Glendinha

– Você já ficou com alguém e, de repente, pensou “nossa, que boca enorme”, e vocês não estavam nem se beijando?
Perguntou a Glenda, no meio de um torneio de basquete da segunda série, ela que trabalhava lá só desde o começo do semestre. As outras professoras, boquiabertas, pensaram que talvez as pessoas compartilhassem coisas demais, e isso era um malefício advindo da exposição excessiva nas redes sociais.
– Glendinha, meu bem, olhe a boca, disse a mais velha, com medo de que algum aluno ouvisse e começasse a interrogar – mas o que vocês faziam, prô?
Glenda dava dessas, às vezes. Mal pensava e já estava lá: no mundo, só aguardando a reação dos outros.
Outro dia, passou por um gato na rua, pegou, acariciou o bicho desconhecido e o devolveu para a calçada, e continuou andando e coçando os olhos, o nariz, como se não pudesse pegar uma doença nessas épocas em que tudo tem germes. Na escola estava há poucos meses com um esforço tremendo, já que não era muito fã de trabalhar. Tinha feito o magistério em 1999, como se não fosse ultrapassado, já no final dos anos noventa, “fazer magistério”. Nunca mais estudou e por muito tempo trabalhou de babá. Agora que completara quarenta anos redondos, a cautela passava longe.
Semana passada fez um bolinho e chamou a meia duzia de amigas para cantar um parabéns. O Júlio César também, o único homem do bando.
– Não vai cortar o bolo, Glendinha? O primeiro pedaço é pra quem?. disse o Júlio César, porque estava com fome. Glenda não só deu o primeiro pedaço a ele como preparou-lhe uma cilada e ele foi o último a deixar sua casa de 3 cômodos no Jardim Clemência. Tomaram cerveja em copo americano, fizeram um pouco de amor e depois seguiram sendo amantes escondidos, mesmo que não tivessem por quê esconder isso de ninguém.
Na escola Glenda era conhecida pelas unhas roídas em carne viva. Minha ansiedade, reclamava, cheia de band aids e esparadrapos. As mães buscavam as crianças, horrorizadas, passando álcool gel até na alma. Mas Glenda era bem limpa, uns dois banhos por dia, porque suava muito. Totalmente desatenta da ojeriza que causava, entregava as lições de casa junto com a criança ranhenta, ou um bilhete de mal criação. Dava um tapinha nas costas, mandava um beijo beijado molhadamente na mão.
Júlio César tinha dentes bons, pensava Glenda sempre que o via da esquina, antes de seus pequenos encontros. Dentes bons igual cavalo, retinho, bom pra morder. Glenda tinha dessas coisas, mordidas, nem sempre marcava, o que já estava de bom tamanho. Se encontravam meio que na hora do almoço para trepar no depósito do bar onde Júlio César trabalhava. Glenda fazia um esforço imaculado para conter o barulho, embora achasse pecado conter genuínos gritos de felicidade. Prazer, felicidade, é tudo questão de terminologia, de hora do dia, pensava enquanto se equilibrava na ponta dos pés tamanho 39, porém delicados, na medida do possível.
Tinha manias inexplicáveis, como a de tomar banho de chinelos e depois ter que esfregar com bucha o chão lamacento e cor de chumbo, porque o chinelo era o mesmo com o qual passeava por todo o bairro. Queria subir na vida, tinha crenças, mas não achava que o Júlio César era pau para toda obra como um companheiro deveria ser. Por isso, ele não sabia que ela guardava uns dois terços de seu salário numa caixinha feita de palitos de sorvete que havia ganhado de um aluno depois da aula de artesanato. Todo mês colocava lá o terço do salário de pajem escolar enrolado e amarrado com um elástico amarelo. Diariamente, de manhã, espiava a caixinha, que ficava enfeitando um criado mudo de design moderno e que em nada combinava com o resto da casa térrea sem quintal. Plantava bromélias em um vaso minúsculo para representar sua própria existência, pois também era imbicada e folhuda, robusta demais para aquela casinha/vidinha modesta – que tinha preguiça demais de mudar.
Tinha alma de mulher metropolitana, porque achava pouco ter só o Júlio César lhe adentrando de vez em quando. E um fogo incontrolável na mexerica, como sua mãe costumava dizer. Tinha plena consciência de que podia e devia distribuir seu amorzinho modesto pela cidade. Como não era adepta de celulares e afins, usava o velho método: sair e tomar umas cachaças, dançar uma dança por aí e achar um benzinho temporário para lhe acalmar a chamuscaria. Nada contava a Júlio Cèsar, já que pretendia mantê-lo como o macho fixo, embora oculto. Todos eram ocultos, na verdade, porque queria manter o ar assexuado na frente das crianças e parentes, como se fosse uma virgem de 40 anos, mesmo que não pudesse evitar de dizer putarias aleatórias na hora da merenda. No fechar das paredes, sabia encostar as mãos nos pés, e fechava-se com uma tábua de passar, como se pudesse facilmente sair em turnê com um circo. Dormia em cama de viúva, mas amava solteira com desenvoltura, na maioria das vezes tapava a boca do visitante quando nele estava sentada, e gostava de olhar muito para sua caixinha. Pensava em progresso, e em encher a caixinha, em preencher um vácuo seu ao mesmo tempo.
Chegava de manhã e abria o portão da escola com vontade, beijava as crianças no centro da cabeça com uma pureza de aquecer o coração.
– Tia Glenda, por que sua boca solta pelinha?, as crianças mais observadoras diziam, e ela se ria, passava manteiga de cacau depressa, como se adiantasse, já que raramente bebia água.

