Já vem com créditos

De todos os caminhos entre a Av. Ipiranga e o Largo do Arouche, o que eu mais gosto é o do meio da Praça da República. Toda vez que passo em volta daquele ex-lago limpo, e em meio aos sermões de seitas ou cultos formidáveis, desacelero o passo, dou uma olhada de canto, contemplo o barulho do emaranhado de vozes pra tentar entender o que é São Paulo.

A São Paulo que eu conheço é essa: A calçada craquelada, com meia dúzia de mendigos dividindo o resto do restaurante por quilo da 24 de maio, um peruano, flautas, uma travesti de peitos redondos, três cartazes de ciganas e jogo de búzios no poste, pombas, pombas, pombas, um dread perto da Galeria do Rock, a boa qualidade do ar cinza e denso no display abaixo da propaganda de condomínio (revitalização do centro), pichação em grafite, grafite, cocô e xixi no cantinho da esquina com a banca de jornal, uma pausa para o Edifício Italia comendo bauruzinho, coxa creme, pedaços de bacon colossais na vitrine das padarias, passa uma manifestação com fome, um spray de pimenta, mas só vê latinhas, latinhas, latinhas. E ainda assim passo pelo meio da praça e imagino que tantas vidas permeiam os outros caminhos por dentro da mesma praça e que labirinto alucinado é aquele. Quando eu saio do prédio que suporta aquele monte de ar condicionado pra fora, lá da 7 de abril, e cruzo a maior faixa de pedestres que já vi (certamente a mais larga), não me imagino virando nem direita nem esquerda. Tenho que ver qualé que é a do prédião iluminado de rosa. “Chip da Tim, já vem com créditos cinco reais” (!).

Pra falar a verdade, tudo que eu queria era um dia chegar lá e comprar aquele lustra-chão-do-calçadão que deixa o paralelepípedo da Barão de Itapetininga brilhando. Ou chegar um dia e dizer “quanto é que custa esse boubou preto e amarelo, lindíssimo?” Mas aí perde a graça. Eu sou expectadora de toda essa massa de gente psicodélica que caminha desnorteada. Não vou dizer que não morro de medo. Toda vez que ouço ambulância, algazarra de cracudo, carro de polícia me gela as entranhas, me apaga qualquer coisa que seja que eu vinha pensando, e só me passa na cabeça que talvez eu não chegue do outro lado. Mas, simultaneamente, no meio da voz da minha mãe que grita entre as minhas orelhas pra eu tomar cuidado por onde ando, meus olhinhos brilham e pedem pra ver mais daquele cara comendo a marmita prateada no sol. Talvez eu veja um corpo esfaqueado, ou talvez um mendigo sujo e mal cheiroso venha me falar sobre Jorge Amado e poemas do Vinícius de Moraes.

Gosto desse caminho porque piso em ovos, mas sempre tenho o que contar pra próxima pessoa que eu ver (ou no meu futuro livro, ou só pra gravar na memória). Entre os puteiros da Rua Aurora e o moço que toca o tema de Réquiem For A Dream em um violino desafinado, na entrada do metrô, está São Paulo. E eu passeio por lá, como quem só quer atravessar a praça de uma ponta a outra, como quem só quer transitar, chegar logo na Consolação. E que, da mesma forma, é abraçada pela imundice da cidade e não quer largar mais de jeito nenhum.

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