Junho é o sexto mês

O dia 3 de junho desse ano caiu numa sexta-feira. Julie, que era geminiana e completaria 24 anos no mesmo mês, trabalhava há meses no projeto gráfico de uma empresa chamada Hegs, cujo produto era a produção e distribuição de ovos orgânicos. O projeto caminhava pobremente, “aos trancos e barrancos”, como costumava responder aos amigos que a indagassem. Às sextas-feiras, Julie trabalhava numa Starbucks a quatro quarteirões de sua casa, assim como às segundas trabalhava no Fran’s Café de Pinheiros, às terças na padaria da rua Caetes e às quartas no Parque Vila Lobos. Quinta-feira descansava, porque quarta à noite jogava futsal no Sesc Pompeia.

A Hegs queria inaugurar seu primeiro website no dia 6 de junho, por isso o dia 3 era tão importante. Depois de contadas quinze idas e vindas de seu projeto, Julie estava pronta para receber o seu pagamento e deslanchar de uma vez a ascensão do império orgânico de ovos na Zona Oeste de São Paulo. Às 4 e pouco enviou o projeto final em 3 emails e fechou seu MacBook. Logo depois pediu outro frappuccino tamanho venti e ficou sentada olhando notificações no celular.

Jaime, por outro lado, fazia contabilidade freelance para empresas de pequeno porte em seu modesto HP de 15 polegadas, enquanto tomava um expresso de baunilha. O dia 3 de junho era especialmente tocante para ele, pois há exato um ano ele se mudava para um apartamento minúsculo na Rua Vanderlei, onde viveria sozinho depois de uma conturbada separação em que não lhe sobrou nem Brutus nem Cleo, seus dois cães – que ficaram com Alissa, sua ex. Jaime não ia a encontros românticos desde sua separação, pois dizia que “as coisas andavam fracas pro seu lado”, e queria se dedicar ininterruptamente à sua carreira profissional.

Alissa ficou com o apartamento e com os cachorros, Jaime não quis criar um grande caso por isso. Jaime visita o vira lata Brutus e a dálmata Cleo umas duas vezes por mês, quando os leva para passear. A visita dura umas quatro ou cinco horas e acontece, normalmente, no final de semana. De vez em quando, Alissa desmarca em cima da hora, como acontecera naquela sexta-feria, dia 3, o que deixou Jaime irremediavelmente desmotivado.

Estavam há quatro mesas de distância e Jaime olhava de tempos em tempos para Julie, que discretamente, olhava de volta de modo que seus olhares se cruzavam de vez em quando. Quando se encontraram na fila para mais um frappuccino e um expresso, respectivamente, Julie e Jaime tocaram no assunto do tempo. Estava frio, na opinião dela, e nem tanto na dele, já tivemos invernos piores. O tempo em São Paulo é até que ameno, concluíram, e concordaram que era desnecessário manter o ar condicionado no mais frio, dado que a temperatura fora dali já estava baixa – mas “Starbucks são assim mesmo: querem que a gente experiencie o clima do hemisfério Norte”, ele disse.

Fisicamente, Julie era um pouco andrógina e Jaime um pouco bombado. Ambos tinham miopia, mas Jaime usava lentes. Deram-se conta de que usavam quase a mesma camisa azul bebê, só que ela abotoava até o final e ele não. Julie estava um pouco abaixo do peso, por isso continuava a engolir as 270 calorias do frappuccino diariamente. Tinha os olhos verde água e não raramente pesava a mão na maquiagem. Jaime, por sua vez, mantinha o corte de cabelo muito rente, gostava de levantar peso e ouvir Calvin Harris no fone de ouvido enquanto ia pra casa. Quando se cumprimentaram na fila do caixa, mutualmente pensaram que eram atraentes um ao outro, mas de uma maneira completamente improvável.

Se Jaime estava melancólico, Julie estava exausta na mesma proporção. O final de um pesado projeto e o aniversário do final de um casamento são, no mínimo, momentos de reflexão. São possíveis e talvez desejáveis os novos inícios, e a próxima página parecia estar em branco e à espera de tinta. Sentaram-se, então, na mesa onde Julie estava e contaram um ao outro o que faziam por ali durante a tarde.