Júlio César sugeriu fazer um ménage à trois com Glenda e sua amiga Roberta, numa terça feira, depois das 18 horas, e podia ser lá no bar mesmo. Glenda ficou surpresa pelo lado sem vergonha que nunca imaginou em JC e curiosa por que havia de ser a Roberta, que tinha peitos minúsculos. Sempre que se imaginava tocando outra mulher, queria só saber de peitos grandes, como se tivesse sido aculturada na América dos anos 90. E se imaginava, de vez em quando, com umas moças mais novas, normalmente irmã de aluno, mas não deixava de achar mais negócio sair com macho.
– Tudo bem, vamos fazer méjage à toá, achei bacana.
Glenda passou a semana fazendo abdominais na cama de viúva, porque pensou que mulheres são mais exigentes, conhecem seus corpos muito melhor, não iam se contentar com uma barriga flácida. Homem tudo bem, que gosta de “ter onde pegar”. Mulher deve gostar de corpo saradinho. Limpou a casa também, porque estava disposta a sugerir seus aposentos como cenário – o depósito do bar cabe dois no máximo, ia ficar muito cheio e podiam quebrar alguma coisa. Era zelosa com coisa dos outros, isso era, mas andava mulambenta na rua. A cama de viúva, por sua vez, rangia como velha surda a cada abdominal. Rangia porque era velha, de segunda mão. Imagine três pessoas trepando nessa cama, os vizinhos vão chamar a polícia e Glenda detestava incomodar a vizinhança com barulho. Ligava um CD do Buddy Holly todo domingo quase no volume 100 porque não considerava isso barulho, e nem sabia quem era Buddy Holly porque o CD não tinha capa. Glenda tinha dessas.
Foi nas Lojas Marabraz comprar uma cama nova, por isso, recorreu à caixinha de palitos, porque não gostava de fazer dívida. Carnê era a morte. Comprou então a cama de alumínio cor magenta, com espirais intermináveis na cabeceira e pontas douradas e um colchão do mais barato. Mandou entregar mas teve que postergar o encontro a três por conta do prazo de entrega.
No dia seguinte, lembrou que havia esquecido de contar a novidade para Roberta, a pajem moça da Escola Professor João Neto, a Netinho da rua Abraão. Moça mesmo, porque se emperequetava toda, chegava na escola emperequetada todo santo dia, cheirosa que só. Devia de ter seus 20 anos, julgando pela bunda firme. E era a única que dava mais ouvidos à Glenda quando ela desembestava a falar asneira.
– Se você quer saber, eu é que não como coração de galinha. Seria como se eu comesse o amor de dentro de seu recipiente. Uma loucura.
– Glendinha, coração não tem amor, é na cabeça que está o amor.
Glenda tinha convicções estáticas mesmo sabendo quase nada de nada.

