Os Leões Voadores

– Como ta demorando pra andar essa fila!

Disse ao estranho do meu lado.

Não era totalmente estranho. Já o tinha visto passando umas duas ou três vezes. Sempre fazendo a mesma coisa: pingando colírio. Ele era até que bem apessoado, robusto mas não gordo. Lhe faltavam uns cabelos na cabeça, umas palavras no repertório. A fila estava há tanto tempo sem andar que ele até que me pareceu mais atraente, eu, louca pra largar mão de ser trouxa logo.
Era a fila do caixa numa festa insana na zona sul.

Passava das 3 da manhã. Não era tarde pros meus antigos padrões, mas pra minha idade mental do dia talvez. Depois de ouvir e ver tanto infortúnio, me senti a tia-avó. Preguiça de viver. Fui, então, parar num beco chamado “Os Leões Voadores”. Esse lugar escuro tinha uma escada tão inclinada que, lá de cima, parecia que as pessoas estavam caindo direto pro magma do inferno. Também era calor como se realmente houvesse magma por debaixo do chão de taco, mais antigo que o meu porteiro – 86 anos o danado e forte. Devia ter magma mesmo. Devia se chamar “O Magma Voador” o bendito do lugar. Mas era sobre leões.

O divertido não foi ter parado lá e sim como parei lá e ganhei de presente esse fantástico insight sobre a fila da balada, da vida. Estava totalmente sozinha na cidade numa quinta feira a tardezinha, fazia sol de 30 graus e já havia passado a hora de sol forte que a mãe da gente manda passar protetor, mas ainda tava claríssimo. Passeava por entre as árvores do Parque Buenos Aires, porque queria respirar ar puro. Lá em casa minha tia fumava como uma chaminé, e eu já estava paranoica que iria desenvolver câncer de pulmão por tabela, então saí, chutando com o joelho uma bolsa que tinha a alça comprida demais pra mim, e resmungando “Vai me matar assim, velha do inferno” pra talvez desenvolver câncer de pele (menos mau). Não nos damos muito bem, apesar de eu acha-la bem sábia.

Lá, tinha uma garota passeando com um pug. Um pug normal, vesgo, gordo, uma fofura. Tinha uma babá com um neném, vesgo, gordo, igualmente. Sentei no banco que ficava mais ou menos na parte média do parque, aquela que todos tem que passar pra circular por qualquer lugar de lá, porque queria ver as pessoas. Fazia tempo que não via pessoas normais, queria me certificar de que realmente estava num planeta repleto de pessoas normais, porque, por 4 meses estava presa numa relação de ETs. Te juro! Meu noivo, Cleber, que só era meu noivo há 4 meses ou só era meu noivo na minha cabeça, estava me deixando maluca com os papos de morar em João Pessoa.

Acontece que ele viu um comercial de cartão de crédito que dizia que se ele quisesse ele podia juntar dinheiro e ir morar em João Pessoa em menos de 4 meses. Era um comercial típico de banco com crianças brincando de roda, velhinhos beijando na boca, essas coisas tocantes da vida. E ele enlouqueceu. Por isso sentia que estava rodeada de não humanos. Minha tia fumava os pulmões pra fora do peito, meu pseudonoivo só falava dois nomes: João e Pessoa. Que me resta? Pugs e nenéns no parque?

Sentada mais pra esquerda que pra direita, contei as pedrinhas colocadas debaixo do banco. Chutei uma sem querer e percebi seu propósito na vida que, já esperava, era manter o banco quieto. Continuei sentada mesmo assim. Será que sou uma mínima parte que nem essa pedrinha, que tem função na sociedade, que apoia alguma coisa? Como não consegui responder essa questão mental nem mais nenhuma, chorei por um breve momento, escondendo as lágrimas com os óculos (melhor função para os meus dois olhos extras) e logo enxugando a face, meio com medo de borrar o rímel.

Olhei um garotinho na bicicleta, que segurava o guidão pela parte do centro, o que lhe tirava o equilíbrio. Pensei em dar esse toque para o coitado, mas senti que estaria sendo intrusa. Mesmo assim, passou, seguiu, cambaleando. Como eu mesma em quase tudo na vida. Segurando no lugar impróprio, perdendo o equilíbrio, mas insistindo em fazer desse modo. Eu sei que não daria ouvidos se alguém me falasse: Segura mais pras pontas da sua vida, assim você consegue andar sem cair muito. Eu teria simplesmente ignorado, porque quem está guiando sou eu, quem faz as regras sou eu.

Cleber era engraçado. Digo era porque era no passado mesmo. Quando nos conhecemos era o mais cômico dos seres humanos. Me arrancava uma porrada de risos, acho que nem se esforçava. Quando nos conhecemos ele era outro, com certeza. Não falava tanto em João Pessoa, não ria tanto da minha cara. No dia em que nos conhecemos, me disse “você não é os cinco patinhos mas vamos passear?” Até disso eu ri, porque realmente me arrancou esse riso.

