Informações Nutricionais da Mostarda

Fiquei a manhã inteira olhando para a tela do meu celular pra ver se ele me ligava. Olhava a cada 14 segundos, pra ser exata. E nada. Acho que passei horas fazendo isso enquanto finalizava um questionário de clima de trabalho que meu chefe havia me passado pra estudar se nossa estratégia de equipe estava funcionando bem. E então, o telefone tocou.

– Não vou atender de imediato. Ele vai pensar que eu não faço nada além de ficar esperando ele ligar.

Vou esperar três toques, pra parecer que eu estava longe do telefone. Fazendo algo de importante. Talvez fazendo exercícios físicos. Ou cuidando do meu jardim.

O idiota desligou no segundo toque.

Aí, fiquei pensando que deveria ter atendido logo que vi, ou seja, no mesmo segundo em que o telefone tocou, porque o ele estava na minha mão.

Mas porque ele só deixou tocar duas vezes e desligou? Será que ele desistiu de me ligar? De qualquer forma, ele sabe que seu numero ficaria gravado e eu poderia retornar.

Mas se ele desistiu, devo retornar?

Mas se eu retornar, é porque vi a chamada perdida. Mas não deveria saber quantos toques ele deu antes de desligar. A menos que estivesse ao lado do telefone. E eu não posso o deixar saber que eu estava, senão ele vai achar que eu sou louca.

Mas se eu não retornar e ele não ligar de novo… Pode ser que isso aconteça. Ele pode ter se tocado que eu sou louca e…

Pronto, ele esta ligando de novo.

Será que atendo de primeira ou deixo esperando um pouco?

E isso aconteceu umas três vezes.
E nós não nos falamos.

Depois, quando me deitei para dormir, liguei minha tevê num episodio do Snoopy.

You’re in love, Charlie Brown.
You’re in love, Grace Brown!

E parecia eu e ele. O Charlie Brown e a minininha ruiva.
E fiquei pensando no quão idiota e infantil foi tudo aquilo. Porque eu não atendi o telefone? Porque a gente ficou se desencontrando?

E no dia seguinte, eu fui ao mercado comprar tic tac – meu estoque estava no final. Enquanto passava pelo corredor de condimentos, vi uma pessoa que se parecia muito com ele passando no corredor da padaria. Minha reação corporal imediata foi de virar de costas e fingir que estava andando no sentido oposto ao dele.
Peguei uma mostarda e fiquei olhando as informações nutricionais com cara de grande interesse. De repente, sinto me cutucarem no ombro.

– Você, por um acaso está fugindo de mim?

Ai meu deus, ai meu deus, ai meu deus! É a voz dele.

Mas espera.

Como ele teve coragem de vir falar comigo, assim tão casualmente, no corredor de condimentos dos mercados Lilly? Eu estou aqui quase desidratando de tanto suor ou a beira de um colapso nervoso e ele veio e simplesmente disse isso “você esta fugindo de mim, hein menininha hein?”

Bom, acho que homens e mulheres são mesmo de planetas diferentes.

Mas espera de novo.
Responda antes, surte depois.
Isso não é telefone que você pode esperar três toques. É a vida real.

– Oi! Nossa que coincidência, nem tinha te visto!

Pare de ser mentirosa, Grace Brown.

– Te liguei ontem, mas não consegui te encontrar, acho que você estava no trabalho. Achei estranho que não me ligou de volta.

Ufa, ele não acha que eu sou louca.

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