Imunda e cândida

Uma parte de mim é imunda.
Percebi porque vi minhas mãos carimbadas na parede como um desenho primitivo. A sujeira era noventa porcento ferrugem, o resto tinta e não estava só nas minhas mãos.
Começou com uma dança esquisita como sempre começa, o vi só quando já estava perto. O nome não sei. Sei que queria segurar o meu pescoço, violento e macio. Vamos pra minha casa, pra fazer direitinho?, eu disse, porque só uma parte de mim é imunda.

Volto a falar sobre sexta feira, mesmo que tenha sido sábado. Sexta significa mais pra mim. Acho que era José, vamos chamar de José e era simples. Tinha cabelo simples, mãos simples, movimentos simples. Me chamou de lunática, falou que eu precisava me amar mais. E não me amo já muito, José? Não estou aqui?

Se era para beijar, beijamos. A boca redonda, convexa, com gosto de bebida. Eu olhei só pra ela e beijava de olhos abertos como se ele fosse fugir, como se nem estivesse ali. A altura era ideal: meu nariz se encaixava no espaço entre suas clavículas. Tinha ossos, isso tinha, um monte deles. Os braços finos, as pernas também, era simples.

Os olhos não sei, não os vi a não ser pela vermelhidão de em volta do direito. Podiam ser verdes, ou cor de mel, vamos dizer que eram cor de mel. Mas nem serviam pra olhar. No escuro, na ferrugem, não dava pra ver de cima pra baixo, no meio das minhas pernas. Não disse nada.

No sofá eu parecia imunda.
Mas só por causa do contraste, pela luz, a lucidez. Nem por isso deixava de carimbar os cotovelos, os joelhos, mais ou menos o corpo todo no sofá meio branco que nem era nosso. Não tinha som de nada a não ser de móveis.

Sexta eu o encontrei perdido, ele me encontrou perdida, me ofereceu carona, me declamou um poema razoável, beijou minhas coxas, me disse pra trabalhar a auto estima, me leu. Fosse domingo eu não o encontraria. Domingo eu voltaria limpinha pra casa de outro ele, como voltei. Voltaria cheirosa, uma seda. Mas sexta não.

À noite eu sou imunda.
E faxino na luz do dia, entrego José à estação, jogo as roupas, o lençol, na máquina, uso sabonete íntimo, jogo o sofá fora.

Quem disse que eu não posso ter duas caras?
Acho que sei amar de várias maneiras, porque chamo tudo de amor, porque sou meio elástica. Elástica, imunda, amante do que quer que seja, de quem seja. Mas sou.

Gostar gostei.
Fazer direitinho fiz.
Tomei banho.

De quem quer que eu seja sou imunda e cândida. Na sexta ou no domingo, como você quiser, na posição que você quiser. Acho que vivo em dobro e gosto como quem se olhou no espelho por tempo demais e se multiplicou. Como quem beija com a boca e fala com os olhos e dança pra poder emparelhar. Imunda e cândida.

Obrigada e volte sempre!

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Junho é o sexto mês

O dia 3 de junho desse ano caiu numa sexta-feira. Julie, que era geminiana e completaria 24 anos no mesmo mês, trabalhava há meses no projeto gráfico de uma empresa chamada Hegs, cujo produto era a produção e distribuição de ovos orgânicos. O projeto caminhava pobremente, “aos trancos e barrancos”, como costumava responder aos amigos que a indagassem. Às sextas-feiras, Julie trabalhava numa Starbucks a quatro quarteirões de sua casa, assim como às segundas trabalhava no Fran’s Café de Pinheiros, às terças na padaria da rua Caetes e às quartas no Parque Vila Lobos. Quinta-feira descansava, porque quarta à noite jogava futsal no Sesc Pompeia.

A Hegs queria inaugurar seu primeiro website no dia 6 de junho, por isso o dia 3 era tão importante. Depois de contadas quinze idas e vindas de seu projeto, Julie estava pronta para receber o seu pagamento e deslanchar de uma vez a ascensão do império orgânico de ovos na Zona Oeste de São Paulo. Às 4 e pouco enviou o projeto final em 3 emails e fechou seu MacBook. Logo depois pediu outro frappuccino tamanho venti e ficou sentada olhando notificações no celular.

Jaime, por outro lado, fazia contabilidade freelance para empresas de pequeno porte em seu modesto HP de 15 polegadas, enquanto tomava um expresso de baunilha. O dia 3 de junho era especialmente tocante para ele, pois há exato um ano ele se mudava para um apartamento minúsculo na Rua Vanderlei, onde viveria sozinho depois de uma conturbada separação em que não lhe sobrou nem Brutus nem Cleo, seus dois cães – que ficaram com Alissa, sua ex. Jaime não ia a encontros românticos desde sua separação, pois dizia que “as coisas andavam fracas pro seu lado”, e queria se dedicar ininterruptamente à sua carreira profissional.

Alissa ficou com o apartamento e com os cachorros, Jaime não quis criar um grande caso por isso. Jaime visita o vira lata Brutus e a dálmata Cleo umas duas vezes por mês, quando os leva para passear. A visita dura umas quatro ou cinco horas e acontece, normalmente, no final de semana. De vez em quando, Alissa desmarca em cima da hora, como acontecera naquela sexta-feria, dia 3, o que deixou Jaime irremediavelmente desmotivado.

Estavam há quatro mesas de distância e Jaime olhava de tempos em tempos para Julie que, discretamente, olhava de volta de modo que seus olhares se cruzavam de vez em quando. Quando se encontraram na fila para mais um frappuccino e um expresso, respectivamente, Julie e Jaime tocaram no assunto do tempo. Estava frio, na opinião dela, e nem tanto na dele, já tivemos invernos piores. O tempo em São Paulo é até que ameno, concluíram, e concordaram que era desnecessário manter o ar condicionado no mais frio, dado que a temperatura fora dali já estava baixa – mas “Starbucks são assim mesmo: querem que a gente experiencie o clima do hemisfério Norte”, ele disse.