A conversa não retrocedeu muito aos passados. Julie obviamente não contou que tinha saído com 12 rapazes nos últimos três meses e que quase todos estavam no momento bloqueados em seu iPhone. E não havia um padrão. As pessoas nem sempre têm afinidade, pensava, e para evitar as chatas conversinhas resultantes de certas carências de fim de noite, ela fazia bom uso da tecnologia, que permitia o apagamento de pessoas da memória do telefone. E nenhum foi, por completo, um dito “babaca”. Julie simplesmente não achou que fossem agradáveis, e até mesmo entrou em acordos prévios sobre a casualidade de cada situação. Sem ressentimentos. Aos quase 24, tinha amigos, um Instagram com mais de mil seguidores e nenhum relacionamento remotamente sério na conta.

Jaime já teve uma banda, assim contou a Julie depois de uns 15 minutos de entusiasmado bate-papo. Quando se formou, há 7 anos, perderam o contato e, então, ele deixou o baixo de lado. Tocavam uma espécie de post-grunge. Julie imediatamente imaginou uma versão nacional de Nickelback, o que achou tanto patético quanto fofo. A conversa estava engajada, queriam sem dúvidas encontrar o ponto de convergência que os mantivesse ali por mais um tempo, porque Jaime percebeu a pontinha de uma tatuagem nas costas de Julie quando ela se levantou para arrumar sua cadeira, e Julie notou que os braços de Jaime eram super firmes quando encostou nele a fim de deixar outra pessoa passar.

Estavam assistindo Atlanta, a série da FX, e essa era a primeira coisa que tinham em comum. Julie tinha grandes considerações a respeito do movimento negro e seus desdobramentos, e tinha forte interesse sobre sua origem – ostentava as trancinhas minúsculas na cabeça com tamanha propriedade. O assunto não rendeu muito porque, para Jaime, aquela não era a mais frequente das pautas e, do alto de suas sardas, achava-se pouco competente para discutir, além de ter pouco interesse. Julie via Atlanta pela relevância e Jaime pela comédia. Tal divergência, no entanto, não foi causa de grande estranhamento. Jaime demonstrou genuíno respeito, embora sempre muito neutro, ao dizer poucas palavras a respeito do polêmico tema e Julie não se prolongou até virar uma chata – isso o agradou.

Hegs era um nome bem interessante, pensou Julie em dado momento, enquanto Jaime contava sobre seus cachorros. Ela não era a mais simpatizante da arte de criar bichos de estimação. Por isso, ao ouvir como Brutus chegou até Jaime, Julie distanciou-se brevemente da conversa e disfarçou um bocejo – ela estava acordada desde as 6 da manhã. A verdade, pensou, é que hoje é sexta-feira e alguém precisa ajudar a comemorar que o diretor de marketing aprovara o projeto, como ela viu de relance em seu celular em cima da mesa. A notificação, que não passou despercebida por Jaime, fez com que Julie desabotoasse aquele último botão de sua camisa sob a vigilância rente de Jaime. “Vai fazer algo hoje a noite?” Ela perguntou quando decidiu abrir o segundo botão. Jaime tinha um aniversário pra ir, mas falou que estava livre porque achou charmoso o contorno da clavícula dela, agora amostra.

Jaime era péssimo em relacionamentos e se considerava um romântico. Dizia sempre que possível que Alissa o havia traído com seu terapeuta, coisa que nunca foi comprovada. Quando ele era pré adolescente, ia ao quartinho dos fundos da casa de seus pais, onde uma vez encontrou uma modesta coleção de revistas Playboy, e folheava rapidamente as empoeiradas páginas, só para trancar-se no banheiro em seguida dizendo que ia tomar banho. Sempre teve uma excelente memória e gostava particularmente das moças de peitos mais volumosos. Mas fazia de tudo pra ser rápido e imperceptível. Achava um pouco nojento o que estava fazendo e sentia uma espécie de constrangimento – o que não o impedia. Quando conheceu Alissa, era como uma criança pouco crescida, cheia de vergonhas e receios. Tinha 18 anos e fazia movimentos virginais na primeira vez em que se deitou com ela. Recatado, gostava quando Alissa ficava de quatro, mas quase não tocava nela, como se a fosse quebrar caso fizesse. Casaram-se aos seus 23 anos e mantinham uma rotina quase mecânica de fazer amor com cautela e, por isso, Jaime sempre acreditou que ela o traia. Quando verbalizou a acusação, a mais grave discussão emergiu de um jantar antecipado do dia dos namorados, onde o vinho da taça dela encontrou a camisa branca dele e acabou de uma vez com a relação.

