Idealizando material de limpeza

Nós ficamos trocando cartinhas por meses.

Ele me escrevia, eu escrevia pra ele. Ele dobrava em forma de coração. Eu dobrava em quatro, porque não sabia dobrar em forma de coração. Eu entregava as cartinhas em mãos. Ele escondia em algum lugar e eu ficava a semana toda procurando no meio dos meus panos de chão e baldes até achar um coraçãozinho.

Acho que ele tinha muito mais criatividade do que eu.

Eu pedia para ele traduzir para a língua dele, porque era engraçado ver ele falando daquele jeito.
Ele pedia pra eu traduzir para a minha, mas não era tão engraçado assim.

Mesmo assim, minhas cartinhas eram mais poéticas. As dele, engraçadas.

Quando se está em terreno tão desconhecido, deve-se comunicar tudo em cartas. Não é uma regra, mas é mais divertido assim. E nós fazíamos isso direitinho.

Ele me escrevia citações de músicas. Eu escrevia composições próprias, que ele devia achar que eram músicas.
A letra dele era bonita. De quem teve caderno de caligrafia quando criança, em linhas bem retas. A minha mudava a cada carta, e as linhas queriam descer, ou subir, dependendo do meu humor.

Era evidente. Ele era estável. Eu não.

Isso deveria significar que ele não se arriscaria desde o começo, enquanto eu o faria a qualquer momento.

Quando eu encontrava um coração no meio dos meus produtos químicos, me dava umas dores no estômago. Umas coisas esquisitas. Uma sensação deliciosa. Queria abrir e depois vê-lo dizer tudo aquilo na língua dele. E depois ele ia embora, e eu ficava de noite pensando no que eu poderia escrever pra ele pensar que era música.

Quando eu estava limpando as marcas dos dedos no espelho do Chocolate Bar, eu pensava no porque as pessoas insistiam em colocar suas mãos lá, e porque estávamos ha meses trocando cartas e idealizando um ao outro.

Quando se troca cartas, se idealiza.
Acho que nunca o conheci de verdade, então.

Talvez a culpa seja minha. Insisti em começar a fumar, só para encontrá-lo na área de fumantes. Dizia que fumava há anos, e isso se juntava ao que ele já tinha idealizado de mim com todas as frases poéticas que eu lhe escrevia.

Poeta e fumante.

Arrumei um problema enorme pros meus pulmões, depois pro meu cérebro que inventou um príncipe encantado e me enganou durante anos.

No meu aniversário daquele ano, cansei das cartinhas.
Contato físico e chega de gastar a tinta das nossas canetas.

E o último coraçãozinho, que estava escondido no meio das minhas esponjas, eu nem li. Guardei no bolso, depois guardei na minha caixinha de memórias, que ele insistia em dizer que parecia uma lata de lixo. E não li até hoje.

Porque tudo que eu achava que queria saber sobre ele, eu soube por um instante.
E bastava.

Quando eu esfregava o carpete manchado de vinho tinto do Sport Bar, eu pensava que alguém devia ter derrubado tudo aquilo de propósito, tamanha era a circunferência da mancha, e porque eu o beijei tão agressivamente naquela noite do meu aniversário.

Tinha uma imagem, mas ainda tinha dúvidas. E como eles faziam lá daquele lado? Como se diz língua no idioma dele?

Foi por isso.

E depois, ele continuou a me mandar cartinhas, com citações de músicas dobradas em forma de coração. E eu parei.
Não tinha como ficar mais vulnerável do que aquilo. Meu olhar era mais fácil de decifrar do que minhas palavras.

Pelo menos era o que eu pensava.

E ele era um ideal fumante que gostava de citar músicas em linhas retas.

E eu era um ideal fumante que tirava o pó dos arranjos de flores falsas do Lobby Bar pensando em porque existia a poeira e porque ele insistia em continuar me mandando cartas ao invés de me olhar nos olhos.

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