Sutilezas

Fiz um pacto comigo mesma de não escrever sobre coisas difíceis ou textos dos quais eu saia aos prantos. É assim que costuma acontecer, porque a escrita é uma forma de descarrego e por mais merdas que sejam seus frutos, esses momentos de digitação aliviam o peso dos meus ombros. Se é que tenho peso, ou ombros.

*

Tenho certa antipatia por cobradores de ônibus. Aliás por qualquer pessoa cuja presença me sugue pra uma atmosfera na qual me sinto em desvantagem, como quando fico refém do transporte coletivo e só tenho no bolso uma nota de vinte, para a qual eles nunca têm troco. A implicância, na verdade, é menos um desprezo gratuito do que uma sensação de que esses estranhos têm certo poder sobre mim. Porque eles têm, de verdade, o poder de decidir se eu vou ou não atravessar a catraca e, embora eu tenha saído sem pagar em muitas ocasiões, coisa que me colocaria em vantagem, sempre desço as escadas do ônibus me sentindo a passageira mais impotente. E então fecho a cara, pareço ser muito mais desagradável do que realmente sou. Jogo a nota de dinheiro em cima daquela gavetinha cinza onde ficam as moedas com tanta força que se cédulas fossem mais pesadas talvez eu quebrasse alguma coisa. E então me olham de canto julgando meus passos pesados e raivosos como se eu não tivesse o direito de ficar emputecida com essa pessoa maldosa que não quis calcular o troco pra mim. Se tem uma coisa que desestrutura a gente é o posicionamento de indivíduos na vertical. Essas pequenas autoridades aleatórias têm exatamente o poder de ditar se seu dia vai ser tranquilo ou turbulento, se você irá sentado ou em pé pro trabalho. E é também por isso que eu comprei uma bicicleta.

*

Todo dia me impressiono com a minha capacidade de tomar decisões equivocadas. Começa quando decido parar para amarrar os sapatos na rua e, nessa fração de segundos, acabo perdendo o ônibus. Na verdade, se você for parar pra pensar, tudo começa quando eu decido pegar o elevador que tem espelho ao invés do sem espelho, que é muito mais rápido, só pra poder arrumar o cabelo antes de dar as caras na rua. Mas, por outro lado, se eu não decido sair pela porta da cozinha e sim pela porta da sala eu não esbarro no vaso de plantas que tem perto do batente da porta e não tenho que limpar toda a sujeira. Tudo parece desandar, na verdade, quando eu decido passar fio dental depois de escovar os dentes, coisa que eu só faço raramente e quando tenho tempo, e eu nunca tenho. Mas se eu não decido comer um sanduíche de queijo com orégano de manhã eu não tenho que me preocupar com aquela coisinha verde presa no meu sorriso. Na verdade eu não devo decidir comprar orégano quando tenho a oportunidade de não comprar e eu preciso decidir ir pra cama mais cedo para assim poder acordar no horário e conseguir arrumar meu cabelo no espelho da minha casa e não no do elevador.

*

Jessica terá um bebê e este será o seu segundo bebê. Talvez no ano que vem eu tenha um cachorro e este será o primeiro.

*

Há um moço no metro butantã, loiro de cabelos um pouco emaranhados até os ombros que sempre que passo lá está admirando seu próprio reflexo no vidro da esquerda pra quem vem da Vital Brasil. De cara, parece um mendigo que elegeu a estação como seu mais novo lar, que tem umas alucinações loucas e que é super narcisista. Se olha, se arruma, conversa consigo mesmo, às vezes como numa conversa de bar, às vezes tomado por uma raiva mística de modo que grita e bate no vidro com força. Reparei que troca de roupas sempre. Esses dias passei e estava usando uma camisa vermelha e enfiava os pés imundos num chinelo Havaianas que parecia recém comprado. No dia seguinte usava calças – limpas e passadas -, e um Crocs – não tão limpo. Nunca o vi conversando com ninguém além de si mesmo ou pedindo alguma coisa, acho também que ele não fede tanto. Apesar da roupa limpa, não parecia ter lavado o cabelo naquela semana. O cabelo fino, a pele branca e bronzeada, um e sessenta de altura, mais ou menos, e magro, mas não raquítico. Fico intrigada com esse rapaz. Ontem, entrei no ônibus indo pra USP e ele estava sentado no primeiro banco, aquele logo atras do motorista e lia um livro de bolso de páginas amareladas, talvez em alemão. Usava o mesmo Crocs sujo e parecia ainda não ter lavado o cabelo.

