Vida a bordo: Parte 4

Dores e mudanças no corpo

Quem sempre foi sedentário vai ler esse post balançando a cabeça positivamente. Eu admito que nunca fui e não sou muito fã de atividade física. O máximo que eu fazia antes de embarcar era dar uma voltinha no quarteirão com minhas cachorras de vez em quando. E sem saber eu estava cometendo um erro enorme. Sair do dia a dia de não fazer nada para trabalhar 12 horas direto limpando dá um choque no seu corpo de uma forma que as dores chegam a ser insuportáveis. Me lembro da minha primeira semana. Todos os dias chegava na minha cabine, deitava e começava a chorar de dores musculares, sabendo que depois de algum tempo eu estaria de pé pra fazer tudo de novo. Minhas pernas não eram mais as mesmas, levantar peso era um sacrifício, não sei nem explicar qual a sensação de doer cada pedacinho do seu corpo. O problema é que você não pode parar um dia e descansar pra valer. Seu corpo nunca está 100% pro próximo dia de trabalho. Primeiro que você encontra uma força que vem do fundo do seu ser pra sair do navio depois do trabalho. Não tem como evitar. Você pensa “Puta merda, eu trabalhei que nem uma condenada pra chegar agora e eu não poder ver lá fora? Nem pensar!” E ai, você se empolga, fica fora mais do que deveria, dorme 3 horas apenas e no outro dia vai bem mais podre trabalhar. Aconteceu isso comigo no meu primeiro Barcelona. Eu era bem novata e ainda me incomodavam muito todas aquelas dores no corpo, mas poxa vida, era Barcelona. Comecei a trabalhar meia noite e terminei meio dia. Quando eram 12h30 eu já estava lá fora. Voltei as 9 da noite e sim, eu tinha que voltar a trabalhar meia noite de novo pra só acabar meio dia. Foi algum espírito do bem que guiou minhas mãos e pés e limpou minha estação. E isso é só o começo. Depois do 3º mês começam os calos. E são tantos. Quando meus pais foram me visitar em Santos pela primeira vez, eu já estava há alguns meses a bordo. Minha mãe se assustou com as minhas mãos. Parecia que eu estava há anos trabalhando naquilo. Depois do 5º e 6º mês também começam a surgir alguns músculos. Me olhava no espelho e meus braços tavam fortes. A batata da minha perna parecia de aço! A questão é que parece que isso tudo é uma “doença” que você só tem a bordo. No dia seguinte do meu desembarque, olhei pras minhas mãos, meus braços e panturrilhas… ONDE ESTÃO MINHAS PROVAS DE QUE ESTAVA ME FUDENDO A BORDO POR 8 MESES???

Pessoas e desembarques indesejados

Por mais que as pessoas a bordo sejam diferentes, existe algo em comum entre todos os tripulantes. Nossos corações têm sede de conhecimento, de dizer sim à vida. Não importa o que digam, quem embarca pra trabalhar em um navio se permite, encara a vida de braços abertos. É por isso que fazemos amizades tao fácilmente a bordo. Parece que nossa vida inteira estivemos procurando pessoas assim, como nós, que são loucos o suficiente para deixar suas casas e ir se matar de trabalhar no estrangeiro. Eu mesmo conheci muitas pessoas incríveis a bordo. Pessoas que poderiam ficar ao meu lado por uma vida toda, não fosse a distancia que nos separa. É muito difícil você chegar em um lugar, não conhecer ninguém e conseguir se divertir assim. Não me imagino em outro lugar curtindo festas e passeios com estranhos e tendo dias tao especiais. Mas uma coisa me deixava sempre triste: O fato das pessoas que eu gostava desembarcarem. É muito difícil você ficar o mesmo tempo que uma pessoa que você se identificou muito a bordo. Eu perdi as contas de quantos amigos eu vi sair pela gangway com o coração na mão. Seja por qualquer motivo, sign off, final de contrato, transferidos… Deixa a gente sem chão. Querendo ou não, é impossível se isolar dentro de um navio. Você precisa de pessoas que te apoiam, que te abraçam quando você ta com saudades da sua família. E como disse, criar laços é inevitável. Mas pra mim o que mais me deixou triste foi o meu próprio desembarque, pois deixei pessoas que mudaram a minha vida lá e a saudade consome a gente!

