Aula

Eu já estava nauseada. Não sei se era porque todos os números escritos a minha frente não faziam sentido nenhum, ou se era porque a própria lógica não tinha lógica.

– É lógico que ele não te ama mais.
Disse o lado esquerdo para o lado direito do meu cérebro.

Porque isso é lógico? O lado direito perguntou durante a aula de matemática. Acho que acabei confundindo as matérias, porque dali a exatos onze minutos começaria minha aula de gramática sobre homônimos.

Nunca pensei que minha cabeça fosse se confundir tanto. Depois de você, matemática não tem sentido. Não vai para a esquerda nem pra direita. Talvez vá para a torta. E eu nem sei fazer torta, detesto cozinhar.
Foi isso que você fez com o meu cérebro. Não era lógico que você não me amasse mais. Nada mais era lógico nessa cabeça.

– A raiz de dois é irracional.
Isso era obvio pra mim. Tudo entre nós era irracional. Se eu tivesse confiado na minha razão, não tínhamos construído uma história pra começar. Não haveria guerras, nem dias D, nem tratados de paz.

Nossa raiz chegou ao mínimo divisor comum. Não podia se dividir entre mais nada. Então não era mais nosso, era de cada um. Um denominador sem numerador.
E eu tinha te denominado meu coeficiente. Acho que era mais ineficiente tamanha era a sua incapacidade de se enraizar.

Eu não conseguia me concentrar. Dava náuseas só de pensar em regra de três. Não quero dividir você, embora você não seja mais meu expoente. Não me eleva a mais nada.

Se houvesse razão, para começar, haveria relação entre nossos valores. Acho que estou chegando à lógica com esse pensamento, enfim. Então continuei nesse raciocínio. Um mais um é dois? Se forem grandezas proporcionais, quem sabe. Se forem desproporcionais dá menos um.

Usar propriedade distributiva? Do que você está falando? Não faço nada além disso na vida: distribuir amor. Você que fracionava. Até quando era um sobre um.
E continuava a ter náuseas.
A lógica nunca chegava. Não conseguia resolver o xis. Nem com bhaskara. Mas acho que essa aula é amanhã, quando o xis for ao quadrado. A maldita geometria.

Tentando chegar ao produto, na primeira pessoa do plural, éramos singulares. Não havia nada que se pudesse comparar. Porque deveria ser lógico, então, que você me subtraísse de forma tão radical? Ainda não encontrei a lógica. Concluí.

E as náuseas continuavam, como uma dízima periódica. E perdi minha potência. Também não devo ter conseguido te elevar a nada.

Você virou uma planície quando entrei na aula de geografia. Sofreu erosão, se desgastou.
– Uma planície pode virar montanha de novo? Perguntei.
– Só se ela se dividir em dois.
Odiei essa resposta.
Então chega!

Racionalizei do meu lado direito. Para de tentar impor essa lógica sobre mim. Fiquei sofrendo a força da gravidade. Era grave demais, me da licença. Me deixa estudar!

Sem lógica, sem sentido, sem matemática, gramática, problemática.

Me empresta a borracha, então? Um corretivo? E chega de rasurar esse caderno.

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