N. entra

N. diz que F. gostaria de um presente ereto de natal. Desses que se constroem com tempos de pílula e um tratamentozinho com um doutor mágico. F. não sabe se o doutor precisa ser mágico. Mas mágico seria o J. a presentear. Pelo menos querer presenteá-la, fazer um esforcinho, um agradinho. As amigas de F. não entendem: pensam que é distúrbio, que é demência não dar umazinha umas três vezes por semana já que é a idade mais viril os trinta. Não entendem a dinâmica de “casal” que acontece entre F. e J. F. admite que gostaria que fosse um pouco mais fácil pelo menos bater um papinho sem botar um elefante enorme na sala. Tem dias que F. só quer chegar em casa de um longo dia, dar uma boa transada, dormir feliz e sorrindo, amassada no travesseiro e tomar banho da meleca só no dia seguinte. N. pergunta se não era isso que F. queria: chegar em casa e J. a arremessar na mesa de jantar mesmo, uma coisa rápida, depois fazer macarrão e dormir. F. quer isso. F. queria fazer um strip-tease de vez em quando, poder fazer um amorzinho e dar risada depois. Não se sentir somente performática, a atriz pornô, a Bruna Surfistinha que dorme com o Zé e escreve no livro depois. Queria umazinha de leve, de pijama mesmo, F. até admite meias de vez em quando. F. tem consciência de que lá no fundinho da sua mente aberta de moderninha mora uma menininha em crescimento frígido e que seria ideal confrontar essas fantasias de peito aberto e perigar ser um pouco melhor comida. F. para por um momento e diz pra N. que não é bem assim. Não dá pra colocar o amorzinho de J. e F. no saco com os outros amorzinhos da face da terra. Tem um monte de paradas aí que não se encaixariam. F e J. nunca foram um casal convencional. Primeiro que F. considera não ter existido a fase do jogo-de-sedução. J. não se importa com isso mas pensa também que não. A fase em questão que se estende pelos relacionamentos – pelo menos os retratados tão vividamente por N. – desdobra-se numa eterna tensão silenciosa em que não se compartilha de muitas emoções, somente por separarem o rótulo do amante do rótulo do amigo. F. e J. são, acima de tudo, parceiros boníssimos e compartilham tudo exceto sexualidade. F. sabe que pensa em sexualidade como se ela e o J. tivessem diferentes. F. é hétero, J. é a. Aparentemente. F. e J. nunca deram nomes aos bois, aos elefantes, a que raio de bicho que seja. Mas N. está determinada a tirar uma lasquinha da F. hoje. Quer saber se nenhuma partezinha de dentro da F. implora pra receber uns dedinhos menos afetuosos e mais certeiros. F. desconversa. F. sabe que queria lambidas, queria deixar uma meia luz de vez em quando e brincar com as mãos, despretensiosamente. Mas continua firme, a favor do J. F. parece mais preocupada com como é difícil achar coisa semelhante fora de casa. O trabalho que da deitar com o Zé, o trabalho que dá achar tempo na agenda, flertar, trocar dois dedos de prosa. Não seria mais fácil F. abrir a porta da sala e ser despida sem ter que pedir? N. questiona. F. fala que “conexão mental” é mais importante. Por dentro concorda, ao mesmo tempo em que vê a sinuca de bico em que seu coração e a sua quase finada vagina se encontram. N., inesgotável, indaga: não será J. gay? F. sinceramente não sabe, mas responde que não, já falaram como adultos e seriamente sobre, mas é mentira. F. nunca perguntou com todas as letras e J. nunca respondeu. Teve ótimas ocasiões para abrir mas J. não o fez. F. conclui, então, que J. não é. E botou a pedra de volta em cima disso. Deveriam F. e J. voltar a falar do tal elefante? F. pensa que não, J. também. F. queria, no entanto, um jeitinho mais fácil de ser apalpada e de ter um pequenino orgasmo a cada vinte dias, pra ser bem pessimista. F. pensa que não seria pedir muito. Perguntou-se, porém, ao final, se J. algum dia mudaria. F. crê que não. Mas tem dia que é foda

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