Saíram, Julie e Jaime, e decidiram ir a pé para uma exposição de arte que ficava no caminho da casa dela, uns trinta minutos de caminhada. Jaime disse que Julie tinha olhos bonitos, o que desencadeou numa risada meio forçada, como quando se joga a cabeça pra trás e se pode ver virtualmente a úvula. Com isso, também o tocou novamente no braço, como uma forma de validação do caminho que estavam fazendo.

Julie não costumava sair com caras como Jaime. No geral eles não tinham bons empregos, ou cortes de cabelo. Perdeu a virgindade aos 16 anos na casa de um cara que dava festinhas e chamava adolescentes como ela pra fazer brincadeiras. Quando pensa nisso nos dias atuais, sente-se meio violada e meio poderosa, porque o sujeito era bem mais velho, mas ele acabou fazendo tudo que ela queria, por um instante. Quando tinha uns 10 anos, se esfregava numa almofada e achava que ia ficar grávida de almofadinhas, – disso ria sem parar no mesmo quarto em que assistia TV Globinho.

A exposição de arte estava fechada. Julie sabia disso, havia se lembrado no meio do caminho, mas preferiu não dizer nada para não estragar a caminhada e para onde ela poderia os levar. Falaram sobre seus trabalhos, Julie já havia se familiarizado com termos como amortização e depreciação. Jaime ficou sabendo da Hegs e pensava que diferença poderia haver entre os ovos normais do supermercado e os dessa empresa. Na surpresa com o horário de funcionamento da galeria, olharam-se com dúvidas sobre o que fariam a seguir, até que Julie sugeriu abrir uma garrafa de vinho em sua casa, que “ficava logo ali”. Não é como se esse convite fosse totalmente inapropriado: conversavam há pelo menos duas horas e já sabiam o básico um sobre o outro. Jaime estava a tanto tempo sem sair com ninguém que ficou contente, mas perplexo, a princípio, com a iniciativa tão precoce de Julie, que não achou aquilo nada de mais.

Entraram e ela fez duas taças enquanto ele se sentava sobre o sofa-cama na entrada do apartamento. “Você gosta de plantas, não é?”, Jaime disse depois de mais ou menos um minuto de silêncio. Julie explicou que era de seu colega de quarto “que é gay, na verdade”, antecipando-se para evitar algum mal entendido. Quando se sentaram frente a frente perceberam que não havia, de verdade, mais assunto sobre que poderiam falar. A inesgotável conversa que durava desde as cinco da tarde haveria de acabar uma hora, por isso Julie se aproximou, sem dizer nada, e beijou Jaime na boca, apoiando-se em sua coxa, numa inclinação quase completa, em que por pouco não deixava seu lugar no sofá. Jaime não moveu nenhuma das mãos, e enquanto ela tentava enfiar a língua devagarzinho dentro de sua boca, Jaime esquivou-se ligeiramente para trás. A esquiva pareceu mero reflexo, então Julie apoiou o que faltava de seu corpo sobre ele, que dessa vez a segurou em um dos ombros, mas ao invés de a trazer para mais perto, a empurrou sutilmente para que pudesse dizer que precisava ir ao banheiro. Julie ficou sentada e deu um gole no vinho, pensando que talvez devesse pegar mais leve, embora estivesse, na verdade, com raiva. Jaime fez xixi, olhou-se no espelho e levantou a camisa, como que para certificar-se de que sua malhação estava em dia e pensou que talvez fosse legal deixar a Julie fazer o que ela quisesse, mesmo que estivesse sentindo uma mistura de pudor e repulsa, mas preferiu pensar que isso era só nervosismo, ou ansiedade. Também pensou que mulheres não deveriam ser tão atiradas assim.

