E O Que Sonhos Tem A Ver Com Deus

Porque será que a gente passa mais tempo sonhando do que fazendo? Ensaiando do que dizendo?

Hoje acordei às 6 da manhã e, tomando meu café preto fortíssimo de praxe, pensei na noite anterior, que foi (bem) mal dormida porque não conseguia desligar o botão do sonho. Mas não o sonho que a gente sonha enquanto dorme, o sonho que a gente vê pintado na frente e tenta alcançar a qualquer custo (ou não). Vi-me acordada e inquieta, pensando no que faço da vida pra alcançar os meus, além de apenas sonhar, ou escrever meia dúzia de palavras nos caderninhos e blogs da vida.

Quis saber, num impulso, a definição de sonho.

Digitei no amigo Google e apareceram inúmeras imagens de um pãozinho redondo recheado com creme. Fiquei com vontade, eu acho, mas a padaria mais próxima era longe demais pra 6 da manhã. Também não queria perder o foco.

Como sempre, discorri uma imensa linha do tempo e fui pendurando um a um os sonhos que já tive. Os que realizei – a minoria, e os que varri pra debaixo do tapete do tempo. Aqueles que foram nada além de imaginação, aqueles que se vestiram de gravidade e puxaram umas lágrimas pra baixo, de felicidade, de tristeza, de incompetência, dos mais diversos sentimentos. Dava pra ver uma desproporcionalidade no acumulado de sonhos com o passar dos anos.

Como sonhava mais quando não conhecia direito a realidade!
Ou a conformidade. Ou quando não sabia o que significava ser medíocre. Medíocre é uma palavra que tem conotação horrível, quase um xingamento. Mas me dou conta, pouco a pouco, que a mediocridade atinge a todos, hora ou outra, e nem percebemos. Não dá pra perceber, porque também é confortável, como abraço de mãe depois de um dia de chuva. Sair dali pode desenhar bons arranhões na nossa pele. Quem quer cicatrizes? Ninguém! Ou todo mundo.

Sempre fui meio medíocre. Sempre fui média. Nem muito boa nem muito ruim em vertentes de vertentes da vida. Nos esportes, na escola, na igreja, nas amizades, na família. Até jogando truco: média. Mas não sei se sentia isso, se percebia que ficava cravada nos 50 por cento toda hora. Porque ali é fácil de estar. Mas se passa despercebido sempre. Eu nem percebia também que eu não queria mais ser assim.

Acho que comecei a perceber quando eu tinha uns 17 anos. Aquela idade horrenda, aquela idade mais confusa que velhinha tentando mexer no iPad. Um dia fui pra igreja com os meus pais. O típico domingo a noite na minha infância-adolescência. Pizza, missa, casa dos avós. Dentro da igreja – que sempre me dava calafrios e eu nunca soube explicar, pela primeira vez, senti um vazio que beirava o insuportável. E nenhuma hóstia consagrada me saciou. Nenhum versículo, nenhum sermão. Comecei a questionar: O que faço aqui? Quando saí de lá, abismada ou simplesmente experimentando pontos de interrogação pairando sobre a cabeça, não pude deixar de pensar, indignada: O QUE FAÇO AQUI!? Eu não pertenço, nem nunca pertenci!

Hoje sei: fazia parte de ser medíocre. Talvez se eu não tivesse ficado lucida naquela noitinha de domingo eu nunca teria percebido, eu nunca teria feito nada que fiz, nem arriscado nada na vida. Teria sido católica, e só. E posso te dizer, com toda a competência como é difícil largar da mão da falsa fé quando se sente ela. Anos e mais anos! E ainda é difícil dizer alto: Não acredito em deus! Hoje consigo, mas nem é com muita propriedade. Arrebentar essas correntes, minha filha, é a coisa mais difícil. Continuar a fingir religiosidade é cômodo num lugar rodeado de gente assim. É ser medíocre.

Digo tudo isso agora, sete anos depois, porque sinto que a primeira barreira que quebrei para realizar sonhos foi essa. E era uma barreira bem densa, considerando o lugar que eu vivia, o berço onde nasci. E demorou tanto tempo! Às vezes divago se é por isso que também demoro tanto tempo pra fazer o que quero, ou pra, pelo menos, cogitar o que quero. Ao menos depois disso, sinto-me inquieta o tempo todo, querendo passar do meio desse cabo de guerra que é a vida. Derrubar logo o outro lado. O que mudou foi só que tomei consciência, talvez.

Contudo, ainda sinto-me fraca.
Sinto que leva tempo demais até conseguir engatinhar e ser o que eu quero ser.
Mas ser não é uma coisa espontânea? Ou não? Planejamos ser? Não sei, deveríamos, mas nem tanto.

Mas sonho, todo dia, toda hora. Não sei se ajo tanto quanto sonho. Não sei se deixarei, um dia, de ser medíocre, apesar de desejar firmemente que esse dia chegue. Tem tanta gente na rua, tanto sonho nas ideias dessa gente, e eu, mais uma.
Pelo menos quero ser mais uma que sonha, ao invés de uma católica que aceita o destino que vem sem perguntar por que, disso tenho certeza.

Confesso, fica um pouco difícil engatar a primeira e sair cantando os pneus pra realizar um desejo, uma vontade quando se tem consciência da grandeza dos nossos arredores. Às vezes olho em volta e me sinto no meio de uma produtiva fábrica de desilusões. Onde tem gente boa passando por má e vice-versa. Gente que vale, pra mim, muito mais do que eu. E me passa um sussurro “você jamais vai conseguir” pelos ouvidos, bem sacana, bem tentando pregar meus pés no chão. Penso, qual meu valor? Porque eu deveria gastar energia tentando ser? Esse mecanismo automático que comprime a mola da existência para ela não se expandir, de jeito nenhum, pra cima e alcançar outros níveis, outras alturas. Esse pessimismo! Ah, às vezes eu fico pesada, comprimida.

Quanta força se pede pra vencer isso?

Sinto-me andando pra frente, mas tão devagar que é quase imperceptível. Um slow motion assustador. Não que eu queira um fast forward, porque parte do sonho é também o caminho, sei disso. Só queria me sentir mais relevante às vezes.

Pra aliviar um pouco essa nuvem negra que, às vezes, estaciona por cima da minha cabeça, eu fico saudosista. Tento pegar as coisas que conquistei, os trocados que eu ganhei fazendo malabarismo no semáforo da vida profissional e pinto com novas cores as minhas metas. Pra não ser repetitiva, porque, com o autoconhecimento que vem embutido em cada primavera que completo, já sei que sou cheia dos altos e baixos, e os baixos são profundos. Se eu bobear não consigo mais sair do fundo do poço que minha cabeça me inventa de vez em quando. Por isso eu olho fotos, ou leio textos. Pra ver o que eu consigo fazer quando o negativismo e a depressão me deixam livre-leve-solta.

E cada vez vou deixando pra trás o que me pesa na mochila. O que me pesa e não serve pra nada.
Mesmo que com passos de formiga. Mas eu quero ser isso, e hoje sei que só querer não me basta. Só não quero ficar satisfeita com o que me é dado, apesar de sempre grata.

Sonho um pouco enquanto tomo café. Mas o dia está lindo lá fora, também é preciso respirar.

Anúncios

1 comentário

  1. JAIRO · dezembro 7, 2014

    que texto lindo, sombrio, mas lindo

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s