Os bebês e as lascas de unha 

– Amor, vou encostar a porta do banheiro porque vou cortar as unhas do pé.

Ok, eu penso. E continuo deitada de barriga pra cima sendo surpreendida pela sensação de perceber pela primeira vez que tem duas lâmpadas em lugares diferentes no teto. Depois fiquei ouvindo o cleque cleque das unhas sendo aparadas e imaginando em que posição terrível ele deve estar lá dentro do banheiro apertado, tentando alcançar o dedão do pé sentado na privada, ao invés de aqui fora, na cama, sem dor nas costas e sem arrancar um bife.

Ao mesmo tempo ouço crianças brincando no parquinho do condomínio. Digamos que o prédio dele tem a pior acústica em se tratando de brincadeira de crianças e, assim, podemos saber de todos os detalhes do pega pega, ou qual criança ralou o joelho e está chorando em si sustenido. Penso “quero ter filhos?” e quase sem perceber, substituo o ponto de interrogação por reticencias, que num momento de cleque absoluto, se transformam em um gordo ponto de exclamação.

– Amor, você quer ter filhos?
Me imagino falando, no café da manhã de um dia, do alto dos meus 25 anos de idade e do meu útero fisiologicamente maduro para procriar. A minha versão de três anos atrás jamais pensaria nisso. Sei bem porque a sensação é totalmente inédita e não sei dizer bem se é meu corpo, minha mente ou meu coração que a deu gênese. Talvez uma combinação dos três. Ou talvez seja uma fase, uma época do mês ou só o relógio biológico badalando meia noite.

Logo depois penso em intimidade. Meu amor está cortando as unhas, posso quase imaginar a cena do lado de lá da porta do banheiro. Um dia tirei um alface do meio dos dentes dele com meu próprio dedo indicador.

– Amor, quer casar, morar junto, ter bebês e cachorros um dia, assim sem compromisso?

Se eu já posso cuidar da higiene bucal dele, acho que já da pra fazer planos a longo prazo. As crianças brincando no playground mal sabem a influência que têm sobre os adultos do sétimo andar. Eu aqui, casualmente, deitada de calcinha e sutiã de bichinhos, de meia, pensando em ter bebês. Pensando que quero ele como pai dos meus bebês. Tudo porque ele tem a decência de fechar a porta e me poupar de vê-lo cortar as unhas mesmo com toda a intimidade que a gente já tem (what a gentleman!).
Meu amor sai do banheiro, unhas rentes, de cueca e visivelmente irritado.

– Mas que gritaria é essa?

Talvez seja melhor esperar mais um pouco.

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Eu, ele e meu pai

Eu e um amigo atravessamos correndo a avenida movimentadíssima fora da faixa, quatro faróis verdes enfileirados na direção dos carros a 100 por hora e grito enquanto corro assustada “estou sem seguro saúde!”. Ele ri enquanto eu, quase molhada de susto, me recomponho do outro lado da Avenida das Américas em plena Barra da Tijuca, numa viagem de merecidas férias. Desde quando isso começou a fazer diferença pra mim? Digo, o seguro de saúde?

Há uns três meses fui golpeada covardemente pela flecha do cupido – esse danadinho que só fazia merda parece que acertou! De uma forma bem aparente (e deliciosa) isso tem me mudado em uma meia dúzia de camadas abaixo da superfície. Esse menino, quero dizer, esse homem de orelhas lindas e redondas me dá flores quando tenho ataques de pânico e faz jantar à luz de velas enquanto me recita poemas em francês (com a voz do Vincent Price). Um dia ele me abraçou, eu sufoquei um pouco em seu suéter enquanto soluçava e chorava porque “a vida não fazia sentido”. Sentou-se ao meu lado, colocou seus braços sobre meus ombros e me pediu pra chorar tudo que eu tinha pra chorar, enquanto me olhava com aqueles olhinhos apertados e serenos.

Depois que tudo passou, no dia seguinte, fui pra casa me sentindo uma bebê chorona. Olhei o meu talão de cheques amassado sobre uma pilha de livros de cursinho e um bichinho de pelúcia do pato Donald. Minhas roupas de brechó estavam por toda parte e talvez alguns ratos vivessem debaixo da minha cama de solteiro imunda. Tinha um lápis de olho, uma camiseta de banda e três presilhas coloridas por cima do meu computador empoeirado e quando eu fui tomar banho, não tinha toalha seca. A vida adulta me mandou um abraço!

