Um banquete

Me perco no infinito entre dois dentes retangulares e astutos, que me dizem pra ficar. No puxar das cadeiras, no atravessar das ruas, as mãos se tocam, vejo o par de dentes lindos e distantes com a excitação perdida desde o último julho, quando me sujei; as sardas no nariz ligeiro não ajudaram em nada. Quando vi, sentava num banco de madeira acolchoado, em meio a milhões de fotos dos dois juntos, mas que, do alto dos meus quase trinta, nunca poderiam me alcançar.

Vamos dizer que quem tinha dentes tinha também muita saliva, uma disposição inesgotável pra falar da metafísica das nossas relações conjugais. Em umas três horas, me lecionou sobre a vida secreta da sua namorada e quis saber um pouco do mesmo sobre mim. Contei e se riu. Faço cada coisa por pênis! E agora que puxo pela memória, ficaram os dentes, as sardas, o arrepio de lembrar disso quando a luz já tinha ido embora. E, mesmo quando nem lembrava, continuava arrepiando, mas era por movimentos de mão, por espessura. Pela alegria de ver saliva e nenhuma palavra.

Pra quê é que eu vou querer palavras? Eu poderia balançar ao som de nada, ao ocasional aviso da velocidade ou intensidade, que seja. Mas aí, eu já estava entregue. Quero ser guiada de vez em quando, percorrida. A minha própria natureza, o jeito como vejo o mundo, o que penso toda hora. Tinha um par de lábios de moldura pro par de dentes indecentes, que sabiam fazer de um tudo (é o eixo da memória).

Uma apreciação devota dos meus ziguezagues, um olhar faminto, como um espelho, como quem esperou à mesa.