Aviso

Att todos
Aos que não tiverem reunião na sexta-feira, podem vir casual
Itens não permitidos:

Regata

Camiseta 

Chinelo

Tênis 

Mini saia

Bermuda

Shorts

Bone 

Pochete

Roupas de academia 

Chapéu

Crocs 

Short-saia

Ombreira 

Botina

Avental 

Turbante

Quepe

Bota de montaria

Maxi colar

Aplique

Cocar

Canga

Boina

Gladiadora

Capa de chuva 

Macacão 

Sombrero

Burca

Pantufa

Samba canção 

Boá

Bolerinho

Colã

Munhequeira

Touca de banho

Joelheira

Fedora

Peruca

Bico de pato

Polaina

Calça bailarina 

Cinta liga

Viseira

Bandana

Meia arrastão 

Babador

Espartilho

Tererê

Suspensório 

Calçolas 

Sapatênis 

Jaleco

Jardineira

Coturno

Vestido balonê

Calça saruel

Babydoll 

Cartola

Chuteira

Kilt

Farda

Pé de pato

Quimono 

Frente única 

Poncho

Abs
A direção

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Soneto acromático

Parece que amarelo não existe
Nas roupas dos banqueiros e assistentes,
Distintos desfilando aqui na frente
De branco, azul-bebê e um bege triste.
Às vezes usam verde mas bem claro.
Pra ver o pigmento só com lupa.
Laranja só se for um sal de fruta.
Cinzentos seguem dentro de um Camaro.
O dia em que vestirem amarelo
Será como assistir um quarto escuro
Se encher de repentina claridade.
Mais fácil ser daltônico que um belo
E oco milionário já maduro
Vestindo um verde opaco e sem vontade.

N. entra

N. diz que F. gostaria de um presente ereto de natal. Desses que se constroem com tempos de pílula e um tratamentozinho com um doutor mágico. F. não sabe se o doutor precisa ser mágico. Mas mágico seria o J. a presentear. Pelo menos querer presenteá-la, fazer um esforcinho, um agradinho. As amigas de F. não entendem: pensam que é distúrbio, que é demência não dar umazinha umas três vezes por semana já que é a idade mais viril os trinta. Não entendem a dinâmica de “casal” que acontece entre F. e J. F. admite que gostaria que fosse um pouco mais fácil pelo menos bater um papinho sem botar um elefante enorme na sala. Tem dias que F. só quer chegar em casa de um longo dia, dar uma boa transada, dormir feliz e sorrindo, amassada no travesseiro e tomar banho da meleca só no dia seguinte. N. pergunta se não era isso que F. queria: chegar em casa e J. a arremessar na mesa de jantar mesmo, uma coisa rápida, depois fazer macarrão e dormir. F. quer isso. F. queria fazer um strip-tease de vez em quando, poder fazer um amorzinho e dar risada depois. Não se sentir somente performática, a atriz pornô, a Bruna Surfistinha que dorme com o Zé e escreve no livro depois. Queria umazinha de leve, de pijama mesmo, F. até admite meias de vez em quando. F. tem consciência de que lá no fundinho da sua mente aberta de moderninha mora uma menininha em crescimento frígido e que seria ideal confrontar essas fantasias de peito aberto e perigar ser um pouco melhor comida. F. para por um momento e diz pra N. que não é bem assim. Não dá pra colocar o amorzinho de J. e F. no saco com os outros amorzinhos da face da terra. Tem um monte de paradas aí que não se encaixariam. F e J. nunca foram um casal convencional. Primeiro que F. considera não ter existido a fase do jogo-de-sedução. J. não se importa com isso mas pensa também que não. A fase em questão que se estende pelos relacionamentos – pelo menos os retratados tão vividamente por N. – desdobra-se numa eterna tensão silenciosa em que não se compartilha de muitas emoções, somente por separarem o rótulo do amante do rótulo do amigo. F. e J. são, acima de tudo, parceiros boníssimos e compartilham tudo exceto sexualidade. F. sabe que pensa em sexualidade como se ela e o J. tivessem diferentes. F. é hétero, J. é a. Aparentemente. F. e J. nunca deram nomes aos bois, aos elefantes, a que raio de bicho que seja. Mas N. está determinada a tirar uma lasquinha da F. hoje. Quer saber se nenhuma partezinha de dentro da F. implora pra receber uns dedinhos menos afetuosos e mais certeiros. F. desconversa. F. sabe que queria lambidas, queria deixar uma meia luz de vez em quando e brincar com as mãos, despretensiosamente. Mas continua firme, a favor do J. F. parece mais preocupada com como é difícil achar coisa semelhante fora de casa. O trabalho que da deitar com o Zé, o trabalho que dá achar tempo na agenda, flertar, trocar dois dedos de prosa. Não seria mais fácil F. abrir a porta da sala e ser despida sem ter que pedir? N. questiona. F. fala que “conexão mental” é mais importante. Por dentro concorda, ao mesmo tempo em que vê a sinuca de bico em que seu coração e a sua quase finada vagina se encontram. N., inesgotável, indaga: não será J. gay? F. sinceramente não sabe, mas responde que não, já falaram como adultos e seriamente sobre, mas é mentira. F. nunca perguntou com todas as letras e J. nunca respondeu. Teve ótimas ocasiões para abrir mas J. não o fez. F. conclui, então, que J. não é. E botou a pedra de volta em cima disso. Deveriam F. e J. voltar a falar do tal elefante? F. pensa que não, J. também. F. queria, no entanto, um jeitinho mais fácil de ser apalpada e de ter um pequenino orgasmo a cada vinte dias, pra ser bem pessimista. F. pensa que não seria pedir muito. Perguntou-se, porém, ao final, se J. algum dia mudaria. F. crê que não. Mas tem dia que é foda