Fisicamente, Julie era um pouco andrógina e Jaime um pouco bombado. Ambos tinham miopia, mas Jaime usava lentes. Deram-se conta de que usavam quase a mesma camisa azul bebê, só que ela abotoava até o final e ele não. Julie estava um pouco abaixo do peso, por isso continuava a engolir as 270 calorias do frappuccino diariamente. Tinha os olhos verde água e não raramente pesava a mão na maquiagem. Jaime, por sua vez, mantinha o corte de cabelo muito rente, gostava de levantar peso e ouvir Calvin Harris no fone de ouvido enquanto ia pra casa. Quando se cumprimentaram na fila do caixa, mutualmente pensaram que eram atraentes um ao outro, mas de uma maneira completamente improvável.

Se Jaime estava melancólico, Julie estava exausta na mesma proporção. O final de um pesado projeto e o aniversário do final de um casamento são, no mínimo, momentos de reflexão. São possíveis e talvez desejáveis os novos inícios, e a próxima página parecia estar em branco e à espera de tinta. Sentaram-se, então, na mesa onde Julie estava e contaram um ao outro o que faziam por ali durante a tarde.

A conversa não retrocedeu muito aos passados. Julie obviamente não contou que tinha saído com 12 rapazes nos últimos três meses e que quase todos estavam no momento bloqueados em seu iPhone. E não havia um padrão. As pessoas nem sempre têm afinidade, pensava, e para evitar as chatas conversinhas resultantes de certas carências de fim de noite, ela fazia bom uso da tecnologia, que permitia o apagamento de pessoas da memória do telefone. E nenhum foi, por completo, um dito “babaca”. Julie simplesmente não achou que fossem agradáveis, e até mesmo entrou em acordos prévios sobre a casualidade de cada situação. Sem ressentimentos. Aos quase 24, tinha amigos, um Instagram com mais de mil seguidores e nenhum relacionamento remotamente sério na conta.

Jaime já teve uma banda, assim contou a Julie depois de uns 15 minutos de entusiasmado bate-papo. Quando se formou, há 7 anos, perderam o contato e, então, ele deixou o baixo de lado. Tocavam uma espécie de post-grunge. Julie imediatamente imaginou uma versão nacional de Nickelback, o que achou tanto patético quanto fofo. A conversa estava engajada, queriam sem dúvidas encontrar o ponto de convergência que os mantivesse ali por mais um tempo, porque Jaime percebeu a pontinha de uma tatuagem nas costas de Julie quando ela se levantou para arrumar sua cadeira, e Julie notou que os braços de Jaime eram super firmes quando encostou nele a fim de deixar outra pessoa passar.

Estavam assistindo Atlanta, a série da FX, e essa era a primeira coisa que tinham em comum. Julie tinha grandes considerações a respeito do movimento negro e seus desdobramentos, e tinha forte interesse sobre sua origem – ostentava as trancinhas minúsculas na cabeça com tamanha propriedade. O assunto não rendeu muito porque, para Jaime, aquela não era a mais frequente das pautas e, do alto de suas sardas, achava-se pouco competente para discutir, além de ter pouco interesse. Julie via Atlanta pela relevância e Jaime pela comédia. Tal divergência, no entanto, não foi causa de grande estranhamento. Jaime demonstrou genuíno respeito, embora sempre muito neutro, ao dizer poucas palavras a respeito do polêmico tema e Julie não se prolongou até virar uma chata – isso o agradou.

Hegs era um nome bem interessante, pensou Julie em dado momento, enquanto Jaime contava sobre seus cachorros. Ela não era a mais simpatizante da arte de criar bichos de estimação. Por isso, ao ouvir como Brutus chegou até Jaime, Julie distanciou-se brevemente da conversa e disfarçou um bocejo – ela estava acordada desde as 6 da manhã. A verdade, pensou, é que hoje é sexta-feira e alguém precisa ajudar a comemorar que o diretor de marketing aprovara o projeto, como ela viu de relance em seu celular em cima da mesa. A notificação, que não passou despercebida por Jaime, fez com que Julie desabotoasse aquele último botão de sua camisa sob a vigilância rente de Jaime. “Vai fazer algo hoje a noite?” Ela perguntou quando decidiu abrir o segundo botão. Jaime tinha um aniversário pra ir, mas falou que estava livre porque achou charmoso o contorno da clavícula dela, agora amostra.

Jaime era péssimo em relacionamentos, mas se considerava um romântico. Dizia sempre que possível que Alissa o havia traído com seu terapeuta, coisa que nunca foi comprovada. Quando ele era pré adolescente, ia ao quartinho dos fundos da casa de seus pais, onde uma vez encontrou uma modesta coleção de revistas Playboy, e folheava rapidamente as empoeiradas páginas, só para trancar-se no banheiro em seguida dizendo que ia tomar banho. Sempre teve uma excelente memória e gostava particularmente das moças de peitos mais volumosos. Mas fazia de tudo pra ser rápido e imperceptível. Achava um pouco nojento o que estava fazendo e sentia uma espécie de constrangimento – o que não o impedia. Quando conheceu Alissa, era como uma criança pouco crescida, cheia de vergonhas e receios. Tinha 18 anos e fazia movimentos virginais na primeira vez em que se deitou com ela. Recatado, gostava quando Alissa ficava de quatro, mas quase não tocava nela, como se a fosse quebrar caso fizesse. Casaram-se aos seus 23 anos e mantinham uma rotina quase mecânica de fazer amor com cautela e, por isso, Jaime sempre acreditou que ela o traia. Quando verbalizou a acusação, a mais grave discussão emergiu de um jantar antecipado do dia dos namorados, onde o vinho da taça dela encontrou a camisa branca dele e acabou de uma vez com a relação.

