O Ciclo 

Acompanhe o ciclo: conhece, escolhe, duvida, gela a barriga, gosta, desgosta, chora, esquece, recai, esquece de novo e pra sempre. E assim caminha a humanidade. Só que cada vez que esse ciclo se repete suas energias estão um pouco mais gastas. Você tem mais dúvida, sua barriga gela e não é de uma forma gostosa como costumava ser. Agora gela de medo de ter que passar por tudo de novo, gastar mais dinheiro com macumba, gastar rímel… Esse texto é pra te lembrar que isso tudo não é nenhum motivo pra hesitar. Vou me usar de exemplo pra não expor nenhum desgraçado desiludido.

Pronto, estou escrevendo cartinhas de amor de novo, mas que merda! Mas é porque é tão delicioso deixar-se molhar pela tempestade do romance que, mesmo que saibamos que hora ou outra aquela pessoa vai nos enfincar o pé nas nádegas, deixamo-nos envolver e adoçamos um pouco a amargura do coração partido.

E, ainda por cima, escrevi poemas. Essa pessoa fatigada das dezenas de relacionamentos errados escreveu poemas de amor. Dos mais bregas, que embrulham estômagos e fazem uma bagunça danada. Nem publiquei, estavam ridículos. Eu estava ridícula, vulnerável e tola. Como nos ensinam a não ser. Mulher do século XXI é independente, não espera o príncipe, critica a Cinderela e todas as princesas. Mas isso é outra pauta, deixa as feministas mais engajadas escreverem. No que diz respeito a esta jovem coberta de calos amorosos, tudo sempre acaba em pizza. Pizza meia euforia, meia dor de cabeça.

Os romances da gente são, no geral, uma grande dor de cabeça intercalada por momentos de êxtase e orgasmos fenomenais. Nem sempre são completos, ou são inteligentes, ou têm línguas performáticas. Dificilmente colecionarão qualidades. Mas, no final do dia, da balada, o que importa é encaixar.

De alguma forma você se prende. Se prende ao senso de humor afiado, igual ao seu. Se prende ao maravilhoso mundo do tanquinho dele. Se prende aos livros que vocês têm em comum. E, quando se da conta, está escrevendo poemas. O problema começa quando uma das partes se perde. Porque, sim, uma das partes sempre se perde. É um fenômeno da juventude, eu li em algum lugar isso, ou não, só quero embasar o que disse. Mas coloque na cabeça: a não ser que você seja escolhido pra adentrar a nova arca de Noé, uma das partes vai sempre se perder.

Digo isso porque a sintonia que existe entre os casais dificilmente é contínua e, de alguma forma, um sempre vai estar mais envolvido que o outro. E vai parecer um déjà vu, você já vai ter visto esse filme. Você desama, ou ele o faz. Pode demorar mais ou menos, mas vai acontecer, e é aí que entra a minha teoria do ciclo.

Estou ficando muito científica. Vamos poetizar!

“João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.”

Deixando de lado toda a crítica que, não necessariamente envolve amor como um sentimento, podemos desejar empacotar só pra poder dar um chamego no Drummondzinho porque ele traduziu o que é ser jovem e tentar amar, assim como fez aquele que é sábio no superlativo, o Xico Sá, com a sua linda crônica sobre “o pinga pinga do amor líquido”.

Quando ainda não dói amor nenhum é que começa a preocupação. Ah, que abismo me espera, cadê o número do meu terapeuta e o que será que vai acontecer de errado dessa vez? Porque é um clichê soltar balões de coração e ao mesmo tempo esperar pelo pior – ou somos extremamente pessimistas. Mas, veja bem, vamos esperar a decepção aparecer pra depois a gente pensar em se decepcionar com ela. Ok?

Vamos pensar que de galho em galho escrevemos nossas biografias amorosas e de galho em galho aprendemos, cada vez mais, a tirar um bom suco dos limões. Fazer uma torta, quem sabe. Fazer bom proveito de todas as cagadas. O primeiro amor foi traumático, sempre é, mas o segundo, o terceiro, o décimo, esses são, no mínimo, boas recordações, bons textos, bom sexo, boas conversas, boas risadas. A lição que fica é que não importa o quão quebrado ficou seu coraçãozinho da última vez. Você sempre cola ele de volta no lugar e o que sobra são cicatrizes que formam quem você é hoje. E elas não são, de forma alguma, ruins. São suas, ame-as!

Agora, com licença, vou ali quebrar a cara de novo. Já volto!

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