No sofá eu parecia imunda.
Mas só por causa do contraste, pela luz, a lucidez. Nem por isso deixava de carimbar os cotovelos, os joelhos, mais ou menos o corpo todo no sofá meio branco que nem era nosso. Não tinha som de nada a não ser de móveis.

Sexta eu o encontrei perdido, ele me encontrou perdida, me ofereceu carona, me declamou um poema razoável, beijou minhas coxas, me disse pra trabalhar a auto estima, me leu. Fosse domingo eu não o encontraria. Domingo eu voltaria limpinha pra casa de outro ele, como voltei. Voltaria cheirosa, uma seda. Mas sexta não.

À noite eu sou imunda.
E faxino na luz do dia, entrego José à estação, jogo as roupas, o lençol, na máquina, uso sabonete íntimo, jogo o sofá fora.

Quem disse que eu não posso ter duas caras?
Acho que sei amar de várias maneiras, porque chamo tudo de amor, porque sou meio elástica. Elástica, imunda, amante do que quer que seja, de quem seja. Mas sou.

Gostar gostei.
Fazer direitinho fiz.
Tomei banho.

De quem quer que eu seja sou imunda e cândida. Na sexta ou no domingo, como você quiser, na posição que você quiser. Acho que vivo em dobro e gosto como quem se olhou no espelho por tempo demais e se multiplicou. Como quem beija com a boca e fala com os olhos e dança pra poder emparelhar. Imunda e cândida.

Obrigada e volte sempre!

Vinte oito

Peguei com dois dedos uma pinça e arranquei com força o fio único sem cor. Um simbolo de maturidade, ou só um desfortunado prenúncio de daqui uns 10 anos. Não sei. Uma distração, eu diria, do trabalho que deu pra dormir ontem à noite. Mas é tudo, é a vida, uma grande distração. Uma atrás da outra, não é?

Nomeei, então, a voz que no ato me disse que o fio era na verdade um fim anônimo. Chamei de Ruth a pentelha voz que diz toda hora: ninguém se importa com o seu cabelo branco e não sei por quê você vai escrever sobre ele. Eu concordo sempre. Que relevância tem um fio grisalho se tudo é o mesmo. Se eu vou dar um megafone pra Ruth ao invés de mandar ela se calar. Me distraio, então. A visão embaçada.

O mundo me disse que eu não estou nem velha nem gorda. O mundo de agora me disse e não foi pra mim. A Ruth diz que o mundo não se importa comigo. Mesmo assim, eu acho que existo. Não achasse não passaria maquiagem, ou faria as unhas. O mundo me vê ou não vê? Ruth diz que se vê, eu estorvo a visão.

Eu não sou mesmo páreo pra uma calça 36.

Fiz um bolo, cantei parabéns para mim. Não posso fazer nada que meu olho alaga toda hora. Ruth banaliza. Diz que choro e não é a toa, se fosse eu choraria mais. Falei pra ela que é difícil chorar no mudo, mas ela me diz que tem que ser assim, pra não atrapalhar os outros vivendo.

Estou desidratada. O fio não cresce mais porque o arranquei. Os olhos são ilhas inundadas e eu sei e não sei por quê. Tenho agora outro número. E não faz a menor diferença. As velas eu assopro com um suspiro e sei que o ponto faz parte da minha orelha. Eu já devia ter me acostumado com ele/ela.

Estou mais sozinha do que nunca.

Mais distraída do que nunca.

Pelo menos nomeando.

Mas, no geral, muito só.

Bifurcação

Quando medido em palmos, não em léguas
Passada com deleite a noite em claro
O jogo da distância dava tréguas
Ao som de seu alarme e suas regras
Jurava em meus lençóis o pouco caso.

Mas agora

Quem sou eu? Quem é você?
Que caminhos diferentes nós trilhamos sem saber?

Não tenho que exigir o olhar atento
Se fosse meu direito, um benefício
De noite coroar-me com seu tempo
De dia ver-me como um monumento
O pouco quanto peço, um sacrifício

Foi-se o tempo!

Junho é o sexto mês

O dia 3 de junho desse ano caiu numa sexta-feira. Julie, que era geminiana e completaria 24 anos no mesmo mês, trabalhava há meses no projeto gráfico de uma empresa chamada Hegs, cujo produto era a produção e distribuição de ovos orgânicos. O projeto caminhava pobremente, “aos trancos e barrancos”, como costumava responder aos amigos que a indagassem. Às sextas-feiras, Julie trabalhava numa Starbucks a quatro quarteirões de sua casa, assim como às segundas trabalhava no Fran’s Café de Pinheiros, às terças na padaria da rua Caetes e às quartas no Parque Vila Lobos. Quinta-feira descansava, porque quarta à noite jogava futsal no Sesc Pompeia.

