A Minha Fase Atual

Estou numa fase excepcional! Não sei dizer se é no bom sentido, ou mesmo, se há um bom sentido para esse adjetivo que eu adoro usar. Acredito que haja, pois o leio em manchetes vagamente positivas nos jornais quando vou arrancar a página das palavras cruzadas e dos quadrinhos. Também, me admira (e agrada) que preciso dividir tudo em fases. Ou que o ser humano faça tanto isso. Que divida até a lua em fases, que não permita que as coisas sejam contínuas.

Posso enumerar cerca de 35 fases pelas quais passei durante os meus (quase) 25 anos de existência.
A fase em que fui emo. A fase em que fui atriz. A fase em que tive uma banda. A fase em que ia toda semana a mesma festa em Campinas. A fase em que ficava bêbada toda semana na mesma festa em Campinas. A fase em que achei que o universo era maravilhoso ouvindo Jamiroquai. A fase em que parei de comer ouvindo Silverchair. Etc. Etc. Etc.

Minha fase atual inclui elogiar uma senhora na rua pelo excelente trabalho que fez em seu coque milimetricamente arranjado (até duvidei da não-existência de Deus, pois estava, realmente, muito perfeito), mas também inclui um alter ego extremamente presente nas minhas interações sociais, o que me deixa cada dia mais perto do diagnóstico “dupla personalidade”.

Sempre começo minhas histórias mencionando as noites de sexta feira. Pois bem, essa é mais uma delas. As sextas feiras me transformam de uma maneira ambígua. No sábado, o dia depois da noite fatídica, desejo jamais ter posto o pé para fora do meu apartamento. Mas o domingo chega logo depois e nada mais parece tão grave assim. E depois da segunda, da terça, da quarta e da quinta feira, meu inconsciente se encarrega de fazer uma pequena lavagem cerebral para que, no dia seguinte, eu esteja mentalmente pronta para a próxima aventura.

Sete da noite é cedo demais para se tomar decisões sábias. Ou pelo menos era isso que eu pensava. Ainda mais nessa minha fase atual que inclui mandar um e-mail para o meu escritor favorito, mas também inclui trocar de roupa com a janela aberta sabendo do meu vizinho pervertido do prédio da frente. Na sexta feira passada, as sete da noite, depois de organizar meus pincéis de maquiagem por ordem de tamanho pela sétima vez na semana (sim, estou com TOC), resolvi testar meu novo batom cor de ameixa. Eu havia ganhado ele dessa menina-mulher que trabalha no setor de limpeza do meu trabalho. Preciso apenas dizer que ela é muito sexual e, às vezes, tenho a impressão de que eu não deveria saber que ela gosta de ser levemente sufocada na cama. Ok. Já que passei o batom, não me custa nada esconder as olheiras com corretivo, também recém adquirido, e passar um pó. O delineador é antigo, mas vou passar porque, sem ele, meus olhos ficam murchos demais e, já que fiz essa maquiagem de gatinho, vou usar um blush coral pra disfarçar minha palidez – ando com cara de doente. Quando vi já eram quase 9 horas e eu estava maquiadíssima, e de pijama.

Pijama é modo de dizer. Eu estava usando uma camiseta GG do Pink Floyd e meias pretas com bolinhas brancas. Meu cabelo estava preso em um nó dele mesmo e eu parecia ter realmente aderido ao estilo anos 1970 em se tratando de depilação. Tudo isso porque estava tentando declarar greve às sextas feiras, remotamente pensando que isso ajudaria em alguma coisa. Assim, antes da minha fase atual que inclui tentar dormir cedo todas as noites, mas também inclui uma dose preocupante de masturbação, achei que o problema era a sexta feira e não o que eu acabava pescando, coincidentemente, nesse dia.

E meu método mais eficiente para não querer sair à noite era não estar apresentável o suficiente. Porque, vejamos se você entende meu comportamento digno de psicanálise. Minha aparência é o que me motiva a sair de casa para uma noitada ou não, pois, mesmo que, em algumas ocasiões, eu pareça ter a mais baixa das autoestimas, a realidade é que eu tenho uma inexplicável e doentia fixação pela minha própria imagem. A lógica é: estou bonita saio, estou feia fico em casa. Simples assim.

