Vida a bordo: Parte 1

Primeiro você faz um currículo em inglês. Não, não. Primeiro você decide ao som do Clash se fica ou vai. Não, não, primeiro você nasce free spirited.

Depois você contacta uma agência de recrutamento, decide largar sua vida bunda mole e faz um troço chamado STCW. STCW é um curso de sobrevivência no mar, obrigatório para quem é louco o suficiente pra embarcar em tudo que estou prestes a contar.

Essa é uma história de bordo. Sem ser Lucas Silva e Silva.
Essa é a história de como se sobrevive a oito meses como cleaner (ou limpadeira em tradução livre) dentro de um navio de cruzeiros da Costa. É um guia, ou um diário. Com informações bobas, mas relevantes de tudo que se passa naquele barco.

Mas antes, dá uma olhada nesse dicionário. Você vai precisar.

Termos:
On duty: Trabalhando / em horário de trabalho
Locker: Armário
Sign Off: Pedir demissão
Warning: Advertência
Crew Party: Festa para os tripulantes
Crew Area: Área reservada só para tripulantes / onde ficam nossos elevadores
Crew Mess: Refeitório da tripulação
Crew Pass: Cartão onde pagamos as coisas, saímos do navio, etc.
Linen: Roupa de cama
Mop: Esfregão
Meeting: Reunião antes do trabalho
Cleaner: Fraxineiro
Estação: Local do seu trabalho, a área pela qual você é responsável
Guest: Passageiro
Helper: Serviço que os cleaners fazem limpando banheiros das cabines. Ganha-se extra pra fazer isso.
Cabin mate: pessoa que mora com você.

O idioma de bordo
Mamagaio
Definição.: Fazer qualquer coisa no seu horário de trabalho que não seja trabalhar.
Exemplo: “Fulano está de mamagaio no banheiro. Qual o telefone do chefe dele?”
Saboneta
Def.: Fazer seu trabalho de qualquer jeito só pra terminar mais rápido ou por preguiça.
Ex: “Hoje tô sem tempo, vou fazer uma saboneta básica e sair mais cedo”
Properly
Def.: O contrário da saboneta.
Ex: “Faça isso properly!”

Properly!

Taca taca
Def.: Conversinha
Ex.: “Se meu chefe me pega de taca taca aqui com você ele vai falar um monte”
Casino
Def.: Bagunça
Ex: “Quem fez esse casino aqui?”
Basura
Def.: Uma pessoa péssima e sem profissionalismo, ruim de se trabalhar com ela. Literalmente “lixo” em espanhol. Ou algo que esta em péssimas condições.
Ex: “Esse seu chefe é muito basura hein!”
Brata
Def.: Quando tem muito trabalho.
Ex: “Estava em Brata por isso não te liguei!”
Bomboclá
Def.: Pessoa idiota/estupida
Ex: “Sai daqui, seu bomboclá!”
Babaloo
Def.: A mesma acima
Ex: “Porque você fez isso, Babaloo?”
No Interess!
Def.: É o “Foda-se” de bordo
Ex: “- Se algum oficial te pega aqui você toma um warning!
– No Interess!”
(OBS: Esta expressão vem acompanhada de um gesto que é constituído de mão direita saindo do pescoço pro queixo)
No Respect!
Def.: Quando alguém não te respeita
Ex: (Você entra no elevador lotado e alguém passa a mão na sua bunda) “No Respect!”
Put Inside
Def.: Sexo
Ex: “Vamos fazer um put inside?”
Possíble?
Def.: Pedir licença, pedir para alguém fazer algo, pedir algo.
Ex: (Você comendo aquela gororoba do Crew Mess e alguém chega com uma pizza linda e suculenta) “Possible?”
Paisano
Def.: Pessoa da mesma nacionalidade
Ex: “Esse seu paisano é um filho da puta!”
Comarôz
Def.: Muito / Em grande quantidade
Ex: (Alguem do Room Service passando com uma bandeja de salgadinhos, vc pede um) “Pode pegar, tem comarôz!”
Sapo
Def.: Dedurar, entregar
Ex: “Esse cara vive fazendo sapo. Não pode ver ninguém parado!”
Caput
Def.: Estar acabado, cansado, ou quando algo “ja era”
Ex: “- Cade seu chefe?
– Ontem teve festa, acho que caput!”