Gafanhoto iletrado

– Eu escrevo, sabia? Disse a F., apoiando os cotovelos na mesa alta de uma Starbucks. Despejou na mesa mais um monte de anedotas sobre si, enquanto também falaram sobre morte e sobre o quão intensa F. podia ser na cama (J. deduziu que muito). F. fez questão de enfatizar a pretensão a escritora, porque tinha a certeza de que, ao sair dali, relataria o enlevo que J. ocasionou com várias das suas palavras bonitinhas. J. até sugeriu o título sobre gafanhotos, ou algo dessa natureza, querendo ser sagaz e talvez pensando que F. não se lembraria disso depois – pois ele já tinha lhe pagado umas cervejas.

F. sempre gostou de sair buscando protagonistas pras suas histórias, ainda mais quando estava entediada e assim tão desperta. F. havia trabalhado até as onze, estava há meses superando um trauma meio robótico. Coerente, apesar de ligeiramente melancólico.

Era noite em agosto no coração carente e quebrado da F. Foi o que F. pensou quando J. elogiou seu casaco, enquanto ela tomava uma cerveja da moda na rua da cidade onde era então novata. E F. não culpou J.! Tinha sido um dia comprido. Não duvidou de que aquele casaco fosse mesmo a sua melhor qualidade.

J. chegou e saíram, vagaram e F., sem ver, quebrou uma promessa. Seguiram caminhando pra casa às quatro da manhã, enquanto F. sentia um êxtase de comprimido. Teve duas reações completamente diferentes antes e depois do J., que quando chegou, era nada mais do que um malandro de cabelo gozado, puxando papo com o alvo mais fácil das madrugadas augustanas. Quando J. a deixou em casa, F. entrou falando baixinho:

Não me deixa esquecer ele!

Não me deixa esquecer ele!

Não me deixa esquecer ele!

F. sabe a memória que tem.

Sabe de sua vaidade, que jamais aceitaria esse desdém com um pobre pronomezinho oblíquo (não custava nada!). Muito menos essa afronta ao uso do imperativo.

