Entendimento das Línguas

E aí eu falei sobre como eu achava estranho que a Rede Globo havia mudado seus correspondentes internacionais de país.

– Eu ligo a tevê, e escuto o Rodrigo Bocardi falando sobre algum ataque com bomba em uma escola e logo penso “poxa vida, os americanos são mesmo da pá virada!” e, de repente, ele anuncia que está em São Paulo. Como assim? E toda vez que eu vejo Tóquio nos telejornais eu penso logo no Roberto Kovalick falando de algum avanço tecnológico, ou tornado, terremoto, tsunami. Mas nããão, ele agora está em Londres, tomando chá das cinco com a Kate Middleton. Isso confunde minha cabeça, sabe?

– Hm.

Percebi por esse curto “hm” que ele não fazia a menor ideia do que eu estava falando.

Mas, pelo amor de deus, tinham sido mais de 2 minutos de silêncio dentro daquele carro. E eu já havia falado sobre tudo. Tudo mesmo! Já havia falado sobre a lista de atores mirins que cometeram suicídio – por algum motivo macabro eu sabia de muitos. Aí, por causa disso, falei que História Sem Fim era meu filme preferido quando eu era criança. Depois comentei que os curitibanos chamam “salsicha” de “vina” mas eu não sabia porque, então esse assunto não rendeu muito.

Era mais do que evidente que a gente se entendia mesmo era quando nossas línguas se entrelaçavam. O que era magnifico, preciso dizer. Mas, sou estimulada sexualmente mais pelo intelecto do que pelo físico, e isso me deixava um pouco frustrada.

Não que eu seja uma pessoa muito culta. Eu era mesmo ligada em cultura pop. Eu não sabia nada de filosofia, mas se você me perguntasse qual o filme vencedor do Oscar de melhor longa em 78 eu sabia te dizer: Annie Hall. Que é um filme maravilhoso, alias, apesar do péssimo nome quando trazido pro Brasil.

Mas ele sempre me cortava quando eu estava falando alguma coisa aleatória, mas extremamente relevante como a apresentação dos Paralamas do Sucesso no Rock In Rio de 85 (que foi espetacular!), e falava sobre alguma coisa com a qual eu não me importava.

– O mesmo ano em que o Tancredo Neves morreu.

Cri… Cri… Cri…

Uma hora eu percebi que estava falando muito, e muito rápido e comentei isso, porque gosto de fazer insights sobre a nossa própria conversa.

– Você pode me mandar calar a boca se você quiser.

E me recuei no banco. Usei minha visão periférica para observar enquanto ele vinha em minha direção e pensei que aquilo realmente foi uma deixa perfeita para um beijo. E eu juro que foi sem querer. Mas dei um sorriso de canto de boca, então acho que ele pensou que eu só falei aquilo pra ele me beijar logo e a gente parar com todo aquele falatório.

Aí tudo aconteceu. Liguei meu CD da Fraçoise Hardy. Tirei minha camisa que naquele momento parecia ter mais de 150 botões.

Tirei o casaco dele.
Tirei o suéter dele.
Tirei o cachecol dele.
Tirei a camiseta dele.

Meu Deus, devia estar frio aquele dia!

E então, por uns quinze minutos, nenhuma palavra foi dita. Pensei em mil coisas, mesmo assim, mas não disse nada.
Pensei no quanto a pele dele era lisinha, e que ele deveria malhar escondido, porque seus braços estavam fortes. Pensei que ele ficava lindo de cabelo bagunçado, e ai baguncei mais ainda.

Pensei que a barba dele não me atrapalhava em nada, ao contrario do que eu imaginava. E como ele estava tendo dificuldade para abrir meu cinto de rebites. E, porque, em nome de Jesus, eu estava usando cinto de rebites se já era 2009 e eu não usava cinto de rebites há pelo menos três anos, porque era ridículo.

E então ele resolveu falar.

– Você é tão bonita!

E tirou a mecha de cabelo que caiu sobre o meu rosto. E me olhou como nunca tinha me olhado antes, como se me admirasse. Como se aquele momento fosse a unica coisa que importasse no universo. Como se tudo mais fosse irrelevante.
E isso durou pelo menos uma década.

Na minha cabeça.

E eu quase pude sair do meu corpo e ver a minha reação que foi: nenhuma. Ou fiquei pasma. Imóvel, totalmente vulnerável e tola. E ele beijou minhas bochechas, e então eu sorri. Foi a coisa mais doce que já me havia acontecido em minha vasta e vazia experiencia com garotos.

Lembrei de quantas transas não significam nada pra mim.
Quantas vezes arrancaram tão facilmente o meu cinto de rebites. E em quantas vezes deixaram que mechas de cabelo cobrissem meu rosto.

E se as vezes não temos palavras. Temos, então, olhares e toques e intimidade, que compensam toda e qualquer ladainha.

No final do dia, ainda tínhamos quase tudo em comum, e mesmo sem expressar verbalmente tudo o que queríamos, falávamos a mesma língua.

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