A Iogurteira e As Tampinhas

– Não, mas presta atenção. Porque eu iria querer comprar uma iogurteira Top Therm? Quantos anos faz que isso tá a venda? E não é basicamente uma bolsa termica, aquela porcaria? Ok, na verdade isso é um pouco de preconceito meu com a voz daquela mulher, sabe? Meio trêmula… Alias alguém compra aquilo, vende ainda aquilo? (…) Como será que se faz iogurte, coloca aí no youtube pra gente ver. Quer saber? Acho que vou comprar, só pra ver…
– Quantas cervejas você bebeu?
– Sei la, 17, 19… Algum número ímpar – E fui entrando.
– 13 – ele contou – pelo número de tampinhas que você ta segurando. Porque você ta segurando tampinhas?
– Porque não quero ser enganada por aquele garçom. Outro dia tomei 9 cervejas e ele me cobrou 10.
– Você e os números ímpares…
– Quer dizer, quem precisa de tanta fermentação bacteriana, de qualquer forma? Por deus?! Não faz sentido nada disso!
– Acho que foram 19 mesmo, mas você deve ter perdido o resto das tampinhas.

Pelo menos nisso eu tava criando vergonha na cara: só vou pagar as cervejas que eu beber. E também, ta virando uma bela coleção de tampinhas.

– Me conta então qualé que é a das tampinhas.
– Porque eu bebi tantas cervejas?
– Sim, mas antes, toma cuidado com esse isqueiro, por favor.
– Ok.

Depois que apagamos o fogo no meu cabelo, finalmente, resolvi contar.

– Eu saí com o João. Lembra o João, que tem aquelas canelas finas?
– O João Garça? Sei…
– A gente saiu.
– Sim, cê já disse.
– Então, a gente saiu depois de sair da aula, na saída.
– Entendi, vocês saíram.

Foi difícil começar a falar porque minha cabeça rodopiava que nem um pião.

– Pra começar: O nome dele não é garça (seu idiota!), segura minhas tampinhas.

E joguei no tapete da sala aquele monte de tampinhas coloridas, realmente só tinha 13.

– Eu sou nova naquela cidade, Gus, você sabe melhor do que ninguém. E eu sou fácil. Deus sabe que eu sou mais fácil que a música do Jota Quest.
– Certo.
– E quando eu começo a juntar tampinhas então… Quem me segura? Não tem quem segure! Começamos a falar de livros. Ele quis falar que gostava de livros porque eu uso esses óculos de aro grosso – disse tirando a espessa armação de cima do nariz – Dá a impressão que eu sou essa intelectual que lê livros, aí ele puxou esse papo de livros.
– Que livro?
– Ah, ele me deu um livro sobre linguagem corporal. Porque eu ia querer saber sobre linguagens? Tem que excluir a linguagem, tem que parar de falatório, Gus.
– Ok, pare de morder essa tampinha, sua boca já está sangrando.
– E ele me emprestou esse livro – que eu não li. E hoje a gente saiu na saída, e ele perguntou se eu li aquela porcaria de livro.
– E você não leu, ok, ok, grande motivo pra beber 17 cervejas.
– Eu mentindo sobre um livro de linguagem corporal. Puta que pariu!

E saí em direção da geladeira.

– Tem mostarda?
– Deve ter.

Gus já revirava os olhos, provavelmente pensava que queria me por pra dormir de uma vez. Mas eu estava impossível.

– Eu já falei pra você colocar no youtube “como se faz iogurte” e você ainda não colocou – Disse, enfiando o vidro de mostarda direto na boca.
– Porque você quer saber isso?
– Porque eu acabei de juntar 19 tampinhas de cerveja, me deixa!
– Desculpa te falar, mas acho que você perdeu 6.

Aí ficamos cerca de 15 minutos procurando embaixo dos móveis as benditas tampinhas. Não sei como o Gus me aguentou.