Fê-la rir tantas vezes que a F. nem conseguiu contar no dia seguinte. Quando acordou, ainda delirando, tentou rabiscar duas ou três palavras a respeito do J., mas acabou um pouco muda. F. não queria quebrar o feitiço, acabar pensando que o garfo na cabeleira do J. era um sonho lúcido.

F. pensou que foi mentirosa e um pouco ingênua ao vangloriar-se de um talento que na verdade não tinha. Devia tê-lo poupado! Meses foram embora e F. não escreveu nenhum parágrafo que transcrevesse de boa maneira a entorpescência da camisa florida do J. Certamente, desaprendeu a escrever a F., ou nunca soube.

Mas, depois as palavras voltam, sempre aparecem as palavras, querida F.! No entanto a história fica, mesmo que isso seja só um dezesseis avos dela porque, francamente, é tudo que F. quer lembrar.

Evander Holyfield

Não fosse essa fase, o garoto da longa proeminência laríngea passaria na frente da F. e ela nem via. A F. não trocaria tanto a calcinha. A F. era bem mais focada. Tem dias em que a F. sai de casa, alguém fala será-que-chove-hoje? e ela realmente pensa no precipitar das águas e não no precipitar das roupas. Passa o gatinho a F. desmonta os olhos da cara, só falta lamber com a testa a bonita, a cheirosa, a perfumada lá. Depila todo dia a interpretação de texto do chefe dela, que quer chamar geral pra happy hour, justo hoje que a barraca tá armada, que a parada é segurar. Segurar a língua na boca, guardar as plásticas proteções no fundo da carteira. Mofa que nem madeira na chuva, ah a chuva! F. seca os filtros depois de passar um cafézinho. F. está surrealista, artista, tá na lista, no caminho pra se afogar. F. pensou consigo que faz a Charlotte, que queria era o bote que nem cobra desses cabra que passa e repassa na hora que F. quer se atentar. Limpa as baba da boca, não usa direito concordância dos artigo com os nome. Passa fome, lindinha, passa sede. F. queria fazer feat., chamar a presença esporádica de um macho, quiça sossegar o facho, ficar na boa. A F. perde o foco, às vezes, coitada, finge que não engoliu um palmo daquele moleque dentro da cabeça. F. até pensa em variar de vez em quando, fazer o beat a mando da sua crença. F. coitada, F. Faz carreira solo…

Bate a cabeça da F. na cabeceira, vai? Abre a toneira da F.
Menina que desvozeia fricativa torce pra explodir bilabial.

Cesta

Curvas, dobras, circunferência. Furos e linhas e o que mais podia estar na montanhosa aventura entre as minhas coxas imensas. Brincávamos de fazer casinha com o lençol, de repente ele se deu conta de que tinha que ir. Já passava das nove, acordamos as sete. Levantou da cama e depois deu um beijo estalado em um dos lados da minha bunda. Foi. Fiquei na cama por mais uns quarenta minutos, de olhos abertos, encarando uma lampada que deveria estar num lustre. Ele sabe o meu nome? Ele deveria?

Chamava-se, mesmo, Vitor, mas com c, e nos víamos nas noites de terça feira, quando dava. Trocávamos meia dúzia de palavras, mas ele logo arrancava minha roupa com bastante pressa e me mordia no ombro ou no nariz. Quando havia tempo, passeava a mão fria pelo hemisfério sul do meu umbigo, demorava, contornava, sem encostar. Quando não havia, fazia de conta que já estava lá e escondia o rosto entre as cobertas pra me levar junto com ele. E conseguia um pouco. Mas era só terça feira. Quarta eu acordava, deitava de bruços enquanto o via botar a roupa de volta. Às dez tinha o cartão pra bater e a semana pra empurrar.

