Gafanhoto iletrado

– Eu escrevo, sabia? Disse a F., apoiando os cotovelos na mesa alta de uma Starbucks. Despejou na mesa mais um monte de anedotas sobre si, enquanto também falaram sobre morte e sobre o quão intensa F. podia ser na cama (J. deduziu que muito). F. fez questão de enfatizar a pretensão a escritora, porque tinha a certeza de que, ao sair dali, relataria o enlevo que J. ocasionou com várias das suas palavras bonitinhas. J. até sugeriu o título sobre gafanhotos, ou algo dessa natureza, querendo ser sagaz e talvez pensando que F. não se lembraria disso depois – pois ele já tinha lhe pagado umas cervejas.

F. sempre gostou de sair buscando protagonistas pras suas histórias, ainda mais quando estava entediada e assim tão desperta. F. havia trabalhado até as onze, estava há meses superando um trauma meio robótico. Coerente, apesar de ligeiramente melancólico.

Era noite em agosto no coração carente e quebrado da F. Foi o que F. pensou quando J. elogiou seu casaco, enquanto ela tomava uma cerveja da moda na rua da cidade onde era então novata. E F. não culpou J.! Tinha sido um dia comprido. Não duvidou de que aquele casaco fosse mesmo a sua melhor qualidade.

J. chegou e saíram, vagaram e F., sem ver, quebrou uma promessa. Seguiram caminhando pra casa às quatro da manhã, enquanto F. sentia um êxtase de comprimido. Teve duas reações completamente diferentes antes e depois do J., que quando chegou, era nada mais do que um malandro de cabelo gozado, puxando papo com o alvo mais fácil das madrugadas augustanas. Quando J. a deixou em casa, F. entrou falando baixinho:

Não me deixa esquecer ele!

Não me deixa esquecer ele!

Não me deixa esquecer ele!

F. sabe a memória que tem.

Sabe de sua vaidade, que jamais aceitaria esse desdém com um pobre pronomezinho oblíquo (não custava nada!). Muito menos essa afronta ao uso do imperativo.

Fê-la rir tantas vezes que a F. nem conseguiu contar no dia seguinte. Quando acordou, ainda delirando, tentou rabiscar duas ou três palavras a respeito do J., mas acabou um pouco muda. F. não queria quebrar o feitiço, acabar pensando que o garfo na cabeleira do J. era um sonho lúcido.

F. pensou que foi mentirosa e um pouco ingênua ao vangloriar-se de um talento que na verdade não tinha. Devia tê-lo poupado! Meses foram embora e F. não escreveu nenhum parágrafo que transcrevesse de boa maneira a entorpescência da camisa florida do J. Certamente, desaprendeu a escrever a F., ou nunca soube.

Mas, depois as palavras voltam, sempre aparecem as palavras, querida F.! No entanto a história fica, mesmo que isso seja só um dezesseis avos dela porque, francamente, é tudo que F. quer lembrar.

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