Ele é dois anos e sete meses mais velho do que eu. Quando eu nasci, provavelmente, já falava três línguas e já vestia Ricardo Almeida. Renato Russo diria que ele faz medicina e fala alemão, e eu ainda nas aulinhas de inglês. Nossa idade cronológica é até que compatível mas, de alguma forma, a máquina de café expresso na sala dele e o whisky que ele bebe me fazem sentir como uma criança e, ao mesmo tempo, querer ser mais adulta.
Como não pensar que ta na hora de largar o safety blanket que é minha finada autossuficiência e começar a admitir que eu preciso de médicos quando fico doente, que devo dar satisfação a alguém e que ter um lugar pra onde voltar é reconfortante e acalma qualquer dor? Preciso aceitar que eu não sou tão autônoma ou livre como antes e nem mais aquela adolescente destemida.

Eu costumava não ter medo de nada e, de repente, estou no ônibus pensando que tenho medo de ficar louca ou sozinha, de me acidentar, de amputar um membro caso seja necessário. A adolescência é tão mistificada e se diz tão dolorida, mas crescer é muito mais assustador. Aos 25, tenho mais medos, mais angústias, mais dúvidas e, ainda, o mesmo senso de humor, só que agora ser assim não é mais tão bem aceito (nem mesmo por mim). E assusta saber que quem pode livrar minha cara de encrencas está a 70 quilômetros de distância. Agora ninguém vem me buscar onde quer que seja porque está tarde e por que está chovendo. E faz tanta falta essa carona, esse cafuné, esse vai-ficar-tudo-bem implícito no olhar de canto de olho que ele lança do banco do motorista.

Meu pai é um sujeito engraçado. Ele adora piadas de trocadilho e é um abraçador convicto (eu nunca gostei de tanto contato físico, mas aprendi a amar isso nele). Tem um e 68 de muito amor, atenção e chamego. Gosta de cozinhar e nunca se importou com as minhas multas de trânsito porque, quando tinha a minha idade, “também fazia merda”. Ele gosta de coleção de miniatura, é verdão até morrer e canta música brega como ninguém.

Quando eu era pequena, ele conta que eu sempre senti muita segurança em mim mesma. Ele me diz que eu era independente, que dormia num berço sozinha no quarto dos fundos, e não chorava de madrugada. Ele diz também que eu era a líder do grupo de menininhas da rua e que era eu quem decidia do que a gente ia brincar. Agora penso que talvez essa admiração da minha independência mirim também o torna, de certa forma, carente de paternidade. Talvez seja por isso que ele sempre me abraça tanto.

Pai é herói, defende a filhinha do dragão, faz ela dormir. E eu nunca precisei disso.
Não até agora.

Me pego precisando de aprovação toda vez que arrumo o cabelo. Tenho um pouco de medo de estranhos. Quando cai a noite eu preciso que alguém me cubra pra eu dormir e me de um beijo de boa noite. Sim, eu preciso do seguro saúde! Talvez eu tenha invertido o sentido das coisas. Eu fui muito autoconfiante e segura quando eu não precisava ser, e medrosa bem agora que não tem mais papai e mamãe pra acudir a menininha chorona.

E aí ele apareceu.
Me beija na testa, diz que fico linda até chorando. Não quero sair dos braços dele nunca e eu sei que o amo porque acho fácil perdoar seu gosto por manteiga de amendoim.

E meu pai, meu baixinho fã do Reginaldo Rossi, que tem a filha mais desnaturada do planeta, hoje pode ver que ela não é tão independente, e não deve achar que ela não precisa mais de proteção. Ela só parece ter achado um protetor alternativo. Um adorável menino que tem uma biblioteca, faz panqueca de brócolis com queijos, me enche de beijos, me diz todo dia que vai ficar tudo bem.

O Ciclo 

Acompanhe o ciclo: conhece, escolhe, duvida, gela a barriga, gosta, desgosta, chora, esquece, recai, esquece de novo e pra sempre. E assim caminha a humanidade. Só que cada vez que esse ciclo se repete suas energias estão um pouco mais gastas. Você tem mais dúvida, sua barriga gela e não é de uma forma gostosa como costumava ser. Agora gela de medo de ter que passar por tudo de novo, gastar mais dinheiro com macumba, gastar rímel… Esse texto é pra te lembrar que isso tudo não é nenhum motivo pra hesitar. Vou me usar de exemplo pra não expor nenhum desgraçado desiludido.

Pronto, estou escrevendo cartinhas de amor de novo, mas que merda! Mas é porque é tão delicioso deixar-se molhar pela tempestade do romance que, mesmo que saibamos que hora ou outra aquela pessoa vai nos enfincar o pé nas nádegas, deixamo-nos envolver e adoçamos um pouco a amargura do coração partido.