De quinta, às vezes, conhecia alguém no bar que abriu perto da minha nova casa. Mesma ladainha de sempre. Mas andava meio pra baixo, com lembranças de bons tempos quando me olhava no espelho e achava pelo menos okay. Tinha a mania de parar por dois segundos em frente ao espelho comprido do quarto olhando cada centímetro do meu próprio corpo. Mas é passado. Nos últimos tempos passava direto e me vestia com urgência. Deus me livre ver minhas curvas, ver minhas marcas. Só esse sujeito mesmo pra gostar.

E no entanto ele era bem mais um. O da terça, o da quinta. Me pergunto toda vez porque ainda marco esses encontros. Na verdade, acho que eles aparecem por aqui e eu só não recuso. Mas vez ou outra dava uma choradinha no banheiro pensando que jamais juntaria amor com sexo de novo. Mesmo assim, me divertia por uns poucos minutos, tentava pelo menos uma transa descente, pra não dizer que estava morta, como andava me sentindo. Às vezes ponderava por tempo demais se realmente valia a pena a ressaca do dia seguinte só pra uns dez minutos de gemidinhos no ouvido dele no completo escuro. E não beijava bocas direito. Fazia de tudo pra não encostar. Deus me livre.

Victor era tudo que sabia dele agora. Um nome, e que era publicitário, algo assim. De vez em quando pensava, o que ele estaria fazendo com a mais nova fracassada da Bela Vista, ao invés de com alguma menina que no mínimo se desse valor. Segundo ele eu tinha baixíssima auto estima. E eu sabia disso, não era nenhuma novidade. Mas pra quê auto estima se me gosta de qualquer maneira, mas não desse jeito.

É mais um pra conta.

Another one in the basket.

Rotina

Deslizo prum lado e pro outro o dedo na tela do celular. Quantos matches por segundo até saber que esquisitinho vou encontrar hoje na saída quando terminar o expediente e eu não tiver que ver mais tanto cinza. O cinza das paredes e dos aplicativos, das cortinas, dos banheiros. Devo encontrar um estranho que, quando eu encontrar, nem estranho mais vai ser, porque eu terei visto as fotos das viagens, dos cachorros, das refeições em grandes cadeias do ramo alimentício ou pequenas. Na esquina, me arrependo. Queria ter deixado minha mesa pra sempre, virado artista. Ah, se eu tivesse algum talento! Me irrito de manhã quando os papéis estão fora do lugar, mas depois admito, vencida, que eu é que estou deslocada, então não pode ser culpa da tia da limpeza. Penso que encontro o malacabado no balcão, tomo uma ou duas caipiroskas de alguma vodka falsificada como se algum dia eu fosse mesmo capaz fazer a distinção. Vejo sites e não livros de poetas e na leitura dinâmica acabo bebendo da fonte quando vejo estes outros sonhadores que como eu só querem colorir as camisas pálidas e abotoadas dos banqueiros na nossa frente, torcer pra eles darem uma risadinha e largar mão de fazer meeting, entrar num call, discutir o budget. Bebemos bebidas russo-brasileiras, deitamos, quase fazemos um bebê que não nasce nunca, dizemos adeus, eu suponho. As gavetas não irão se arrumar sozinhas, penso, a maquina de xerox talvez sinta a minha falta. Fico empolgada que compraram um novo tipo de durex. Escuto os bonitos divagando sobre superfood, hambúrgueres e os resultados da sexta passada. E eu não mudei nada desde o que dia em que descobri o fordismo. Saio, meio que corro, pro boteco não gourmet mais próximo, finjo que mexo no celular. Vejo 74 selfies que fiz ontem quando me maquiei e não saí. Quero passar horas sem abrir a boca, sem passar os limites do meu metro quadrado e comendo bananas na empresa hiper saudável prafrentex onde emprego umas nove horas do meu dia. Garoto engraçadinho já me ganha, se gosta de gifs, se tem foto espontânea de uma Canon, se escuta MGMT e mesmo assim gosta de meninas. Acordo, ligo a luz do abajur que vem afiada ao meu encontro, ligo youtubers que dão dicas de como esconder os poros e as linhas de expressão. Mas que expressão? Penso, rindo, já que sou meio morna, que no meu perfil tem uma frase com cinco palavras: sou bacaninha, bonitinha, moderninha, casual. Encontro outro estranho de óculos grosso, de barba de um palmo e gravata borboleta. Maneiro o seu bigode, seu papo sobre startups e o caramba e durmo, peço pra trazer rápido a toalha enquanto me enrolo e penduro na cortina plástica do banheiro. Depois censuro um texto ou dois. Hoje vou comer sushi ou árabe? Vou de metrô ou de bike? Ando pela Joaquim ou pela Leopoldo? enquanto desisto e procuro um quilo baratinho em pleno Itaim Bibi. Na volta como um bolo no pote que custa o triplo do pedaço, digo oi meio amarelo pro carinha que já deu em cima de mim em 2013 e esqueceu. Penso, então, em ligar pra alguém, oi sumido, mando uma carinha e vejo se ele quer fazer alguma coisa hoje depois das cinco e não quer. O gatinho é outro, o humor é outro, mas as tarefas são as mesmas: passar durex, tirar cópias de relatórios com o slip de cartão que ninguém se preocupou em manter legível. Horas a ver cãezinhos em memes, a pensar que bonitinho!, pena que nasceu em 96 e minha libido deve estar explodindo! – Cacete! Espero que consiga sentar no ônibus dessa vez ou que eu não pise na merda na rua. Tomara que meu professor não decida discutir se devemos ou não ler Woody Allen porque ele se casou com a enteada e quem se importa!. Volto e procuro algo descartável pra noite, não acho, e pra materializar meu pensamento que sabe-se lá onde pode estar. Durmo, brinco. Vejo um pornô pra mulheres. Só volto agora amanhã.

