Perseguidores de Coisas-Bonitas

O Kerouac é mestre em me definir. Quem leu as intermináveis 10 primeiras páginas da sua obra prima (porque não dá pra ler esse livro por completo não estando mais nos anos 50) sabe. Sair por aí que nem uma lunática procurando coisas-bonitas pra perseguir é certamente meu talento.

Mas não é só meu, fiquem vocês sabendo e, coisas-bonitas bem pode ser a justaposição mais relativa desse planeta do qual vos falo, porque não são necessariamente bonitas na mais simplória das definições estéticas. Apenas “brilham como foguetes amarelos explodindo como uma aranha por entre as estrelas, e no centro vemos aquele azulado piscando e todo mundo faz Awww”. Ok, da uma lida naquela porcaria e volta aqui.

Sem dúvidas, é “olhando os retardados dançando lindamente pelas ruas” (e indo atras) que as chances da gente tomar no charlie urbano são imensamente fortalecidas.

Digo isso porque me vi refletindo sobre os pés na bunda alheios (e meus próprios) por um surpreendente acumulado de minutos (talvez horas ou dias, sou obsessiva). O que me inspirou foi um fenômeno ocorrido no meu trabalho onde a beirada do cem por cento dos meus colegas, de uma hora pra outra e sem grandes explicações, foi dignificado com um chute no trazeiro.

O primeiro da lista foi meu companheiro de balcão. O pobre namorava há pouco mais de um ano, e, deus do céu, como era apaixonado por aquela menina! Óbvio que a testosterona grita e toda vez que passava uma bonitinha de sainha e frufruzinho éramos companheiros de comentários da espécie e gênero de “Gostosa! Dá pra fazer!”. Não considero isso um desmancha amores, só um olhar com o olho e lamber com a testa cotidiano. Enfim.

Um dia ouvi uma conversa suspeita dele ao telefone.

– Mas assim do nada, Juliana? Não faz sentido.

Pensei “Poxa vida, vem um chute por aí!” Na lata!
No dia seguinte me chega com os olhos quase precipitando as águas da vulnerabilidade e contando a grande novidade.

– Terminamos!

Nessa hora, baixou-me a Kübler-Ross. Fiz questão de observar todos os estágios do infeliz – para estudos posteriores – e como virei o ombro molhado da vez, comecei a cuspir meus conselhos igualmente divididos em tristes etapas de luto, todavia pensando no faça-o-que-eu-digo-não-faça-o-que-eu-faço e afins.

1- Você não tem certeza se vocês terminaram, ela foi inconclusiva.
2- Mas puta que pariu, que louca!
3- Talvez se vocês trocarem uma meia dúzia de palavras tudo se resolva.
4- Verdade, o que vocês tinham era lindíssimo, fico triste pra caralho. (lágrima)
5- Quer saber? Vamos sair pra beber e presentear essa sua cabeça com a doce amnésia da ressaca.

Num monologo embebido de tristeza e indignação, tomei conhecimento de toda a história do casal.
A tal da Juliana foi o amor platônico do nosso ilustríssimo por mais de uma década. Era a coisa-bonita que ele perseguia. Depois que eles (a muito custo) ficaram juntos, as engrenagens até que fizeram esforço pra trabalharem em sincronia, mas chegou uma hora que o resultado da produção estava dando defeito demais, tamanha era a carência de encaixamento das peças. Peguei no ar, e quando estava prestes a lhe dar a mais sensata das conclusões, engoli seco e continuei a ouvir, pra não escancarar de vez aquela ferida aberta.

Mas a verdade é que: Você, infeliz, gosta muito mais dela do que ela de ti. E aí, fodeu!

Pessoas como nós que não parecem preocupadas com um mero detalhe chamado “reciprocidade” tendem a ter um número mais elevado de decepções. No entanto, também se eleva a possibilidade de sentimentos memoráveis e sensação de não-foi-por-falta-de-tentar. Peca menos quem peca pelo excesso, e não pela falta, na minha concepção.

Não vem ao caso contar todas as outras histórias, nem a minha própria (ou deve isso ser plural?). Me pego lendo a coluna do Xico Sá toda vez que estou descrente da minha personalidade Kerouacquiana e vejo que não sou a única desgraçada que coloca o carro na frente dos bois.

E além do mais, o meu queridíssimo John Mayer pode até ter concebido a canção mais triste da história do cada um pro seu lado, mas foi bem certeiro ao dizer que:

Todas as luzes da cidade dizem “Deixa pra lá!”
As linhas do Canyon dizem “Deixa pra lá!”
O sol se pondo diz “Isso acontece o tempo todo, deixe pra lá!”.

Mas como o meu colega não conhece o John, me contentei em cantar um pequeno trecho da genial “Samba Juliana” acompanhada da dancinha regada de anos 90. Risos e segue essa vida, amigo!

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1 comentário

  1. JAIRO · outubro 16, 2014

    hahahaha você ainda é minha escritora preferida pelo menos!! hahaha

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