Dos Amores, O Platônico 

Aconteceu!
Finalmente eu fui atropelada por uma bicicleta.

Fico surpresa que tenha demorado tanto tempo porque eu sempre cruzo as partes vermelhas da rua como se não houvesse amanhã. E eu sempre defendi o Haddad, eu sempre falei que era bom ter ciclofaixa. Pra chegar um dia, eu atravessar sem olhar e ser surpreendida por um ciclista.

Ele estava bem devagar (era subida). E praticamente estava andando com a bicicleta, mas aconteceu que nenhum de nós viu o outro. Minha bolsa caiu no chão, rolou pelo chão um desodorante, meio saco de Gummy Bears e uns trinta grampos que eu insisto em deixar soltos dentro da bolsa. Além disso, um shampoo anti caspa que eu tinha acado de comprar. Nada demais.

Mas o ciclista tinha um sorriso torto e assimétrico que me ganhou depois de alguns segundos, o quinto amor platônico da semana. Eu gosto de sorriso torto e assimétrico. Eu gosto de assimetria, não é novidade pra ninguém. Assimetria e mãos. E bigode. Essas coisas. Acabei de descrever o ciclista.

Fiquei triste que ele já sabia que eu tinha caspa.

Aí ele me ajudou a levantar, a recolher meus pertences do chão. “Machucou?! Não?” Não machucou nada, ele estava muito devagar mesmo, foi quase um esbarrão cotidiano só que com duas rodas e um cesto (a bicicleta dele tinha um cesto com um caderno de desenhos, que adorável!). Então ele sorriu com aquele um milhão de dentes errados, tirou um graveto que, de alguma forma macabra, se prendeu no meu cabelo caspento e partiu sorridente pedalando, desaparecendo da minha visão na estrada rubra dos transportes limpos.

Ah, as bicicletas! Quantas surpresas nos fazem!

Segui pra casa com um arranhão no braço direito. E cinco pensamentos:
– Pra onde ia o ciclista?
– Será que o leite que está há duas semanas na minha geladeira já venceu?
– Porque eu estava com caspa?
– Será que ele foi embora pensando em mim?
– Quando encontrarei o amor da minha vida, um cartunista, ciclista que tem uma biblioteca, faz panqueca de brócolis com queijos, me enche de beijos e me diz todo dia que vai ficar tudo bem?

Tudo que se passa pela minha cabeça diariamente, exceto a parte do caminho do ciclista, porque não é todo dia que isso acontece. Ele foi em direção a zona oeste, tinha uma mochila nas costas. Será que estava voltando do trabalho? Eram quatro da tarde de uma terça feira azul com nuvens, uns quarenta porcento de chance de chover, vinte graus. Eu tinha tido uma crise de pânico dentro do ônibus, daquelas que sempre tenho em transportes públicos e estar sozinha me deixou ainda mais aterrorizada.

Senti vontade de saltar do ônibus umas três vezes em pontos aleatórios que ficavam em lugares extremamente distantes da minha casa, mas o pensamento de me perder ao tentar voltar a pé me dava mais medo, então sosseguei meu facho até chegar.

Não te dá medo pensar que você pode morrer na rua sozinho e que ninguém ficaria sabendo por muitas horas ou dias?

Acho que é por isso que eu vivo enfiando os estranhos que eu encontro por aí dentro das minhas possibilidades. Por questões práticas: às vezes preciso que segurem minha mão e digam que eu não estou louca, que nada é apenas parte da minha imaginação, que eu vou chegar em casa bem.

Cheguei em casa, lavei os cabelos. Senti ainda mais solidão quando preparei jantar só pra um.
Dos amores, esse é o tipo que eu mais gosto. O que some na ciclofaixa e não se dá ao luxo de decepcionar.

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