E dessa vez o que?

Contava os dias da semana como uma roleta russa. Sábado saia, sabia: domingo arrependia. Domingo não saia da cama 2 por 97. Colecionava camisetas e correntinhas. No lixo, camisinhas. Jogava o saco fora enquanto era silêncio e segunda feira. Que dia a bala sai do gatilho, pensava.

Não tinha cães ou mãe ou sono. Tinha palavras chorosas, sarcásticas, risonhas e tristes. Ao mesmo tempo. Tinha muita vida, e quase vida nenhuma. Tinha livros na estante. Amargos e gentis. E músicas na playlist. Amargas. Porque gostava das problemáticas, dos problemáticos, dos problemas em geral. Nunca se deixou passar do bom dia.

E cortava as unhas da mão, pintava as do pé de azul marinho. Passava blush cor de pêssego e muito rímel. Não sabia pra onde ia, se voltava, se precisava voltar (não precisava, quem se importa!). Não tinha porta copos, nem hora pra dormir. Pode-se dizer que tinha amigos coloridos, azuis, verdes, amarelos. Mas vivia sépia depois de gozar. Fumava cigarros, fumava canetinhas, fumava um baseado na praça da República e ia pra cama com o primo de terceiro grau da ex amiga do colegial.

Não queria ser mais que uma sexta a noite pra ninguém. Vivia de olás e tudo bens e saudades, bom te ver. E sorria os dentes sem escovar com aroma de vodka. Abraçava o barman, dava em cima do barman, ia pra cama com o barman. No fundo queria se jogar de costas em braços aconchegantes e colocar mais água no café.

Às vezes tenta sair. Às vezes consegue. Depois recai.

Porque será que recai?

Se desfaz em cacos. Sábado a noite saia, sabia: que é que emenda dessa vez? Cola, prego, amor? Liga o rádio, se enrola na camisola de algodão. E tira a maquiagem, pega a correntinha do chão. E dessa vez? Cola, amor?

Dessa vez mais amor, por favor! Passava pela parede de um cemitério desejando praticar o que lia. Mais, por favor? Justo lá que nem amor quase tinha. Tinha só cores e um monte de purpurina, jaquetas e anestésicos. Nem amor quase tinha.

E não sabe o que fazer quando não pensa mais no dia da semana. Não sabe onde enfiar o vale drink da festa na Augusta. Porque nunca se permite porque tem medo de ficar estável porque quer continuar a ser a voz dos mal amados porque se sente confortável no incômodo.

Pois dessa vez o que? Cola?

Não. Dessa vez amor, por favor!

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