Vinte oito

Peguei com dois dedos uma pinça e arranquei com força o fio único sem cor. Um simbolo de maturidade, ou só um desfortunado prenúncio de daqui uns 10 anos. Não sei. Uma distração, eu diria, do trabalho que deu pra dormir ontem à noite. Mas é tudo, é a vida, uma grande distração. Uma atrás da outra, não é?

Nomeei, então, a voz que no ato me disse que o fio era na verdade um fim anônimo. Chamei de Ruth a pentelha voz que diz toda hora: ninguém se importa com o seu cabelo branco e não sei por quê você vai escrever sobre ele. Eu concordo sempre. Que relevância tem um fio grisalho se tudo é o mesmo. Se eu vou dar um megafone pra Ruth ao invés de mandar ela se calar. Me distraio, então. A visão embaçada.

O mundo me disse que eu não estou nem velha nem gorda. O mundo de agora me disse e não foi pra mim. A Ruth diz que o mundo não se importa comigo. Mesmo assim, eu acho que existo. Não achasse não passaria maquiagem, ou faria as unhas. O mundo me vê ou não vê? Ruth diz que se vê, eu estorvo a visão.

Eu não sou mesmo páreo pra uma calça 36.

Fiz um bolo, cantei parabéns para mim. Não posso fazer nada que meu olho alaga toda hora. Ruth banaliza. Diz que choro e não é a toa, se fosse eu choraria mais. Falei pra ela que é difícil chorar no mudo, mas ela me diz que tem que ser assim, pra não atrapalhar os outros vivendo.

Estou desidratada. O fio não cresce mais porque o arranquei. Os olhos são ilhas inundadas e eu sei e não sei por quê. Tenho agora outro número. E não faz a menor diferença. As velas eu assopro com um suspiro e sei que o ponto faz parte da minha orelha. Eu já devia ter me acostumado com ele/ela.

Estou mais sozinha do que nunca.

Mais distraída do que nunca.

Pelo menos nomeando.

Mas, no geral, muito só.

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