Imunda e cândida

Uma parte de mim é imunda.
Percebi porque vi minhas mãos carimbadas na parede como um desenho primitivo. A sujeira era noventa porcento ferrugem, o resto tinta e não estava só nas minhas mãos.
Começou com uma dança esquisita como sempre começa, o vi só quando já estava perto. O nome não sei. Sei que queria segurar o meu pescoço, violento e macio. Vamos pra minha casa, pra fazer direitinho?, eu disse, porque só uma parte de mim é imunda.

Volto a falar sobre sexta feira, mesmo que tenha sido sábado. Sexta significa mais pra mim. Acho que era José, vamos chamar de José e era simples. Tinha cabelo simples, mãos simples, movimentos simples. Me chamou de lunática, falou que eu precisava me amar mais. E não me amo já muito, José? Não estou aqui?

Se era para beijar, beijamos. A boca redonda, convexa, com gosto de bebida. Eu olhei só pra ela e beijava de olhos abertos como se ele fosse fugir, como se nem estivesse ali. A altura era ideal: meu nariz se encaixava no espaço entre suas clavículas. Tinha ossos, isso tinha, um monte deles. Os braços finos, as pernas também, era simples.

Os olhos não sei, não os vi a não ser pela vermelhidão de em volta do direito. Podiam ser verdes, ou cor de mel, vamos dizer que eram cor de mel. Mas nem serviam pra olhar. No escuro, na ferrugem, não dava pra ver de cima pra baixo, no meio das minhas pernas. Não disse nada.

No sofá eu parecia imunda.
Mas só por causa do contraste, pela luz, a lucidez. Nem por isso deixava de carimbar os cotovelos, os joelhos, mais ou menos o corpo todo no sofá meio branco que nem era nosso. Não tinha som de nada a não ser de móveis.

Sexta eu o encontrei perdido, ele me encontrou perdida, me ofereceu carona, me declamou um poema razoável, beijou minhas coxas, me disse pra trabalhar a auto estima, me leu. Fosse domingo eu não o encontraria. Domingo eu voltaria limpinha pra casa de outro ele, como voltei. Voltaria cheirosa, uma seda. Mas sexta não.

À noite eu sou imunda.
E faxino na luz do dia, entrego José à estação, jogo as roupas, o lençol, na máquina, uso sabonete íntimo, jogo o sofá fora.

Quem disse que eu não posso ter duas caras?
Acho que sei amar de várias maneiras, porque chamo tudo de amor, porque sou meio elástica. Elástica, imunda, amante do que quer que seja, de quem seja. Mas sou.

Gostar gostei.
Fazer direitinho fiz.
Tomei banho.

De quem quer que eu seja sou imunda e cândida. Na sexta ou no domingo, como você quiser, na posição que você quiser. Acho que vivo em dobro e gosto como quem se olhou no espelho por tempo demais e se multiplicou. Como quem beija com a boca e fala com os olhos e dança pra poder emparelhar. Imunda e cândida.

Obrigada e volte sempre!

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