Jaime voltou e Julie já tinha terminado a taça. Sentiu que tinha sido um pouco rude ao deixa-la daquele jeito e cortar o clima que estavam tentando construir, por isso sentiu necessidade de ser muito mais simpático e permissivo do que era preciso ser naquele momento. Quando sentou-se de novo, Julie tinha ligado a TV e passava o filme De Olhos Bem Fechados, que já devia estar no final. Trocaram meia duzia de palavras sobre Tom Cruise e, de novo, Julie havia iniciado um movimento que nessa segunda vez parecia muito mais feroz do que a primeira. Sentou-se sobre ele, buscando sem sucesso o cabelo para puxar. Jaime pensou que se o amigo chegasse, aquilo seria bastante desconfortável para todos e que Julie parecia não dar a mínima para essa possibilidade. Estavam na sala e as cortinas estavam abertas, ainda não estava completamente escuro, e Julie insistiu tanto que já estava abrindo o zíper de Jaime com bastante energia. Jaime preferiu pensar que era o vinho, naquele momento.

Julie o chupou por uns trinta segundos e voltou a beijá-lo, segurando levemente o seu pescoço como se o enforcasse de mentirinha, e estourou, sem querer, um botão de sua camisa. Jaime ainda recusava timidamente, e tentava transformar beijos muito molhados em desastrados selinhos, porque achava que ela o iria acompanhar. “Espera”, disse pouco depois, ofegante, somente para ser contestado prontamente em uma inesperada exclamação “por que é, então, que você está aqui?”

– Sua puta! – disse empurrando-a de volta para onde ela estava sentada no início. Saiu. Deixou a porta aberta, em pleno junho.

 

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Memórias póstumas 

Amor, não me vem com natureza morta
Ressuscita primeiro sua malandragem
Mostra que poesia não é feita de pôr do sol
E que o sol se pôs porque no entardecer da gente cê já não importa.

Fecha a porta de vez, então, vê se me erra
Deita na cama que você fez, mas não comigo, que eu não carimbei trouxa na testa.
Me resta olhar você me olhando com o olho e lambendo com a testa, imaginando um portal de viagem no tempo pro tempo em que o nosso jardim florescia todo em floresta

Mas viva o desmatamento!

Contentamento descontente não é mantimento, é como aguardente
Que desce queimando, te ilude, te da um barato
Te prende, te rende, só que dessa vez eu conheço um pulo do gato

Só um corpinho as mina não quer, amor

Pontos e pintas 

Revisitando as sardas
E as formas geométricas que formam
Se eu ligar os pontos
Desenho de volta sobre suas costas 
As linhas apagadas
Que, escritas a lápis, 
Ainda assim marcaram, 
com profundidade, 
A folha de papel.
Releio então as linhas
Das pintas ruivas redondas 
Lindas!
E defino em tinta
Todos os rascunhos que fiz
Sempre sabendo 
que esta seria afinal
A minha melhor versão 

Aviso

Att todos
Aos que não tiverem reunião na sexta-feira, podem vir casual
Itens não permitidos:

Regata
Camiseta
Chinelo
Tênis
Mini saia
Bermuda
Shorts
Boné
Pochete
Roupas de academia
Chapéu
Crocs
Short-saia
Ombreira
Botina
Avental
Turbante
Quepe
Bota de montaria
Maxi colar
Aplique
Cocar
Canga
Boina
Gladiadora
Capa de chuva
Macacão
Sombrero
Burca
Pantufa
Samba canção
Boá
Bolerinho
Colã
Munhequeira
Touca de banho
Joelheira
Fedora
Peruca
Bico de pato
Polaina
Calça bailarina
Cinta liga
Viseira
Bandana
Meia arrastão
Babador
Espartilho
Tererê
Suspensório
Calçolas
Sapatênis
Jaleco
Jardineira
Coturno
Vestido balonê
Calça saruel
Babydoll
Cartola
Chuteira
Kilt
Farda
Pé de pato
Quimono
Frente única
Poncho