Agora sim, enjoy!

Um dia de cleaner a bordo

Você começa seu trabalho a meia noite, certo? E quando você começa a trabalhar você sabe que só vai acabar ao meio dia. Nesse período você vai passar aspirador de pó no chão, paredes, enfeites, sofás, teto, etc. Você vai passar mop num chão que tem a combinação cerveja + vinho + chocolate + confete. Você vai tirar pó até de dentro das luminárias que ficam atrás do sofá (escondidas). Você vai carregar 150 cadeiras de sol e enrolar 150 toalhas em meia hora. Pra fazer tudo isso você vai ter que andar quilômetros por dia de uma ponta a outra do navio inúmeras vezes procurando material de limpeza. Pra tudo ficar perfeito, seu chefe (SEMPRE!) vai ser um filho da puta que, ao invés que facilitar seu trabalho, como sua função, acaba por transformar o seu dia num inferno com mil tarefas inúteis sempre te tratando como um idiota que não sabe o que está fazendo. Em algum ponto dessas 12 horas, você vai ter que atender à um treinamento de sobrevivência para o caso de alguma merda acontecer e você tiver que apagar um incêndio, socorrer alguém enfermo, ou até mesmo, se foder tudo e todo mundo tiver que abandonar o navio. A pessoa que vai te passar esse treinamento vai ser um italiano. Você não vai entender o inglês dele, e quando ele fizer alguma pergunta muito obvia pra alguém, você vai ver esse alguém não saber responder e então você vai perder mais meia hora ouvindo toda a explicação de novo. O nome disso é boat drill e todos eles são inúteis com exceção do primeiro (onde, basicamente, você já aprende tudo e só esquece se for muito burro). Apesar de tudo isso, você vai achar algum tempo para o famoso mamagaio. Você vai dormir na sua cabine, ficar subindo e descendo no elevador, se trancar em algum banheiro jogando cobrinha no celular. Se estiver sozinho vai dormir, se estiver com alguém vai bater um papo, jogar dominó… Você também vai, com certeza, encontrar tempo para se relacionar com algum mafioso. Um vinho aqui, uma pizza lá (Não importa o que digam, as melhores máfias são as máfias com os caras da cozinha). Se você tiver um namorado, com certeza vai achar um locker de linen ou um banheiro de deficiente pra vocês ficarem se pegando lá dentro. Você também vai poder lavar suas roupas em horário de trabalho, ler um livro, escrever um livro (Inclusive esse texto foi todo escrito on duty). Você também poderá fazer a unha, chapinha, sobrancelha, depilação. Se sobrar um tempinho, você vai ver o espetáculo no teatro, sentar naquele lugar escondido la atrás e de repente até botar os pés na cadeira da frente. Se você tiver um pager ou um telefone, você vai ficar ligando pros seus amigos e batendo papo quando ninguém estiver vendo. Se não deu tempo de tomar um banho antes de ir trabalhar (porque você acordou literalmente 2 minutos antes do seu horário), você vai fingir que vai pegar um trapo na lavanderia e vai pra sua cabine tomar aquele banho de meia hora (Os chuveiros são ótimos, pelo menos). Depois disso vai pegar seu balde, ajoelhar e limpar os pés das cadeiras. Seu chefe vai passar e falar “ótimo, você sim é um funcionário exemplar!” Aprendi a bordo que “não importa o que você faz, e sim o que o seu chefe te vê fazendo!”.

A gente, trabalhando horrores
Nós, trabalhando bagarai.

