Como Se Define Azar

Quando eu esqueço o guarda chuva, chove. Quando eu lembro do guarda chuva, chove e eu esqueço ele em algum canto da cidade. Se visto uma blusa, faz calor, se visto uma saia rodada, venta. Se acordo atrasada, meu compromisso começa mais cedo. Se chego adiantada, atrasa. Se esqueço a chave de casa, minha reserva some. Se lembro da chave, perco em algum canto da cidade. Essa tem sido minha vida. Olá!

Sempre fui do tipo pessimista, porque, sejamos diretos: sou zicada! Tudo que pode dar errado comigo, dá. E eu não digo isso por simplesmente ver sempre o copo meio vazio. Digo porque, eu até nasci otimista, mas a vida foi me ensinando que é melhor esperar o pior.

Primeiro porque assim você não se frustra tanto. Acordo de manhã e penso: Estou preparada para qualquer coisa que possa acontecer: Chuva, cair e esfolar a cara no chão, um chiclete grudar no meu cabelo, um mendigo me bater, perder o ônibus, quebrar a unha. Se chover vou me molhar, se cair e esfolar a cara tenho cartão da farmácia. Se grudar chiclete, tesoura. Se me baterem, sei correr. Se perder o ônibus, atrás vem outro e se quebrar a unha, band aid.

Mas cada um desses itens do meu kit SOS foi sendo adicionado conforme eu ia me fodendo na longa estrada da vida. Em 1998 apanhei de uma menina dois metros maior que eu porque… Bom, porque eu era “patricinha” ou “nerd”. Ou um menino chamado Marcos gostava de mim, ou algo dessa natureza. Acho que Marcos era namorado dela, ou qualquer coisa que você possa ser aos 8 anos de idade. Eu andava tranquilamente pelo corredor da escola, sozinha, quando senti um puxão de cabelo. Ela pegou minha trança com a mão direita, deu uma volta, puxou e me derrubou no chão, assim de bunda. Todo mundo riu! Depois disso parei de usar rabo de cavalo com trança e até hoje acho tenebroso prender o cabelo, inconscientemente.

Em 2001, aprendi a não usar melissinhas pra beijar os garotos. Meu primeiro beijo foi a coisa mais desastrosa do universo graças ao chão liso do pátio da escola e à sola do meu sapato de plástico. Só tenho um pouco de sorte por ter sido antes da disseminação dos dispositivos com câmera e do Youtube. Eu teria sido viralizada! Em 2004 parei de jogar handball depois de um desvio de septo e nunca mais pratiquei nenhum esporte, alô minha flacidez! Em 2007 aprendi a não comprar armações de óculos tão caras pra depois perder, bêbada, em alguma festa do pijama em casas vazias com quintais de terra. Nessa época também aprendi a não dormir de conchinha e criar expectativas com um ex ficante por quem eu fui obcecada durante todo o ensino médio pra depois descobrir que ele ficava com a minha melhor amiga também.

Quando cheguei aos 18 anos, eu já tinha adquirido todo tipo de escudo que você possa imaginar. Leite condensado com vodka? Nem pensar! Cortar a franja com tesoura cega? Você tá louco!? Dirigir bêbada, de chinelo, fumando, mandando mensagem de celular, em depressão às 3 da manhã numa véspera de natal? Os dois carros estacionados e a prostituta que anotou minha placa sabem que nunca mais! Mas nunca era suficiente. As coisas foram mudando de intensidade conforme eu ia ficando mais velha. Quando fiz 21, o nível de azar já era o de ficar perdida no aeroporto Charles de Gaulle em Paris e ainda assim conseguir perder todos os meus documentos, provavelmente, numa cabine telefônica, enquanto chorava alucinadamente para me alocarem no próximo vôo (que acabou sendo 6 horas depois). Pra chegar em Veneza e pegar o transfer de outra pessoa por engano, ir parar em outro hotel e aprender o que “vaffanculo” significa da pior maneira possível.

Em 2012 aprendi a não namorar com caras que moram no continente asiático, por motivos óbvios. Em 2013 aprendi a não mostrar os peitos pra uma foto na balada e a não ficar apaixonada por um cara que era, obviamente, gay. Quando 2014 chegou, eu já tinha aprendido quase tudo: Não usar trança ou praticar esportes, só comprar óculos na loja de R$ 1.99. Não reatar sentimentos pelo ex, não dirigir bêbada (apesar de que só aprendi de verdade dois carros estraçalhados mais tarde), tirar cópias e mais cópias dos meus documentos e não ficar deslumbrada com o francês alheio, além de gesticular e falar alto com os italianos (para impor respeito). Não namorar a distância, não beber muito – essa eu ainda não aprendi e considerar a sexualidade alheia antes de virar stalker.

2015 chegou e eu tenho essa bagagem enorme de infortúnios!

Aí olho pra minha conta no banco, que mais poderia ser o nome de um batom ou de um esmalte, assim como Escarlate ou Rubro. Olho pra minha carreira moribunda na hotelaria. Bom dia Senhor, Boa tarde Senhor, Check in Senhor, Check out Senhor? Olho pra minha frustrada tentativa de bolsa de estudos pra pessoas pobres, sendo pobre mas “nem tanto”.

Como eu vou olhar pra frente e dizer que eu posso conseguir alguma coisa quando o azar e o bad timing me rodeiam tanto e cada vez me isolam mais do mundo e das possibilidades?

Entrei num elevador e olhei para o espelho, com todos esses pensamentos martelando meus pés no chão como um prego na parede, entre o 23º e o 1º andar. Ninguém mais entrou. E pensei, por reflexo e sem querer: Como meu cabelo está bonito hoje! E essa jaqueta que eu achei num brechó por R$ 2 é simplesmente demais! Eu ganhei uma medalha de melhor aluna da escola em 1998. Eu aproveitei pra apender violão ao invés de beijar garotos em 2001. Eu aprendi a ler livros ao invés de praticar esportes e comecei a escrever minhas próprias histórias também na mesma época. Eu sempre tive armações de óculos diferentes e descoladas e meu ex ficante acabou sendo um dos amigos mais memoráveis da minha adolescência. Eu bati 3 carros entre 2009 e 2012 e não sofri nenhum arranhão (só um olho roxo que sarou em 5 dias). Eu fui à Paris e à Veneza no verão de 2010, por Deus, e muitas outras cidades maravilhosas em 2011. Eu namorei um Filipino, eu realmente amei aquele filho da puta. Eu curti cada festa insana que fui em 2013, eu quase converti um gay! Eu moro sozinha na cidade mais caótica do país e mesmo assim consigo voltar pra casa todos os dias, deitar a cabeça no travesseiro, às vezes só cansada, às vezes cansada e triste, às vezes cansada e imensamente feliz (a maioria).

Se isso tudo for azar, me desculpa, acho que precisam mudar o dicionário.

Lá no térreo, pisei com tanta confiança pra fora daquele elevador que nem parecia mais eu mesma. E pensei: Esse ano, aconteça o que acontecer, chova o quanto tiver que chover, eu vou azular minha conta, mudar de emprego, passar na faculdade e o que mais eu tiver que fazer. Esses meros detalhes que servem pra eu dar boas risadas em mesas de bar nunca me impediram de realizar meus sonhos, apesar de me darem essa impressão às vezes.

Talvez aquele elevador seja mágico, ou eu só precisava acordar pra vida e ver que azar é uma coisa que depende se você olha pra ele de baixo ou de cima.

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