Pedro ou Como Eu Ensinei Cultura Pop e Sexo

E me olhava o Pedro, esse sensível, imaturo, intenso, confuso, delicioso e adorável menino. E também quantos mais forem os seus atributos. Não é o Romantismo um amontoado de adjetivos? Deixa, então, eu caracterizar esse sujeito! Adoro uma análise sintática.

E esse magrelo e lindo me olhava por cima dos óculos pelo retrovisor, me despia com os olhos pelo retrovisor. E pouco se destacou o Josh Homme que cantava no rádio, a metade da lua que apontava no céu ou a festa que rolava na rua e que a gente deixou pra trás às 3 da manhã de uma quarta feira.

Pedro pode ser duas pessoas.
Pode ser parte da minha imaginação. Pode ser o que você quiser. Mas, permita-me! Não exagero, não minto uma só palavra ao descrevê-lo. Cru, como um alimento não preparado, e inocente, empurrou o rapaz parado entre nós e, apoiando-me numa parede rabiscada, beijou-me com uma urgência admirável. Pegou sua cara de moleque e seu sotaque indeciso entre São Paulo e Curitiba e cismou com o meu umbigo quando já estávamos a sós, dentro do meu carro.

Era quarta feira e tinha festa. Férias são o absoluto êxtase entre os 18 e os 22, quando ele era calouro e eu era veterana. Pedro ia ficar em seu quarto, vendo um Lars Von Trier, quando o enviei uma mensagem de texto eufórica demandando que ele viesse. Ia ter cerveja, uma banda, estava calor o suficiente pra não precisar de casaquinho. Todo mundo ia estar lá, eu ia estar lá. Além do mais, eu precisava dar a largada. Já era julho.

Com ele, sentia-me ligeiramente superior. Porque retrucava seus argumentos com sabedoria, usava palavras que aprendera no meu curso superior quase concluído – o mesmo que ele dera início seis meses antes. Falava com propriedade de todos os lugares para onde fui, todas as comidas que provei e todas os filmes que vi. Ele ouvia, muito atento, muito calado, olhando pros meus olhos, no fundo, numa admiração boba que, ao mesmo tempo, parecia imaginar a que horas o vocabulário afiado dava lugar pra qualquer coisa mais física. Assim, do jeito que eu gosto!

Antes disso, a coisa mais adorável era como ele sempre esperava o próximo elevador só pra dar tempo de eu chegar. Como ele lia todos os livros que eu recomendava só pra gente poder bater papo na cantina à tardezinha. Ele até começou a gostar do Palahniuk, ele até ouviu todos os 14 álbuns do R.E.M, sem pestanejar.

Jamiroquai, ele ouviu. Ouviu Cyndi Lauper, viu episódios perdidos do Snoopy deitado do meu lado.
O Jeff Buclkey, aquele cara com um álbum em minha homenagem, ele deve ouvir até hoje.
Depois de um tempo, podíamos discutir por horas sobre todas as formas como o Woody Allen é maravilhoso.

É por tudo isso que ele foi uma coisa deliciosa de se descobrir naquela quarta feira. Porque ele me provocava orgasmos intelectuais, ele ria das minhas piadas sarcásticas sobre gente gorda ou com citações de sitcoms norte-americanos. Se ele podia ser esse nerd comigo, ele podia ser esse nerd com a pegada (surpreendentemente) mais deliciosa do universo comigo. E iniciar toda uma vida de gente grande comigo, sou ótima nisso!

Até ele virar esse nerd que conheceu uma ruiva (são sempre ruivas!) e foi pro dorm dela sem mim. Mas até esse infortúnio acontecer, era tudo uma mistura de cultura pop e sexo no meu carro e quem mandava naquela merda era eu!

O resto é história enterrada na minha caixinha-de-guardar-ex.
O resto é só ok.

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