Então, eu me mal cuidava de propósito pra ser obrigada a fazer pipoca e assistir a um filme do Scorsese ou qualquer outro que não tenha nenhuma grande reflexão sobre a vida. Mas já que estava maquiada e cheirosa – ganhei um perfume de um cliente, soltei meu cabelo só pra ver como ele estava. Meu cabelo estava parecendo ter saído de um comercial de shampoo. Era oficial: eu estava bonita! Fui obrigada a procurar o que fazer.

Troquei de roupa 13 vezes. Tirei 56 fotos com o meu celular no espelho. Fiz meu laquê de microfone quando começou a tocar “Babe, I’m Gonna Leave You” porque não tem como não fazer isso. Onze horas. Taxi. Festa pseudo folk na Augusta. Entrei rapidinho pra não correr o risco de perder o foco na rua por causa da minha fase atual que inclui ser amável com todos, mas também inclui dizer que me chamo Thais. Cheguei tímida, sentada com pernas de índio na beirada do palco enquanto tocava Mallu Magalhães. Encarava o centésimo barbado daquele lugar encostado no balcão do bar do outro lado do salão. Entre nós dois havia uma nuvem de pessoas com coroas de flores e tatuagens de cadeias de carbono, dançando euforicamente ao som de Mumford & Sons.

Nessa minha fase atual, que inclui resolver três exercícios de química, física ou matemática por dia, mas também inclui um estranho vício em laxantes, estava me sentindo muito bem. Depois que eu parei de procurar pelo em ovo, tudo começou a fluir. Eu achei que estava apaixonada nos últimos cinco ou seis meses e eu devia mesmo estar. Foi tudo adorável no começo, um pouco conturbado e irritante no final, mas foi. Não posso mais tentar preencher o espaço vazio que ficou na minha mente somente com as memórias ruins de nós dois. Já filtrei, já removi as impurezas e agora estou leve. Ele foi importante pra mim por um tempo, mas já deixou de ser e isso é um alívio. Clichê, mas foi bom enquanto durou e o resto tanto faz, agora.

Apesar de estar mais maluca do que nunca nessa minha fase atual, que inclui uma conversa séria sobre minha carreira com o meu chefe, mas também inclui aversão a usar calcinha, não pude deixar de aparentar uma inédita sensatez. Bebia minha cerveja, muito calmamente, cozinhando o objetivo da noite que era sair de lá, de repente, com algum cara que pensava estar saindo com a Thais, 25 anos, revisora de textos, e com um telefone verdadeiro gravado no celular.

E, como uma profecia, foi isso que aconteceu. O barbado do bar atravessou o salão, 12 cervejas depois, quando eu já estava falando sozinha e arrancando o rótulo da garrafa com a unha. Ele tinha o tipo de barba de Jesus Cristo – sexy, se é que posso achar a imagem de Cristo sexy, de alguma forma, sem virar uma pecadora. Tinha mãos bonitas. Aliás, tudo que me lembro com exatidão são seus dedos e um anel em seu mindinho. O jeito como ele me pediu pra não tirar os óculos foi esquisito e agradável ao mesmo tempo. E o mais importante: ele disse a que veio. Não me fez nenhuma propaganda enganosa, não prometeu nada que não podia entregar. Não me deu flores, não tentou achar nada em comum entre nós. Achei isso muito genial, e sexy. Era exatamente o que eu precisava nessa minha fase atual, que inclui não me apegar a ninguém, mas também inclui muito exercício físico (do latim, hardcore sexus).

No sábado, ao invés de arrependida, estava satisfeita. No domingo, mais do que nunca, aliviada. Concluí que não preciso mais boicotar sexta feira nenhuma. Se essa minha fase atual se chama promiscuidade ou liberdade, não sabemos. Sabemos que inclui ser mentirosa e desequilibrada, mas também inclui estar em paz.

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