Saíram, Julie e Jaime, e decidiram ir a pé para uma exposição de arte que ficava no caminho da casa dela, uns trinta minutos de caminhada. Jaime disse que Julie tinha olhos bonitos, o que desencadeou numa risada meio forçada, como quando se joga a cabeça pra trás e se pode ver virtualmente a úvula. Com isso, também o tocou novamente no braço, como uma forma de validação do caminho que estavam fazendo.

Julie não costumava sair com caras como Jaime. No geral eles não tinham bons empregos, ou cortes de cabelo. Perdeu a virgindade aos 16 anos na casa de um cara que dava festinhas e chamava adolescentes como ela pra fazer brincadeiras. Quando pensa nisso nos dias atuais, sente-se meio violada e meio poderosa, porque o sujeito era bem mais velho, mas ele acabou fazendo tudo que ela queria, por um instante. Quando tinha uns 10 anos, se esfregava numa almofada e achava que ia ficar grávida de almofadinhas, – disso ria sem parar no mesmo quarto em que assistia TV Globinho.

A exposição de arte estava fechada. Julie sabia disso, havia se lembrado no meio do caminho, mas preferiu não dizer nada para não estragar a caminhada e para onde ela poderia os levar. Falaram sobre seus trabalhos, Julie já havia se familiarizado com termos como amortização e depreciação. Jaime ficou sabendo da Hegs e pensava que diferença poderia haver entre os ovos normais do supermercado e os dessa empresa. Na surpresa com o horário de funcionamento da galeria, olharam-se com dúvidas sobre o que fariam a seguir, até que Julie sugeriu abrir uma garrafa de vinho em sua casa, que “ficava logo ali”. Não é como se esse convite fosse totalmente inapropriado: conversavam há pelo menos duas horas e já sabiam o básico um sobre o outro. Jaime estava há tanto tempo sem sair com ninguém que ficou contente, mas perplexo, a princípio, com a iniciativa tão precoce de Julie, que não achou aquilo nada de mais.

Entraram e ela pôs duas taças enquanto ele se sentava sobre o sofa-cama na entrada do apartamento. “Você gosta de plantas, não é?”, Jaime disse depois de mais ou menos um minuto de silêncio. Julie explicou que era de seu colega de quarto “que é gay, na verdade”, antecipando-se para evitar algum mal entendido. Quando se sentaram frente a frente perceberam que não havia, de verdade, mais assunto sobre que poderiam falar. A inesgotável conversa que durava desde as cinco da tarde haveria de acabar uma hora, por isso Julie se aproximou, sem dizer nada, e beijou Jaime na boca, apoiando-se em sua coxa, numa inclinação quase completa, em que por pouco não deixava seu lugar no sofá. Jaime não moveu nenhuma das mãos, e enquanto ela tentava enfiar a língua devagarzinho dentro de sua boca, Jaime esquivou-se ligeiramente para trás. A esquiva pareceu mero reflexo, então Julie apoiou o que faltava de seu corpo sobre ele, que dessa vez a segurou em um dos ombros, mas ao invés de a trazer para mais perto, a empurrou sutilmente para que pudesse dizer que precisava ir ao banheiro. Julie ficou sentada e deu um gole no vinho, pensando que talvez devesse pegar mais leve, embora estivesse, na verdade, com raiva. Jaime fez xixi, olhou-se no espelho e levantou a camisa, como que para certificar-se de que sua malhação estava em dia e pensou que talvez fosse legal deixar a Julie fazer o que ela quisesse, mesmo que estivesse sentindo uma mistura de pudor e repulsa, mas preferiu pensar que isso era só nervosismo, ou ansiedade. Também pensou que mulheres não deveriam ser tão atiradas assim.

Jaime voltou e Julie já tinha terminado a taça. Sentiu que tinha sido um pouco rude ao deixa-la daquele jeito e cortar o clima que estavam tentando construir, por isso sentiu necessidade de ser muito mais simpático e permissivo do que era preciso ser naquele momento. Quando sentou-se de novo, Julie tinha ligado a TV e passava o filme De Olhos Bem Fechados, que já devia estar no final. Trocaram meia duzia de palavras sobre Tom Cruise e, de novo, Julie havia iniciado um movimento que nessa segunda vez parecia muito mais feroz do que a primeira. Sentou-se sobre ele, buscando sem sucesso o cabelo para puxar. Jaime pensou que se o amigo chegasse, aquilo seria bastante desconfortável para todos e que Julie parecia não dar a mínima para essa possibilidade. Estavam na sala e as cortinas estavam abertas, ainda não estava completamente escuro, e Julie insistiu tanto que já estava abrindo o zíper de Jaime com bastante energia. Jaime preferiu pensar que era o vinho, naquele momento.

Julie o chupou por uns trinta segundos e voltou a beijá-lo, segurando levemente o seu pescoço como se o enforcasse de mentirinha, e estourou, sem querer, um botão de sua camisa. Jaime ainda recusava timidamente, e tentava transformar beijos muito molhados em desastrados selinhos, porque achava que ela o iria acompanhar. “Espera”, disse pouco depois, ofegante, somente para ser contestado prontamente em uma inesperada exclamação “por que é, então, que você está aqui?”

– Sua puta! – disse empurrando-a de volta para onde ela estava sentada no início. Saiu. Deixou a porta aberta, em pleno junho.

