Uma coisa ou outra, há de escolher

Curvas, dobras, circunferência. Furos e linhas e o que mais podia estar na montanhosa aventura entre as minhas coxas imensas. Brincávamos de fazer casinha com o lençol, de repente ele se deu conta de que tinha que ir. Já passava das nove, acordamos as sete. Levantou da cama e depois deu um beijo estalado em um dos lados da minha bunda. Foi. Fiquei na cama por mais uns quarenta minutos, de olhos abertos, encarando uma lampada que deveria estar num lustre. Ele sabe o meu nome? Ele deveria?

Chamava-se, mesmo, Vitor, mas com c, e nos víamos nas noites de terça feira, quando dava. Trocávamos meia dúzia de palavras, mas ele logo arrancava minha roupa com bastante pressa e me mordia no ombro ou no nariz. Quando havia tempo, passeava a mão fria pelo hemisfério sul do meu umbigo, demorava, contornava, sem encostar. Quando não havia, fazia de conta que já estava lá e escondia o rosto entre as cobertas pra me levar junto com ele. E conseguia um pouco. Mas era só terça feira. Quarta eu acordava, deitava de bruços enquanto o via botar a roupa de volta. Às dez tinha o cartão pra bater e a semana pra empurrar.

De quinta, às vezes, conhecia alguém no bar que abriu perto da minha nova casa. Mesma ladainha de sempre. Mas andava meio pra baixo, com lembranças de bons tempos quando me olhava no espelho e achava pelo menos okay. Tinha a mania de parar por dois segundos em frente ao espelho comprido do quarto olhando cada centímetro do meu próprio corpo. Mas é passado. Nos últimos tempos passava direto e me vestia com urgência. Deus me livre ver minhas curvas, ver minhas marcas. Só esse sujeito mesmo pra gostar.

E no entanto ele era bem mais um. O da terça, o da quinta. Me pergunto toda vez porque ainda marco esses encontros. Na verdade, acho que eles aparecem por aqui e eu só não recuso. Mas vez ou outra dava uma choradinha no banheiro pensando que jamais juntaria amor com sexo de novo. Mesmo assim, me divertia por uns poucos minutos, tentava pelo menos uma transa descente, pra não dizer que estava morta, como andava me sentindo. Às vezes ponderava por tempo demais se realmente valia a pena a ressaca do dia seguinte só pra uns dez minutos de gemidinhos no ouvido dele no completo escuro. E não beijava bocas direito. Fazia de tudo pra não encostar. Deus me livre.

Victor era tudo que sabia dele agora. Um nome, e que era publicitário, algo assim. De vez em quando pensava, o que ele estaria fazendo com a mais nova fracassada da Bela Vista, ao invés de com alguma menina que no mínimo se desse valor. Segundo ele eu tinha baixíssima auto estima. E eu sabia disso, não era nenhuma novidade. Mas pra quê auto estima se me gosta de qualquer maneira, mas não desse jeito.

É mais um pra conta.

Another one in the basket.

Rotina

Deslizo prum lado e pro outro o dedo na tela do celular. Quantos matches por segundo até saber que esquisitinho vou encontrar hoje na saída quando terminar o expediente e eu não tiver que ver mais tanto cinza. O cinza das paredes e dos aplicativos, das cortinas, dos banheiros. Devo encontrar um estranho que, quando eu encontrar, nem estranho mais vai ser, porque eu terei visto as fotos das viagens, dos cachorros, das refeições em grandes cadeias do ramo alimentício ou pequenas. Na esquina, me arrependo. Queria ter deixado minha mesa pra sempre, virado artista. Ah, se eu tivesse algum talento! Me irrito de manhã quando os papéis estão fora do lugar, mas depois admito, vencida, que eu é que estou deslocada, então não pode ser culpa da tia da limpeza. Penso que encontro o malacabado no balcão, tomo uma ou duas caipiroskas de alguma vodka falsificada como se algum dia eu fosse mesmo capaz fazer a distinção. Vejo sites e não livros de poetas e na leitura dinâmica acabo bebendo da fonte quando vejo estes outros sonhadores que como eu só querem colorir as camisas pálidas e abotoadas dos banqueiros na nossa frente, torcer pra eles darem uma risadinha e largar mão de fazer meeting, entrar num call, discutir o budget. Bebemos bebidas russo-brasileiras, deitamos, quase fazemos um bebê que não nasce nunca, dizemos adeus, eu suponho. As gavetas não irão se arrumar sozinhas, penso, a maquina de xerox talvez sinta a minha falta. Fico empolgada que compraram um novo tipo de durex. Escuto os bonitos divagando sobre superfood, hambúrgueres e os resultados da sexta passada. E eu não mudei nada desde o que dia em que descobri o fordismo. Saio, meio que corro, pro boteco não gourmet mais próximo, finjo que mexo no celular. Vejo 74 selfies que fiz ontem quando me maquiei e não saí. Quero passar horas sem abrir a boca, sem passar os limites do meu metro quadrado e comendo bananas na empresa hiper saudável prafrentex onde emprego umas nove horas do meu dia. Garoto engraçadinho já me ganha, se gosta de gifs, se tem foto espontânea de uma Canon, se escuta MGMT e mesmo assim gosta de meninas. Acordo, ligo a luz do abajur que vem afiada ao meu encontro, ligo youtubers que dão dicas de como esconder os poros e as linhas de expressão. Mas que expressão? Penso, rindo, já que sou meio morna, que no meu perfil tem uma frase com cinco palavras: sou bacaninha, bonitinha, moderninha, casual. Encontro outro estranho de óculos grosso, de barba de um palmo e gravata borboleta. Maneiro o seu bigode, seu papo sobre startups e o caramba e durmo, peço pra trazer rápido a toalha enquanto me enrolo e penduro na cortina plástica do banheiro. Depois censuro um texto ou dois. Hoje vou comer sushi ou árabe? Vou de metrô ou de bike? Ando pela Joaquim ou pela Leopoldo? enquanto desisto e procuro um quilo baratinho em pleno Itaim Bibi. Na volta como um bolo no pote que custa o triplo do pedaço, digo oi meio amarelo pro carinha que já deu em cima de mim em 2013 e esqueceu. Penso, então, em ligar pra alguém, oi sumido, mando uma carinha e vejo se ele quer fazer alguma coisa hoje depois das cinco e não quer. O gatinho é outro, o humor é outro, mas as tarefas são as mesmas: passar durex, tirar cópias de relatórios com o slip de cartão que ninguém se preocupou em manter legível. Horas a ver cãezinhos em memes, a pensar que bonitinho!, pena que nasceu em 96 e minha libido deve estar explodindo! – Cacete! Espero que consiga sentar no ônibus dessa vez ou que eu não pise na merda na rua. Tomara que meu professor não decida discutir se devemos ou não ler Woody Allen porque ele se casou com a enteada e quem se importa!. Volto e procuro algo descartável pra noite, não acho, e pra materializar meu pensamento que sabe-se lá onde pode estar. Durmo, brinco. Vejo um pornô pra mulheres. Só volto agora amanhã.

