Onde estará meu guarda chuva nessa SP?

Uma meia dúzia de atores ali, outros fumando um beck na esquina de mesas no canto do salão. Óculos redondos e quadrados derretendo nas linguas de algum triângulo amoroso. Lotado, mas, cacete, me sinto tão só!

Meu amigo sai pra pegar uma cerveja dando as mãos pro cara com quem ele está ficando. São fofos, se beijam a cada 3 palavras. Vai e vem de gente, dão dois passos e já os perco de vista. Olho praquele monte de guarda chuva no teto de um lugar charmoso na Praça Roosevelt. Quanto tempo não consigo manter um bendito de um guarda chuva! Vivo ensopada! Só esse ano já foram uns 37 sem contar os que quebraram por conta de má administração.

– Será que chove hoje, por falar nisso?

Deixo escapar em voz alta esse pensamento sarcástico. Como se eu não tivesse mais nada pra pensar, fosse tudo small talk aqui dentro.
E esse cara me fala por cima dos ombros.

– Espero que não.

Penso “Oh, não! Não quero companhia essa noite!”

Contradição pura! Esse coraçãozinho, murcho, não sabia direito o que dizia, se queria estar sozinho ou rodeado. Se era problemático, se se sentia uma caixinha de música: sem dar corda ele para de tocar. Diz que venho aqui beber ao invés de ver teatro só porque não quero ficar em casa pensando nele. E em quanta coisa eu não sei sobre ele e nem vou saber.

Me perco definitivamente do casal meu amigo naquela noite, e com tanto malabarismo e tanta ciranda cirandinha, acabo por engatar uma conversa com esse cara sobre o tempo. Gosto mais de frio, ele de calor. E depois sobre drinks. Eu mojito, ele gin tônica.

Comento sobre meu batom vermelho: Está borrado? Sobre minhas pupilas: Estão enormes? Falo da banda tocando, do baixista canhoto, o Paul McCartney! Mostro minha tatuagem nova. Falo que curto o Michel Gondry. Desconverso quando o vejo revirando os olhos. Eu falo demais quando estou deprimida. E eu sempre estou deprimida, esperando chover. Ah, a vida, que amargura eterna é viver! Quer um chopp?

Como pode eu não conseguir nem fazer meu pedido pro bar tender de tanta gente nessa merda e me sentir tão sozinha? Como pode eu sair com esse monte de caras e continuar mais solitária que um paulistano, um canastrão sem pano? Suspiro. Pego, finalmente, dois copos e me mando dali, já atacava a claustrofobia. Volto pra perto daquele monte de skate voando na parte de fora e entrego um dos copos na mão dele.

Pago bebida pra estranhos, ainda por cima.

– Sabe qual o meu problema? Eu causo uma ótima primeira impressão e não consigo manter o nível. Daqui a cinco minutos você vai enjoar de mim.

Ele ri como quem espera ver aonde eu quero chegar com aquele papo mesmo que eu, claramente, não fosse chegar a lugar nenhum. Amigo, sei que não esperava que eu fosse tão falante, mas com esse meu peito (e cara) quebrados, sinto muito, você terá que varrer os caquinhos espalhados nesse chão, já que veio puxar papo. (Castigo quem me importuna com palavras chorosas, meu jeito)

E conto, roteirizando, como eu detestei minha epifania de ir andar sozinha na Augusta em meados de agosto. Mas não detestei por completo. Não detestei em nada, pra falar a verdade e esse era o problema. Ah, Mr. Charlie Kaufman, escreve esse roteiro pra mim. Pra colocar cada coisa no seu devido lugar: esquecer ele, lembrar do guarda chuva. Viajo. Quer mais um chopp… Qual seu nome?

Luis é um cara interessante. Me ouve por mais tempo do que eu pensei. Eu sendo essa chata repetitiva. Sobre indecisão, carreira, blog, escovas de dente, irmão, cinema, chefe, doce de leite. Sobre meu triunfante 2014, costumo fazer reflexões profundas nas ultimas semanas de dezembro. Já faz quase um ano que moro aqui, sabia, Luis? Já sou gente grande! Me pergunta 10 coisas que eu aprendi?! Enumero banalidades, contando nos dedos, que nem criança.

1) A não parar na esquerda;
2) A não falar no celular em frente ao Mercado das Flores às 23h;
3) A não virar a direita saindo da estação do Brás;
4) A colocar pregador nas roupas;
5) A deixar uma cópia da chave com o meu porteiro;
6) A não roubar bananas no Anhangabaú depois do expediente;
7) A fechar a janela quando chove;
8) A não passar a noite em Santo André;
9) A não abusar de jelloshot com LSD no Largo do Paissandu;
10) A não falar com estranhos perto da Dona Antonia a noite. Não mais.

E me bate a sobriedade do final da madrugada. Vejo meus amigos segurando as mãos por entre outros braços entrelaçados naquele mar de gente feliz. Não posso evitar de me sentir ainda mais só. Olho em volta e tem gente afagando cabelo de gente, tem coraçãozinho saindo em cartoon de cada cabeça ali. Gente beijando esquisito. Luis, você me desculpa mas eu preciso ir embora.

– Te levo.

Ele é um estranho e a Dona Antonia é logo ali. Não deveria nem estar falando com ele pra mostrar que aprendi com as lições que a vida ensina. Além do mais, com a minha sorte, eu e ele estaremos separados em menos de 5 meses graças a minha interessantíssima loucura, ou mais provavelmente graças a qualquer outro motivo. E eu estarei pagando bebidas pra outro estranho.

– Desculpa, vou de taxi.

Meus amigos me dizem pra “fazer a Angélica” toda vez que eu sentir que devo. Nunca mais vi o Luis, apesar de tê-lo achado divertido e interessante. No final, choveu, mas eu não me molhei. Dessa vez não, e nem encontrei o bendito do guarda chuva.

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2 comentários

  1. Jairo · janeiro 9, 2015

    foram meses inesquecíveis, gray
    que seu 2015 seja incrível e continue escrevendo textos lindos =)
    <3

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  2. Grace · janeiro 10, 2015

    Obrigada, você também! Bjs! :)

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