E, ainda por cima, escrevi poemas. Essa pessoa fatigada das dezenas de relacionamentos errados escreveu poemas de amor. Dos mais bregas, que embrulham estômagos e fazem uma bagunça danada. Nem publiquei, estavam ridículos. Eu estava ridícula, vulnerável e tola. Como nos ensinam a não ser. Mulher do século XXI é independente, não espera o príncipe, critica a Cinderela e todas as princesas. Mas isso é outra pauta, deixa as feministas mais engajadas escreverem. No que diz respeito a esta jovem coberta de calos amorosos, tudo sempre acaba em pizza. Pizza meia euforia, meia dor de cabeça.

Os romances da gente são, no geral, uma grande dor de cabeça intercalada por momentos de êxtase e orgasmos fenomenais. Nem sempre são completos, ou são inteligentes, ou têm línguas performáticas. Dificilmente colecionarão qualidades. Mas, no final do dia, da balada, o que importa é encaixar.

De alguma forma você se prende. Se prende ao senso de humor afiado, igual ao seu. Se prende ao maravilhoso mundo do tanquinho dele. Se prende aos livros que vocês têm em comum. E, quando se da conta, está escrevendo poemas. O problema começa quando uma das partes se perde. Porque, sim, uma das partes sempre se perde. É um fenômeno da juventude, eu li em algum lugar isso, ou não, só quero embasar o que disse. Mas coloque na cabeça: a não ser que você seja escolhido pra adentrar a nova arca de Noé, uma das partes vai sempre se perder.

Digo isso porque a sintonia que existe entre os casais dificilmente é contínua e, de alguma forma, um sempre vai estar mais envolvido que o outro. E vai parecer um déjà vu, você já vai ter visto esse filme. Você desama, ou ele o faz. Pode demorar mais ou menos, mas vai acontecer, e é aí que entra a minha teoria do ciclo.

Estou ficando muito científica. Vamos poetizar!

“João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.”

Deixando de lado toda a crítica que, não necessariamente envolve amor como um sentimento, podemos desejar empacotar só pra poder dar um chamego no Drummondzinho porque ele traduziu o que é ser jovem e tentar amar, assim como fez aquele que é sábio no superlativo, o Xico Sá, com a sua linda crônica sobre “o pinga pinga do amor líquido”.

Quando ainda não dói amor nenhum é que começa a preocupação. Ah, que abismo me espera, cadê o número do meu terapeuta e o que será que vai acontecer de errado dessa vez? Porque é um clichê soltar balões de coração e ao mesmo tempo esperar pelo pior – ou somos extremamente pessimistas. Mas, veja bem, vamos esperar a decepção aparecer pra depois a gente pensar em se decepcionar com ela. Ok?

Vamos pensar que de galho em galho escrevemos nossas biografias amorosas e de galho em galho aprendemos, cada vez mais, a tirar um bom suco dos limões. Fazer uma torta, quem sabe. Fazer bom proveito de todas as cagadas. O primeiro amor foi traumático, sempre é, mas o segundo, o terceiro, o décimo, esses são, no mínimo, boas recordações, bons textos, bom sexo, boas conversas, boas risadas. A lição que fica é que não importa o quão quebrado ficou seu coraçãozinho da última vez. Você sempre cola ele de volta no lugar e o que sobra são cicatrizes que formam quem você é hoje. E elas não são, de forma alguma, ruins. São suas, ame-as!

Agora, com licença, vou ali quebrar a cara de novo. Já volto!

Pra onde vai o amor?

Acordei, enrolada num cobertor. Desci pra buscar o jornal na parte de fora. Brinquei com um cachorro de olhos verde água que estava preso pela corrente no portão. Que diferença tenho dele?

Do passado estampado no meu desktop quase não ficou nada. Algumas cicatrizes – principalmente as do joelho. E nem me lembro qual parte da manhã eu gostava mais (lembro e era a parte que eu bagunçava o cabelo dele). Peguei o jornal enrolado num plástico, e assim ficou, só que jogado ao lado da minha cafeteira.

Ao invés de ver quais notícias sangrentas ou desconfortantes iriam saltar daquelas páginas, resolvi fazer uma faxina. Que vida não precisa de faxina, às vezes? Tinha muita tralha espalhada, mal dava pra andar no meu quarto. Tirei muitas gavetas, pó, teia de aranha. E só moro aqui há um ano e pouco. Não sei como cheguei a esse ponto.

De uma caixa de sapato saiu um bilhetinho, de quem eu bagunçava o cabelo de manhã. Li, reli, três vezes. Lembrei-me que aperto me deu quando li a primeira vez e percebi o vazio sentia lendo agora. Um bilhete dobrado em quatro, mas que ainda tinha as marcas das dobras em forma de coração. Juro, não senti nada.

Pra onde vai o amor que não mais se sente?