A frigideira

É possível, eu pesquisei. É cômico, trágico, é uma tragicomédia que protagonizo. Agonizo, tem dias que agonizo, num texto conciso, aviso: cansei.
Mas não canso, repenso, romance, suspense. Tão certa da gente que até me calei.

Todos os dedos, a palma das mãos, os joelhos, todos se dão com lençóis. Mas é sonho, é desejo num beijo que na composição não molha, não se atreve, não tem nada a ver com os pelos. Pelo contrário, os põe pra dormir, os endireita, em linha reta e penteados, não importa se raspados, aparados, libertos ou intocados.

Não volto a rimar tão cedo, não alitero mais nada. A frigideira não frita e “não importa”, mas minhas partes estão mortas, atrofiadas.

E não há quem tenha culpa. É só assim que é.
Pelo menos tenho dedos, alma, televisão. E já posso acordar.

Alheio 

Curioso ver que as partes desintregram
As partes da memória, da nossa memória, das fotos na sala
Colaram sua cara de menino no corpo de um homem
cultivaram barba rala
Enquanto se arrancava de dentro tudo o que tinha de humano

E ver que não foi você quem cresceu comigo
Certamente não foi com você que eu brincava
Não tem nada a ver o seu tom de voz
as suas mãos cortadas
Com seus olhos serenos, seus olhos sem danos

Os brinquedos são os mesmos mas agora com sangue
carimbando digitais, como outra carteira de identidade
Não há mais desenhos, só cartas
promessas, não honestidade
De um remetente desconhecido

Mas é você que a mim não conhece
Fosse o caso não me diria o que disse, nunca teria escrito
não se atiraria, não voltaria nunca
repito
Me conhecesse nem sequer teria ido

Sutilezas

Fiz um pacto comigo mesma de não escrever sobre coisas difíceis ou textos dos quais eu saia aos prantos. É assim que costuma acontecer, porque a escrita é uma forma de descarrego e por mais merdas que sejam seus frutos, esses momentos de digitação aliviam o peso dos meus ombros. Se é que tenho peso, ou ombros.