Dia 541

Eu o amei aos poucos. Primeiro amei que ele queria muito muito me amar. Não sei se  a essa altura já amava, mas sentia que queria muito. Depois o amei por ele e por tudo que ele era independente e antes de mim. O amei, também, porque ele fez com que eu me amasse e me mostrou que isso era muito fácil – apesar de toda a minha resistência. E hoje o amo pela combinação de tudo isso (nosso amor entusiasmado, nosso amor emocionado, nosso amor inesperado, nosso amor crescente, nosso amor adolescente e finalmente nosso amor maduro, o de hoje).

Essa metamorfose que é nossa cabeça, nosso coração, nossa história juntos leva de cada fase um vestígio: Eu amei primeiro sua orelha porque era a mais redonda e labiríntica que já tinha visto. Eu amei seu ombro e as milhões de vezes que nele chorei só no primeiro mês. Eu amei seu francês, romântico, encantador, serais-tu ma petite amie?, e virei logo o petit bebe (apelido favorito). Eu amei que todo minuto eu sentia falta dele.

Eu amei todas as coisas minhas, dele, nossas que conquistamos: dedicação e ele é mestre, cumplicidade e tenho uma casa nova, paciência e volto a ser aluna. As noites desbravando sua biblioteca e as pintinhas que ele tem nas costas logo vieram, ficaram, se estenderam. As crises minhas – as inúmeras – todas elas foram lavadas, uma a uma, pra fora do meu sistema, com calma, carinho, amor.

Eu o amei quando ele primeiro me amou: passei a noite o amando em segredo, passei a noite imaginando quais três palavras o falaria, em qual momento, de que jeito. E, sábio que é, ele disse pra poder destravar minha língua. Nunca mais paramos. Não pararia, não deveria deixar de dizer, como se nunca bastasse. E criamos o nosso idioma, pra poder dizer ainda mais.

E hoje o amo, como companheiro, como amigo, como amante, como uma pessoa completa, por todas as partes dele, de mim, da gente de forma totalmente nova mas que de alguma forma conheço muito bem. Digo amei, mas não é pretérito, é o montante, são os 541 dias juntos e condensados – sim, eu fiz as contas! E não é novidade nem uma descoberta, muito menos um terço de tudo o que há. É que às vezes o tempo passa, a chuva leva, a nuvem esconde e é sempre bom lembrar.

Explique

Hoje eu resolvi ir de metrô pra casa porque estava meio enjoada do percurso de ônibus e também porque minha bicicleta ainda não chegou. Quer seja por uma coincidência quer seja por que eu sou uma garota bisbilhoteira, enxerguei por cima dos ombros de uma moça loira, de três dedos abaixo da raiz, uma mensagem em seu celular que se dava da seguinte maneira:

– Eu vou te fazer feliz!