Abs
A direção

Soneto acromático

Parece que amarelo não existe
Nas roupas dos banqueiros e assistentes,
Distintos desfilando aqui na frente
De branco, azul-bebê e um bege triste.
Às vezes usam verde mas bem claro.
Pra ver o pigmento só com lupa.
Laranja só se for um sal de fruta.
Cinzentos seguem dentro de um Camaro.
O dia em que vestirem amarelo
Será como assistir um quarto escuro
Se encher de repentina claridade.
Mais fácil ser daltônico que um belo
E oco milionário já maduro
Vestindo um verde opaco e sem vontade.

N. entra

N. diz que F. gostaria de um presente ereto de natal. Desses que se constroem com tempos de pílula e um tratamentozinho com um doutor mágico. F. não sabe se o doutor precisa ser mágico. Mas mágico seria o J. a presentear. Pelo menos querer presenteá-la, fazer um esforcinho, um agradinho. As amigas de F. não entendem: pensam que é distúrbio, que é demência não dar umazinha umas três vezes por semana já que é a idade mais viril os trinta. Não entendem a dinâmica de “casal” que acontece entre F. e J. F. admite que gostaria que fosse um pouco mais fácil pelo menos bater um papinho sem botar um elefante enorme na sala. Tem dias que F. só quer chegar em casa de um longo dia, dar uma boa transada, dormir feliz e sorrindo, amassada no travesseiro e tomar banho da meleca só no dia seguinte. N. pergunta se não era isso que F. queria: chegar em casa e J. a arremessar na mesa de jantar mesmo, uma coisa rápida, depois fazer macarrão e dormir. F. quer isso. F. queria fazer um strip-tease de vez em quando, poder fazer um amorzinho e dar risada depois. Não se sentir somente performática, a atriz pornô, a Bruna Surfistinha que dorme com o Zé e escreve no livro depois. Queria umazinha de leve, de pijama mesmo, F. até admite meias de vez em quando. F. tem consciência de que lá no fundinho da sua mente aberta de moderninha mora uma menininha em crescimento frígido e que seria ideal confrontar essas fantasias de peito aberto e perigar ser um pouco melhor comida. F. para por um momento e diz pra N. que não é bem assim. Não dá pra colocar o amorzinho de J. e F. no saco com os outros amorzinhos da face da terra. Tem um monte de paradas aí que não se encaixariam. F e J. nunca foram um casal convencional. Primeiro que F. considera não ter existido a fase do jogo-de-sedução. J. não se importa com isso mas pensa também que não. A fase em questão que se estende pelos relacionamentos – pelo menos os retratados tão vividamente por N. – desdobra-se numa eterna tensão silenciosa em que não se compartilha de muitas emoções, somente por separarem o rótulo do amante do rótulo do amigo. F. e J. são, acima de tudo, parceiros boníssimos e compartilham tudo exceto sexualidade. F. sabe que pensa em sexualidade como se ela e o J. tivessem diferentes. F. é hétero, J. é a. Aparentemente. F. e J. nunca deram nomes aos bois, aos elefantes, a que raio de bicho que seja. Mas N. está determinada a tirar uma lasquinha da F. hoje. Quer saber se nenhuma partezinha de dentro da F. implora pra receber uns dedinhos menos afetuosos e mais certeiros. F. desconversa. F. sabe que queria lambidas, queria deixar uma meia luz de vez em quando e brincar com as mãos, despretensiosamente. Mas continua firme, a favor do J. F. parece mais preocupada com como é difícil achar coisa semelhante fora de casa. O trabalho que da deitar com o Zé, o trabalho que dá achar tempo na agenda, flertar, trocar dois dedos de prosa. Não seria mais fácil F. abrir a porta da sala e ser despida sem ter que pedir? N. questiona. F. fala que “conexão mental” é mais importante. Por dentro concorda, ao mesmo tempo em que vê a sinuca de bico em que seu coração e a sua quase finada vagina se encontram. N., inesgotável, indaga: não será J. gay? F. sinceramente não sabe, mas responde que não, já falaram como adultos e seriamente sobre, mas é mentira. F. nunca perguntou com todas as letras e J. nunca respondeu. Teve ótimas ocasiões para abrir mas J. não o fez. F. conclui, então, que J. não é. E botou a pedra de volta em cima disso. Deveriam F. e J. voltar a falar do tal elefante? F. pensa que não, J. também. F. queria, no entanto, um jeitinho mais fácil de ser apalpada e de ter um pequenino orgasmo a cada vinte dias, pra ser bem pessimista. F. pensa que não seria pedir muito. Perguntou-se, porém, ao final, se J. algum dia mudaria. F. crê que não. Mas tem dia que é foda