*

Tenho certa antipatia por cobradores de ônibus. Aliás por qualquer pessoa cuja presença me sugue pra uma atmosfera na qual me sinto em desvantagem, como quando fico refém do transporte coletivo e só tenho no bolso uma nota de vinte, para a qual eles nunca têm troco. A implicância, na verdade, é menos um desprezo gratuito do que uma sensação de que esses estranhos têm certo poder sobre mim. Porque eles têm, de verdade, o poder de decidir se eu vou ou não atravessar a catraca e, embora eu tenha saído sem pagar em muitas ocasiões, coisa que me colocaria em vantagem, sempre desço as escadas do ônibus me sentindo a passageira mais impotente. E então fecho a cara, pareço ser muito mais desagradável do que realmente sou. Jogo a nota de dinheiro em cima daquela gavetinha cinza onde ficam as moedas com tanta força que se cédulas fossem mais pesadas talvez eu quebrasse alguma coisa. E então me olham de canto julgando meus passos pesados e raivosos como se eu não tivesse o direito de ficar emputecida com essa pessoa maldosa que não quis calcular o troco pra mim. Se tem uma coisa que desestrutura a gente é o posicionamento de indivíduos na vertical. Essas pequenas autoridades aleatórias têm exatamente o poder de ditar se seu dia vai ser tranquilo ou turbulento, se você irá sentado ou em pé pro trabalho. E é também por isso que eu comprei uma bicicleta.

*

Todo dia me impressiono com a minha capacidade de tomar decisões equivocadas. Começa quando decido parar para amarrar os sapatos na rua e, nessa fração de segundos, acabo perdendo o ônibus. Na verdade, se você for parar pra pensar, tudo começa quando eu decido pegar o elevador que tem espelho ao invés do sem espelho, que é muito mais rápido, só pra poder arrumar o cabelo antes de dar as caras na rua. Mas, por outro lado, se eu não decido sair pela porta da cozinha e sim pela porta da sala eu não esbarro no vaso de plantas que tem perto do batente da porta e não tenho que limpar toda a sujeira. Tudo parece desandar, na verdade, quando eu decido passar fio dental depois de escovar os dentes, coisa que eu só faço raramente e quando tenho tempo, e eu nunca tenho. Mas se eu não decido comer um sanduíche de queijo com orégano de manhã eu não tenho que me preocupar com aquela coisinha verde presa no meu sorriso. Na verdade eu não devo decidir comprar orégano quando tenho a oportunidade de não comprar e eu preciso decidir ir pra cama mais cedo para assim poder acordar no horário e conseguir arrumar meu cabelo no espelho da minha casa e não no do elevador.

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Jessica terá um bebê e este será o seu segundo bebê. Talvez no ano que vem eu tenha um cachorro e este será o primeiro.

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Há um moço no metro butantã, loiro de cabelos um pouco emaranhados até os ombros que sempre que passo lá está admirando seu próprio reflexo no vidro da esquerda pra quem vem da Vital Brasil. De cara, parece um mendigo que elegeu a estação como seu mais novo lar, que tem umas alucinações loucas e que é super narcisista. Se olha, se arruma, conversa consigo mesmo, às vezes como numa conversa de bar, às vezes tomado por uma raiva mística de modo que grita e bate no vidro com força. Reparei que troca de roupas sempre. Esses dias passei e estava usando uma camisa vermelha e enfiava os pés imundos num chinelo Havaianas que parecia recém comprado. No dia seguinte usava calças – limpas e passadas -, e um Crocs – não tão limpo. Nunca o vi conversando com ninguém além de si mesmo ou pedindo alguma coisa, acho também que ele não fede tanto. Apesar da roupa limpa, não parecia ter lavado o cabelo naquela semana. O cabelo fino, a pele branca e bronzeada, um e sessenta de altura, mais ou menos, e magro, mas não raquítico. Fico intrigada com esse rapaz. Ontem, entrei no ônibus indo pra USP e ele estava sentado no primeiro banco, aquele logo atras do motorista e lia um livro de bolso de páginas amareladas, talvez em alemão. Usava o mesmo Crocs sujo e parecia ainda não ter lavado o cabelo.