Era Jorge. A foto parecia indecifrável (o pequeno ícone a direita só mostrava um boné verde) e a mensagem única, o que significa, talvez, que não houve conversa prévia. Passei minha estação porque deixar essa história sem final seria um pecado. A senhora loira – devia ter seus 40 – parecia não estar com pressa. Jorge fez uma promessa, uma bem séria e que demanda mesmo cautela na réplica. Será que são namorados, marido e mulher, conhecidos do último baile? Ela coça a cabeleira amarela, encara o cursor que pisca como quem apressa um retardatário. Eu estava com ele, o cursor. Queria ver que coisa bonita essa senhora falaria, que agrado diria ao Jorge, esse apaixonado que só quer colocar um sorriso entre as orelhas da Goldie Hawn paulistana (passei a chamá-la assim na minha cabeça, já que não consegui ver seu nome). E o que eu diria ao ouvir ou ver essas palavras? Que reação teria, ficaria animada ou lisonjeada, talvez, confusa? Iria eu imediatamente mandar um print da conversa para minha melhor amiga? Antes que eu pudesse pensar em respostas, eis que Goldie resolve escrever, com seu indicador direito e as unhas vermelhíssimas como garras:

– Explique

Assim sem pontuação e apagou o celular, o jogou pra dentro da bolsa, trancou com zíper, olhou pra frente como quem pouco se importa. Depois desceu e eu não vi desfecho – e vocês também não.

Ah, Goldie, me diz que coragem é essa de pedir explanação, de desligar na cara do felizes para sempre, de querer os pormenores da jornada alucinada pela qual Jorge passaria tentando fazê-la dar um sorrizinho. Achei falta de educação. Quem questiona o amor é grosseiro, é egoísta, é, até mesmo, meio auto flagelador. E pensa no quão complicado é ter gente por aí que quer seu bem e, não só isso, que quer ser a razão do seu bem. Não tá fácil de achar.

Desabafos a parte, esse episódio do metrô me deixou incomodada o resto do dia. Não sei se posso julgá-la também. Não faço ideia do contexto de Jorge, da senhora, da situação toda. E só posso dizer no que isso me afeta, no máximo. A questão é: quantas promessas ouvimos de olhos brilhando e de boca calada que nos derrubam das nuvens hora ou outra simplesmente porque não pedimos explicação? Fazer alguém feliz não é como fazer um sanduíche, demanda certas coisas que, depois de alguns tombos, ficamos aflitos pra entender como essa missão pode se dar.

Eu quero ser essa romântica que coloca a senhora do metrô no clube do sargento pimenta mas a felicidade é abstrata e ninguém garante que vai fazer o outro feliz, apesar da intenção ter sido das melhores.

Mas então, Jorge, explique-se, agora que me deixei esfriar da euforia de ver suas intenções com a Goldie.

O que é fazê-la feliz pra você? Você vai amá-la, vai respeitá-la, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza? Vai tratá-la com nada mais do que honestidade? Talvez essa formula funcione, quem vai dizer.

Mas eu olho pra dentro e vejo que nem toda a boa intenção do mundo previne um coraçãozinho de chorar de vez em quando. E toda promessa um dia deixa de fazer sentido. E toda felicidade tem duas faces. Que mal faz a Goldie em querer saber mais detalhes?

Não dá pra prever o futuro, Goldie, não dá pra saber se Jorge vai ou não cumprir tais juras e que caminhos há de trilhar pra fazê-lo. Talvez seja simples, talvez ele tente melhorar o seu dia com um pouco de carinho quando você chegar em casa depois do metrô lotado de hoje. Ou talvez suas palavras se percam com a atualização do software. Não sabemos.

Por via das dúvidas, Jorge, explique

Até encontrar um não-babaca

Conheci muita gente nos últimos seis, sete meses e, quando a gente conhece gente nova, é meio que certo que duas coisas acontecem. Primeiro que sempre querem saber quem somos e de onde viemos. Segundo que nós mesmos queremos saber o que as pessoas pensam que somos e o que acharam quando contamos de onde viemos. É assim mesmo. A gente quer se enxergar, ser “aquela pessoa bacana que faz tal coisa”. Eu faço isso sempre que conheço alguém: de uma forma bem genérica, enfio esse alguém num saco. “Menino-meio-nerd-bacaninha-curte-anime”, “menina-patricinha-bolsa-da-gucci”, “senhora-mãe-de-3-faz-crossfit”. Hoje é arriscado falar tudo isso sem parecer um babaca alguma-coisa-fóbico, mas a gente sabe lá no fundinho da alma que é verdade. E não tem problema também porque é meio mútuo e completamente inofensivo, assim não machuca ninguém. Ultimamente eu vi que eu sou a “menina-de-óculos-com-namorado-não-babaca”. Eu conheço muito bem essa laia, eu costumava desejar a morte a essas meninas, quer elas usassem óculos ou não, e principalmente se não usassem – porque além de tudo enxerga bem, essa vaca! E, olha só a vida, hoje sou eu.

Apesar do que minha mãe falava quando eu era pré adolescente, eu sou, sim, todo mundo, e todo mundo julga os outros e é malvado e acha que todo mundo é uma garrafa fechada de qualquer refrigerante com um rótulo. Ainda por cima, todo mundo acha que todo mundo nasceu assim, vai morrer assim. Aquele lance da “primeira impressão é a que fica” e essas coisas. Devem achar que eu sempre falei bom dia com voz de bebê e sempre liguei pra avisar que cheguei em casa. Que eu sempre fui a linda bem resolvida que tem um abraço quentinho pra ficar enrolada numa sexta a noite. Eu achava isso. Eu achava que a menina que tinha encontrado um cara maneiro sempre tinha tido um cara maneiro e tinha mais é que ficar quieta e me deixar afogar no rio da solidão em paz. E ir a merda depois, é claro.