 

N. entra

N. diz que F. gostaria de um presente ereto de natal. Desses que se constroem com tempos de pílula e um tratamentozinho com um doutor mágico. F. não sabe se o doutor precisa ser mágico. Mas mágico seria o J. a presentear. Pelo menos querer presenteá-la, fazer um esforcinho, um agradinho. As amigas de F. não entendem: pensam que é distúrbio, que é demência não dar umazinha umas três vezes por semana já que é a idade mais viril os trinta. Não entendem a dinâmica de “casal” que acontece entre F. e J. F. admite que gostaria que fosse um pouco mais fácil pelo menos bater um papinho sem botar um elefante enorme na sala. Tem dias que F. só quer chegar em casa de um longo dia, dar uma boa transada, dormir feliz e sorrindo, amassada no travesseiro e tomar banho da meleca só no dia seguinte. N. pergunta se não era isso que F. queria: chegar em casa e J. a arremessar na mesa de jantar mesmo, uma coisa rápida, depois fazer macarrão e dormir. F. quer isso. F. queria fazer um strip-tease de vez em quando, poder fazer um amorzinho e dar risada depois. Não se sentir somente performática, a atriz pornô, a Bruna Surfistinha que dorme com o Zé e escreve no livro depois. Queria umazinha de leve, de pijama mesmo, F. até admite meias de vez em quando. F. tem consciência de que lá no fundinho da sua mente aberta de moderninha mora uma menininha em crescimento frígido e que seria ideal confrontar essas fantasias de peito aberto e perigar ser um pouco melhor comida. F. para por um momento e diz pra N. que não é bem assim. Não dá pra colocar o amorzinho de J. e F. no saco com os outros amorzinhos da face da terra. Tem um monte de paradas aí que não se encaixariam. F e J. nunca foram um casal convencional. Primeiro que F. considera não ter existido a fase do jogo-de-sedução. J. não se importa com isso mas pensa também que não. A fase em questão que se estende pelos relacionamentos – pelo menos os retratados tão vividamente por N. – desdobra-se numa eterna tensão silenciosa em que não se compartilha de muitas emoções, somente por separarem o rótulo do amante do rótulo do amigo. F. e J. são, acima de tudo, parceiros boníssimos e compartilham tudo exceto sexualidade. F. sabe que pensa em sexualidade como se ela e o J. tivessem diferentes. F. é hétero, J. é a. Aparentemente. F. e J. nunca deram nomes aos bois, aos elefantes, a que raio de bicho que seja. Mas N. está determinada a tirar uma lasquinha da F. hoje. Quer saber se nenhuma partezinha de dentro da F. implora pra receber uns dedinhos menos afetuosos e mais certeiros. F. desconversa. F. sabe que queria lambidas, queria deixar uma meia luz de vez em quando e brincar com as mãos, despretensiosamente. Mas continua firme, a favor do J. F. parece mais preocupada com como é difícil achar coisa semelhante fora de casa. O trabalho que da deitar com o Zé, o trabalho que dá achar tempo na agenda, flertar, trocar dois dedos de prosa. Não seria mais fácil F. abrir a porta da sala e ser despida sem ter que pedir? N. questiona. F. fala que “conexão mental” é mais importante. Por dentro concorda, ao mesmo tempo em que vê a sinuca de bico em que seu coração e a sua quase finada vagina se encontram. N., inesgotável, indaga: não será J. gay? F. sinceramente não sabe, mas responde que não, já falaram como adultos e seriamente sobre, mas é mentira. F. nunca perguntou com todas as letras e J. nunca respondeu. Teve ótimas ocasiões para abrir mas J. não o fez. F. conclui, então, que J. não é. E botou a pedra de volta em cima disso. Deveriam F. e J. voltar a falar do tal elefante? F. pensa que não, J. também. F. queria, no entanto, um jeitinho mais fácil de ser apalpada e de ter um pequenino orgasmo a cada vinte dias, pra ser bem pessimista. F. pensa que não seria pedir muito. Perguntou-se, porém, ao final, se J. algum dia mudaria. F. crê que não. Mas tem dia que é foda

Gafanhoto iletrado

– Eu escrevo, sabia? Disse a F., apoiando os cotovelos na mesa alta de uma Starbucks. Despejou na mesa mais um monte de anedotas sobre si, enquanto também falaram sobre morte e sobre o quão intensa F. podia ser na cama (J. deduziu que muito). F. fez questão de enfatizar a pretensão a escritora, porque tinha a certeza de que, ao sair dali, relataria o enlevo que J. ocasionou com várias das suas palavras bonitinhas. J. até sugeriu o título sobre gafanhotos, ou algo dessa natureza, querendo ser sagaz e talvez pensando que F. não se lembraria disso depois – pois ele já tinha lhe pagado umas cervejas.

F. sempre gostou de sair buscando protagonistas pras suas histórias, ainda mais quando estava entediada e assim tão desperta. F. havia trabalhado até as onze, estava há meses superando um trauma meio robótico. Coerente, apesar de ligeiramente melancólico.

Era noite em agosto no coração carente e quebrado da F. Foi o que F. pensou quando J. elogiou seu casaco, enquanto ela tomava uma cerveja da moda na rua da cidade onde era então novata. E F. não culpou J.! Tinha sido um dia comprido. Não duvidou de que aquele casaco fosse mesmo a sua melhor qualidade.

J. chegou e saíram, vagaram e F., sem ver, quebrou uma promessa. Seguiram caminhando pra casa às quatro da manhã, enquanto F. sentia um êxtase de comprimido. Teve duas reações completamente diferentes antes e depois do J., que quando chegou, era nada mais do que um malandro de cabelo gozado, puxando papo com o alvo mais fácil das madrugadas augustanas. Quando J. a deixou em casa, F. entrou falando baixinho:

Não me deixa esquecer ele!

Não me deixa esquecer ele!

Não me deixa esquecer ele!

F. sabe a memória que tem.

Sabe de sua vaidade, que jamais aceitaria esse desdém com um pobre pronomezinho oblíquo (não custava nada!). Muito menos essa afronta ao uso do imperativo.

Fê-la rir tantas vezes que a F. nem conseguiu contar no dia seguinte. Quando acordou, ainda delirando, tentou rabiscar duas ou três palavras a respeito do J., mas acabou um pouco muda. F. não queria quebrar o feitiço, acabar pensando que o garfo na cabeleira do J. era um sonho lúcido.

F. pensou que foi mentirosa e um pouco ingênua ao vangloriar-se de um talento que na verdade não tinha. Devia tê-lo poupado! Meses foram embora e F. não escreveu nenhum parágrafo que transcrevesse de boa maneira a entorpescência da camisa florida do J. Certamente, desaprendeu a escrever a F., ou nunca soube.