A Hegs queria inaugurar seu primeiro website no dia 6 de junho, por isso o dia 3 era tão importante. Depois de contadas quinze idas e vindas de seu projeto, Julie estava pronta para receber o seu pagamento e deslanchar de uma vez a ascensão do império orgânico de ovos na Zona Oeste de São Paulo. Às 4 e pouco enviou o projeto final em 3 emails e fechou seu MacBook. Logo depois pediu outro frappuccino tamanho venti e ficou sentada olhando notificações no celular.

Jaime, por outro lado, fazia contabilidade freelance para empresas de pequeno porte em seu modesto HP de 15 polegadas, enquanto tomava um expresso de baunilha. O dia 3 de junho era especialmente tocante para ele, pois há exato um ano ele se mudava para um apartamento minúsculo na Rua Vanderlei, onde viveria sozinho depois de uma conturbada separação em que não lhe sobrou nem Brutus nem Cleo, seus dois cães – que ficaram com Alissa, sua ex. Jaime não ia a encontros românticos desde sua separação, pois dizia que “as coisas andavam fracas pro seu lado”, e queria se dedicar ininterruptamente à sua carreira profissional.

Alissa ficou com o apartamento e com os cachorros, Jaime não quis criar um grande caso por isso. Jaime visita o vira lata Brutus e a dálmata Cleo umas duas vezes por mês, quando os leva para passear. A visita dura umas quatro ou cinco horas e acontece, normalmente, no final de semana. De vez em quando, Alissa desmarca em cima da hora, como acontecera naquela sexta-feria, dia 3, o que deixou Jaime irremediavelmente desmotivado.

Estavam a quatro mesas de distância e Jaime olhava de tempos em tempos para Julie que, discretamente, olhava de volta de modo que seus olhares se cruzavam de vez em quando. Quando se encontraram na fila para mais um frappuccino e um expresso, respectivamente, Julie e Jaime tocaram no assunto do tempo. Estava frio, na opinião dela, e nem tanto na dele, já tivemos invernos piores. O tempo em São Paulo é até que ameno, concluíram, e concordaram que era desnecessário manter o ar condicionado no mais frio, dado que a temperatura fora dali já estava baixa – mas “Starbucks são assim mesmo: querem que a gente experiencie o clima do hemisfério Norte”, ele disse.

Fisicamente, Julie era um pouco andrógina e Jaime um pouco bombado. Ambos tinham miopia, mas Jaime usava lentes. Deram-se conta de que usavam quase a mesma camisa azul bebê, só que ela abotoava até o final e ele não. Julie estava um pouco abaixo do peso, por isso continuava a engolir as 270 calorias do frappuccino diariamente. Tinha os olhos verde água e não raramente pesava a mão na maquiagem. Jaime, por sua vez, mantinha o corte de cabelo muito rente, gostava de levantar peso e ouvir Calvin Harris no fone de ouvido enquanto ia pra casa. Quando se cumprimentaram na fila do caixa, mutualmente pensaram que eram atraentes um ao outro, mas de uma maneira completamente improvável.

Se Jaime estava melancólico, Julie estava exausta na mesma proporção. O final de um pesado projeto e o aniversário do final de um casamento são, no mínimo, momentos de reflexão. São possíveis e talvez desejáveis os novos inícios, e a próxima página parecia estar em branco e à espera de tinta. Sentaram-se, então, na mesa onde Julie estava e contaram um ao outro o que faziam por ali durante a tarde.

A conversa não retrocedeu muito aos passados. Julie obviamente não contou que tinha saído com 12 rapazes nos últimos três meses e que quase todos estavam no momento bloqueados em seu iPhone. E não havia um padrão. As pessoas nem sempre têm afinidade, pensava, e para evitar as chatas conversinhas resultantes de certas carências de fim de noite, ela fazia bom uso da tecnologia, que permitia o apagamento de pessoas da memória do telefone. E nenhum foi, por completo, um dito “babaca”. Julie simplesmente não achou que fossem agradáveis, e até mesmo entrou em acordos prévios sobre a casualidade de cada situação. Sem ressentimentos. Aos quase 24, tinha amigos, um Instagram com mais de mil seguidores e nenhum relacionamento remotamente sério na conta.

Jaime já teve uma banda, assim contou a Julie depois de uns 15 minutos de entusiasmado bate-papo. Quando se formou, há 7 anos, perderam o contato e, então, ele deixou o baixo de lado. Tocavam uma espécie de post-grunge. Julie imediatamente imaginou uma versão nacional de Nickelback, o que achou tanto patético quanto fofo. A conversa estava engajada, queriam sem dúvidas encontrar o ponto de convergência que os mantivesse ali por mais um tempo, porque Jaime percebeu a pontinha de uma tatuagem nas costas de Julie quando ela se levantou para arrumar sua cadeira, e Julie notou que os braços de Jaime eram super firmes quando encostou nele a fim de deixar outra pessoa passar.

