Eu, ele e meu pai

Eu e um amigo atravessamos correndo a avenida movimentadíssima fora da faixa, quatro faróis verdes enfileirados na direção dos carros a 100 por hora e grito enquanto corro assustada “estou sem seguro saúde!”. Ele ri enquanto eu, quase molhada de susto, me recomponho do outro lado da Avenida das Américas em plena Barra da Tijuca, numa viagem de merecidas férias. Desde quando isso começou a fazer diferença pra mim? Digo, o seguro de saúde?

Há uns três meses fui golpeada covardemente pela flecha do cupido – esse danadinho que só fazia merda parece que acertou! De uma forma bem aparente (e deliciosa) isso tem me mudado em uma meia dúzia de camadas abaixo da superfície. Esse menino, quero dizer, esse homem de orelhas lindas e redondas me dá flores quando tenho ataques de pânico e faz jantar à luz de velas enquanto me recita poemas em francês (com a voz do Vincent Price). Um dia ele me abraçou, eu sufoquei um pouco em seu suéter enquanto soluçava e chorava porque “a vida não fazia sentido”. Sentou-se ao meu lado, colocou seus braços sobre meus ombros e me pediu pra chorar tudo que eu tinha pra chorar, enquanto me olhava com aqueles olhinhos apertados e serenos.

Depois que tudo passou, no dia seguinte, fui pra casa me sentindo uma bebê chorona. Olhei o meu talão de cheques amassado sobre uma pilha de livros de cursinho e um bichinho de pelúcia do pato Donald. Minhas roupas de brechó estavam por toda parte e talvez alguns ratos vivessem debaixo da minha cama de solteiro imunda. Tinha um lápis de olho, uma camiseta de banda e três presilhas coloridas por cima do meu computador empoeirado e quando eu fui tomar banho, não tinha toalha seca. A vida adulta me mandou um abraço!

Ele é dois anos e sete meses mais velho do que eu. Quando eu nasci, provavelmente, já falava três línguas e já vestia Ricardo Almeida. Renato Russo diria que ele faz medicina e fala alemão, e eu ainda nas aulinhas de inglês. Nossa idade cronológica é até que compatível mas, de alguma forma, a máquina de café expresso na sala dele e o whisky que ele bebe me fazem sentir como uma criança e, ao mesmo tempo, querer ser mais adulta.
Como não pensar que ta na hora de largar o safety blanket que é minha finada autossuficiência e começar a admitir que eu preciso de médicos quando fico doente, que devo dar satisfação a alguém e que ter um lugar pra onde voltar é reconfortante e acalma qualquer dor? Preciso aceitar que eu não sou tão autônoma ou livre como antes e nem mais aquela adolescente destemida.

Eu costumava não ter medo de nada e, de repente, estou no ônibus pensando que tenho medo de ficar louca ou sozinha, de me acidentar, de amputar um membro caso seja necessário. A adolescência é tão mistificada e se diz tão dolorida, mas crescer é muito mais assustador. Aos 25, tenho mais medos, mais angústias, mais dúvidas e, ainda, o mesmo senso de humor, só que agora ser assim não é mais tão bem aceito (nem mesmo por mim). E assusta saber que quem pode livrar minha cara de encrencas está a 70 quilômetros de distância. Agora ninguém vem me buscar onde quer que seja porque está tarde e por que está chovendo. E faz tanta falta essa carona, esse cafuné, esse vai-ficar-tudo-bem implícito no olhar de canto de olho que ele lança do banco do motorista.

Meu pai é um sujeito engraçado. Ele adora piadas de trocadilho e é um abraçador convicto (eu nunca gostei de tanto contato físico, mas aprendi a amar isso nele). Tem um e 68 de muito amor, atenção e chamego. Gosta de cozinhar e nunca se importou com as minhas multas de trânsito porque, quando tinha a minha idade, “também fazia merda”. Ele gosta de coleção de miniatura, é verdão até morrer e canta música brega como ninguém.

Quando eu era pequena, ele conta que eu sempre senti muita segurança em mim mesma. Ele me diz que eu era independente, que dormia num berço sozinha no quarto dos fundos, e não chorava de madrugada. Ele diz também que eu era a líder do grupo de menininhas da rua e que era eu quem decidia do que a gente ia brincar. Agora penso que talvez essa admiração da minha independência mirim também o torna, de certa forma, carente de paternidade. Talvez seja por isso que ele sempre me abraça tanto.

Pai é herói, defende a filhinha do dragão, faz ela dormir. E eu nunca precisei disso.
Não até agora.

Me pego precisando de aprovação toda vez que arrumo o cabelo. Tenho um pouco de medo de estranhos. Quando cai a noite eu preciso que alguém me cubra pra eu dormir e me de um beijo de boa noite. Sim, eu preciso do seguro saúde! Talvez eu tenha invertido o sentido das coisas. Eu fui muito autoconfiante e segura quando eu não precisava ser, e medrosa bem agora que não tem mais papai e mamãe pra acudir a menininha chorona.

E aí ele apareceu.
Me beija na testa, diz que fico linda até chorando. Não quero sair dos braços dele nunca e eu sei que o amo porque acho fácil perdoar seu gosto por manteiga de amendoim.

E meu pai, meu baixinho fã do Reginaldo Rossi, que tem a filha mais desnaturada do planeta, hoje pode ver que ela não é tão independente, e não deve achar que ela não precisa mais de proteção. Ela só parece ter achado um protetor alternativo. Um adorável menino que tem uma biblioteca, faz panqueca de brócolis com queijos, me enche de beijos, me diz todo dia que vai ficar tudo bem.

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