Pra onde vai o amor?

Acordei, enrolada num cobertor. Desci pra buscar o jornal na parte de fora. Brinquei com um cachorro de olhos verde água que estava preso pela corrente no portão. Que diferença tenho dele?

Do passado estampado no meu desktop quase não ficou nada. Algumas cicatrizes – principalmente as do joelho. E nem me lembro qual parte da manhã eu gostava mais (lembro e era a parte que eu bagunçava o cabelo dele). Peguei o jornal enrolado num plástico, e assim ficou, só que jogado ao lado da minha cafeteira.

Ao invés de ver quais notícias sangrentas ou desconfortantes iriam saltar daquelas páginas, resolvi fazer uma faxina. Que vida não precisa de faxina, às vezes? Tinha muita tralha espalhada, mal dava pra andar no meu quarto. Tirei muitas gavetas, pó, teia de aranha. E só moro aqui há um ano e pouco. Não sei como cheguei a esse ponto.

De uma caixa de sapato saiu um bilhetinho, de quem eu bagunçava o cabelo de manhã. Li, reli, três vezes. Lembrei-me que aperto me deu quando li a primeira vez e percebi o vazio sentia lendo agora. Um bilhete dobrado em quatro, mas que ainda tinha as marcas das dobras em forma de coração. Juro, não senti nada.

Pra onde vai o amor que não mais se sente?

Eu sei que sentia, num tempo que parece tão distante quanto as fotos no meu desktop. Eu sentia paixão, eu sentia tesão. Eu não tinha escrúpulos, nem limites – quem ama não tem nada disso. Eu, eu mesma que hoje durmo com cobertor, mas antes dormia só com ele por cima de mim, e tecia desculpas pra encontrá-lo no banheiro escondido do décimo andar. Eu mesma que chorei tantos litros ao deixá-lo. Que sorri largamente ao revê-lo. Que senti um coração estremecendo com a ideia de nunca mais poder bagunçar aquele cabelo.

E agora era nada.

E agora era só um bilhete dobrado em quatro, com promessas que já foram quebradas há muito tempo e que não fazem mais nenhum sentido. Era ainda menos relevante que o jornal, que o café, o cachorro. Era só um pedaço de papel.

Alguns dizem que se transforma.

O amor se transforma. Vira rancor, vira um incômodo. Vira uma caixa de sapato com os pertences dele, todos amassados, jogados por cima de memórias que você não quer mais ter. Amarrotados como ele te deixava quando te apertava, quando tinha amor. Amarrotado como seu ego ficou. O amor se transforma em receio, em arrependimento, em amargo, em um monte de lugares que você passa a evitar.

Ou o amor se guarda na mesma caixa de sapato. Intacto, dizem outros.

Mas você não quer mexer na caixa de sapato, nunca. Do mesmo jeito que jurou nunca esquecer o beijo no seu nariz que ele gostava de te dar ao acordar – e mesmo assim esqueceu. Esqueceu de comprar beterraba que você odiava, mas era pra ele. Esqueceu de colocar duas canecas na mesa pra tomar aquele café.

Pra mim o amor se perde.

Vira um quadro que você pendura na parede, assinado por um pintor que já foi o seu preferido quando você tinha 22 anos, com uma moldura que hoje você acha brega e empoeirada, e que você nem repara mais ao entrar. Vira um bilhete, uma esquina, uma música que hoje são só um bilhete, uma esquina e uma música que um dia você conheceu. E nada mais.

E você sabe que existiu, mas você guarda de volta na caixa de sapato, termina sua faxina, vive a sua vida. Com a mesma apatia com a qual você se desenrola do cobertor e desce pra buscar o jornal.

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