*

A faculdade de filosofia, letras e ciências humanas da USP é uma espécie de parque do desconforto ao qual você quer ir sempre. É onde se juntam pessoas que tem um coração bom mas não sabem usa-lo e pessoas que sabem, mas são ruins. Todo dia chego adiantada uns trinta minutos e tenho vontade de morrer durante todo o tempo em que a aula não começa. Não posso evitar de ouvir as conversas alheias e de ficar irritada com a prepotência desmotivada dos alunos recém saídos do ensino médio ou com o clube de percussão que se encontra toda quinta debaixo da janela da minha aula de fonologia e fonética do português. E é somente durante a aula que entendo por que estou lá. No dia seguinte sempre fico ansiosa pra pegar o 8022 e parar na frente da FAU ou antes, assim caminho um pouco pra perder a barriga.

*

Não entendo como é possível descobrir, só depois de velha, que o meu corpo não é exatamente simétrico. Existem dobras infinitas na minha barriga agora e demoro mais pra me recuperar de hematomas. Sei que estou na chamada flor da idade e que pareço uma babaca reclamando de mudanças corporais acarretadas pelo envelhecimento, mas isso é menos uma reclamação do que uma reconhecimento. Sinto que finalmente entendo as dimensões do meu quadril e entendo que não há problema algum em pedir o número 42 e não comprar mais na Forever 21. Os sutiãs não necessariamente precisam de bojo e, na verdade, nem sei mais se é tão vital de fato usar um sutiã. O ruim é perceber isso quando seu guarda roupas já está, de alguma forma, estabelecido. Não é do dia pra noite que se aumenta um tamanho em todas as suas peças. Demanda investimento financeiro e aceitação. Não tenho tido muito a primeira e estou realmente querendo trabalhar a segunda. E é também por isso que eu comprei uma bicicleta.

*

Não posso evitar de identificar a grande metamorfose ideológica pela qual passei desde que me mudei pra São Paulo, em 2014. Me lembro muito bem de parar no farol na minha velha cidade, com o meu golzinho quadrado 91, e entregar um cobertor, que nem meu era, a um mendigo que me pedia moedas através do vidro. Era inverno, meados de maio. Na verdade acho que era outono mas ventava frio, acho que eram umas cinco horas da tarde. Eu usava aquele cobertor velho pra aquecer quem quer que estivesse desacordado na volta de alguma festa em Campinas ou pra cobrir os vidros quando resolvia transar no carro. Simplesmente peguei o cobertor do banco de traz e o entreguei ao pedinte que logo deu um belo sorriso banguela enquanto se enrolava naquela manta azul. Hoje passo pelas infinitas esquinas onde essas pessoas se achegam e só consigo sentir a satisfação de me lembrar sempre de tampar o nariz. E é só isso. E em muitas das vezes não são só esquinas, mas ruas inteiras cheias de lixo, mau cheiro e tristeza e nem isso é capaz de me comover ou me indignar. Um dia, lembro que senti um desconforto ao ver, do táxi, um homem chorando enquanto empurrava um carrinho de mercado, descalço e na chuva. Mas não era emoção, era como quando se entende o sentido de dignidade e se percebe que esse homem não tem nenhuma. Mas me surpreendo quando isso acontece porque é esporádico, digo esse desconforto. Na maioria das vezes consigo plenamente saber que uma mulher está cagando na rua, nas calças, e que não irá se limpar por um mês (ou mais) e não me importar. E pior, tendo a pensar que isso não é da minha conta. Meus colegas de sala com certeza me desprezariam, mas a apatia é aquilo que me salva nessa cidade sem piedade que só quer saber de prosperar.

*

Não deu.

Anúncios