Vida a Bordo: Parte 2

O dia de Salário e a depressão

Como você leu no texto “um dia de trabalho a bordo”, por mais que todos os tripulantes sejam adeptos do famoso e importante Mamagaio, muito e pesado se trabalha dentro de um navio. O mais gratificante é trabalhar 30 dias, receber seu salario certinho e bonitinho e pensar: “Poxa vida, valeu a pena todo meu esforço!” Okay, isso é tudo mentira! Sim, o salario sai no dia certo, mas você sempre (eu quis dizer SEMPRE) acaba, de alguma forma, recebendo bem menos do que estava esperando. Seja desconto do seu Crew Pass (que se explica com noites e mais noites no bar, bebendo), alguém que comeu sua comissão, seu Helper que não veio certo. Nos meus 8 meses a bordo, juro, nas 8 vezes que fui ate a fila do salario, nunca vi alguém sair satisfeito. Eu mesmo vivia reclamando dos helpers errados! E sempre, sempre dava confusão.

As diferenças culturais

Ta bom, vamos almoçar. Sentamos a mesa, com nossas bandejas e começamos o que eu achava ser uma das melhores partes do meu dia: uma refeição entre os amigos. Dois minutos depois, MEU DEUS DO CÉU, que cheiro é esse?! Vem vindo do micro-ondas, que porra é essa que estão fazendo la? Cheira a merda com carniça. Não passa dois segundos alguém aparece reclamando. Outro levanta da mesa, puto, gritando que “não há condições de se comer naquele fedor”. Pronto, nossa alegria acabou, nós comemos o mais rápido possível pra sair daquele lugar impregnado com o cheiro daquela comida que aquela pessoa esta fazendo. Certamente essa pessoa acha essa comida deliciosa. Só isso explicaria fazer aquilo todos os dias e espantar centenas de pessoas do crew mess. Bom, isso se chama DIFERENÇA CULTURAL. Enquanto na Indonésia esse tempero é cheirosíssimo, no Brasil, nós temos vontade morrer com isso entrando narina acima. Na verdade a diferença cultural mora, em grande parte do tempo, no refeitório. Comer de colher é garfo é uma coisa que aprendi com meu namorado filipino. Minha cabin mate, também filipina NUNCA usava a lavadora de roupas, por isso minha cabine parecia o quintal da minha casa, cheia de varais e roupa intima pendurada. No meu banheiro, ao invés de papel higiênico, uma toalhinha. Faço cocô, me lavo e me enxugo. Meu namorado filipino acha nojentíssimo usar papel pra se limpar, e ainda por cima manter o papel sujo dentro de uma lata de lixo ao invés de jogar no vaso e dar descarga. Sim, o banheiro também abriga diferenças culturais imensuráveis.

As cidades maravilhosas e seus pontos

Contando sobre os cruzeiros temáticos mencionei as cidades que passei. Pra mim, além de conhecer pessoas incríveis, o grande barato de se trabalhar a bordo é conhecer cidades e pontos legais no mundo. Nunca pensei que estaria em um lugar tão longe, que veria pontos tão interessantes em cidades interessantes. Em Salvador, andar naquele elevador lotado que te leva a Cidade Alta era divertidíssimo. Conhecer o Pelourinho e ver aonde o Michael Jackson gravou “They Don’t Care About Us”. No Rio de Janeiro, nada como andar descalça no calçadão de Copacabana. Em Ilhabela, um píer, bem desconhecido era nossa alegria. Competições de mergulho rolavam soltas, mas eu só ia mesmo pra tomar uma cerveja e ficar observando de longe. Delícia andar pelas ruas de Ilheus, fazer compras e tomar o melhor sorvete que já degustei. Ir pra praia de Boa Viagem em Recife e ver a farofada não tem preço. Conheci um monte de partes do Brasil que eu amei, demais! Mas o mais diferente foi conhecer o fora do meu pais, as línguas diferentes, e os lugares tão distintos do que temos aqui. Dubrovinik é um dos lugares mais lindos que já fui! Fiquei encantada com essa cidade, e surpresa, pois não sabemos muito sobre a Croácia e de repente, um lugar fantástico se revela! Barcelona, a incrível Barcelona e a diversidade. É possível encontrar gente de todo tipo lá, é possível encontrar de tudo lá. Palma de Mallorca, linda, onde pretendo fazer meu intercambio para aprender espanhol. Marselha e os barcos a vela, tão fofo. A Catedral de Notre Dame de la Garde, com aquela vista lá de cima, impressionante! Mesmo que eu sempre diga que tenho raivinha da Italia, eu não posso menosprezar seus pontos. Savona é uma cidade simpática. Catania tem prédios históricos incríveis. Veneza, muito alternativa, se você não for pra onde tem água e Genova tem uma praia de pedras bem charmosa. Na vinda e na ida, passar por Portugal, a aconchegante Lisboa e o bacalhau. Funchal e o bondinho, as casinhas quadradas. Quando olho pra trás e vejo os lugares que passei, o sol nascer e se por diante de mim todos os dias, os visuais, tudo isso me faz agradecer a chance que tive de estar a bordo de um navio.