Júlio César queria saber em que pé andava o convite para Roberta. Glenda, por sua vez, queria saber que tanto JC enchia seu saco por conta do ménage, se ela já havia concordado.
– Não dá pra fazer de qualquer jeito também, pare de ser desleixado!
No mesmo momento, ficou com a pulga atrás da orelha porque, querendo ou não, era ciumenta. Deitou pela última vez na cama de viúva, pensando que talvez o JC não desse a mínima para trepar de três, só queria mesmo era ver a Roberta pelada. Ela queria também, mas JC tinha que segurar o facho. Depois pensou que JC não lhe deve nada porque nem mesmo eram um casal oficial real, e depois de incluir mais gente é que não iam ser mais porcaria nenhuma. Não que Glenda quisesse. Só pensou porque vivia pensando em possibilidades. Será que nunca vai ler essa meia duzia de livros que comprou por causa da capa? Não vai contar para Júlio César que costuma passar mel na mexerica, ele que detesta abelha? Se achava desonesta porque escondia essas coisas.

Na feira pedia sempre produtos orgânicos: Vou querer orgânico, viu Seu Antonio, orgânico. Gostava como isso soava, mesmo sem fazer ideia do que de fato significava ser orgânico. Quando ia lavar roupas, usava vinagre de maçã. A moça do Bem Estar disse uma vez que tira mais os germes da roupa. Mesmo assim, não gostava de lavar as mãos depois de ir ao banheiro, porque demora muito tirar todos aqueles anéis.

A cama tinha chegado há dois dias mas ela nada disse a Júlio César, porque estava arrumando o resto da casa. Algum móvel havia de ser descartado para acomodar a cama nova de casal, porque ela já estava na idade de ter cama de casal. Desfez uma cômoda com chave de fenda e jogou as táboas na esquina mais suja de seu bairro, como todo mundo costumava fazer, afinal, depois os lixeiros passam ou algum mendigo dá bom uso. Tudo que estava sobre a cômoda ficou sem propósito: uma fotos de seus pais quando jovens num porta retrato de madeira; uma concha gravada de Porto Seguro de quando ficou sete dias lá por conta de um pacote da CVC; um Bom Ar; um batom da MAC; Os Sofrimentos do Jovem Werther; um abajur. O livro jogou na pilha com outros livros no canto da sala, usava para apoiar as cervejas quando se sentava na cadeira de balanço em frente à TV. O quadro dos pais guardou na primeira gaveta do criado mudo, aproveitando para se livrar desse julgamento quando estivesse trepando de três na semana seguinte. O abajur e a concha, manteve ao lado da cama e o batom passou a usar todos os dias.

Mas a casa ainda não estava boa para o evento, apesar de dormir agora muito mais esparramada. Tinha menos dores na lombar, pelo menos. Julio César não insistia tanto na proposta, já que Glenda posava com aquela boca mais carnuda cheia de batom, ficava mais mulherão. Por isso, se encontraram novamente no depósito para mais uma vez a sós antes de incluírem a Roberta, que nesse dia já não foi mais o centro da conversa. Júlio César se lambuzava no batom rosa, embora tenha passado mais tempo ao sul, dessa vez, o que deixou a Glenda glendíssima, um mulherão.