Estavam assistindo Atlanta, a série da FX, e essa era a primeira coisa que tinham em comum. Julie tinha grandes considerações a respeito do movimento negro e seus desdobramentos, e tinha forte interesse sobre sua origem – ostentava as trancinhas minúsculas na cabeça com tamanha propriedade. O assunto não rendeu muito porque, para Jaime, aquela não era a mais frequente das pautas e, do alto de suas sardas, achava-se pouco competente para discutir, além de ter pouco interesse. Julie via Atlanta pela relevância e Jaime pela comédia. Tal divergência, no entanto, não foi causa de grande estranhamento. Jaime demonstrou genuíno respeito, embora sempre muito neutro, ao dizer poucas palavras a respeito do polêmico tema e Julie não se prolongou até virar uma chata – isso o agradou.

Hegs era um nome bem interessante, pensou Julie em dado momento, enquanto Jaime contava sobre seus cachorros. Ela não era a mais simpatizante da arte de criar bichos de estimação. Por isso, ao ouvir como Brutus chegou até Jaime, Julie distanciou-se brevemente da conversa e disfarçou um bocejo – ela estava acordada desde as 6 da manhã. A verdade, pensou, é que hoje é sexta-feira e alguém precisa ajudar a comemorar que o diretor de marketing aprovara o projeto, como ela viu de relance em seu celular em cima da mesa. A notificação, que não passou despercebida por Jaime, fez com que Julie desabotoasse aquele último botão de sua camisa sob a vigilância rente de Jaime. “Vai fazer algo hoje a noite?” ela perguntou quando decidiu abrir o segundo botão. Jaime tinha um aniversário pra ir, mas falou que estava livre porque achou charmoso o contorno da clavícula dela, agora a mostra.

Jaime era péssimo em relacionamentos, mas se considerava um romântico. Dizia sempre que possível que Alissa o havia traído com seu terapeuta, coisa que nunca foi comprovada. Quando ele era pré adolescente, ia ao quartinho dos fundos da casa de seus pais, onde uma vez encontrou uma modesta coleção de revistas Playboy, e folheava rapidamente as empoeiradas páginas, só para trancar-se no banheiro em seguida dizendo que ia tomar banho. Sempre teve uma excelente memória e gostava particularmente das moças de peitos mais volumosos. Mas fazia de tudo pra ser rápido e imperceptível. Achava um pouco nojento o que estava fazendo e sentia uma espécie de constrangimento – o que não o impedia. Quando conheceu Alissa, era como uma criança pouco crescida, cheia de vergonhas e receios. Tinha 18 anos e fazia movimentos virginais na primeira vez em que se deitou com ela. Recatado, gostava quando Alissa ficava de quatro, mas quase não tocava nela, como se a fosse quebrar caso fizesse. Casaram-se aos seus 23 anos e mantinham uma rotina quase mecânica de fazer amor com cautela e, por isso, Jaime sempre acreditou que ela o traia. Quando verbalizou a acusação, a mais grave discussão emergiu de um jantar antecipado do dia dos namorados, onde o vinho da taça dela encontrou a camisa branca dele e acabou de uma vez com a relação.

Saíram, Julie e Jaime, e decidiram ir a pé para uma exposição de arte que ficava no caminho da casa dela, uns trinta minutos de caminhada. Jaime disse que Julie tinha olhos bonitos, o que desencadeou numa risada meio forçada, como quando se joga a cabeça pra trás e se pode ver virtualmente a úvula. Com isso, também o tocou novamente no braço, como uma forma de validação do caminho que estavam fazendo.

Julie não costumava sair com caras como Jaime. No geral eles não tinham bons empregos, ou cortes de cabelo. Perdeu a virgindade aos 16 anos na casa de um cara que dava festinhas e chamava adolescentes como ela pra fazer brincadeiras. Quando pensa nisso nos dias atuais, sente-se meio violada e meio poderosa, porque o sujeito era bem mais velho, mas ele acabou fazendo tudo que ela queria, por um instante. Quando tinha uns 10 anos, se esfregava numa almofada e achava que ia ficar grávida de almofadinhas, – disso ria sem parar no mesmo quarto em que assistia TV Globinho.

