Rotina

Deslizo prum lado e pro outro o dedo na tela do celular. Quantos matches por segundo até saber que esquisitinho vou encontrar hoje na saída quando terminar o expediente e eu não tiver que ver mais tanto cinza. O cinza das paredes e dos aplicativos, das cortinas, dos banheiros. Devo encontrar um estranho que, quando eu encontrar, nem estranho mais vai ser, porque eu terei visto as fotos das viagens, dos cachorros, das refeições em grandes cadeias do ramo alimentício ou pequenas. Na esquina, me arrependo. Queria ter deixado minha mesa pra sempre, virado artista. Ah, se eu tivesse algum talento! Me irrito de manhã quando os papéis estão fora do lugar, mas depois admito, vencida, que eu é que estou deslocada, então não pode ser culpa da tia da limpeza. Penso que encontro o malacabado no balcão, tomo uma ou duas caipiroskas de alguma vodka falsificada como se algum dia eu fosse mesmo capaz fazer a distinção. Vejo sites e não livros de poetas e na leitura dinâmica acabo bebendo da fonte quando vejo estes outros sonhadores que como eu só querem colorir as camisas pálidas e abotoadas dos banqueiros na nossa frente, torcer pra eles darem uma risadinha e largar mão de fazer meeting, entrar num call, discutir o budget. Bebemos bebidas russo-brasileiras, deitamos, quase fazemos um bebê que não nasce nunca, dizemos adeus, eu suponho. As gavetas não irão se arrumar sozinhas, penso, a maquina de xerox talvez sinta a minha falta. Fico empolgada que compraram um novo tipo de durex. Escuto os bonitos divagando sobre superfood, hambúrgueres e os resultados da sexta passada. E eu não mudei nada desde o que dia em que descobri o fordismo. Saio, meio que corro, pro boteco não gourmet mais próximo, finjo que mexo no celular. Vejo 74 selfies que fiz ontem quando me maquiei e não saí. Quero passar horas sem abrir a boca, sem passar os limites do meu metro quadrado e comendo bananas na empresa hiper saudável prafrentex onde emprego umas nove horas do meu dia. Garoto engraçadinho já me ganha, se gosta de gifs, se tem foto espontânea de uma Canon, se escuta MGMT e mesmo assim gosta de meninas. Acordo, ligo a luz do abajur que vem afiada ao meu encontro, ligo youtubers que dão dicas de como esconder os poros e as linhas de expressão. Mas que expressão? Penso, rindo, já que sou meio morna, que no meu perfil tem uma frase com cinco palavras: sou bacaninha, bonitinha, moderninha, casual. Encontro outro estranho de óculos grosso, de barba de um palmo e gravata borboleta. Maneiro o seu bigode, seu papo sobre startups e o caramba e durmo, peço pra trazer rápido a toalha enquanto me enrolo e penduro na cortina plástica do banheiro. Depois censuro um texto ou dois. Hoje vou comer sushi ou árabe? Vou de metrô ou de bike? Ando pela Joaquim ou pela Leopoldo? enquanto desisto e procuro um quilo baratinho em pleno Itaim Bibi. Na volta como um bolo no pote que custa o triplo do pedaço, digo oi meio amarelo pro carinha que já deu em cima de mim em 2013 e esqueceu. Penso, então, em ligar pra alguém, oi sumido, mando uma carinha e vejo se ele quer fazer alguma coisa hoje depois das cinco e não quer. O gatinho é outro, o humor é outro, mas as tarefas são as mesmas: passar durex, tirar cópias de relatórios com o slip de cartão que ninguém se preocupou em manter legível. Horas a ver cãezinhos em memes, a pensar que bonitinho!, pena que nasceu em 96 e minha libido deve estar explodindo! – Cacete! Espero que consiga sentar no ônibus dessa vez ou que eu não pise na merda na rua. Tomara que meu professor não decida discutir se devemos ou não ler Woody Allen porque ele se casou com a enteada e quem se importa!. Volto e procuro algo descartável pra noite, não acho, e pra materializar meu pensamento que sabe-se lá onde pode estar. Durmo, brinco. Vejo um pornô pra mulheres. Só volto agora amanhã.

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