Me ocorreu que o mínimo que pode ter ocorrido a essas pessoas que conheci nos últimos seis, sete meses é que eu sempre tive um cara maneiro e que eu podia ir à merda também. Tudo bem, mea culpa, errei. Eu julguei tanta gente e algumas dessas meninas também foram meio infelizes e mal amadas, assim como eu fui, antes de poderem admitir pra sociedade que estavam em um relacionamento sério com um não-babaca. Então pra ninguém me odiar, pra ninguém vomitar quando eu estiver trocando denguinhos com o meu namorado não-babaca, eu vou mostrar agora que eu também já tomei muito no cu.

Uma vez um cara, com quem eu estava ficando há uns 3 meses, se despediu de mim e sem querer ficou com a chave da minha casa e eu tive que dormir na rua enquanto ele ia pra uma festa até as 5 da manhã, festa para a qual ele não tinha me convidado.

Eu sou 8 ou 80. Ou santa ou puta, não tem meio termo. Eu fui virgem até os 20, o que implica em dizer que minha vida amorosa sempre beirou o inexistente. Ter 20 anos e ser virgem é sinal de que nenhum cara maneiro sequer chegou perto de desbravar os inimagináveis horizontes da minha vagina. Mas não era só isso. Não tinha a ver com minha vagina. Era um sinal de que eu não levava jeito nem pra um sexo sem compromisso, quanto mais para um amorzinho, assim, de leve. Até os 20 não tinha amor, nem sexo, era a idade das trevas, era o eterno testemunho da felicidade alheia. E depois que a barrerinha foi rompida, num aniversário muito do bêbado, muitas águas rolaram e nenhum amorzinho, nenhum cara maneiro deu as caras. Aí é fácil ter raiva da menina que namora um príncipe bem nas suas fuças.

Uma vez eu saí correndo da casa de um cara no meio de um sexo muito do pervertido porque ele pediu pra cheirar cocaína na minha barriga.

Ter vivido tão sem clichês românticos por um lado foi divertido. Por outro foi desesperador. Tinha nuances de empolgação – conhecer um cara tomando sorvete, ficar de conversinha por horas; e humilhação – o gatinho lindo que eu quero conhecer está entrando no elevador e adivinha quem acabou de peidar? É difícil ser solteira com vinte e poucos, sua família não entende! Depois que um carinha meio engraçadinho resolveu transar comigo no dia do meu aniversário de vinte anos enquanto eu estava meio bêbada, tudo deslanchou só que de forma ruim. Foi um babaquinha atrás do outro. Entre eles passaram uns caras até que bacanas por quem eu fiz o favor de não me apaixonar, mas no geral, babacas! Meu primeiro namorado sério era duvidoso demais pra ser levado a sério. Primeiro que ele morava na Ásia. Pra falar onde ele morava eu tinha que citar o continente, isso é no mínimo hilário. “É tipo entre a China e a Austrália, mãe!”. Eu queria lançar um manual pra explicar pra todos que me perguntavam como foi que eu arrumei um namorado que não só era estrangeiro como era um completo babaca. Terminamos porque descobri – depois de muito insistir, no dia seguinte de uma festa, que a gente tinha transado de um jeito do qual ele sabia que eu não gostava. Eu tinha bebido ao ponto de ficar inconsciente e cu de bêbado não tem dono, né, querida (estou sendo irônica). Depois de um ano de namoro eu não achei que deveria me preocupar com isso, mas a dor no dia seguinte era bem verdadeira e isso me mostrou que era chegada a hora de descer da nuvem. Depois quis lançar um manual pra explicar porque terminamos. Teria sido mais fácil.

Uma vez estava transando com um cara num carro e quando já estava pelada, um táxi bateu na gente e uma multidão ficou aglomerada em volta do carro. Ele jogou minhas roupas na minha cara e pediu pra eu sair.

Olha, eu te desafio a terminar um namoro tão tragico e tão tragicamente e não virar uma puta alucinada que acha que o amor é uma morte lenta. Eu me mudei dois anos depois pra morar num mini kitnet com um amigo. Quando percebi estava chorando pela solidão de dia e falando que meu nome era Thaís a noite. Podia ser porque eu não queria, mas amor nenhum bateu na minha porta, nem mesmo quando eu tentava ser meiga e ia ler na Livraria Cultura domingo a tarde. Na primeira semana no emprego novo já saí com um dos mensageiros, bebemos muitas cervejas e ele acabou se despedindo de mim só na manhã seguinte. Ficamos amigos depois, tudo bem. Eu que me auto-depreciava achando que era ruim dar pra muitos caras. Não era. O ruim era ter que fingir que tava tudo bem se eu não achar ninguém, se ninguém quiser ficar comigo por mais do que 24 horas, se todos os caras por quem eu já tive uma lasquinha de interesse tivessem, de algum jeito, me sacaneado. Aí, amiga(o), a auto estima não sobe de jeito nenhum, não adianta. Ainda mais pra mim que sou uma romântica escrota que acredita em se apaixonar pra vida. Agora eu sei que dá, pela primeira vez estou mais segura disso, mas antes era tudo intangível, era coisa pros outros.