Cabine e Cabin mates

“Como, em nome de Jesus, você consegue morar aqui, filha?” disse meu pai quando foi me visitar dentro do navio. Minha amiga teve um surto de claustrofobia, alguma semanas depois. Todo mundo quando chega toma um susto com o tamanho da cabine, e pensa que será impossível morar la. Pra completar você divide essa cabine com uma pessoa, e o seu banheiro com mais 3, o que também é complicado. Haja paciência e senso de divisão entre os tripulantes. As pessoas têm hábitos diferentes, ainda mais pessoas de nacionalidades diferentes. Eu morei com 4 pessoas enquanto estive a bordo: 1 Indonésia, 2 Filipinas e 1 Brasileira. Quando cheguei a Indonésia estava lá, e ela foi bem boazinha comigo, mas como eu era novata, achei um monte de coisas estranhas e nojentas, tipo o fato dela cortar a franja em cima da pia e não limpar. Uma brasileira me chamou pra ir morar com ela, que também morava com uma indonésia, assim cada um ia ficar com sua nacionalidade. AH MAS SE ARREPENDIMENTO MATASSE! Sabe quando você vai tomar banho e joga sua calcinha suja na tampa da privada? Sabe quando você penteia seu aplique e deixa as mechas todas no chão? Sabe quando você fica semanas sem jogar o lixo fora? Sabe quando você chega no seu quarto e EXPLODE (única explicação para ter roupas por todos os cantos)? Eu também não sei porque eu não faço nada disso, mas MINHA CABIN MATE FAZIA! E isso não era nada. Eu tinha a sorte de não dividir meu banheiro com a cabine do lado, ou seja, só nós duas usávamos o banheiro. Mas preferia dividir meu banheiro com o corredor inteiro! Eu estava cansada de um dia inteiro e ao chegar na minha cabine… Dava vontade de chorar, sair correndo e gritando. E eu não conseguia dormir. Era barulho de secador o dia todo, era televisão alta, gente ligando a todo momento. Não havia quem conseguisse viver em paz naquela cabine. Pra completar, a menina falava sozinha o tempo todo. Eu, como trabalhava de madrugada, dormia durante o dia. Estava no mais profundo do meu sono quando a cidadã entrava e batia a porta e começava seu dialogo consigo mesma. Era de morrer. Fora as vezes que presenciei ela transando com pessoas na cama de baixo, como se eu não tivesse dormindo lá. E depois de 2 longos meses me mudei pra cabine de uma filipina que era a coisa mais fofa do mundo. Minha melhor cabin mate. E aí sim tive paz. Depois disso, ainda morei umas duas semanas sozinha quando ela foi embora e depois uma outra filipina se mudou pra lá, mas 2 semanas depois eu desembarquei. Isso tudo significa que além de ser difícil se trabalhar em um navio, também é muito difícil MORAR.

Acontecimentos estranhos

Certa vez me vi envolvida numa trama de novela mexicana. Tinha enredo, personagens e capítulos. Eu havia acabado de embarcar, e obviamente procurava ser simpática com todos, afinal queria me enturmar. Um suposto casal gay se sentiu intimidado (ou whatever) com a minha presença, pra resumir. O vilão da história, a princípio me chamou de canto e disse que “eles já estavam envolvidos romanticamente há algum tempo e que ultimamente estavam tendo muitas brigas, e na maioria das vezes o motivo era eu”. Dizia também que, por ser o primeiro relacionamento homossexual do mocinho da trama, ele estava confuso. No momento em que ouvi estes argumentos, fiz uma cara de “what?” e perguntei “você esta querendo que eu corte relações com ele, é isso?” numa boa, tipo achando tudo muito BIZARRO, porque até onde eu sabia, o mocinho da história não era gay e pelo menos era isso que ele clamava. Ele me disse “seria bom, se você pudesse, obrigada!”. Bom, tudo bem, não quero me envolver em algo assim. Nesse ponto, eu já era a mocinha ingênua da história, que só queria o bem de todos os personagens, ainda que coadjuvantes. O mocinho, no dia seguinte, veio que contar que sofria sérias perseguições (inclusive, em algumas ocasiões, sexuais) do vilão e que estava ficando com medo, porque, afinal, ele não era gay (de fato) e também não queria se envolver com alguém assim, digo, com sérios distúrbios de personalidade e que de forma alguma estava envolvido com ele. Pensei pra mim “MAS QUE PORRA?” e resolvi ficar na minha. Um terceiro também estava comigo na confissão do mocinho e de alguma forma, nosso querido vilão ficou sabendo de toda essa conversa nossa. No outro dia, passei por um dos lounges do navio e fui abordada estranhamente pelo vilão que, quase que sussurrando me deu o seguinte conselho “se eu fosse você, sairia do caminho de alguém como eu. Voce não me conhece e as coisas podem ficar bem feias se você não se cuidar”. Achei que no momento ele ia me chamar de “racha” só pra completar o pití homossexual. Enfim, fiz a egípcia e fui sentar no meu banquinho pro meeting da manhã. Ele se sentou na minha frente e aparentemente não queria me deixar escapar, ele queria se fazer entender, já que eu sempre mantinha minha cara de “não sei do que você esta falando” (porque eu realmente não sabia). Até que em certo ponto do “tome cuidado comigo” ouvi ele ameaçando meu então namorado na época dizendo que poderia, muito facilmente, destruir meu relacionamento. Pronto, fiquei puta. “Meu amor, é o seguinte, eu não tenho medo de você caso você não tenha percebido, você é uma aberração do mundo que acha que namora um cara, ai dentro do seu mundinho na sua cabeça. Eu não vou deixar de falar com ele porque vocês pseudo namoram. Ponto, você entendeu?” Ta, começamos a discutir. Eu nunca havia mandado alguém se fuder com todo meu coração daquele jeito. As pessoas em volta abismadas com aquela situação, já estava vendo a hora que a bicha ia me furar com o salto. No final das contas, nos passamos mais 5 meses trabalhando juntos, sem trocar sequer uma palavra. Passou algum tempo e eu fiquei com o mocinho mesmo, no maior carão. O que quero dizer é que… O QUÃO BIZARRO É ISSO? Só pra citar outras peculiaridades, enquanto estive a bordo, uma pessoa foi desembarcada por roubar equipamentos do spa, duas por overdose, uma gravida e outro porque espancou a namorada. Ta, é tipo um hospício flutuante.

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1 comentário

  1. Tathyanna Christina · outubro 14, 2015

    Que muito louco!!! “A vida como ela é”… e a milhas e milhas da zona de conforto!! rsrs
    perfeitaassimetria.wordpress.com

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