O Ponche

Fui pra sala pra pegar mais ponche. Fiquei empolgada que eu tinha feito ponche praquela festa. E que eu estava dando uma festa. E que eu tinha improvisado um moicano – Gastei todo o laquê. E então enchi o copo de ponche. Só eu estava tomando o ponche. Não foi, exatamente, um sucesso, mas tinha uns 10 litros – bebi tudo sozinha no decorrer da festa.

Eu que tinha organizado a festa. Era Halloween, tinha um Coringa, um Cisne Negro na festa. Sabe-se lá porque eu fui fantasiada de moicano. Uma bandinha tocava, o baixista cego, o papagaio no quintal e o anão. Tudo isso era a decoração da festa. Toda hora chegava mais gente que ninguém sabia quem era. Talvez eu tenha divulgado demais.

– Oi, esse é o Renan.

Dei dois beijinhos no rosto do Renan. Bezadeus, Renan!
E fui encher mais o copo de ponche.

Do lado de fora, em meio a tanto baseado e Lionel Richie – festa de dois ambientes, a noite estava linda, apesar de ter chovido mais cedo. Tinha um enorme tapete de barro, uma pedra que dava pra apreciar a lua enquanto se bebia ponche – mas ninguém bebia ponche, só eu.

Vários pedacinhos de abacaxi e maçã boiando, que coisa mais linda!

Era a primeira vez que eu era a anfitriã. Dei boa noite a todos, fiz uma social. E eu nunca fui social. Mas moicano me dava uma sensação de poder, ou o ponche provocava isso. Não se sabe. Também, que teor alcoólico tem um ponche? Uns espumantes, uns vinhos baratos com pedacinhos de fruta. Coisa pouca.

Já entupiram o banheiro, já esconderam uma garrafa de Jack no meio das árvores pra brincar de uma forma nova de esconde-esconde. Já tive que guardar aquele papagaio pra ninguém machucar ele. Renan estava muito sóbrio e muito lindo conversando com três rapazes na sala onde eu ia toda hora beber ponche. E, quando ficou sozinho, cantarolou ela-disse-adeus-let-her-get-on-with-life-let-her-have-some-fun. Isso, deixa?

Minha festa tinha Mocinha de morango. Comi muitos.

Quando percebi estava com o Renan num dos banheiros falando sobre a vida. A vida do feixe do meu sutiã e também a vida da língua dele na minha orelha. Mas sério, falamos sobre a vida, mas já tinha acabado o ponche. Eu tinha bafo de maçã, segundo ele. Ele tinha calo nos dedos, morava na casa dos pais, tinha três cachorros.

Mas antes.

Cerveja com ponche porque fizeram aposta. Achei a garrafa de Jack, bebi um terço dela numa outra aposta. Meu moicano caiu, o Coringa tinha maquiagem preta dos olhos, o Cisne Negro tinha batom vermelho borrado nos lábios. Faziam algum tipo de intercâmbio num threesome envolvendo o anão. Fumei uns três cigarros um atrás do outro olhando pro Renan cantando a lanterna dos afogados e todo o repertório super variado da banda na sala. Sentei sobre a pedra, chorei no ombro de um amigo enquanto elogiava a lua, pisando em barro fresco. Cortei meu pé, escorregando na lama molhada também de ponche. Começaram a tomar o resto do ponche, finalmente.

Do banheiro pro quarto são três passos. Do feixe do sutiã pra calcinha é um pulo. Das luzes fracas pra nenhuma luz demorou um puxão de cabelo. Talvez eu tenha sido barulhenta. Derrubei toda a penteadeira e um espelho pra procurar uma bendita de uma camisinha – achei, mas sete anos de azar! Talvez eu tenha sido mais barulhenta depois que achei.

O barro secou, o ponche acabou, a banda tocou a saideira. Jack virou só uma garrafa vazia. A lua saiu da órbita da pedra. E Renan era o baixista cego que se chamava Rodolfo. Ponche!

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