Explique

Hoje eu resolvi ir de metrô pra casa porque estava meio enjoada do percurso de ônibus e também porque minha bicicleta ainda não chegou. Quer seja por uma coincidência quer seja por que eu sou uma garota bisbilhoteira, enxerguei por cima dos ombros de uma moça loira, de três dedos abaixo da raiz, uma mensagem em seu celular que se dava da seguinte maneira:

– Eu vou te fazer feliz!

Era Jorge. A foto parecia indecifrável (o pequeno ícone a direita só mostrava um boné verde) e a mensagem única, o que significa, talvez, que não houve conversa prévia. Passei minha estação porque deixar essa história sem final seria um pecado. A senhora loira – devia ter seus 40 – parecia não estar com pressa. Jorge fez uma promessa, uma bem séria e que demanda mesmo cautela na réplica. Será que são namorados, marido e mulher, conhecidos do último baile? Ela coça a cabeleira amarela, encara o cursor que pisca como quem apressa um retardatário. Eu estava com ele, o cursor. Queria ver que coisa bonita essa senhora falaria, que agrado diria ao Jorge, esse apaixonado que só quer colocar um sorriso entre as orelhas da Goldie Hawn paulistana (passei a chamá-la assim na minha cabeça, já que não consegui ver seu nome). E o que eu diria ao ouvir ou ver essas palavras? Que reação teria, ficaria animada ou lisonjeada, talvez, confusa? Iria eu imediatamente mandar um print da conversa para minha melhor amiga? Antes que eu pudesse pensar em respostas, eis que Goldie resolve escrever, com seu indicador direito e as unhas vermelhíssimas como garras:

– Explique

Assim sem pontuação e apagou o celular, o jogou pra dentro da bolsa, trancou com zíper, olhou pra frente como quem pouco se importa. Depois desceu e eu não vi desfecho – e vocês também não.

Ah, Goldie, me diz que coragem é essa de pedir explanação, de desligar na cara do felizes para sempre, de querer os pormenores da jornada alucinada pela qual Jorge passaria tentando fazê-la dar um sorrizinho. Achei falta de educação. Quem questiona o amor é grosseiro, é egoísta, é, até mesmo, meio auto flagelador. E pensa no quão complicado é ter gente por aí que quer seu bem e, não só isso, que quer ser a razão do seu bem. Não tá fácil de achar.

Desabafos a parte, esse episódio do metrô me deixou incomodada o resto do dia. Não sei se posso julgá-la também. Não faço ideia do contexto de Jorge, da senhora, da situação toda. E só posso dizer no que isso me afeta, no máximo. A questão é: quantas promessas ouvimos de olhos brilhando e de boca calada que nos derrubam das nuvens hora ou outra simplesmente porque não pedimos explicação? Fazer alguém feliz não é como fazer um sanduíche, demanda certas coisas que, depois de alguns tombos, ficamos aflitos pra entender como essa missão pode se dar.

Eu quero ser essa romântica que coloca a senhora do metrô no clube do sargento pimenta mas a felicidade é abstrata e ninguém garante que vai fazer o outro feliz, apesar da intenção ter sido das melhores.

Mas então, Jorge, explique-se, agora que me deixei esfriar da euforia de ver suas intenções com a Goldie.

O que é fazê-la feliz pra você? Você vai amá-la, vai respeitá-la, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza? Vai tratá-la com nada mais do que honestidade? Talvez essa formula funcione, quem vai dizer.

Mas eu olho pra dentro e vejo que nem toda a boa intenção do mundo previne um coraçãozinho de chorar de vez em quando. E toda promessa um dia deixa de fazer sentido. E toda felicidade tem duas faces. Que mal faz a Goldie em querer saber mais detalhes?

Não dá pra prever o futuro, Goldie, não dá pra saber se Jorge vai ou não cumprir tais juras e que caminhos há de trilhar pra fazê-lo. Talvez seja simples, talvez ele tente melhorar o seu dia com um pouco de carinho quando você chegar em casa depois do metrô lotado de hoje. Ou talvez suas palavras se percam com a atualização do software. Não sabemos.

Por via das dúvidas, Jorge, explique

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