Júlio ou Como Deixei de Ser Vegetariana

Só tinha uma nuvem contínua no céu, um borrão suspenso de água condensada. E um sol tímido por trás criando o contexto num alaranjado borrado espalhado, querendo esvair de uma vez e pretejar logo a casa das estrelas.

Ou não, também. Você acha que eu estava olhando pro céu? Só quis romantizar pra falar do Júlio. Ah o Júlio!
Essa história aconteceu em 2010, ou não aconteceu nunca, ou mês passado. Você Decide remasterizado, falecido da TV Globo.

Realmente a nuvem estava solitária, que nem eu. Comprida, desgastando-se pouco a pouco com cada sopapo do vento, da vida ou à medida que o sol ia baixando. Mas ela não importa. Fui pegar uma salada na mesa. Rúcula, tomate seco e essas coisas. No mês passado, ou em 2010 eu era vegetariana, e ainda assim, estava em um churrasco muito do juvenil num lugar chamado Sítio Novo, que devia ser a área rural de uma cidade onde eu nunca morei, ou morei há cinco anos.

O sol que criava o meu contexto era o mesmo de sempre: arroxeado ou azul, não quente ou forte o bastante para um pôr do sol descente e insistia em me pintar de vulnerável. Em outras palavras: estava fodida. Fodida de um ex-amor, cantarolando Smiths e amaldiçoando quem se atrevesse a andar de mãos dadas. Era um churrasco de casamento, um clichê dos infernos, um pesadelo pra gente da minha laia. E eu pronta pra transferir todo o agrião da tigela pra minha boca e mandar pra dentro o drink azul que o bar tender preparava com todo aquele esmero (era seu debut na mixologia, com certeza!)

Quando dei de tocar naquela tesoura de salada, junto veio a mão mais bem feita por Deus, ou pela mãe e o pai desse menino loiro de olhos verdes. E rodou um filme da Katherine Heigl: Previsível, mas totalmente desejável situação romântica em câmera lenta mental. Nossas mãos se tocaram e ele disse “Primeiro as damas!” e recebeu em troca o meu olhar de canto que se traduziu em “Obrigada!” ou em “Você vem sempre aqui?” ou algo dessa natureza. Quem é fluente em Flertês que diga.

Fui sentar na cadeira de plástico mais distante do tio da noiva. Aquele que faz piada com as solteironas. Há quem diga que eu estava me escondendo. Se foi isso, agradeço ao meu instinto. Quando já estava lá nas azeitonas, sentou-se o Júlio na cadeira ao lado e puxou papo no ponto certo, como quem me estudou antes de se aventurar na arte da conversinha.

– Odeio casamento!

Será que fica mais perfeita essa criatura?

Sacou um charuto e começou a fumar, como se fosse normal fumar charutos em churrascos decadentes de casamento. Eu olhava, abismada, com um pedaço de alface no dente, dizendo que realmente casamentos são “uó!” – maldito mundo LGBT tão presente no meu vocabulário. A verdade é que eu olhava pra nuvem e contemplava sobre onde ela começa ou acaba ou se nada para a luz que refletimos de volta pro universo, isso significa que somos imortais? e sobre quando esse cara ia me chamar pra dar logo o fora daquela merda.

E sabe essa coisa típica de casamento onde a dama de honra vai trepar no banheiro com o primo de terceiro grau do noivo? Essa não é, exatamente, a história que eu estou tentando contar. É só a beleza e inocência da história de amor que começa sem saber que vai ter fim.

Júlio desabotoou a camisa branca por dentro da calça e mostrou a camiseta do Lynyrd Skynyrd que vestira por baixo (pra usar quando já fosse permitido tirar as sandálias e as gravatas), como se estivesse me contando um segredo. Pra ser justa, desabafei que estava louca pra comer um bife sangrando.

Pronto. O que mais a gente precisa saber um do outro nessa vida? Que teste é esse que a gente vai fazer no programa do Rodrigo Faro? Porra nenhuma! Almas gêmeas. Ele cortou um pedaço da picanha da mesa na nossa frente – torci para que fosse dele, – e deu na minha boca. Enquanto fazia o trajeto com o garfo de plástico, explicou porque eu deveria parar de ser idiota e jogar fora, de uma vez, todos os meus cartazes pintados com “Meat Is Murder”. E também porque eu deveria parar de procurar o pôr do sol perfeito e, ao invés disso, começar a apreciar um bom charuto.

Saímos. Escondeu-me sob seu blazer pra me proteger da chuva que veio dissipar a nuvem. Beijou-me impaciente. Tragou seu charuto. Foi como o conheci.

O resto é história enterrada na minha caixinha-de-guardar-ex.
O resto é só ok.

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