– Aí, Gus, depois que ele viu que era mentira sobre a linguagem corporal, ele pediu o livro de volta.
– E o que que tem?
– Ah, sei lá… Ele deve ter ficado extremamente chateado que eu desdenhei do livro dele. Pensando bem, eu devo ser mesmo essa pessoa que desdenha das coisas. O Fábio, por exemplo, lembra que eu desdenhava dos desenhos dele? Eram medonhos, mas eu não precisava desdenhar, também… Eu desdenho muito dos desenhos dele, Gus, muito! Como chama quem desdenha de desenho, desdenho, desenho, desdenho… Essa palavra nem faz sentido mais. Des-de-nho. É desenho ou desdenho?

– Mas e o João?
– Ah, o João me chamou pra sair na saída da aula.

(…)

– Você não quer sentar aqui comigo e ficar quieta no lugar?
– Eu estou quieta no lugar – disse, empilhando as tampinhas – João é um idiota. Você acredita que depois que a gente falou de livros ele falou de… Do que ele falou? Espera, eu vou lembrar. Ele falou de uma coisa que me deixou emputecida. (…) Lagartos, não, gatos. Que ele tinha um gato.

Eu estava puta, já gritando.

– Sinceramente… Gato?!?
– O que que tem de mal em ter gato?
– Gus, por favor, gato?! Gatos são malignos, eles comem os roedores, as lagartixas, os pássaros (os pássaros!). Você acha que Piu piu e Frajola é ficção?
– Tenho certeza que não é – e prendeu meu cabelo, mais uma vez enconstando no fogo.
– Então, você se lembra perfeitamente do Marcel, que tinha seis gatos, ou três gatos, e que eles me odiavam. Acho até hoje que a culpa da gente ter terminado foi desses felinos do inferno. O Marcel era maravilhoso, Gus, ele era maravilhoso na cama – rolei um pouco no chão de olhos fechados – Mas teve um dia que o Frederico (o gato) se emaranhou por trás da gente e acabamos caindo por cima dele, que quebrou a pata esquerda da frente, ficou manco (o coitado), porque era um enxerido. Detesto esses gatos… Detesto, mais que Top Therm!

E eu falava sem parar, que nem uma matraca desgovernada, e nada de achar as 6 tampinhas.

– Você sabe o que me deixa mais chateada? Além de linguagem corporal, claro.
– O que?
– Que eu pensava que o João era diferente.

Fiquei um pouco sóbria.
Realmente, João era o número que apostei as fichas que tinha, naquela vez.

– E, do nada, ele me fala pra comprar uma Top Therm. Eu preciso de iogurte, Gus? Tô gorda por um acaso? Vai catar coquinho!
– Ok, eu acho que entendi, ele te chamou de gorda, quis te ensinar linguagens, gosta de gatos.
– Isso.
– Ainda não vi o GRANDE problema. Você poderia, pelo menos, parar de comer mostarda.
– O GRANDE problema, Gus, foi que eu precisei juntar 19 tampinhas (perder 6, droga!) pra fingir que estava curtindo tudo aquilo. Até quando?

Gus percebeu: todas as maluquisses até que tinham nexo. Eu era só mais uma bêbada procurando alguem pra emendar aquele coração partido em mil.

– Eu tô cansada, exausta – disse lambendo o dedo de mostarda – Exausta de ler livros que eu não quero ler, de fingir que estou lendo, de qualquer forma. Cansada de ser tudo igual, de sair pensando que o dia vai ser diferente e não sentir nada. De ficar presa nesses detalhes idiotas que são só desculpas pra eu não me mover nem um pouquinho pra frente, depois de tudo que me aconteceu. Chega! Tô exausta, Gus, e você não quer nem me fazer iogurte, pra ver se eu perco essa pança.

Gus me abraçou, chorei. Sete minutos, ou 13. Algum número impar.

– Ta, agora me conta o que mais, e porque você tá sem sutiã.
– Ah, é, não te contei. Eu e o João… A gente saiu depois de ter saído.

Tomei um peteleco e desmaiei.

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