*

A faculdade de filosofia, letras e ciências humanas da USP é uma espécie de parque do desconforto ao qual você quer ir sempre. É onde se juntam pessoas que tem um coração bom mas não sabem usa-lo e pessoas que sabem, mas são ruins. Todo dia chego adiantada uns trinta minutos e tenho vontade de morrer durante todo o tempo em que a aula não começa. Não posso evitar de ouvir as conversas alheias e de ficar irritada com a prepotência desmotivada dos alunos recém saídos do ensino médio ou com o clube de percussão que se encontra toda quinta debaixo da janela da minha aula de fonologia e fonética do português. E é somente durante a aula que entendo por que estou lá. No dia seguinte sempre fico ansiosa pra pegar o 8022 e parar na frente da FAU ou antes, assim caminho um pouco pra perder a barriga.

*

Não entendo como é possível descobrir, só depois de velha, que o meu corpo não é exatamente simétrico. Existem dobras infinitas na minha barriga agora e demoro mais pra me recuperar de hematomas. Sei que estou na chamada flor da idade e que pareço uma babaca reclamando de mudanças corporais acarretadas pelo envelhecimento, mas isso é menos uma reclamação do que uma reconhecimento. Sinto que finalmente entendo as dimensões do meu quadril e entendo que não há problema algum em pedir o número 42 e não comprar mais na Forever 21. Os sutiãs não necessariamente precisam de bojo e, na verdade, nem sei mais se é tão vital de fato usar um sutiã. O ruim é perceber isso quando seu guarda roupas já está, de alguma forma, estabelecido. Não é do dia pra noite que se aumenta um tamanho em todas as suas peças. Demanda investimento financeiro e aceitação. Não tenho tido muito a primeira e estou realmente querendo trabalhar a segunda. E é também por isso que eu comprei uma bicicleta.

*

Não posso evitar de identificar a grande metamorfose ideológica pela qual passei desde que me mudei pra São Paulo, em 2014. Me lembro muito bem de parar no farol na minha velha cidade, com o meu golzinho quadrado 91, e entregar um cobertor, que nem meu era, a um mendigo que me pedia moedas através do vidro. Era inverno, meados de maio. Na verdade acho que era outono mas ventava frio, acho que eram umas cinco horas da tarde. Eu usava aquele cobertor velho pra aquecer quem quer que estivesse desacordado na volta de alguma festa em Campinas ou pra cobrir os vidros quando resolvia transar no carro. Simplesmente peguei o cobertor do banco de traz e o entreguei ao pedinte que logo deu um belo sorriso banguela enquanto se enrolava naquela manta azul. Hoje passo pelas infinitas esquinas onde essas pessoas se achegam e só consigo sentir a satisfação de me lembrar sempre de tampar o nariz. E é só isso. E em muitas das vezes não são só esquinas, mas ruas inteiras cheias de lixo, mau cheiro e tristeza e nem isso é capaz de me comover ou me indignar. Um dia, lembro que senti um desconforto ao ver, do táxi, um homem chorando enquanto empurrava um carrinho de mercado, descalço e na chuva. Mas não era emoção, era como quando se entende o sentido de dignidade e se percebe que esse homem não tem nenhuma. Mas me surpreendo quando isso acontece porque é esporádico, digo esse desconforto. Na maioria das vezes consigo plenamente saber que uma mulher está cagando na rua, nas calças, e que não irá se limpar por um mês (ou mais) e não me importar. E pior, tendo a pensar que isso não é da minha conta. Meus colegas de sala com certeza me desprezariam, mas a apatia é aquilo que me salva nessa cidade sem piedade que só quer saber de prosperar.

*

Não deu.