Mas, depois as palavras voltam, sempre aparecem as palavras, querida F.! No entanto a história fica, mesmo que isso seja só um dezesseis avos dela porque, francamente, é tudo que F. quer lembrar.

Evander Holyfield

Não fosse essa fase, o garoto da longa proeminência laríngea passaria na frente da F. e ela nem via. A F. não trocaria tanto a calcinha. A F. era bem mais focada. Tem dias em que a F. sai de casa, alguém fala será-que-chove-hoje? e ela realmente pensa no precipitar das águas e não no precipitar das roupas. Passa o gatinho a F. desmonta os olhos da cara, só falta lamber com a testa a bonita, a cheirosa, a perfumada lá. Depila todo dia a interpretação de texto do chefe dela, que quer chamar geral pra happy hour, justo hoje que a barraca tá armada, que a parada é segurar. Segurar a língua na boca, guardar as plásticas proteções no fundo da carteira. Mofa que nem madeira na chuva, ah a chuva! F. seca os filtros depois de passar um cafézinho. F. está surrealista, artista, tá na lista, no caminho pra se afogar. F. pensou consigo que faz a Charlotte, que queria era o bote que nem cobra desses cabra que passa e repassa na hora que F. quer se atentar. Limpa as baba da boca, não usa direito concordância dos artigo com os nome. Passa fome, lindinha, passa sede. F. queria fazer feat., chamar a presença esporádica de um macho, quiça sossegar o facho, ficar na boa. A F. perde o foco, às vezes, coitada, finge que não engoliu um palmo daquele moleque dentro da cabeça. F. até pensa em variar de vez em quando, fazer o beat a mando da sua crença. F. coitada, F. Faz carreira solo…

Bate a cabeça da F. na cabeceira, vai? Abre a toneira da F.
Menina que desvozeia fricativa torce pra explodir bilabial.

Cesta

Curvas, dobras, circunferência. Furos e linhas e o que mais podia estar na montanhosa aventura entre as minhas coxas imensas. Brincávamos de fazer casinha com o lençol, de repente ele se deu conta de que tinha que ir. Já passava das nove, acordamos as sete. Levantou da cama e depois deu um beijo estalado em um dos lados da minha bunda. Foi. Fiquei na cama por mais uns quarenta minutos, de olhos abertos, encarando uma lampada que deveria estar num lustre. Ele sabe o meu nome? Ele deveria?

Chamava-se, mesmo, Vitor, mas com c, e nos víamos nas noites de terça feira, quando dava. Trocávamos meia dúzia de palavras, mas ele logo arrancava minha roupa com bastante pressa e me mordia no ombro ou no nariz. Quando havia tempo, passeava a mão fria pelo hemisfério sul do meu umbigo, demorava, contornava, sem encostar. Quando não havia, fazia de conta que já estava lá e escondia o rosto entre as cobertas pra me levar junto com ele. E conseguia um pouco. Mas era só terça feira. Quarta eu acordava, deitava de bruços enquanto o via botar a roupa de volta. Às dez tinha o cartão pra bater e a semana pra empurrar.

De quinta, às vezes, conhecia alguém no bar que abriu perto da minha nova casa. Mesma ladainha de sempre. Mas andava meio pra baixo, com lembranças de bons tempos quando me olhava no espelho e achava pelo menos okay. Tinha a mania de parar por dois segundos em frente ao espelho comprido do quarto olhando cada centímetro do meu próprio corpo. Mas é passado. Nos últimos tempos passava direto e me vestia com urgência. Deus me livre ver minhas curvas, ver minhas marcas. Só esse sujeito mesmo pra gostar.

E no entanto ele era bem mais um. O da terça, o da quinta. Me pergunto toda vez porque ainda marco esses encontros. Na verdade, acho que eles aparecem por aqui e eu só não recuso. Mas vez ou outra dava uma choradinha no banheiro pensando que jamais juntaria amor com sexo de novo. Mesmo assim, me divertia por uns poucos minutos, tentava pelo menos uma transa descente, pra não dizer que estava morta, como andava me sentindo. Às vezes ponderava por tempo demais se realmente valia a pena a ressaca do dia seguinte só pra uns dez minutos de gemidinhos no ouvido dele no completo escuro. E não beijava bocas direito. Fazia de tudo pra não encostar. Deus me livre.

Victor era tudo que sabia dele agora. Um nome, e que era publicitário, algo assim. De vez em quando pensava, o que ele estaria fazendo com a mais nova fracassada da Bela Vista, ao invés de com alguma menina que no mínimo se desse valor. Segundo ele eu tinha baixíssima auto estima. E eu sabia disso, não era nenhuma novidade. Mas pra quê auto estima se me gosta de qualquer maneira, mas não desse jeito.

É mais um pra conta.

Another one in the basket.