Sentada no parque, senti vontade de rir.
Como há muito não fazia. Rir sem preparar o riso. Um riso ridículo, alto, descoordenado. Como quem não planeja nada, só ri. Era assim que eu ria antes, quando nos conhecemos. E riso era alimento. Eu vivia nutrida, com aparência saudável, bochechas rosadas. De riso.

O que mais me deixava satisfeita era não conhecer ninguém naquele parque. Nos últimos 4 meses, me senti rodeada demais de pessoas. Dos mais diversos tipos de pessoas. Nem sempre eram boas pessoas. Ás vezes eram más, como o nóia que me chutou no ônibus (juro que não fiz nada contra esse sujeito), ou o cliente que quase quebrou meu nariz com seu Iphone 6. No geral, até as pessoas que pareciam boas eram não tão boas no final do dia. Uma postava nas redes sociais que a culpa do Brasil estar uma merda era do nordeste. Outro era homofóbico. Outro era militante gay exagerado heterofóbico. Dos mais diversos tipos (ruins) de pessoas.

Por um lado, me senti livre da podridão do mundo no parque.
Digo podridão porque era como eu o via. Dinheiro, ganância, gente passando fome na minha frente, tomando chuva no barraco e abocanhando a latinha como se fosse um sanduíche de presunto com suco de tamarindo. E, mesmo assim, gente reclamando dos juros altos pra comprar roupa importada ao invés de reclamar que não pode sair na rua tarde da noite porque tem gente que te assalta mas não porque tem má índole (as vezes sim, mas não), e sim porque vive às margens, abocanha latinhas pra não sentir direito o frio.

Talvez o pug e o neném sejam mais humanos. Talvez o pug e o neném sejam mais sensatos.

O Cleber mesmo, outro dia chegou em casa com um carnê de loja de eletrônicos. Comprou um tablet e uns outros dispositivos inúteis. Alias, pra que serve um tablet, também? Enfim. Na mesma semana, o chamei pra comer um pastel no bar da Ana, que fica meio na esquina da minha casa e ele disse que estava sem dinheiro. Não entendi as prioridades dele naquele momento, mas calei-me e fui sozinha degustar um pastel de camarão.

Por tudo isso que eu estava insatisfeita com boa parte da minha vida. Fiquei lá, meio bamba no banco do parque tentando colocar na cabeça que eu já não queria mesmo nenhum riso falso do lado do Cleber. Eu queria ficar mais no parque do que com ele. E me deixava inquieta como uma ruiva que eu nem conhecia podia me deixar tão enraivecida já que ela estaria me fazendo um favor.

Cleber foi flagrado com um ruiva no ultimo carnaval e só me contaram meia hora antes de eu ir pro parque Buenos Aires naquele dia. Talvez por isso também eu tivesse ido parar lá. Estava lendo Schopenhauer pra ver como era e tomando um chá pra dor de barriga quando recebi uma mensagem por whatsapp com uma foto, uma ruiva e um riso. Que fazes com essa ruiva, hein Cleber? Pensei, serena, e tomei outro gole do meu chá. Chorei baixinho, respondi “o que é isso?” e recebi um é-seu-noivo-de-boas-sem-você.

Depois, levantei-me do banquinho chutando a pedra apoio, pra poder focar atenção não só no Cleber e na ruiva. Mas pensava que já não tinha porque sentir nada além de indiferença por aquela situação. Confiança eu já não tinha nele faz tempo. Sem confiança é tempo perdido ser noivos. E tinha a questão de João Pessoa, do carnê, do tablet. Essas coisas tão mínimas que iam, aos poucos, tirando os risos da minha feição, e desenhando, no lugar, um frown bem curvado pro norte ou pro sul dependendo da perspectiva. E também deixando ele mais feio, apesar de que ele era bem encaixado nos padrões de beleza da sociedade.

Minha tia, apesar de fumante e rabugenta, sempre me alertava que Cleber era estranho.
-Ah, minha filha, ele palita os dentes na mesa, boa pessoa não pode ser.

Ela devia estar certa, tudo a ver: palito de dente, ruivas. Tá tudo ali.

E dei uma volta no quarteirão do parque. Chutei outras pedras e pensei: A gente está mesmo chutando pedras e vendo até onde elas rolam. Olhei num poste que dizia: Voe com os leões hoje.

Precisava levantar voo um pouquinho e tirar a mente de tanta besteira. Fui correndo passar batom em casa, tossir um pouco com aquela fumaça típica de quinta feira a noite. Também não sei porque passava batom com tanta confiança. Queria pintar um riso falso na boca, acho que era isso. E, também, nenhum blush arrumou a palidez, a indiferença estampada no rosto. Mesmo assim saí o mais rápido que pude. Deixei o telefone tocar, acho que era o Cleber.

Depois de dançar até as 3 da manhã, resolvi pagar minha conta no caixa, lotado, um calor do inferno, o magma voador. E me perguntava o que tanto eu ia e voltava pra ideia daquele meu noivo desnaturado, mesmo com tanto desagrado.

– É moça, a fila realmente tá demorando pra andar.

Disse o robusto careca semi-estranho do meu lado.
Não podia estar mais certo. E pingou mais uma gota de colírio.

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