Uma vez saí com um pessoal do trabalho, fiquei superchapada e fui pra um motel com um colega que, no dia seguinte, pediu pra eu fingir que nada aconteceu.

Então agora eu me dou ao luxo de chamar meu namorado de baby lindo, de postar foto beijandinho e de mandar uma piscadela pra ele toda noite. Eu me dou ao luxo de ser uma romântica escrota, de escrever poeminhas, de multiplicar tudo por dois porque quando tudo era pra um eu reclamava, eu tinha inveja da “menina-com-namorado-não-babaca”. E agora eu fico feliz por ela e desejo muito mais que ela de sorvete na boca dele na lanchonete ali da esquina. Porque ninguém é feito de presente, todo mundo tomou muito no cu pra chegar a usar o moletom do boy. E vomitem o quanto quiserem, vou mandar beijos pro meu gatinho lindo e morder a orelha dele em público sim.
E se reclamar, vai ter “namolado”.

Os bebês e as lascas de unha 

– Amor, vou encostar a porta do banheiro porque vou cortar as unhas do pé.

Ok, eu penso. E continuo deitada de barriga pra cima sendo surpreendida pela sensação de perceber pela primeira vez que tem duas lâmpadas em lugares diferentes no teto. Depois fiquei ouvindo o cleque cleque das unhas sendo aparadas e imaginando em que posição terrível ele deve estar lá dentro do banheiro apertado, tentando alcançar o dedão do pé sentado na privada, ao invés de aqui fora, na cama, sem dor nas costas e sem arrancar um bife.

Ao mesmo tempo ouço crianças brincando no parquinho do condomínio. Digamos que o prédio dele tem a pior acústica em se tratando de brincadeira de crianças e, assim, podemos saber de todos os detalhes do pega pega, ou qual criança ralou o joelho e está chorando em si sustenido. Penso “quero ter filhos?” e quase sem perceber, substituo o ponto de interrogação por reticencias, que num momento de cleque absoluto, se transformam em um gordo ponto de exclamação.

– Amor, você quer ter filhos?
Me imagino falando, no café da manhã de um dia, do alto dos meus 25 anos de idade e do meu útero fisiologicamente maduro para procriar. A minha versão de três anos atrás jamais pensaria nisso. Sei bem porque a sensação é totalmente inédita e não sei dizer bem se é meu corpo, minha mente ou meu coração que a deu gênese. Talvez uma combinação dos três. Ou talvez seja uma fase, uma época do mês ou só o relógio biológico badalando meia noite.

Logo depois penso em intimidade. Meu amor está cortando as unhas, posso quase imaginar a cena do lado de lá da porta do banheiro. Um dia tirei um alface do meio dos dentes dele com meu próprio dedo indicador.

– Amor, quer casar, morar junto, ter bebês e cachorros um dia, assim sem compromisso?

Se eu já posso cuidar da higiene bucal dele, acho que já da pra fazer planos a longo prazo. As crianças brincando no playground mal sabem a influência que têm sobre os adultos do sétimo andar. Eu aqui, casualmente, deitada de calcinha e sutiã de bichinhos, de meia, pensando em ter bebês. Pensando que quero ele como pai dos meus bebês. Tudo porque ele tem a decência de fechar a porta e me poupar de vê-lo cortar as unhas mesmo com toda a intimidade que a gente já tem (what a gentleman!).
Meu amor sai do banheiro, unhas rentes, de cueca e visivelmente irritado.

– Mas que gritaria é essa?

Talvez seja melhor esperar mais um pouco.

Eu, ele e meu pai

Eu e um amigo atravessamos correndo a avenida movimentadíssima fora da faixa, quatro faróis verdes enfileirados na direção dos carros a 100 por hora e grito enquanto corro assustada “estou sem seguro saúde!”. Ele ri enquanto eu, quase molhada de susto, me recomponho do outro lado da Avenida das Américas em plena Barra da Tijuca, numa viagem de merecidas férias. Desde quando isso começou a fazer diferença pra mim? Digo, o seguro de saúde?

Há uns três meses fui golpeada covardemente pela flecha do cupido – esse danadinho que só fazia merda parece que acertou! De uma forma bem aparente (e deliciosa) isso tem me mudado em uma meia dúzia de camadas abaixo da superfície. Esse menino, quero dizer, esse homem de orelhas lindas e redondas me dá flores quando tenho ataques de pânico e faz jantar à luz de velas enquanto me recita poemas em francês (com a voz do Vincent Price). Um dia ele me abraçou, eu sufoquei um pouco em seu suéter enquanto soluçava e chorava porque “a vida não fazia sentido”. Sentou-se ao meu lado, colocou seus braços sobre meus ombros e me pediu pra chorar tudo que eu tinha pra chorar, enquanto me olhava com aqueles olhinhos apertados e serenos.

Depois que tudo passou, no dia seguinte, fui pra casa me sentindo uma bebê chorona. Olhei o meu talão de cheques amassado sobre uma pilha de livros de cursinho e um bichinho de pelúcia do pato Donald. Minhas roupas de brechó estavam por toda parte e talvez alguns ratos vivessem debaixo da minha cama de solteiro imunda. Tinha um lápis de olho, uma camiseta de banda e três presilhas coloridas por cima do meu computador empoeirado e quando eu fui tomar banho, não tinha toalha seca. A vida adulta me mandou um abraço!