Gafanhoto iletrado

– Eu escrevo, sabia? Disse a F., apoiando os cotovelos na mesa alta de uma Starbucks. Despejou na mesa mais um monte de anedotas sobre si, enquanto também falaram sobre morte e sobre o quão intensa F. podia ser na cama (J. deduziu que muito). F. fez questão de enfatizar a pretensão a escritora, porque tinha a certeza de que, ao sair dali, relataria o enlevo que J. ocasionou com várias das suas palavras bonitinhas. J. até sugeriu o título sobre gafanhotos, ou algo dessa natureza, querendo ser sagaz e talvez pensando que F. não se lembraria disso depois – pois ele já tinha lhe pagado umas cervejas.

F. sempre gostou de sair buscando protagonistas pras suas histórias, ainda mais quando estava entediada e assim tão desperta. F. havia trabalhado até as onze, estava há meses superando um trauma meio robótico. Coerente, apesar de ligeiramente melancólico.

Era noite em agosto no coração carente e quebrado da F. Foi o que F. pensou quando J. elogiou seu casaco, enquanto ela tomava uma cerveja da moda na rua da cidade onde era então novata. E F. não culpou J.! Tinha sido um dia comprido. Não duvidou de que aquele casaco fosse mesmo a sua melhor qualidade.

J. chegou e saíram, vagaram e F., sem ver, quebrou uma promessa. Seguiram caminhando pra casa às quatro da manhã, enquanto F. sentia um êxtase de comprimido. Teve duas reações completamente diferentes antes e depois do J., que quando chegou, era nada mais do que um malandro de cabelo gozado, puxando papo com o alvo mais fácil das madrugadas augustanas. Quando J. a deixou em casa, F. entrou falando baixinho:

Não me deixa esquecer ele!

Não me deixa esquecer ele!

Não me deixa esquecer ele!

F. sabe a memória que tem.

Sabe de sua vaidade, que jamais aceitaria esse desdém com um pobre pronomezinho oblíquo (não custava nada!). Muito menos essa afronta ao uso do imperativo.

Fê-la rir tantas vezes que a F. nem conseguiu contar no dia seguinte. Quando acordou, ainda delirando, tentou rabiscar duas ou três palavras a respeito do J., mas acabou um pouco muda. F. não queria quebrar o feitiço, acabar pensando que o garfo na cabeleira do J. era um sonho lúcido.

F. pensou que foi mentirosa e um pouco ingênua ao vangloriar-se de um talento que na verdade não tinha. Devia tê-lo poupado! Meses foram embora e F. não escreveu nenhum parágrafo que transcrevesse de boa maneira a entorpescência da camisa florida do J. Certamente, desaprendeu a escrever a F., ou nunca soube.

Mas, depois as palavras voltam, sempre aparecem as palavras, querida F.! No entanto a história fica, mesmo que isso seja só um dezesseis avos dela porque, francamente, é tudo que F. quer lembrar.

