Um Peixe Troxa

“Não há nada mais possível que isso!” Disse, enquanto devorava um imenso hot dog. Derrubava todo o molho, vermelhíssimo, no vestido jeans dos anos 80. Era 2015 recém começado e eu de jardineira jeans e keds. Não importava. Falávamos sobre os vinte e poucos e sobre quantas vezes o único papel que a gente interpreta na peça da vida é o de troxa. Eu e o Toby Imaginário.

Mas, sabe, eu derrubei todo aquele molho foi de espanto. Fiquei pasma! Quando concebi essa incrível conclusão fiquei ao mesmo tempo alegre e triste. Alegre porque despencou, finalmente, a ficha e triste porque isso demorou pra acontecer. Não importa quanto aviso tive. Quantas tias queriam pregar minhas pálpebras pra trás com fita crepe como na perturbadora cena de Tom & Jerry em algum episódio que não me lembro mais. Não importavam os filmes, os livros, as histórias que ouvia ao pé do ouvido toda hora todo dia. Por algum motivo, sempre me achei diferente, ou que o ser-troxa-de-alguém não me atigia.

Primeiro porque a vida inteira tive o pensamento de princesa da Disney de que “se você quer muito alguma coisa e seu coração é puro, coisas maravilhosas acontecem!”. Ou porque sou mimada mesmo e nunca tive que lidar com muitas perdas, a não ser perda de peso quando quis ser anoréxica, ou perda de memória quando quis ser alcoólatra. Eu sempre vivi dentro dessa bolha onde todo mundo é gentil e usa as palavras mágicas. Quando percebi o tamanho da minha ignorância, o mínimo que poderia acontecer era mesmo perder aquela charmosa jardineira para o molho de tomate. O mínimo que eu poderia fazer era sentar na calçada em frente a barraca de cachorro quente e chorar.

O mundo é cruel, dizia. O homem é mau! A humanidade está perdida, a perversidade tomou conta de nós! Era tudo que proferia. Podia ter sido culpa das cervejas que eu tinha tomado, mas também podia não ser. Álcool me deixa mais dramática, mas por outro lado, nada daquilo era hipérbole. É um absurdo ter boas intenções e no final ser uma troxa. Pelo menos era o que eu pensava.

Aí fiquei puta!
Meu amigo, fiquei emputecida! Joguei o ultimo pedaço de salsicha na calçada, caiu molho no chão. Enxuguei a correnteza saindo dos olhos (desejei estar na cantareira pra fazer a diferença na sociedade). Disse “Foda-se!”. O maior foda-se daquele quarteirão – muita gente diz foda-se. E fiz promessas pra mim: não acredito mais, não ouço mais, não me dou mais, não mais. Nada mais! E pedi pros anjinhos pra eu ser mais fria daquele momento em diante. Os anjinhos que eu inventei no meu conto de fadas. Depois disse “Fodam-se os anjinhos também!”. Hardcore!

Hardcore! Nenhum coração bateu de amor depois do molho de tomate. Até eu ver que a gente faz os outros de troxa sem querer. Ou que sentir-se troxa era uma coisa pessoal e instransferível. E que não havia nada mais possível do que isso. E quem se sente troxa, nem sempre foi feito de troxa de propósito. É simplesmente muito possível e aceitável ser troxa.

E também, afinal, quem lê o troxômetro? Quem diz, quem julga? A comissão julgadora de troxas e troxisses? Qual a linha que separa o apaixonado do troxa? Mas devo ser troxa mesmo. Ou otimista, ou honesta, ou a princesinha da disney! E devo ter a memória de um peixe. Um peixe troxa.

Porque te juro!
Derrumo molho na roupa a cada 6 meses!

* Trouxa e troxa são coisas distintas.

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