Roberta ficou tentada quando Glenda a convidou, duas semanas depois, embora se considerasse uma puritana. Pensou, será que tudo bem fazer essas coisas, meu deus!. Olhou para Glenda de cima a baixo, viu que a calça marcava um dáblio salientíssimo, mas desanimou-se com os culotes pontudos demais, uma bromélia! Mulheres devem mesmo ser mais exigentes. Mas aceitou mesmo assim, porque pensou que, no mundo de hoje, as mulheres tem que tomar posse de sua sexualidade, esta que pode ser sempre muito flexível para as mulheres na mente dos machos. Ela via uns pornôs normais.

Glenda foi para a escola no dia 3 de maio usando uma cinta modeladora, porque percebeu os olhares afiados de Roberta, e assim ficou super atraente naquele grande dia. Júlio Cesar a olhou do bar com grande atenção, ela parecia um sino balançando a bunda pra lá e pra cá.
– Oi Roberta, tudo bem?, disse segurando seu queixo, o que pareceu uma piada interna entre as amigas e, por isso, ninguém disse nada. O dia demorou a passar. Várias crianças tiveram diarreia, o que nunca acontecia, mas era um dia especial. A merendeira fez polenta com almôndega e molho Pomarola.
No jogo de basquete da segunda série, Glenda finalmente permaneceu calada, olhando os peitos minúsculos de Roberta, que agora pareciam um pouco mais divertidos, ela devia estar sem sutiã. No vai e vem das bolas, o dia passou arrastado. Glenda comeu polenta, ficou toda satisfeita, lambia os dedos sensualmente porque já se aquecia.
Chegando em casa, com a cama nova, sem o porta retrato, retocou o batom.
– Entra Júlio César, Roberta, meus queridos.
Lhes serviu água da torneira num copo de requeijão, com muita vergonha, por que foi se esquecer de comprar taças?
Os três sentaram-se na cama de alumínio, ouvindo um pouco de Buddy Holly para criar um clima: Glenda achava esse gringo um tesão mesmo que nunca tivesse visto sua face. Julio César tirou debaixo do braço uma sacola verde de mercado contendo um vinho pelo qual pagara mais do que o usual e sugeriu que começassem bebendo. Puxou assunto.
– Então, Roberta, tudo bem? Não nos vimos desde o aniversário da Glendinha, que coisa, não?
– Pois é, disse Roberta um pouco encabulada, olhando as unhas sujíssimas segurando a sacola úmida.
– O que vocês acham um do outro, disse Glenda do alto de sua falta de cautela.
– Eu acho você um mulherão, Roberta.
Glenda pegou a garrafa da mão de JC e levou para a cozinha, onde encheu três dos copos de requeijão. No fundo, ficou ofendida, pois achou que mulherão era um adjetivo exclusivo seu, agora que usava batom da MAC. Foi ao banheiro, passou um lenço umedecido na vagina e manteve a cinta. Quando voltou com uma bandeja prateada, deparou-se com JC e Roberta inclinando-se para um beijo. Achou esquisito, pois os quadris estavam muito distantes, isso devia significar que eles estavam nervosos.
– Já começaram, então, queridos? Que pressa.
Curiosamente ficou glendíssima com as formas que faziam na parede iluminada pelo abajur. Os três beberam vinho, se despiram, salivaram, usaram todos os centímetros da cama novíssima de Glenda, como se tivessem nascido para trepar de três. Quem nasce para amar de dois, nasce para trepar de três, Glenda pensou já toda recomposta, deitada à direita enquanto Roberta deitava-se à esquerda de Júlio César.
– Vocês querem fumar? Vi que as pessoas fumam depois de fazer putaria.
Roberta riu e descobriu que nenhum deles fumava.
Júlio César abriu os braços como quem faria um anjo na neve, e acariciou as mexericas das meninas, levantou-se e botou de volta uma camisa de mangas curtas.
– Tchau Glendinha, Roberta! Foi um prazer.

(…)

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