Evander Holyfield

Não fosse essa fase, o garoto da longa proeminência laríngea passaria na frente da F. e ela nem via. A F. não trocaria tanto a calcinha. A F. era bem mais focada. Tem dias em que a F. sai de casa, alguém fala será-que-chove-hoje? e ela realmente pensa no precipitar das águas e não no precipitar das roupas. Passa o gatinho a F. desmonta os olhos da cara, só falta lamber com a testa a bonita, a cheirosa, a perfumada lá. Depila todo dia a interpretação de texto do chefe dela, que quer chamar geral pra happy hour, justo hoje que a barraca tá armada, que a parada é segurar. Segurar a língua na boca, guardar as plásticas proteções no fundo da carteira. Mofa que nem madeira na chuva, ah a chuva! F. seca os filtros depois de passar um cafézinho. F. está surrealista, artista, tá na lista, no caminho pra se afogar. F. pensou consigo que faz a Charlotte, que queria era o bote que nem cobra desses cabra que passa e repassa na hora que F. quer se atentar. Limpa as baba da boca, não usa direito concordância dos artigo com os nome. Passa fome, lindinha, passa sede. F. queria fazer feat., chamar a presença esporádica de um macho, quiça sossegar o facho, ficar na boa. A F. perde o foco, às vezes, coitada, finge que não engoliu um palmo daquele moleque dentro da cabeça. F. até pensa em variar de vez em quando, fazer o beat a mando da sua crença. F. coitada, F. Faz carreira solo…

Bate a cabeça da F. na cabeceira, vai? Abre a toneira da F.
Menina que desvozeia fricativa torce pra explodir bilabial.

Cesta

Curvas, dobras, circunferência. Furos e linhas e o que mais podia estar na montanhosa aventura entre as minhas coxas imensas. Brincávamos de fazer casinha com o lençol, de repente ele se deu conta de que tinha que ir. Já passava das nove, acordamos as sete. Levantou da cama e depois deu um beijo estalado em um dos lados da minha bunda. Foi. Fiquei na cama por mais uns quarenta minutos, de olhos abertos, encarando uma lampada que deveria estar num lustre. Ele sabe o meu nome? Ele deveria?

Chamava-se, mesmo, Vitor, mas com c, e nos víamos nas noites de terça feira, quando dava. Trocávamos meia dúzia de palavras, mas ele logo arrancava minha roupa com bastante pressa e me mordia no ombro ou no nariz. Quando havia tempo, passeava a mão fria pelo hemisfério sul do meu umbigo, demorava, contornava, sem encostar. Quando não havia, fazia de conta que já estava lá e escondia o rosto entre as cobertas pra me levar junto com ele. E conseguia um pouco. Mas era só terça feira. Quarta eu acordava, deitava de bruços enquanto o via botar a roupa de volta. Às dez tinha o cartão pra bater e a semana pra empurrar.

De quinta, às vezes, conhecia alguém no bar que abriu perto da minha nova casa. Mesma ladainha de sempre. Mas andava meio pra baixo, com lembranças de bons tempos quando me olhava no espelho e achava pelo menos okay. Tinha a mania de parar por dois segundos em frente ao espelho comprido do quarto olhando cada centímetro do meu próprio corpo. Mas é passado. Nos últimos tempos passava direto e me vestia com urgência. Deus me livre ver minhas curvas, ver minhas marcas. Só esse sujeito mesmo pra gostar.

E no entanto ele era bem mais um. O da terça, o da quinta. Me pergunto toda vez porque ainda marco esses encontros. Na verdade, acho que eles aparecem por aqui e eu só não recuso. Mas vez ou outra dava uma choradinha no banheiro pensando que jamais juntaria amor com sexo de novo. Mesmo assim, me divertia por uns poucos minutos, tentava pelo menos uma transa descente, pra não dizer que estava morta, como andava me sentindo. Às vezes ponderava por tempo demais se realmente valia a pena a ressaca do dia seguinte só pra uns dez minutos de gemidinhos no ouvido dele no completo escuro. E não beijava bocas direito. Fazia de tudo pra não encostar. Deus me livre.

Victor era tudo que sabia dele agora. Um nome, e que era publicitário, algo assim. De vez em quando pensava, o que ele estaria fazendo com a mais nova fracassada da Bela Vista, ao invés de com alguma menina que no mínimo se desse valor. Segundo ele eu tinha baixíssima auto estima. E eu sabia disso, não era nenhuma novidade. Mas pra quê auto estima se me gosta de qualquer maneira, mas não desse jeito.

É mais um pra conta.

Another one in the basket.

