Dia 541

Eu o amei aos poucos. Primeiro amei que ele queria muito muito me amar. Não sei se  a essa altura já amava, mas sentia que queria muito. Depois o amei por ele e por tudo que ele era independente e antes de mim. O amei, também, porque ele fez com que eu me amasse e me mostrou que isso era muito fácil – apesar de toda a minha resistência. E hoje o amo pela combinação de tudo isso (nosso amor entusiasmado, nosso amor emocionado, nosso amor inesperado, nosso amor crescente, nosso amor adolescente e finalmente nosso amor maduro, o de hoje).

Essa metamorfose que é nossa cabeça, nosso coração, nossa história juntos leva de cada fase um vestígio: Eu amei primeiro sua orelha porque era a mais redonda e labiríntica que já tinha visto. Eu amei seu ombro e as milhões de vezes que nele chorei só no primeiro mês. Eu amei seu francês, romântico, encantador, serais-tu ma petite amie?, e virei logo o petit bebe (apelido favorito). Eu amei que todo minuto eu sentia falta dele.

Eu amei todas as coisas minhas, dele, nossas que conquistamos: dedicação e ele é mestre, cumplicidade e tenho uma casa nova, paciência e volto a ser aluna. As noites desbravando sua biblioteca e as pintinhas que ele tem nas costas logo vieram, ficaram, se estenderam. As crises minhas – as inúmeras – todas elas foram lavadas, uma a uma, pra fora do meu sistema, com calma, carinho, amor.

Eu o amei quando ele primeiro me amou: passei a noite o amando em segredo, passei a noite imaginando quais três palavras o falaria, em qual momento, de que jeito. E, sábio que é, ele disse pra poder destravar minha língua. Nunca mais paramos. Não pararia, não deveria deixar de dizer, como se nunca bastasse. E criamos o nosso idioma, pra poder dizer ainda mais.

E hoje o amo, como companheiro, como amigo, como amante, como uma pessoa completa, por todas as partes dele, de mim, da gente de forma totalmente nova mas que de alguma forma conheço muito bem. Digo amei, mas não é pretérito, é o montante, são os 541 dias juntos e condensados – sim, eu fiz as contas! E não é novidade nem uma descoberta, muito menos um terço de tudo o que há. É que às vezes o tempo passa, a chuva leva, a nuvem esconde e é sempre bom lembrar.

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