Esse Conceito Ultrapassado

Eu juro que não quero ser precipitada, mas vamos combinar que eu sou, na verdade, uma garotinha de 12 anos. Ora, não há outra explicação pra tanto gelo na barriga, tanto tempo matutando essas ideias de menina. E só me falta desenhar coraçõezinhos no caderno pra concluir que, realmente, essa cabeça sofre certo retardo.

Esse turu turu turu aqui dentro já deixou de ser questão de Sandy e Junior. Virou essa coisa mais encorpada, como se eu escrevesse só em negrito, por esses tempos. Eu tô em negrito, se você for pensar.

E é bochecha vermelha pra cá, sorrizinho e bom dia pra lá. Um belo avanço pra essa pessoa fria e calculista que todos pensam que eu sou. Não me admira o espanto dos meus conhecidos.

Talvez, mas só talvez, isso tenha a ver com sexo bom. Satisfeitos, nós fazemos tudo na vida com mais amor. Acordamos com amor, lavamos louça com amor. Até cozinhar a gente faz com amor. Sim, foi um péssimo exemplo, mas quem compartilha de pífios dotes culinários, como eu, deve ter entendido a intenção do comentário.

Certamente, e só certamente, isso tem a ver com cérebro. Tem a ver com piadas idiotas, com palavras, frases e discursos que a gente quer ouvir, e palavras, frases e discursos que a gente nem sabe que quer ouvir, mas quer. Sim, faz a diferença, acreditem. Rir da coisas próximas de orgasmos. Rir, genuinamente rir, é a coisa mais deliciosa.

E, pensa Grace, que tempão que você não mostrava esses dentes levemente tortos e amarelos com essa disposição? É bem verdade que, entre amigos e cervejas, esses dentes ficam a mostra toda hora, mas me fala uma coisa: que menino te fez isso (sem cerveja) nos largos meses que se passaram nesse insano 2014? Pois é, pois é.

E quanto tempo você não vê paixonite que é simplesmente paixonite? Sem drama, violino, The Smiths no radio. Sem chororô, sem joguinho. Delicia né!

É tipo paixonite de adulto, mas é de criança. Quando criança era assim. Era o menino da rua, que gostava de mim, e eu gostava dele. E nós nos gostávamos, e o céu era azul, e os pássaros cantavam. Ninguém sumia, ninguém chifrava, ninguém falava merda. Ninguém falava “quem é essa vaca olhando pra você?”.

Lá na largada da vida amorosa da gente, nos 11, 12 anos, era mais emocionante. Deve ter saído de alguém com essa idade a expressão “borboletas no estomago”, só pode! Quem, no auge dos 20 e poucos, sente as bichinhas lá dentro, hoje em dia? E meus entrevistados (eu finjo que sou repórter, me deixem!) não sabem responder minha pergunta.

– Porque você gosta dela?

O silêncio mais demorado. E quando surge a resposta, é vaga, é lenta, é desprovida de sal.
– Porque sim.

Quando tinha 12 anos aposto que dizia: porque ela lê Herry Potter, porque ela joga futebol, porque ela tem a voz bonita, porque ela me ensina a desenhar.

Querido diário: Acho que gosto do Matheus. Ele tem as mãos bonitas, ele sabe jogar baralho, ele é bom em matemática.
Querido diário: Acho que gosto do Pedro. Ele tem os olhos cor de mel, ele joga Crash depois da escola, a letra dele é bonita.

Era assim na minha época.

Que saudade de admirar alguém pelas habilidades do dia a dia! Que saudade de querer aprender com alguém! De fazer trabalho de biologia junto, fazer borda do cartaz de purpurina. Hoje é só o que se tem, hoje é só o que se oferece de bens. Hoje é “eu fico com ela porque ela é gostosa!” E pega o romantismo e caga nele todo. Usa o outro de passa tempo, nem conhece quem se beija, quem se dorme junto.

Ou… Eu que tenho esse conceito ultrapassado de romance. Ou eu que nasci errado.

No que me diz respeito, eu vou continuar tendo 12 anos, as borboletas vão viver pra sempre, que viva Sandy e Junior e que me editem pra negrito toda vez que eu precisar!

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