Rotina

Deslizo prum lado e pro outro o dedo na tela do celular. Quantos matches por segundo até saber que esquisitinho vou encontrar hoje na saída quando terminar o expediente e eu não tiver que ver mais tanto cinza. O cinza das paredes e dos aplicativos, das cortinas, dos banheiros. Devo encontrar um estranho que, quando eu encontrar, nem estranho mais vai ser, porque eu terei visto as fotos das viagens, dos cachorros, das refeições em grandes cadeias do ramo alimentício ou pequenas. Na esquina, me arrependo. Queria ter deixado minha mesa pra sempre, virado artista. Ah, se eu tivesse algum talento! Me irrito de manhã quando os papéis estão fora do lugar, mas depois admito, vencida, que eu é que estou deslocada, então não pode ser culpa da tia da limpeza. Penso que encontro o malacabado no balcão, tomo uma ou duas caipiroskas de alguma vodka falsificada como se algum dia eu fosse mesmo capaz fazer a distinção. Vejo sites e não livros de poetas e na leitura dinâmica acabo bebendo da fonte quando vejo estes outros sonhadores que como eu só querem colorir as camisas pálidas e abotoadas dos banqueiros na nossa frente, torcer pra eles darem uma risadinha e largar mão de fazer meeting, entrar num call, discutir o budget. Bebemos bebidas russo-brasileiras, deitamos, quase fazemos um bebê que não nasce nunca, dizemos adeus, eu suponho. As gavetas não irão se arrumar sozinhas, penso, a maquina de xerox talvez sinta a minha falta. Fico empolgada que compraram um novo tipo de durex. Escuto os bonitos divagando sobre superfood, hambúrgueres e os resultados da sexta passada. E eu não mudei nada desde o que dia em que descobri o fordismo. Saio, meio que corro, pro boteco não gourmet mais próximo, finjo que mexo no celular. Vejo 74 selfies que fiz ontem quando me maquiei e não saí. Quero passar horas sem abrir a boca, sem passar os limites do meu metro quadrado e comendo bananas na empresa hiper saudável prafrentex onde emprego umas nove horas do meu dia. Garoto engraçadinho já me ganha, se gosta de gifs, se tem foto espontânea de uma Canon, se escuta MGMT e mesmo assim gosta de meninas. Acordo, ligo a luz do abajur que vem afiada ao meu encontro, ligo youtubers que dão dicas de como esconder os poros e as linhas de expressão. Mas que expressão? Penso, rindo, já que sou meio morna, que no meu perfil tem uma frase com cinco palavras: sou bacaninha, bonitinha, moderninha, casual. Encontro outro estranho de óculos grosso, de barba de um palmo e gravata borboleta. Maneiro o seu bigode, seu papo sobre startups e o caramba e durmo, peço pra trazer rápido a toalha enquanto me enrolo e penduro na cortina plástica do banheiro. Depois censuro um texto ou dois. Hoje vou comer sushi ou árabe? Vou de metrô ou de bike? Ando pela Joaquim ou pela Leopoldo? enquanto desisto e procuro um quilo baratinho em pleno Itaim Bibi. Na volta como um bolo no pote que custa o triplo do pedaço, digo oi meio amarelo pro carinha que já deu em cima de mim em 2013 e esqueceu. Penso, então, em ligar pra alguém, oi sumido, mando uma carinha e vejo se ele quer fazer alguma coisa hoje depois das cinco e não quer. O gatinho é outro, o humor é outro, mas as tarefas são as mesmas: passar durex, tirar cópias de relatórios com o slip de cartão que ninguém se preocupou em manter legível. Horas a ver cãezinhos em memes, a pensar que bonitinho!, pena que nasceu em 96 e minha libido deve estar explodindo! – Cacete! Espero que consiga sentar no ônibus dessa vez ou que eu não pise na merda na rua. Tomara que meu professor não decida discutir se devemos ou não ler Woody Allen porque ele se casou com a enteada e quem se importa!. Volto e procuro algo descartável pra noite, não acho, e pra materializar meu pensamento que sabe-se lá onde pode estar. Durmo, brinco. Vejo um pornô pra mulheres. Só volto agora amanhã.