Coisas velhas

E eu continuava aumentando o volume do meu celular com o mindinho, sabendo que podia comprar um aparelho novo.

Já não tinha os botões, mas pra desapegar de alguma coisa, eu sou quase impossível. Nao sei porque tanto eu gosto de coisas velhas. De brechó e sebo. Dessas coisas.

Até meu prédio é de coisas velhas. A idade dos meus vizinhos, somadas, devem dar alguns milhares de anos. Tem essa velha que mora no apartamento da frente, que usa sempre um chapéu e um xale. E me para na saída do elevador pra falar sobre as suas teorias da conspiração. Ela me da um pouco de medo, te juro, quando fala sobre os Illuminatis, e como tudo está caminhando para a Nova Ordem Mundial. E ela deve ter seus noventa e poucos anos. Mas me diz para “abrir os olhos” e enxergar que somos todos manipulados, aproveitar que sou jovem pra fazer alguma coisa.

Toda vez que aperto o botão pro elevador chegar, já fico apreensiva para saber qual o sermão que essa velha vai me dar no longo caminho do primeiro até o décimo segundo andar. E sempre que eu a deixo em sua casa e depois caminho até a minha, me sinto um peso morto no mundo, afinal, o que eu estou fazendo para parar a Nova Ordem Mundial e evitar que todos nós nos tornemos escravos?
Pensando bem, do que é que essa mulher está falando?

E tem a velhinha do decimo andar que tem uns 38 gatos e que eu sempre tenho que importunar para pegar minhas roupas caidas em seu varal. Por algum motivo macabro, eu sempre derrubo toalhas, camisetas e lençóis no varal dessa mesma velhinha. E parece que toda vez que eu vou lá pra pegar de volta, ela me faz ficar esperando sob a firme vigilância dos seus amigos felinos, observando cada movimento meu, como se eu fosse mesmo sair do lugar, com o pavor que tenho de gatos. E um deles, que tem só um olho, me deixa ainda mais paralizada, porque esse olho solitário me da mais medo do que os 74 olhos dos outros gatos. É tão penetrante e intimidador que quase me faz desistir de pegar minhas fronhas de volta.

Mas sempre acaba bem, eu pego minhas roupas, volto pro meu andar, se der sorte não encontro a velha de chapéu e xale e consigo sobreviver.

E tudo isso se estende.

Porque querendo ou não, é uma das coisas mais humanas: Diante das turbulências do presente, pensamos em um passado mais glorioso do que realmente foi.

É por isso que eu tenho tanta dificuldade de me adaptar a novas tecnologias. Um saudosismo grande e persistente me faz de marionete, faz de mim uma piada pras pessoas da minha idade. Quantos anos eu tenho mesmo? Porque que eu tô querendo comprar uma máquina de escrever?

São perguntas que me faço sempre.

Ao mesmo tempo, tenho essa dificuldade imensa de permanecer sempre no mesmo lugar. Umas formigas nas calças, diz minha avó. Porque se fico quieta por muito tempo, me da um siricutico e minhas malas de viagem começam a se arrumar sozinhas, os passarinhos entram pela janela e começam a ajudar, junto com os ratinhos e os coelhinhos da floresta, se eu fosse a Cinderela. Enfim. Pelo menos em se tratando de lugares, tenho ansiedade de novo toda hora.

Não é uma contradição, então?

Demorar anos e mais anos pra trocar de celular, mesmo ele nem funcionando direito mais, e ter que mudar de casa, de vida, de amigos sempre?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s