Vinícius ou Como Comecei a Fumar

Quando acendia o fogo só deixava mornar. Nenhuma leiteira derramou leite e nada nunca queimou, ardeu, fez-me espalhar creme dental na pele. Até que em 2011, ou ano passado conheci o Vinícius.

E ele foi fulminante.

Não me lembro direito que background figurou naquela noite. Lembro só que era noite. Porque ele não deixava espaço pra cenários, eu não conseguia focar. Lembro-me que havia fumaça e quanta fumaça. Vinícius fumava três cigarros toda noite no mesmo banco de madeira do deck 3. Nunca o encontrei em nenhum dos outros 14 decks.

Eu, com bagagem mínima da vida, 18 anos, semi desvirginada, olhava pra ele como quem assiste um pornô escondido dos pais. Todos os meus romances tinham sido só da pele pra fora. Ninguém aligeirava coração nenhum aqui dentro antes dele. Ninguém dava suadouro, tremedeira, gagueira. Ninguém me deixava tonta. E eu, possivelmente, nem sabia que podia sentir tudo isso e que seria intoxicantemente bom, antes de ficar ruim.

Uma noite subi as escadas que davam na parte de trás do banco onde ele costumava se achegar pra tragar seus 3 cigarros e, arrumando o decote, sentei-me ao seu lado e pedi um. Eu sabia exatamente a aparência de ninfeta que me adornava e tudo que isso podia me proporcionar. Não porque eu tivesse uma intenção pré existente, mas porque ele me despertava toda a sexualidade do universo.

Eu nunca havia colocado um cigarro na boca. Alias, uma educação rígida e religiosa me impedia disso.

Vinícius não tinha nada de incomum, e por conseguinte, nada de sexy por assim dizer. 27 anos, calos nas mãos. Apertava os olhos pra tragar, segurava com o indicador e o dedão uma bituca amarela. Atmosfera despreocupada e despretensiosa, como quem pouco se importa com tudo que parece importar. Enquanto ali estava, olhava o tempo passando, o mundo acontecendo e eu sabia que jamais poderia compreender o que flanava por dentro da sua cabeça. E esse conjunto era excitante como a primeira vez de qualquer coisa controversa: Sexo, drogas e Rock n Roll.

Na noite do meu primeiro cigarro, que foi também a noite de várias outras primeiras coisas, eu não era nenhuma ignorante sobre ele. Eu já o havia visto lá, fitava seus movimentos por detrás, tinha uns bons sonhos semi-eróticos (que são eróticos, mas românticos, se é que essas duas coisas podem coexistir nos dias de hoje, apesar de deverem). E nessa noite não pude mais me conter. Eu queria, no mínimo, ouvir sua voz pigarrenta – como ela era nos meus sonhos. E finalmente quebrar essa timidez que durante a vida toda me fez sombra.

Quando traguei o primeiro ele riu.

– Você nunca pôs um cigarro nessa sua boca, não é menina?

Me chamava de menina, por muito tempo, mas a única vez em que senti um beliscão foi nessa primeira vez. Um beliscão em todo canto. E então ele fez-me observá-lo para aprender. Por três tentativas, falhei. Quando finalmente consegui, tudo se perdera: virei fumante e apaixonada. Veja tudo que me fez esse homem.

Fumamos mais dois e seguimos pra sua casa.
Durante esse tempo, falamos sobre tudo e nada. Não me recordo de ter mencionado nenhum passado. Nem eu e nem ele. Não me recordo de ter perguntado seu nome. Não me lembro de nada além do banal. E quando chegamos, para minha surpresa, eu já estava madura o suficiente pra não precisar esperar nenhuma atitude.

– Posso dizer só mais uma coisa?

Antes que ele pudesse replicar, eu já apoiava as mãos unidas em sua nuca e jogava meu peso todo pra cima dele. E ficou claro que eu não queria lhe dizer coisa alguma e que palavras eram totalmente desnecessárias, como sempre são. Na minha cabeça e no carro, o Jimi Hendrix cantava “Are You Experienced” e eu respondia que sim. Agora sim. Porque qualquer droga não me daria tanto barato quanto aquilo.

Era a primeira vez em que eu estava totalmente no controle de alguma situação, nem que isso fosse uma sensação existente só dentro do meu cérebro. Mas, veja, não havia nenhum outro que pudesse dizer de boca cheia “Ela procurou por mim”. Eu era a medrosa das relações amorosas, e tudo que veio antes do Vinícius foi passivo, sem graça, e mundano.

Apesar disso, foi com ele o maior número de caquinhos em que se partiu meu coração, 15 meses depois. Tudo porque eu ainda não tinha os poderes mágicos de hoje que apitam quando eu sinto que vou ser sacaneada por alguém e era só uma adolescente com muita libido. No entanto, nunca me recordo dele sem molhar a calcinha, nunca me recordo dele como um dos babacas que me machucaram.

Ele é simplesmente Vinícius, o cara que me ensinou a fumar.
Que me ensinou a usar o fogo alto e desconstruiu a ideia do tanto-faz.

O resto é história enterrada na minha caixinha-de-guardar-ex.
O resto é só ok.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s