A exposição de arte estava fechada. Julie sabia disso, havia se lembrado no meio do caminho, mas preferiu não dizer nada para não estragar a caminhada e para onde ela poderia os levar. Falaram sobre seus trabalhos, Julie já havia se familiarizado com termos como amortização e depreciação. Jaime ficou sabendo da Hegs e pensava que diferença poderia haver entre os ovos normais do supermercado e os dessa empresa. Na surpresa com o horário de funcionamento da galeria, olharam-se com dúvidas sobre o que fariam a seguir, até que Julie sugeriu abrir uma garrafa de vinho em sua casa, que “ficava logo ali”. Não é como se esse convite fosse totalmente inapropriado: conversavam há pelo menos duas horas e já sabiam o básico um sobre o outro. Jaime estava há tanto tempo sem sair com ninguém que ficou contente, mas perplexo, a princípio, com a iniciativa tão precoce de Julie, que não achou aquilo nada de mais.

Entraram e ela pôs duas taças enquanto ele se sentava sobre o sofa-cama na entrada do apartamento. “Você gosta de plantas, não é?”, Jaime disse depois de mais ou menos um minuto de silêncio. Julie explicou que era de seu colega de quarto “que é gay, na verdade”, antecipando-se para evitar algum mal entendido. Quando se sentaram frente a frente perceberam que não havia, de verdade, mais assunto sobre que poderiam falar. A inesgotável conversa que durava desde as cinco da tarde haveria de acabar uma hora, por isso Julie se aproximou, sem dizer nada, e beijou Jaime na boca, apoiando-se em sua coxa, numa inclinação quase completa, em que por pouco não deixava seu lugar no sofá. Jaime não moveu nenhuma das mãos, e enquanto ela tentava enfiar a língua devagarzinho dentro de sua boca, Jaime esquivou-se ligeiramente para trás. A esquiva pareceu mero reflexo, então Julie apoiou o que faltava de seu corpo sobre ele, que dessa vez a segurou em um dos ombros, mas ao invés de a trazer para mais perto, a empurrou sutilmente para que pudesse dizer que precisava ir ao banheiro. Julie ficou sentada e deu um gole no vinho, pensando que talvez devesse pegar mais leve, embora estivesse, na verdade, com raiva. Jaime fez xixi, olhou-se no espelho e levantou a camisa, como que para certificar-se de que sua malhação estava em dia e pensou que talvez fosse legal deixar a Julie fazer o que ela quisesse, mesmo que estivesse sentindo uma mistura de pudor e repulsa, mas preferiu pensar que isso era só nervosismo, ou ansiedade. Também pensou que mulheres não deveriam ser tão atiradas assim.

Jaime voltou e Julie já tinha terminado a taça. Sentiu que tinha sido um pouco rude ao deixa-la daquele jeito e cortar o clima que estavam tentando construir, por isso sentiu necessidade de ser muito mais simpático e permissivo do que era preciso ser naquele momento. Quando sentou-se de novo, Julie tinha ligado a TV e passava o filme De Olhos Bem Fechados, que já devia estar no final. Trocaram meia duzia de palavras sobre Tom Cruise e, de novo, Julie havia iniciado um movimento que nessa segunda vez parecia muito mais feroz do que a primeira. Sentou-se sobre ele, buscando sem sucesso o cabelo para puxar. Jaime pensou que se o amigo chegasse, aquilo seria bastante desconfortável para todos e que Julie parecia não dar a mínima para essa possibilidade. Estavam na sala e as cortinas estavam abertas, ainda não estava completamente escuro, e Julie insistiu tanto que já estava abrindo o zíper de Jaime com bastante energia. Jaime preferiu pensar que era o vinho, naquele momento.

Julie o chupou por uns trinta segundos e voltou a beijá-lo, segurando levemente o seu pescoço como se o enforcasse de mentirinha, e estourou, sem querer, um botão de sua camisa. Jaime ainda recusava timidamente, e tentava transformar beijos muito molhados em desastrados selinhos, porque achava que ela o iria acompanhar. “Espera”, disse pouco depois, ofegante, somente para ser contestado prontamente em uma inesperada exclamação “por que é, então, que você está aqui?”

– Sua puta! – disse empurrando-a de volta para onde ela estava sentada no início. Saiu. Deixou a porta aberta, em pleno junho.

 

Memórias póstumas 

Amor, não me vem com natureza morta
Ressuscita primeiro sua malandragem
Mostra que poesia não é feita de pôr do sol
E que o sol se pôs porque no entardecer da gente cê já não importa.

Fecha a porta de vez, então, vê se me erra
Deita na cama que você fez, mas não comigo, que eu não carimbei trouxa na testa.
Me resta olhar você me olhando com o olho e lambendo com a testa, imaginando um portal de viagem no tempo pro tempo em que o nosso jardim florescia todo em floresta

Mas viva o desmatamento!

Contentamento descontente não é mantimento, é como aguardente
Que desce queimando, te ilude, te da um barato
Te prende, te rende, só que dessa vez eu conheço um pulo do gato

Só um corpinho as mina não quer, amor