Sexo, universo e azulejo

Eu parecia uma junkie jogada de barriga pra cima naquele futon verde oliva enquanto ele me percorria. A Joss Stone cantava pra nós no rádio e a iluminação era fraca (ou inexistia). Só vinha do poste na rua. Sexy, mas…

Tinha um espelho na minha frente. Sentia-me o Christian Bale no ménage de American Psycho, mas sem a terceira pessoa, obvio. A três não funciono! Difícil focar só em uma pessoa, imagina em duas.

Tanto, mas tanto que ele estava lá embaixo (fazendo um ótimo trabalho, aliás), e, mesmo assim, eu continuava escrevendo um livro mental, pensando que precisava passar no mercado depois que acordasse no dia seguinte, lá pras 11. Pensando que eu nunca ia conseguir organizar meus livros por ordem alfabética. Pensando que eu estava com pavor que esse menino me beijasse e isso me transformava numa prostituta em potencial.

Quando ele acabou, eu virei logo uns 180 graus na horizontal e fiquei encarando o gordinho que passeava com um lindo Golden Retriever lá embaixo na rua. Não, não! Retira o que eu disse. Não posso ser o Christian Bale! Ele tinha só espelhos, eu também tenho público. Eu encostava o colchão em quatro extremos porque esse ângulo funciona melhor pro meu ego e pra máquina de escrever instalada no meu cérebro. (E eu estava obcecada com a minha própria imagem!) Sei que ele tentou borrifar romance por todo o quarto de adolescente dele com aqueles elementos – música, luz, beijinhos carinhosos dos pés a cabeça, mas não posso evitar de ser fria nessa minha fase.

Ele puxava meu cabelo, lambia minha orelha. Nunca curti saliva na orelha, sabe? Porque é que as pessoas tem essa obsessão com orelhas? Minha orelha estava ensopada e eu não estava ficando mais excitada por conta disso! Enfim, meu livro dizia: não é contraditório que minha saúde mental funciona tão melhor quando estou sozinha, mas mesmo assim eu vivo querendo achar minha tampa? Não, sexo não tem nada a ver com isso! Ele já podia deixar minha orelha em paz e ir salivar em outras bandas, né!

Eu sou péssima! Eu faço esses pequenos experimentos depois de ficar sóbria de uma embriaguez de amor. É exatamente nesse momento que eu me torno a mais filha da puta das pessoas, porque eu tento esquivar da solidão saindo com o primeiro idiota que aparece – talvez Freud explique esse fenômeno. Ele, dessa vez deitado do meu lado, se aproximava como quem ia me fazer conchinha. Ninja, escorreguei por debaixo dos seus braços. “Onde é o banheiro?”, e saí, na ponta dos pés vestindo uma camisa xadrez (dele) completamente abotoada fora de sincronia.

Sentei. Olhei o azulejo por uns dez segundos até perceber que era o mesmo da minha casa no interior antes da reforma. Até os meus sete anos o banheiro da minha casa foi revestido com um azulejo idêntico. Toda vez que eu ia tomar banho, ou quando tinha, sei lá, prisão de ventre, eu ficava olhando atentamente pro azulejo, porque, se você prestasse a atenção, você conseguia decifrar pequenos rostos no meio dos desenhos. E quando eu conseguia achar um, isso me deixava imensamente feliz.

Por causa de um azulejo, tudo veio à tona.
Quando eu tinha sete anos, eu gostava de ver rostos em figuras que não foram feitas para serem rostos e, 17 anos depois, nada de muito drástico tinha mudado. Toda vez que eu gostava que um cara me beijasse na boca, ou que não pensava em tarefas de casa enquanto transava, ou, pra resumir, quando eu estava realmente envolvida e apaixonada, eu ficava que nem louca procurando rostos no azulejo. Procurando coisas que não existiam. E isso me tirava a sanidade, resultando num desastre atrás do outro.

E aí, toda vez, no entreamores eu virava essa piranha! Era um ciclo: louca, piranha, louca, piranha.

E pra completar, se você parar pra pensar, eu bem que podia ter estado no lugar desse pobre fã de soul music em todos os meus relacionamentos falhos. Quem há de dizer que eu não estava cheia dos clichês de amor enquanto algum babaca estava mais interessado em se admirar no meu espelho? E, aliás, não está toda a humanidade presa nesse carrossel de bad timing, onde um se envolve o outro não? Não é culpa de ninguém, é só o universo unindo as pessoas erradas, na hora errada.

Viu: Sanidade! Acontece lá pela terceira semana.

Mas, caralho, quando é que esse desencontro vai acabar, hein? Preciso deixar esses meninos românticos em paz, e preciso parar de ficar enlouquecendo por aí.

Depois do banheiro, deitei de costas pra ele, ainda torcendo pra ele não me abraçar. Mas tudo fazia sentido agora. A Joss Stone continuava maravilhosa, a luz da rua romantissíssima e eu esse bloco de gelo, derretendo num futon. Pensando: 1) eu preciso parar de enlouquecer quando estou gostando de alguém e parar de procurar rostos no azulejo. 2) O universo precisa parar de zoar a nossa cara. 3) Preciso, realmente, parar de deixar a janela aberta.

Acordei, a perna dele estava, assustadoramente, em cima de mim, a luz do sol estava me tostando e todo o romantismo da noite passada tinha desaparecido (ainda bem!). Botei meus adornos de volta, devolvi a camisa xadrez.

Tchau, Thaís.

Puta que pariu, 4) Preciso parar de usar meu nome falso.

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1 comentário

  1. Jairo · janeiro 20, 2015

    se for pra usar um nome falso que seja Jairo.

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