Escolhas de Mariana

Torradas, todo lugar que olhava via torradas, e filhos. Mariana tinha três opções: a da mãe, a do clube e a do infinito. Não sabia nada de nada, coitada. Tinha escolhas e só. Certo dia acordou atordoada, desconfiada de que tudo que vivera não era ela. Tudo que vivera era outro ela, outra versão dela, e na bela manhã que se iniciava, comendo suas torradas, já era outra. Via a barriga crescendo, as pessoas mudando, a grande escolha, que a cada dia virava menos dela. Acordava na cama, de ponta cabeça, aos beijos secos de um amor gasto. Dormia de costas encolhidas, num cê invertido, com medo da pele dele, do toque dele – mesmo assim agora era tomada por uma maternidade alheia, a escolha.

As escolhas.

Querer não queria, mas era meio que O Certo. Numa manhã de sábado tomou o café com torradas na companhia dele, que não era muito mais do que uma companhia corporal, como uma conversa de chat, que é e não é uma pessoa. Disse-lhe que estava bem, – não estava. Disse que precisava apenas descansar, tomar um ar, um rumo, cortar as unhas e fazer uma mascara de maracujá pro rosto. Voltaria renovada, pronta para amá-lo virtualmente mais um pouco. Mariana engravidara de outro homem.

Na volta para casa, num táxi pouco limpo, não podia dizer exatamente quais decisões a trouxeram àquela situação. Abdicar de um desejo primitivo e sagrado, fazer pouco caso de sua preciosa identidade, seus escassos valores morais. A verdade é que as escolhas que tinha de fazer podiam multiplicar-se num estalar de dedos. De repente, nada em sua vida estava certo – como um castelo de cartas, uma peça cai e leva consigo tudo o mais. E mudava todo rumo.

Mariana duvidava então de suas escolhas anteriores, de tudo que achava saber. Da própria índole – como foi se deitar com um estranho? Como podia contribuir silenciosamente com nada, com o que supostamente não concordava. A lástima. O táxi fazia curvas, Mariana enjoava muito, até que desceu, e se viu perdida num bairro pouco movimentado, as mãos cansadas, a vista turva. Não o amo mais, pensou sem coragem, subiu a primeira rua que viu. Ele, ela. O futuro ele, ou ela.

E subindo refletia sobre toda uma existência, sobre o que iria ou não existir, dependendo de suas escolhas. Queria muito ser um fim em si mesmo, como ele costumava dizer sobre outra coisa, mas que ela aplicava a tudo. Na subida, um paralelo se montava entre o caminho e a sua vida. A barriga, meio a mostra, era tudo que ela nunca quis. Ser mulher é tudo que ela nunca escolheu. Vivia, então, subindo, escalando, a própria vida. Lembrara-se das conversas antigas, tão antigas quanto quarta feira à tarde, quando baixou a voz pra ele, abriu alas pra ouvir de orelhas abaixadas o sermão que a historia fez ser digno. Que fosse uma prostituta, uma qualquer. Se ele diz deve ser verdade, pensou na ocasião. Mariana rodava em volta de si mesma, fazendo bambolear o enraizado, o relacionamento de anos, que agonizava na esquina daquele bairro, enquanto a voz dele era uma sinfonia. Subia a rua sozinha, afinal, era e estava sozinha.

A mãe de Mariana dizia que ela deveria querer. E Mariana queria mesmo muito.

A juventude de Mariana era um querer inesgotável. Tinha o apreço conquistado pelos seios pequenos, as curvas leves. Vivia a adornar o corpo magro com pequenos elásticos e sutiãs. De uma coisa sabia: seu toque em si é como um acontecimento abençoado. Como é que não pode? Descobriu pouco mais tarde que não devia se gabar de um Pecado.

Cobria a barriga com as mãos espalmadas, como se doesse. O empecilho, pensava constrangida, o empecilho. Com vinte e três anos tinha conhecido poucos corpos e sabia que havia de conhecer mais. Uma carne pouco degustada, um corpo. Não se importava muito com coisas práticas como pagar as contas, ser intelectualmente relevante, receber  uma promoção: não se aplicava. A subida era mesmo assim uma realidade, pois não começara no solo plano como ele. Disso começava a sentir uma raiva úmida, fértil. Não tem nenhum cabimento continuar com isso. Apertava e fazia quase uma escolha.

Mariana talvez não o amasse mais mesmo, mas de um jeito não definitivo. Amor é amor – o que sentia tinha outro nome. Chamava de dependência, às vezes, mesmo que tivesse que esticar o significado dessa palavra para servir. Disso tinha consciência. Mas não tinha até então atribuído isso ao medo de ser uma mulher desamparada, mesmo que clamasse apoiar-se em si mesma. A mulher pode e deve estar sozinha? indagava aos postes da rua deserta na subida implacável. Uma mulher sozinha, que nada sabe de nada, que mal se enxerga.

Mariana achava que não podiam vê-la, então. Só ele a vê, a via, que seja. Agora não mais veria, voltaria a ser invisível. Um aborto invisível, um problema a menos. Não achava que o que sai dela é dela, ou de alguém, ou seria alguém. Pensava nos tempos, no que esperava dos tempos e era muito pouco, até mesmo para si. Não achava que seu corpo merecesse tamanha violação.

Tudo voltava ao corpo. Um corpo cheio de receios que era livre só que não essencialmente, como o verso, que eventualmente teve que se libertar. Vivia sob a suspeita de que estava sendo imprópria, pois nunca a desejavam, senão na sua própria narrativa. Cada um tem sua ficção. Nem ele a deseja, talvez nunca a tivesse desejado. Um dia ela desejou que outros desejassem seu corpo, assim viveria menos uma fantasia e mais um caso extra conjugal, que não era imaculado, mas inteiramente seu. Conheceu então um homem, da maneira que se pode conhecer homens – por vontade. E dele, sim, não dependia.

Que seria da vida de Mariana se ela o tivesse. E se não? Alguém apontaria, diria coisas horríveis a seu respeito, faria disso um palanque?

Ter ou não ter era a mais branda das escolhas. Amar não.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s