Ele é dois anos e sete meses mais velho do que eu. Quando eu nasci, provavelmente, já falava três línguas e já vestia Ricardo Almeida. Renato Russo diria que ele faz medicina e fala alemão, e eu ainda nas aulinhas de inglês. Nossa idade cronológica é até que compatível mas, de alguma forma, a máquina de café expresso na sala dele e o whisky que ele bebe me fazem sentir como uma criança e, ao mesmo tempo, querer ser mais adulta.
Como não pensar que ta na hora de largar o safety blanket que é minha finada autossuficiência e começar a admitir que eu preciso de médicos quando fico doente, que devo dar satisfação a alguém e que ter um lugar pra onde voltar é reconfortante e acalma qualquer dor? Preciso aceitar que eu não sou tão autônoma ou livre como antes e nem mais aquela adolescente destemida.

Eu costumava não ter medo de nada e, de repente, estou no ônibus pensando que tenho medo de ficar louca ou sozinha, de me acidentar, de amputar um membro caso seja necessário. A adolescência é tão mistificada e se diz tão dolorida, mas crescer é muito mais assustador. Aos 25, tenho mais medos, mais angústias, mais dúvidas e, ainda, o mesmo senso de humor, só que agora ser assim não é mais tão bem aceito (nem mesmo por mim). E assusta saber que quem pode livrar minha cara de encrencas está a 70 quilômetros de distância. Agora ninguém vem me buscar onde quer que seja porque está tarde e por que está chovendo. E faz tanta falta essa carona, esse cafuné, esse vai-ficar-tudo-bem implícito no olhar de canto de olho que ele lança do banco do motorista.

Meu pai é um sujeito engraçado. Ele adora piadas de trocadilho e é um abraçador convicto (eu nunca gostei de tanto contato físico, mas aprendi a amar isso nele). Tem um e 68 de muito amor, atenção e chamego. Gosta de cozinhar e nunca se importou com as minhas multas de trânsito porque, quando tinha a minha idade, “também fazia merda”. Ele gosta de coleção de miniatura, é verdão até morrer e canta música brega como ninguém.

Quando eu era pequena, ele conta que eu sempre senti muita segurança em mim mesma. Ele me diz que eu era independente, que dormia num berço sozinha no quarto dos fundos, e não chorava de madrugada. Ele diz também que eu era a líder do grupo de menininhas da rua e que era eu quem decidia do que a gente ia brincar. Agora penso que talvez essa admiração da minha independência mirim também o torna, de certa forma, carente de paternidade. Talvez seja por isso que ele sempre me abraça tanto.

Pai é herói, defende a filhinha do dragão, faz ela dormir. E eu nunca precisei disso.
Não até agora.

Me pego precisando de aprovação toda vez que arrumo o cabelo. Tenho um pouco de medo de estranhos. Quando cai a noite eu preciso que alguém me cubra pra eu dormir e me de um beijo de boa noite. Sim, eu preciso do seguro saúde! Talvez eu tenha invertido o sentido das coisas. Eu fui muito autoconfiante e segura quando eu não precisava ser, e medrosa bem agora que não tem mais papai e mamãe pra acudir a menininha chorona.

E aí ele apareceu.
Me beija na testa, diz que fico linda até chorando. Não quero sair dos braços dele nunca e eu sei que o amo porque acho fácil perdoar seu gosto por manteiga de amendoim.

E meu pai, meu baixinho fã do Reginaldo Rossi, que tem a filha mais desnaturada do planeta, hoje pode ver que ela não é tão independente, e não deve achar que ela não precisa mais de proteção. Ela só parece ter achado um protetor alternativo. Um adorável menino que tem uma biblioteca, faz panqueca de brócolis com queijos, me enche de beijos, me diz todo dia que vai ficar tudo bem.

O Ciclo 

Acompanhe o ciclo: conhece, escolhe, duvida, gela a barriga, gosta, desgosta, chora, esquece, recai, esquece de novo e pra sempre. E assim caminha a humanidade. Só que cada vez que esse ciclo se repete suas energias estão um pouco mais gastas. Você tem mais dúvida, sua barriga gela e não é de uma forma gostosa como costumava ser. Agora gela de medo de ter que passar por tudo de novo, gastar mais dinheiro com macumba, gastar rímel… Esse texto é pra te lembrar que isso tudo não é nenhum motivo pra hesitar. Vou me usar de exemplo pra não expor nenhum desgraçado desiludido.

Pronto, estou escrevendo cartinhas de amor de novo, mas que merda! Mas é porque é tão delicioso deixar-se molhar pela tempestade do romance que, mesmo que saibamos que hora ou outra aquela pessoa vai nos enfincar o pé nas nádegas, deixamo-nos envolver e adoçamos um pouco a amargura do coração partido.

E, ainda por cima, escrevi poemas. Essa pessoa fatigada das dezenas de relacionamentos errados escreveu poemas de amor. Dos mais bregas, que embrulham estômagos e fazem uma bagunça danada. Nem publiquei, estavam ridículos. Eu estava ridícula, vulnerável e tola. Como nos ensinam a não ser. Mulher do século XXI é independente, não espera o príncipe, critica a Cinderela e todas as princesas. Mas isso é outra pauta, deixa as feministas mais engajadas escreverem. No que diz respeito a esta jovem coberta de calos amorosos, tudo sempre acaba em pizza. Pizza meia euforia, meia dor de cabeça.