Rotina

Deslizo prum lado e pro outro o dedo na tela do celular. Quantos matches por segundo até saber que esquisitinho vou encontrar hoje na saída quando terminar o expediente e eu não tiver que ver mais tanto cinza. O cinza das paredes e dos aplicativos, das cortinas, dos banheiros. Devo encontrar um estranho que, quando eu encontrar, nem estranho mais vai ser, porque eu terei visto as fotos das viagens, dos cachorros, das refeições em grandes cadeias do ramo alimentício ou pequenas. Na esquina, me arrependo. Queria ter deixado minha mesa pra sempre, virado artista. Ah, se eu tivesse algum talento! Me irrito de manhã quando os papéis estão fora do lugar, mas depois admito, vencida, que eu é que estou deslocada, então não pode ser culpa da tia da limpeza. Penso que encontro o malacabado no balcão, tomo uma ou duas caipiroskas de alguma vodka falsificada como se algum dia eu fosse mesmo capaz fazer a distinção. Vejo sites e não livros de poetas e na leitura dinâmica acabo bebendo da fonte quando vejo estes outros sonhadores que como eu só querem colorir as camisas pálidas e abotoadas dos banqueiros na nossa frente, torcer pra eles darem uma risadinha e largar mão de fazer meeting, entrar num call, discutir o budget. Bebemos bebidas russo-brasileiras, deitamos, quase fazemos um bebê que não nasce nunca, dizemos adeus, eu suponho. As gavetas não irão se arrumar sozinhas, penso, a maquina de xerox talvez sinta a minha falta. Fico empolgada que compraram um novo tipo de durex. Escuto os bonitos divagando sobre superfood, hambúrgueres e os resultados da sexta passada. E eu não mudei nada desde o que dia em que descobri o fordismo. Saio, meio que corro, pro boteco não gourmet mais próximo, finjo que mexo no celular. Vejo 74 selfies que fiz ontem quando me maquiei e não saí. Quero passar horas sem abrir a boca, sem passar os limites do meu metro quadrado e comendo bananas na empresa hiper saudável prafrentex onde emprego umas nove horas do meu dia. Garoto engraçadinho já me ganha, se gosta de gifs, se tem foto espontânea de uma Canon, se escuta MGMT e mesmo assim gosta de meninas. Acordo, ligo a luz do abajur que vem afiada ao meu encontro, ligo youtubers que dão dicas de como esconder os poros e as linhas de expressão. Mas que expressão? Penso, rindo, já que sou meio morna, que no meu perfil tem uma frase com cinco palavras: sou bacaninha, bonitinha, moderninha, casual. Encontro outro estranho de óculos grosso, de barba de um palmo e gravata borboleta. Maneiro o seu bigode, seu papo sobre startups e o caramba e durmo, peço pra trazer rápido a toalha enquanto me enrolo e penduro na cortina plástica do banheiro. Depois censuro um texto ou dois. Hoje vou comer sushi ou árabe? Vou de metrô ou de bike? Ando pela Joaquim ou pela Leopoldo? enquanto desisto e procuro um quilo baratinho em pleno Itaim Bibi. Na volta como um bolo no pote que custa o triplo do pedaço, digo oi meio amarelo pro carinha que já deu em cima de mim em 2013 e esqueceu. Penso, então, em ligar pra alguém, oi sumido, mando uma carinha e vejo se ele quer fazer alguma coisa hoje depois das cinco e não quer. O gatinho é outro, o humor é outro, mas as tarefas são as mesmas: passar durex, tirar cópias de relatórios com o slip de cartão que ninguém se preocupou em manter legível. Horas a ver cãezinhos em memes, a pensar que bonitinho!, pena que nasceu em 96 e minha libido deve estar explodindo! – Cacete! Espero que consiga sentar no ônibus dessa vez ou que eu não pise na merda na rua. Tomara que meu professor não decida discutir se devemos ou não ler Woody Allen porque ele se casou com a enteada e quem se importa!. Volto e procuro algo descartável pra noite, não acho, e pra materializar meu pensamento que sabe-se lá onde pode estar. Durmo, brinco. Vejo um pornô pra mulheres. Só volto agora amanhã.

Dia 541

Eu o amei aos poucos. Primeiro amei que ele queria muito muito me amar. Não sei se  a essa altura já amava, mas sentia que queria muito. Depois o amei por ele e por tudo que ele era independente e antes de mim. O amei, também, porque ele fez com que eu me amasse e me mostrou que isso era muito fácil – apesar de toda a minha resistência. E hoje o amo pela combinação de tudo isso (nosso amor entusiasmado, nosso amor emocionado, nosso amor inesperado, nosso amor crescente, nosso amor adolescente e finalmente nosso amor maduro, o de hoje).

Essa metamorfose que é nossa cabeça, nosso coração, nossa história juntos leva de cada fase um vestígio: Eu amei primeiro sua orelha porque era a mais redonda e labiríntica que já tinha visto. Eu amei seu ombro e as milhões de vezes que nele chorei só no primeiro mês. Eu amei seu francês, romântico, encantador, serais-tu ma petite amie?, e virei logo o petit bebe (apelido favorito). Eu amei que todo minuto eu sentia falta dele.

Eu amei todas as coisas minhas, dele, nossas que conquistamos: dedicação e ele é mestre, cumplicidade e tenho uma casa nova, paciência e volto a ser aluna. As noites desbravando sua biblioteca e as pintinhas que ele tem nas costas logo vieram, ficaram, se estenderam. As crises minhas – as inúmeras – todas elas foram lavadas, uma a uma, pra fora do meu sistema, com calma, carinho, amor.

Eu o amei quando ele primeiro me amou: passei a noite o amando em segredo, passei a noite imaginando quais três palavras o falaria, em qual momento, de que jeito. E, sábio que é, ele disse pra poder destravar minha língua. Nunca mais paramos. Não pararia, não deveria deixar de dizer, como se nunca bastasse. E criamos o nosso idioma, pra poder dizer ainda mais.

E hoje o amo, como companheiro, como amigo, como amante, como uma pessoa completa, por todas as partes dele, de mim, da gente de forma totalmente nova mas que de alguma forma conheço muito bem. Digo amei, mas não é pretérito, é o montante, são os 541 dias juntos e condensados – sim, eu fiz as contas! E não é novidade nem uma descoberta, muito menos um terço de tudo o que há. É que às vezes o tempo passa, a chuva leva, a nuvem esconde e é sempre bom lembrar.

Explique

Hoje eu resolvi ir de metrô pra casa porque estava meio enjoada do percurso de ônibus e também porque minha bicicleta ainda não chegou. Quer seja por uma coincidência quer seja por que eu sou uma garota bisbilhoteira, enxerguei por cima dos ombros de uma moça loira, de três dedos abaixo da raiz, uma mensagem em seu celular que se dava da seguinte maneira:

– Eu vou te fazer feliz!

