Se são vazias as emoções

Acho que posso dizer que estou de luto, de certo modo. Que estou me recuperando de uma grande perda. Aprendendo a viver de outra maneira, a pensar em outras coisas, a me relacionar com outras pessoas. O silêncio com que me comporto diz um monte. Mas é que estou numa espécie de luto, sim.

A grande perda é bem grande mesmo. Quando nos dizem sobre nossos “anos formativos”, aqueles que moldam nosso eu-adulto, nosso eu-maduro, falam disso que venho vivendo. E no meio de um viver robótico me pego rememorando. E toda vez que rememoro me paro, sinalizo:

– Não quero criar uma emoção vazia.

Porque quero soar trivial, nomeio então como meu cânone. Uma história a mais pro meu cânone. Como se um dia eu pudesse descrevê-lo como “um a mais”, como se eu já não fosse outra. E se eu tenho vários lutos escritos e reescritos, agora vejo que minha maneira de lidar com esse luto também não é mais a mesma. Se um dia fui de choro, fui de escrever longos textos comoventes, hoje me encontro na mais covarde apatia, recusando imagens, lembranças, memórias – como se fosse possível.

Meus anos formativos no final foram então assim, e foram. E agora tenho que me repensar – de novo. Por que será que dessa vez é tão diferente? Esvaziar tudo, as caixas, os porta-retratos, os livros, a mente. Botar coisa nova no lugar. Tenho que me refazer por inteira.

E então vivo no luto, num choro que quase não sai, numa angústia em segundo plano, pairando por trás de todo o meu esforço pra parecer que saí intacta. E me contento com “é assim mesmo, acontece!”, tento me convencer de que as frases feitas que um dia eu usei para viver meus lutos ainda surtem qualquer efeito. Uso as mesmas ferramentas pra uma solidão inédita.

Mas hoje, soube: estou muito triste. Tão triste que nem parece que estou.

E a razão de tanta tristeza era que eu acho que não sei mais ser eu. Eu desaprendi, ou tinha virado outro eu, um que dependia, e agora que me privei da dependência, estou perdida.

E a segunda tristeza é saber que ele não está mais lá.

Digo, ele está lá. Mas é outro ele. Eu sou outro eu, ele é outro ele. Somos outros e não podemos ficar mais juntos e é por isso, penso, racional.

Me pego pensando: por que e como as pessoas se transformam, e quando é que nos damos conta disso. Por que nós nos transformamos e assim não servimos mais um para o outro? O que foi realmente que mudou? Nossas palavas ficaram vazias agora que não significam mais as mesmas coisas?

Inevitavelmente, remonto um trajetória, sem motivo algum. Fazer é inútil, criar a falsa emoção, a emoção que se baseia no que não está mais lá. Esse era meu medo, e hoje eu fiz. Remonto peça por peça, palavra por palavra, mesmo que chegue a lugar nenhum, que só me sirva pra arrancar lágrimas vazias.

Por que ainda não consigo pensar no fim e me sentir grata por tudo que passou? Olhar feliz pras memórias, porque elas são boas, porque elas são um pedaço de tudo que hoje eu tenho de concreto. Só consigo sentir que eu perdi e tudo mais não importa. Perdi, assim, intransitivamente.

Vou dizer pra mim que isso acontece o tempo todo e que já me aconteceu, inclusive. Vou dizer que no dado momento eu vou me sentir melhor, inteira de novo, um novo eu, de novo. E ele vai ser, enfim, parte do meu cânone, vai fazer finalmente seu papel: ser quem me ajudou a passar pelos meus anos formativos com mais graça e coragem. E vou deixar de lado a melancolia vazia, baseada no que já deixou de existir.

Então, o luto é de uma parda de mim mesma. Percebo que se nem eu sou mais a mesma, ele não é mais o mesmo, não temos como ser nós dois. Eu vou ter que aprender a preencher suas lacunas. Ceder seu espaço para mais de mim e ver quando é que vou me arquear de novo.

Talvez amanhã eu volte para aquela imobilidade confortável, que eu continue sem arrumar minhas coisas, que eu continue sentido raiva, ou remorso, ou me encontre novamente procurando entender o inexplicável. Hoje eu rememoro, me encho das emoções – que talvez não sejam tão vazias, que seja! Me amparo no que um dia eu soube. Um dia eu vou perceber.

 

Quem sabe, tudo isso é um descompasso momentâneo entre emoção e linguagem. Um abismo entre sentir e dizer. Talvez o tempo seja capaz de construir essa ponte no momento certo, talvez eu nunca consiga fazer essa travessia. Mas por enquanto é um luto, uma esquiva. Um jeito de andar pra frente.

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