Os Padres
Um padre, na teoria, deveria ser a imagem de deus. Da onde eu venho, os padres não podem se relacionar romanticamente com ninguém, não bebem e nem fumam. Ao chegar no navio, toda essa baboseira vai pro lixo. O papel do padre a bordo é garantir o entretenimento dos crew members. É ele que organiza as festas, comemorações, competições de pebolim, jammings, excursões, etc. Você pensou “Um padre organizando festas, ta! Deve ser um lixo!” A questão é que se fossem padres comuns, como aqueles da sua paróquia que estão la desde o seu batizado quando criança, poderíamos pensar assim. Os padres a bordo são sempre da pá virada! Enquanto estive a bordo tivemos 2 padres. O primeiro era um bem gordo, que vivia com a camisa desabotoada e sempre, sempre estava no bar, bêbado. O segundo era um cara meio esnobe, com cara de psicopata. Se você fosse mulher jamais conseguiria nada. Homens, sintam-se privilegiados por ter um padre gay que pegou no mínimo 10 amigos meus enquanto estive a bordo! Sim, eles são padres de verdade, celebram a missa todos os dias e o coroinha é um dos animadores. Muito bonito!

Os Chefes
A coisa mais difícil na vida (a bordo) é você ter um chefe legal. Quando eu embarquei meu chefe era um filho da puta. Ponto. Ele fazia brincadeirinhas idiotas o tempo todo e era um grosso. Vivia chamando os seus funcionários de inúteis e estúpidos. Nos meetings, as vezes, ele fazia uma piada muito sem graça e, as vezes, dava um pití enorme. Eu odiava ele. Muito. Pra mim, todos aqueles desastres, tsunamis e furacões que aconteciam na Indonésia eram culpa dele. No começo eu até respeitava ele, mas quando vi que ele era um sacana comecei a relaxar. Eu ia, sim, dormir mais de uma hora na minha cabine, ia comer depois que começava o expediente e ficava de taca taca nos lockers da vida na maior cara de pau. Se ele aparecia eu não tava nem aí. A gente brigava praticamente todo dia. Até que, depois de 4 meses aguentando aquele pau no cu, nós tivemos uma briga mais feia e ele me mudou de horário. Acontece que eu estava num ponto que, ouvir a voz dele me deixava furiosa. Uma hora ele fez uma daquelas piadinhas que só tem graça no país dele e eu falei “Tem como você não falar comigo se não for relacionado ao trabalho? Obrigada!” Ele ficou putasso, me xingou de mil coisas e me disse um “Eu não quero mais você no meu turno, amanhã nem venha trabalhar!” Também, ele já estava cansado de ouvir “seu estúpido, eu te odeio, morra!” de mim todos os dias. Eu olhei pra ele e disse “Com muito prazer, espero nunca mais ver essa sua cara feia!” Bati a porta e saí, diva!