Era Jorge. A foto parecia indecifrável (o pequeno ícone a direita só mostrava um boné verde) e a mensagem única, o que significa, talvez, que não houve conversa prévia. Passei minha estação porque deixar essa história sem final seria um pecado. A senhora loira – devia ter seus 40 – parecia não estar com pressa. Jorge fez uma promessa, uma bem séria e que demanda mesmo cautela na réplica. Será que são namorados, marido e mulher, conhecidos do último baile? Ela coça a cabeleira amarela, encara o cursor que pisca como quem apressa um retardatário. Eu estava com ele, o cursor. Queria ver que coisa bonita essa senhora falaria, que agrado diria ao Jorge, esse apaixonado que só quer colocar um sorriso entre as orelhas da Goldie Hawn paulistana (passei a chamá-la assim na minha cabeça, já que não consegui ver seu nome). E o que eu diria ao ouvir ou ver essas palavras? Que reação teria, ficaria animada ou lisonjeada, talvez, confusa? Iria eu imediatamente mandar um print da conversa para minha melhor amiga? Antes que eu pudesse pensar em respostas, eis que Goldie resolve escrever, com seu indicador direito e as unhas vermelhíssimas como garras:

– Explique

Assim sem pontuação e apagou o celular, o jogou pra dentro da bolsa, trancou com zíper, olhou pra frente como quem pouco se importa. Depois desceu e eu não vi desfecho – e vocês também não.

Ah, Goldie, me diz que coragem é essa de pedir explanação, de desligar na cara do felizes para sempre, de querer os pormenores da jornada alucinada pela qual Jorge passaria tentando fazê-la dar um sorrizinho. Achei falta de educação. Quem questiona o amor é grosseiro, é egoísta, é, até mesmo, meio auto flagelador. E pensa no quão complicado é ter gente por aí que quer seu bem e, não só isso, que quer ser a razão do seu bem. Não tá fácil de achar.

Desabafos a parte, esse episódio do metrô me deixou incomodada o resto do dia. Não sei se posso julgá-la também. Não faço ideia do contexto de Jorge, da senhora, da situação toda. E só posso dizer no que isso me afeta, no máximo. A questão é: quantas promessas ouvimos de olhos brilhando e de boca calada que nos derrubam das nuvens hora ou outra simplesmente porque não pedimos explicação? Fazer alguém feliz não é como fazer um sanduíche, demanda certas coisas que, depois de alguns tombos, ficamos aflitos pra entender como essa missão pode se dar.

Eu quero ser essa romântica que coloca a senhora do metrô no clube do sargento pimenta mas a felicidade é abstrata e ninguém garante que vai fazer o outro feliz, apesar da intenção ter sido das melhores.

Mas então, Jorge, explique-se, agora que me deixei esfriar da euforia de ver suas intenções com a Goldie.

O que é fazê-la feliz pra você? Você vai amá-la, vai respeitá-la, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza? Vai tratá-la com nada mais do que honestidade? Talvez essa formula funcione, quem vai dizer.

Mas eu olho pra dentro e vejo que nem toda a boa intenção do mundo previne um coraçãozinho de chorar de vez em quando. E toda promessa um dia deixa de fazer sentido. E toda felicidade tem duas faces. Que mal faz a Goldie em querer saber mais detalhes?

Não dá pra prever o futuro, Goldie, não dá pra saber se Jorge vai ou não cumprir tais juras e que caminhos há de trilhar pra fazê-lo. Talvez seja simples, talvez ele tente melhorar o seu dia com um pouco de carinho quando você chegar em casa depois do metrô lotado de hoje. Ou talvez suas palavras se percam com a atualização do software. Não sabemos.

Por via das dúvidas, Jorge, explique

Até encontrar um não-babaca

Conheci muita gente nos últimos seis, sete meses e, quando a gente conhece gente nova, é meio que certo que duas coisas acontecem. Primeiro que sempre querem saber quem somos e de onde viemos. Segundo que nós mesmos queremos saber o que as pessoas pensam que somos e o que acharam quando contamos de onde viemos. É assim mesmo. A gente quer se enxergar, ser “aquela pessoa bacana que faz tal coisa”. Eu faço isso sempre que conheço alguém: de uma forma bem genérica, enfio esse alguém num saco. “Menino-meio-nerd-bacaninha-curte-anime”, “menina-patricinha-bolsa-da-gucci”, “senhora-mãe-de-3-faz-crossfit”. Hoje é arriscado falar tudo isso sem parecer um babaca alguma-coisa-fóbico, mas a gente sabe lá no fundinho da alma que é verdade. E não tem problema também porque é meio mútuo e completamente inofensivo, assim não machuca ninguém. Ultimamente eu vi que eu sou a “menina-de-óculos-com-namorado-não-babaca”. Eu conheço muito bem essa laia, eu costumava desejar a morte a essas meninas, quer elas usassem óculos ou não, e principalmente se não usassem – porque além de tudo enxerga bem, essa vaca! E, olha só a vida, hoje sou eu.

Apesar do que minha mãe falava quando eu era pré adolescente, eu sou, sim, todo mundo, e todo mundo julga os outros e é malvado e acha que todo mundo é uma garrafa fechada de qualquer refrigerante com um rótulo. Ainda por cima, todo mundo acha que todo mundo nasceu assim, vai morrer assim. Aquele lance da “primeira impressão é a que fica” e essas coisas. Devem achar que eu sempre falei bom dia com voz de bebê e sempre liguei pra avisar que cheguei em casa. Que eu sempre fui a linda bem resolvida que tem um abraço quentinho pra ficar enrolada numa sexta a noite. Eu achava isso. Eu achava que a menina que tinha encontrado um cara maneiro sempre tinha tido um cara maneiro e tinha mais é que ficar quieta e me deixar afogar no rio da solidão em paz. E ir a merda depois, é claro.