Os romances da gente são, no geral, uma grande dor de cabeça intercalada por momentos de êxtase e orgasmos fenomenais. Nem sempre são completos, ou são inteligentes, ou têm línguas performáticas. Dificilmente colecionarão qualidades. Mas, no final do dia, da balada, o que importa é encaixar.

De alguma forma você se prende. Se prende ao senso de humor afiado, igual ao seu. Se prende ao maravilhoso mundo do tanquinho dele. Se prende aos livros que vocês têm em comum. E, quando se da conta, está escrevendo poemas. O problema começa quando uma das partes se perde. Porque, sim, uma das partes sempre se perde. É um fenômeno da juventude, eu li em algum lugar isso, ou não, só quero embasar o que disse. Mas coloque na cabeça: a não ser que você seja escolhido pra adentrar a nova arca de Noé, uma das partes vai sempre se perder.

Digo isso porque a sintonia que existe entre os casais dificilmente é contínua e, de alguma forma, um sempre vai estar mais envolvido que o outro. E vai parecer um déjà vu, você já vai ter visto esse filme. Você desama, ou ele o faz. Pode demorar mais ou menos, mas vai acontecer, e é aí que entra a minha teoria do ciclo.

Estou ficando muito científica. Vamos poetizar!

“João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.”

Deixando de lado toda a crítica que, não necessariamente envolve amor como um sentimento, podemos desejar empacotar só pra poder dar um chamego no Drummondzinho porque ele traduziu o que é ser jovem e tentar amar, assim como fez aquele que é sábio no superlativo, o Xico Sá, com a sua linda crônica sobre “o pinga pinga do amor líquido”.

Quando ainda não dói amor nenhum é que começa a preocupação. Ah, que abismo me espera, cadê o número do meu terapeuta e o que será que vai acontecer de errado dessa vez? Porque é um clichê soltar balões de coração e ao mesmo tempo esperar pelo pior – ou somos extremamente pessimistas. Mas, veja bem, vamos esperar a decepção aparecer pra depois a gente pensar em se decepcionar com ela. Ok?

Vamos pensar que de galho em galho escrevemos nossas biografias amorosas e de galho em galho aprendemos, cada vez mais, a tirar um bom suco dos limões. Fazer uma torta, quem sabe. Fazer bom proveito de todas as cagadas. O primeiro amor foi traumático, sempre é, mas o segundo, o terceiro, o décimo, esses são, no mínimo, boas recordações, bons textos, bom sexo, boas conversas, boas risadas. A lição que fica é que não importa o quão quebrado ficou seu coraçãozinho da última vez. Você sempre cola ele de volta no lugar e o que sobra são cicatrizes que formam quem você é hoje. E elas não são, de forma alguma, ruins. São suas, ame-as!

Agora, com licença, vou ali quebrar a cara de novo. Já volto!

Pra onde vai o amor?

Acordei, enrolada num cobertor. Desci pra buscar o jornal na parte de fora. Brinquei com um cachorro de olhos verde água que estava preso pela corrente no portão. Que diferença tenho dele?

Do passado estampado no meu desktop quase não ficou nada. Algumas cicatrizes – principalmente as do joelho. E nem me lembro qual parte da manhã eu gostava mais (lembro e era a parte que eu bagunçava o cabelo dele). Peguei o jornal enrolado num plástico, e assim ficou, só que jogado ao lado da minha cafeteira.

Ao invés de ver quais notícias sangrentas ou desconfortantes iriam saltar daquelas páginas, resolvi fazer uma faxina. Que vida não precisa de faxina, às vezes? Tinha muita tralha espalhada, mal dava pra andar no meu quarto. Tirei muitas gavetas, pó, teia de aranha. E só moro aqui há um ano e pouco. Não sei como cheguei a esse ponto.

De uma caixa de sapato saiu um bilhetinho, de quem eu bagunçava o cabelo de manhã. Li, reli, três vezes. Lembrei-me que aperto me deu quando li a primeira vez e percebi o vazio sentia lendo agora. Um bilhete dobrado em quatro, mas que ainda tinha as marcas das dobras em forma de coração. Juro, não senti nada.

Pra onde vai o amor que não mais se sente?

Eu sei que sentia, num tempo que parece tão distante quanto as fotos no meu desktop. Eu sentia paixão, eu sentia tesão. Eu não tinha escrúpulos, nem limites – quem ama não tem nada disso. Eu, eu mesma que hoje durmo com cobertor, mas antes dormia só com ele por cima de mim, e tecia desculpas pra encontrá-lo no banheiro escondido do décimo andar. Eu mesma que chorei tantos litros ao deixá-lo. Que sorri largamente ao revê-lo. Que senti um coração estremecendo com a ideia de nunca mais poder bagunçar aquele cabelo.

E agora era nada.

E agora era só um bilhete dobrado em quatro, com promessas que já foram quebradas há muito tempo e que não fazem mais nenhum sentido. Era ainda menos relevante que o jornal, que o café, o cachorro. Era só um pedaço de papel.