Os Cruzeiros Temáticos
Um cruzeiro normal tem 7 dias e é repetido durante toda a temporada. Quando cheguei, estávamos com um itinerário interessante que incluía Veneza, Bari, Katakolon, Ismir, Istambul e Dubrovinik. Esse itinerário durou uns 8 meses e depois fizemos a travessia pro Brasil. Na Europa nunca fazem cruzeiros temáticos, já no Brasil… Nosso itinerário durante a temporada brasileira era assim: Santos, Rio de Janeiro, Salvador, Ilheus, Ilhabela. No meio disso, dois dias de navegação. E aí, os cruzeiros temáticos. Ah, os cruzeiros temáticos. Cruzeiro temático é aquele que sai dessa rotina, ou muda o itinerário ou muda o público. Alguma coisa muda! E quando digo que muda, quero dizer que a gente se fode. Na temporada brasileira, eu me fudi (muito) no cruzeiro de Natal, de Reveillon, Cruzeiros de fitness e dança e até um cruzeiro do Roberto Carlos, com velhinhos adoráveis. Mas nada (NADA!) se compara ao Cruzeiro de Carnaval. Esse é o cruzeiro mais famoso (para os passageiros) e mais temido (pelos tripulantes) da Costa. É nesse cruzeiro que embarcam os passageiros mais loucos do Brasil. Só pra citar uma peculiaridade, na primeira noite chegamos ao meeting para começar a trabalhar e o telefone do meu chefe tocou. Ele colocou no viva voz. A recepcionista “Eka (Sim, o nome dele era Eka!), por favor, precisamos de um cleaner no deck 3 proa. Aparentemente tem um passageiro pelado, correndo, todo ensanguentado e sujando todo o carpete, precisamos limpar urgente. Aliás, as enfermeiras já estão lá, juntamente com os seguranças tentando levar o passageiro para a enfermaria.” Era a primeira noite, porra! Enfim, quando saí do meeting a caminho da minha estação, dois seguranças me abordaram “Você não pode andar sozinha pelo navio a noite neste cruzeiro, orientações do capitão!” Não saia da minha cabeça o pensamento de que eu ia ser estuprada naquela semana. Enfim, vi 3 casais fazendo sexo nos lounges pra quem quisesse ver, tive que limpar um banheiro feminino pós festa (Meninas, como somos nojentas, por deus!). Cerveja com confete são coisas que não combinam, também aprendi isso. Uns caras jogaram uma cadeira de sol no mar. Outros jogaram sabão em pó na jacuzzi (Sacanagem demais isso, hein seus putos!). Confiscaram 3 trolleys de garrafas de bebidas. Todos os dias tinham mil tripulantes bêbados, trabalhando. Inclusive eu um dia também, fiquei de saco cheio e fui chapada trabalhar. Faz parte.

O Boungiorno Smile
Existe algo considerado importantíssimo a bordo que todos nós aprendemos antes mesmo de embarcar. Boungiorno Smile é a coisa mais fake que eu já vi. Isso significa que apesar de você estar cansado, com fome, dor nas costas, puto com seu chefe, com sono, com saudades de casa, de ressaca, em depressão, doente, menstruada, etc., você deve sorrir. Sorrir pro passageiro filho da puta que não é capaz de te responder um simples bom dia, nem de sorrir de volta. Sua vontade é de mandar esse desgraçado (que passou do seu lado, esbarrou em você e não falou nem um oi) ir à merda. Mas você não pode, só pode sorrir!

O Boat Drill
A definição é: treinamento sobre sobrevivência em caso de emergências. Pode ser um incêndio, vazamento, guest ou tripulante passando mal, pessoas deficientes que precisam de ajuda, e até pro caso de ser necessário abandonar o navio. Claro, é muito importante! Quando a gente chega, temos uma porrada de treinamentos a semana toda, acho primordial isso. O problema começa quando você não aguenta mais escutar a mesma informação sempre. Se você perde um desses treinamentos, leva um Warning, se leva 4 warnings por isso, é demitido (eu levei 3 por causa dessa merda, só pra constar). Aí você ta louco pra sair em Barcelona e bem no seu horário de folga tem o que?? BOAT DRILL, QUERIDA! Nem preciso dizer que todo mundo odeia isso a bordo!

O At Sea e seus desastres
At sea é como chamamos o dia que não paramos em nenhum porto, ou seja, ficamos em navegação o dia todo. Nesse dia, obvio, nenhum passageiro sai do navio, ou seja: CÁOS! Porque? Porque quem cuida da limpeza sabe que a principal missão dos passageiros é fazer da nossa vida um inferno. Geralmente quando estamos no dia de navegação o navio balança mais, porque tem mais chances de pegar um tempo ruim enquanto em movimento. Isso resulta num enorme e desastroso festival de vomito! Em todo lugar, em todo canto, nos banheiros principalmente. Agora, adivinha o que eu limpava no navio: Os banheiros. Ah os banheiros! Teve um dia em que vi 3 pessoas vomitando na minha frente e tive que esperar elas acabarem pra eu poder limpar. Meu estomago já se transformou em ferro, nada mais nesse mundo me da nojo!

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