Me ocorreu que o mínimo que pode ter ocorrido a essas pessoas que conheci nos últimos seis, sete meses é que eu sempre tive um cara maneiro e que eu podia ir à merda também. Tudo bem, mea culpa, errei. Eu julguei tanta gente e algumas dessas meninas também foram meio infelizes e mal amadas, assim como eu fui, antes de poderem admitir pra sociedade que estavam em um relacionamento sério com um não-babaca. Então pra ninguém me odiar, pra ninguém vomitar quando eu estiver trocando denguinhos com o meu namorado não-babaca, eu vou mostrar agora que eu também já tomei muito no cu.

Uma vez um cara, com quem eu estava ficando há uns 3 meses, se despediu de mim e sem querer ficou com a chave da minha casa e eu tive que dormir na rua enquanto ele ia pra uma festa até as 5 da manhã, festa para a qual ele não tinha me convidado.

Eu sou 8 ou 80. Ou santa ou puta, não tem meio termo. Eu fui virgem até os 20, o que implica em dizer que minha vida amorosa sempre beirou o inexistente. Ter 20 anos e ser virgem é sinal de que nenhum cara maneiro sequer chegou perto de desbravar os inimagináveis horizontes da minha vagina. Mas não era só isso. Não tinha a ver com minha vagina. Era um sinal de que eu não levava jeito nem pra um sexo sem compromisso, quanto mais para um amorzinho, assim, de leve. Até os 20 não tinha amor, nem sexo, era a idade das trevas, era o eterno testemunho da felicidade alheia. E depois que a barrerinha foi rompida, num aniversário muito do bêbado, muitas águas rolaram e nenhum amorzinho, nenhum cara maneiro deu as caras. Aí é fácil ter raiva da menina que namora um príncipe bem nas suas fuças.

Uma vez eu saí correndo da casa de um cara no meio de um sexo muito do pervertido porque ele pediu pra cheirar cocaína na minha barriga.

Ter vivido tão sem clichês românticos por um lado foi divertido. Por outro foi desesperador. Tinha nuances de empolgação – conhecer um cara tomando sorvete, ficar de conversinha por horas; e humilhação – o gatinho lindo que eu quero conhecer está entrando no elevador e adivinha quem acabou de peidar? É difícil ser solteira com vinte e poucos, sua família não entende! Depois que um carinha meio engraçadinho resolveu transar comigo no dia do meu aniversário de vinte anos enquanto eu estava meio bêbada, tudo deslanchou só que de forma ruim. Foi um babaquinha atrás do outro. Entre eles passaram uns caras até que bacanas por quem eu fiz o favor de não me apaixonar, mas no geral, babacas! Meu primeiro namorado sério era duvidoso demais pra ser levado a sério. Primeiro que ele morava na Ásia. Pra falar onde ele morava eu tinha que citar o continente, isso é no mínimo hilário. “É tipo entre a China e a Austrália, mãe!”. Eu queria lançar um manual pra explicar pra todos que me perguntavam como foi que eu arrumei um namorado que não só era estrangeiro como era um completo babaca. Terminamos porque descobri – depois de muito insistir, no dia seguinte de uma festa, que a gente tinha transado de um jeito do qual ele sabia que eu não gostava. Eu tinha bebido ao ponto de ficar inconsciente e cu de bêbado não tem dono, né, querida (estou sendo irônica). Depois de um ano de namoro eu não achei que deveria me preocupar com isso, mas a dor no dia seguinte era bem verdadeira e isso me mostrou que era chegada a hora de descer da nuvem. Depois quis lançar um manual pra explicar porque terminamos. Teria sido mais fácil.

Uma vez estava transando com um cara num carro e quando já estava pelada, um táxi bateu na gente e uma multidão ficou aglomerada em volta do carro. Ele jogou minhas roupas na minha cara e pediu pra eu sair.

Olha, eu te desafio a terminar um namoro tão tragico e tão tragicamente e não virar uma puta alucinada que acha que o amor é uma morte lenta. Eu me mudei dois anos depois pra morar num mini kitnet com um amigo. Quando percebi estava chorando pela solidão de dia e falando que meu nome era Thaís a noite. Podia ser porque eu não queria, mas amor nenhum bateu na minha porta, nem mesmo quando eu tentava ser meiga e ia ler na Livraria Cultura domingo a tarde. Na primeira semana no emprego novo já saí com um dos mensageiros, bebemos muitas cervejas e ele acabou se despedindo de mim só na manhã seguinte. Ficamos amigos depois, tudo bem. Eu que me auto-depreciava achando que era ruim dar pra muitos caras. Não era. O ruim era ter que fingir que tava tudo bem se eu não achar ninguém, se ninguém quiser ficar comigo por mais do que 24 horas, se todos os caras por quem eu já tive uma lasquinha de interesse tivessem, de algum jeito, me sacaneado. Aí, amiga(o), a auto estima não sobe de jeito nenhum, não adianta. Ainda mais pra mim que sou uma romântica escrota que acredita em se apaixonar pra vida. Agora eu sei que dá, pela primeira vez estou mais segura disso, mas antes era tudo intangível, era coisa pros outros.

Uma vez saí com um pessoal do trabalho, fiquei superchapada e fui pra um motel com um colega que, no dia seguinte, pediu pra eu fingir que nada aconteceu.

Então agora eu me dou ao luxo de chamar meu namorado de baby lindo, de postar foto beijandinho e de mandar uma piscadela pra ele toda noite. Eu me dou ao luxo de ser uma romântica escrota, de escrever poeminhas, de multiplicar tudo por dois porque quando tudo era pra um eu reclamava, eu tinha inveja da “menina-com-namorado-não-babaca”. E agora eu fico feliz por ela e desejo muito mais que ela de sorvete na boca dele na lanchonete ali da esquina. Porque ninguém é feito de presente, todo mundo tomou muito no cu pra chegar a usar o moletom do boy. E vomitem o quanto quiserem, vou mandar beijos pro meu gatinho lindo e morder a orelha dele em público sim.
E se reclamar, vai ter “namolado”.