Os confins do sexo casual

Não é por coincidência que meu celular recebe tanta atenção de sexta feira. Andei sendo casual demais. Ops!

Aí penso: Como se faz pra não ser casual depois de sê-lo e tanto? Tem receita?

Recebo um plin com um vamos-sair-hoje? Recebo um plin com tem-festa-hoje. Recebo mil plins com mil festas com mil vamos? E o que faço? Desligo, volto a dormir, a fazer palavras cruzadas. Meus dias de one-night-stand me cansaram, nunca pensei que isso chegaria.

Sextas feiras à noite, apesar das reclamações, me divertiam.
Porque no sábado, não importa o tamanho da cagada, tudo ficava bem de novo. Talvez uma ressaca, de leve, mas quem não vira expert nisso aos 24 anos? No mesmo contexto, definimos aqui que eu sou sacana e que eu gosto de ser esse sabão que escorrega na mão dos outros. Sempre fui assim, sempre fui escorregadia. Quem conseguiu me segurar, não foi forte o bastante. Não estaria aqui testemunhando, fosse isso falso, caros amigos.

E, desse jeito, um milhão de sextas feiras passaram e, infelizmente, pra completar o telefone que eu passava estava sempre certo.
Sei que deveria ter distribuído um numero falso e evitado o transtorno.

Ontem me peguei numa discussão besta.
Não sei se estava com sono, ou se era o oposto: estava lucida demais. O menino, um daqueles pendurados no varal da minha lista de contatos, me chamou pela quinquagésima vez pra “dar um rolê” – Detesto gírias, detesto gírias, detesto gírias! E, cansada das desculpas mirabolantes, disse, sem rodeios, que estava “em outra”. Também disse que, se saíssemos, todos sabiam (deus sabia, deus ta vendo): não seria pra bater papo e, se dessa vez fosse, nesse (e somente nesse) caso, tudo bem.

– Mas o que aconteceu com você?

Foi uma mensagem, mas pude sentir a indignação.

Pensei por uns segundos: O que aconteceu comigo? E o que o fez indagar essa questão? Pode ter sido um reflexo de conversação, quando se fala coisas só para manter ou (às vezes) para encerrar um diálogo. Mas ao mesmo tempo, e se não foi? Demorei pra responder, fechei os olhos, rolei de um lado pro outro da cama, tirei o som do celular, sentei, deitei de novo. Fiquei, certamente, inquieta.

Quanta casualidade é muita casualidade?
Na casa dos 20 a quantidade pode ser larga, mas penso se chegarei na casa dos 30 com a mesma disposição. Meu motorzinho já tá perdendo o arranque, percebi isso nas semanas passadas, nas sextas feiras passadas. Acho que ta na hora de estacionar.

Porque… Haja combustível, haja saco pra aguentar perguntas como essa: O que aconteceu comigo? O que aconteceu comigo foi que hoje é sexta feira e amanhã é sábado. E sábado é um dia solitário e eu quero usar minha boca pra conversar de vez enquando. Além do mais, não quero mais me perder nos confins do sexo casual. Não por enquanto. Tô empenhada procurando a saída desse labirinto.

Mãe, fica orgulhosa de mim, acho que tô deixando de ser volúvel.
Já pode parar de me puxar a orelha.

Sabemos das minhas opiniões bumerangue. Sabemos da minha cabeça de vento. Sabemos que, hora ou outra, vou cair de volta no pula pula da casualidade. Sempre o faço. Mas por agora, me deixa ser firme, ser frequente. E, aliás, o que você quer dizer com o que aconteceu comigo? Respondi, afinal, furiosa.

– Nada, achei que a gente tinha isso.

Sim, ele estava certo, a gente tinha isso na meia dúzia de vezes que “demos um rolê”. E nunca quis adubar, sair do esporádico. Não com ele de qualquer forma que é uma versão minha só que com um pênis (longe de mim, sou péssima pessoa). E falamos sobre isso, como a gente cai nesse pensamento que tanto criticamos. Solteiros convictos tem dois inimigos: os namorados e os românticos. E parece pra sempre toda essa convicção. Quando é que colocamos na cabeça que o amor da vida é mais gostoso?

Diga que está discordando, pode dizer. De acordo com esse mesmíssimo blog, sou a fã mor de romance.
Sou mesmo, admito. Mas segundo a minha biografia autorizada fictícia escrita pelo meu alter ego featuring o Toby (meu, já citado, amigo imaginário), 2013-14 tem sido o ano do não-me-ligue-amanhã e segundo essa mesma biografia, eu fiz as contas e o resultado foi zero apesar do cálculo ter me somado uns bons momentos. E romance foi só romancinho, assim no diminutivo, que é delicioso mas enjoativo, igual a nutella.

Não, eu não quero casar e virar mãe de família.
Quero descansar meus coturnos, só isso. Amarrar o burro, sossegar o facho.

Fases são fases, procuro respeitar.
O contato continua lá na minha lista. Nos despedimos com um risonho “você é louco!” e ele “você também!”. Voltamos a dormir, a fazer palavras cruzadas.

E no dia que a fome de casualidade voltar, se voltar, estaremos à postos pra pôr a mesa, tenho certeza. Só fico encucada: será que volta, essa bichinha?

É de se duvidar.

Anúncios

2 comentários

  1. Fera · setembro 3, 2016

    Show.

    Curtir

  2. Fatima · setembro 7, 2016

    Gostei.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s