Alguns dizem que se transforma.

O amor se transforma. Vira rancor, vira um incômodo. Vira uma caixa de sapato com os pertences dele, todos amassados, jogados por cima de memórias que você não quer mais ter. Amarrotados como ele te deixava quando te apertava, quando tinha amor. Amarrotado como seu ego ficou. O amor se transforma em receio, em arrependimento, em amargo, em um monte de lugares que você passa a evitar.

Ou o amor se guarda na mesma caixa de sapato. Intacto, dizem outros.

Mas você não quer mexer na caixa de sapato, nunca. Do mesmo jeito que jurou nunca esquecer o beijo no seu nariz que ele gostava de te dar ao acordar – e mesmo assim esqueceu. Esqueceu de comprar beterraba que você odiava, mas era pra ele. Esqueceu de colocar duas canecas na mesa pra tomar aquele café.

Pra mim o amor se perde.

Vira um quadro que você pendura na parede, assinado por um pintor que já foi o seu preferido quando você tinha 22 anos, com uma moldura que hoje você acha brega e empoeirada, e que você nem repara mais ao entrar. Vira um bilhete, uma esquina, uma música que hoje são só um bilhete, uma esquina e uma música que um dia você conheceu. E nada mais.

E você sabe que existiu, mas você guarda de volta na caixa de sapato, termina sua faxina, vive a sua vida. Com a mesma apatia com a qual você se desenrola do cobertor e desce pra buscar o jornal.

Dos Amores, O Platônico 

Aconteceu!
Finalmente eu fui atropelada por uma bicicleta.

Fico surpresa que tenha demorado tanto tempo porque eu sempre cruzo as partes vermelhas da rua como se não houvesse amanhã. E eu sempre defendi o Haddad, eu sempre falei que era bom ter ciclofaixa. Pra chegar um dia, eu atravessar sem olhar e ser surpreendida por um ciclista.

Ele estava bem devagar (era subida). E praticamente estava andando com a bicicleta, mas aconteceu que nenhum de nós viu o outro. Minha bolsa caiu no chão, rolou pelo chão um desodorante, meio saco de Gummy Bears e uns trinta grampos que eu insisto em deixar soltos dentro da bolsa. Além disso, um shampoo anti caspa que eu tinha acado de comprar. Nada demais.

Mas o ciclista tinha um sorriso torto e assimétrico que me ganhou depois de alguns segundos, o quinto amor platônico da semana. Eu gosto de sorriso torto e assimétrico. Eu gosto de assimetria, não é novidade pra ninguém. Assimetria e mãos. E bigode. Essas coisas. Acabei de descrever o ciclista.

Fiquei triste que ele já sabia que eu tinha caspa.

Aí ele me ajudou a levantar, a recolher meus pertences do chão. “Machucou?! Não?” Não machucou nada, ele estava muito devagar mesmo, foi quase um esbarrão cotidiano só que com duas rodas e um cesto (a bicicleta dele tinha um cesto com um caderno de desenhos, que adorável!). Então ele sorriu com aquele um milhão de dentes errados, tirou um graveto que, de alguma forma macabra, se prendeu no meu cabelo caspento e partiu sorridente pedalando, desaparecendo da minha visão na estrada rubra dos transportes limpos.

Ah, as bicicletas! Quantas surpresas nos fazem!

Segui pra casa com um arranhão no braço direito. E cinco pensamentos:
– Pra onde ia o ciclista?
– Será que o leite que está há duas semanas na minha geladeira já venceu?
– Porque eu estava com caspa?
– Será que ele foi embora pensando em mim?
– Quando encontrarei o amor da minha vida, um cartunista, ciclista que tem uma biblioteca, faz panqueca de brócolis com queijos, me enche de beijos e me diz todo dia que vai ficar tudo bem?

Tudo que se passa pela minha cabeça diariamente, exceto a parte do caminho do ciclista, porque não é todo dia que isso acontece. Ele foi em direção a zona oeste, tinha uma mochila nas costas. Será que estava voltando do trabalho? Eram quatro da tarde de uma terça feira azul com nuvens, uns quarenta porcento de chance de chover, vinte graus. Eu tinha tido uma crise de pânico dentro do ônibus, daquelas que sempre tenho em transportes públicos e estar sozinha me deixou ainda mais aterrorizada.

Senti vontade de saltar do ônibus umas três vezes em pontos aleatórios que ficavam em lugares extremamente distantes da minha casa, mas o pensamento de me perder ao tentar voltar a pé me dava mais medo, então sosseguei meu facho até chegar.

Não te dá medo pensar que você pode morrer na rua sozinho e que ninguém ficaria sabendo por muitas horas ou dias?

Acho que é por isso que eu vivo enfiando os estranhos que eu encontro por aí dentro das minhas possibilidades. Por questões práticas: às vezes preciso que segurem minha mão e digam que eu não estou louca, que nada é apenas parte da minha imaginação, que eu vou chegar em casa bem.

Cheguei em casa, lavei os cabelos. Senti ainda mais solidão quando preparei jantar só pra um.
Dos amores, esse é o tipo que eu mais gosto. O que some na ciclofaixa e não se dá ao luxo de decepcionar.