Os points do navio

O Costa Serena é como se fosse uma cidade. Ele é grande, muito grande. No meu primeiro mês eu me perdia toda hora. Se me pedissem pra achar alguma cabine eu entrava em pânico. Me perdia nas crew áreas, nas áreas de passageiro, todo lugar. Não sabia sair, não sabia entrar. Sim, é grande. Mas com o tempo você vai conhecendo tudo. Vai se familiarizando e assim vai conhecendo os points do navio. Quando trabalhava a noite, o point favorito do pessoal era a Padaria. Tinha um amigo que trabalhava la, sempre que dava eu passava pegar um pãozinho de chocolate que ele fazia especialmente pra mim. Já quando trabalhava de dia, sempre fazíamos reuniões no banheiro de deficientes do deck 4. Ainda a noite, o Club Bacco (restaurante pago do navio que abre só a noite) era o point de mamagaio mais visitado. Também sempre íamos bater um papinho na lavanderia a noite, quando já estava fechada. Mas o lugar mais legal pra se ficar de madrugada era o Samsara. Samsara é o spa da Costa. Ele fica nos decks mais altos do navio, no Costa Serena ele fica nos decks 11 e 12. Ele fecha as 10h30 da noite e ai, apagam tudo e ninguém passa por la, a não ser algum segurança de vez em quando. Eu amava ficar la, fosse sozinha ou com amigos, ou ate com meu namorado. No deck 12 tinha um jardim, tão lindo, que ficava tocando musiquinhas de Yoga, que dava uma tranquilidade. Nada a ver com o caos que a gente passava trabalhando. Além do Samsara, meu lugar favorito era o Mondo Virtuale. É a sala de jogos do navio, e eu amava ficar la jogando com os amigos. Claro, era proibido jogar, mas quando não tinha ninguém vendo, a gente ia. E claro, fichas do cassino não faltavam. A gente sempre achava limpandos as maquinas, o chão, etc. Tirando os pontos de mamagaio, existem os pontos que podemos ficar sem termos que ficar nos escondendo de seguranças e chefes. Um deles, e o mais famoso, a Crew Beach. Crew Beach é a nossa área para pegar um sol, entrar na jacuzzi, conversar, fumar, paquerar, jogar uno, olhar o mar, sentir o vento, ver o lado de fora do navio sem sair dele. Lá era realmente um point. Dia no mar, onde estamos? Na crew beach tomando uma cervejinha, bem de boa, fazendo uma marca de biquini. Também, o outro famosão, o Crew Bar. O nosso bar, gostoso tomar um cappuccino lá, tomar uma cerveja, cantar no karaokê e jogar ps3. Mas nada, nada supera as Cabin parties. Muita gente levou Warning ou ate foi desembarcado pelas famosas Cabin parties. É proibido fazer festa na cabine, mas ninguém respeita isso. Hardcore.


A Sindrome de sign off

A bordo todo mundo se fode! Seja um cleaner como eu, ou um recepcionista, um dançarino, um garçom, até mesmo o capitão. De ponta a ponta do navio, se você é da tripulação, esta la pra se foder! E apesar disso, nós conseguimos ter um fundinho de otimismo em nossos corações, evitando reclamações e choramingos, já que literalmente estamos no mesmo barco. Isso é, subliminarmente, uma regra a bordo: Não reclamais para seus companheiros tripulantes. Quando alguém começa a fazer uma reclamaçãozinha aqui, outra ali, mesmo que seja somente sobre o lixo de comida que somos obrigados a comer, ou a nossa cabine que é pequena e quase “imorável” e o mais clássico: sobre salario, podemos dizer que essa pessoa esta sofrendo da temível Sindrome de Sign Off. Quando se tem esse tipo de diagnostico, todo mundo começa a se afastar dessa pessoa, com medo de ser contagioso. E também, é claro porque isso é muito chato. Já é difícil sobreviver a vida a bordo sendo otimista, imagine com reclamações ao pé do ouvido o tempo todo. E é fato que ao começar com reclamações, não damos um mês até a pessoa pedir o sign off. A bordo, se você quiser sobreviver, tem que tratar a vida com muito bom humor, quase como uma piada. Você tem que desfrutar e tentar sugar o máximo de “lados positivos” que conseguir, senão… A síndrome te pega!

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1 comentário

  1. brunakitty · setembro 12, 2011

    Grace, isso de fazer cocô e limpar a bunda numa toalhinha é muitoo estranho. Prefiro o bom e velho papel higiênico. E quando menstrua? Os absorventes também são considerados nojentos? Também é usada a técnica da toalhinha?
    Só sei que se um dia você se casar e for morar nas Filipinas, quando eu for te visitar levarei vários pacotinhos de personal vip… haha

    megaa bjoo
    ;**

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