Eu sei que sentia, num tempo que parece tão distante quanto as fotos no meu desktop. Eu sentia paixão, eu sentia tesão. Eu não tinha escrúpulos, nem limites – quem ama não tem nada disso. Eu, eu mesma que hoje durmo com cobertor, mas antes dormia só com ele por cima de mim, e tecia desculpas pra encontrá-lo no banheiro escondido do décimo andar. Eu mesma que chorei tantos litros ao deixá-lo. Que sorri largamente ao revê-lo. Que senti um coração estremecendo com a ideia de nunca mais poder bagunçar aquele cabelo.

E agora era nada.

E agora era só um bilhete dobrado em quatro, com promessas que já foram quebradas há muito tempo e que não fazem mais nenhum sentido. Era ainda menos relevante que o jornal, que o café, o cachorro. Era só um pedaço de papel.

Alguns dizem que se transforma.

O amor se transforma. Vira rancor, vira um incômodo. Vira uma caixa de sapato com os pertences dele, todos amassados, jogados por cima de memórias que você não quer mais ter. Amarrotados como ele te deixava quando te apertava, quando tinha amor. Amarrotado como seu ego ficou. O amor se transforma em receio, em arrependimento, em amargo, em um monte de lugares que você passa a evitar.

Ou o amor se guarda na mesma caixa de sapato. Intacto, dizem outros.

Mas você não quer mexer na caixa de sapato, nunca. Do mesmo jeito que jurou nunca esquecer o beijo no seu nariz que ele gostava de te dar ao acordar – e mesmo assim esqueceu. Esqueceu de comprar beterraba que você odiava, mas era pra ele. Esqueceu de colocar duas canecas na mesa pra tomar aquele café.

Pra mim o amor se perde.

Vira um quadro que você pendura na parede, assinado por um pintor que já foi o seu preferido quando você tinha 22 anos, com uma moldura que hoje você acha brega e empoeirada, e que você nem repara mais ao entrar. Vira um bilhete, uma esquina, uma música que hoje são só um bilhete, uma esquina e uma música que um dia você conheceu. E nada mais.

E você sabe que existiu, mas você guarda de volta na caixa de sapato, termina sua faxina, vive a sua vida. Com a mesma apatia com a qual você se desenrola do cobertor e desce pra buscar o jornal.

Dos Amores, O Platônico 

Aconteceu!
Finalmente eu fui atropelada por uma bicicleta.

Fico surpresa que tenha demorado tanto tempo, porque eu sempre cruzo as partes vermelhas da rua como se não houvesse amanhã. E eu sempre defendi o Haddad, eu sempre falei que era bom ter ciclofaixa. Pra chegar um dia, eu atravessar sem olhar e ser surpreendida por um ciclista.

Ele estava bem devagar (era subida). E praticamente estava andando com a bicicleta, mas aconteceu que nenhum de nós viu o outro. Minha bolsa caiu no chão, rolou pelo chão um desodorante, meio saco de Gummy Bears e uns trinta grampos que eu insisto em deixar soltos dentro da bolsa. Além disso, um shampoo anti caspa que eu tinha acado de comprar. Nada demais.

Mas o ciclista tinha um sorriso torto e assimétrico que me ganhou depois de alguns segundos, o quinto amor platônico da semana. Eu gosto de sorriso torto e assimétrico. Eu gosto de assimetria, não é novidade pra ninguém. Assimetria e mãos. E bigode. Essas coisas. Acabei de descrever o ciclista.

Fiquei triste que ele já sabia que eu tinha caspa.

Aí ele me ajudou a levantar, a recolher meus pertences do chão. “Machucou?! Não?” Não machucou nada, ele estava muito devagar mesmo, foi quase um esbarrão cotidiano só que com duas rodas e um cesto (a bicicleta dele tinha um cesto com um caderno de desenhos, que adorável!). Então ele sorriu com aquele um milhão de dentes errados, tirou um graveto que, de alguma forma macabra, se prendeu no meu cabelo caspento e partiu sorridente pedalando, desaparecendo da minha visão na estrada rubra dos transportes limpos.

Ah, as bicicletas! Quantas surpresas nos fazem!

Segui pra casa com um arranhão no braço direito. E cinco pensamentos:
– Pra onde ia o ciclista?
– Será que o leite que está há duas semanas na minha geladeira já venceu?
– Porque eu estava com caspa?
– Será que ele foi embora pensando em mim?
– Quando encontrarei o amor da minha vida, um cartunista, ciclista que tem uma biblioteca, faz panqueca de brócolis com queijos, me enche de beijos e me diz todo dia que vai ficar tudo bem?

Tudo que se passa pela minha cabeça diariamente, exceto a parte do caminho do ciclista, porque não é todo dia que isso acontece. Ele foi em direção a zona oeste, tinha uma mochila nas costas. Será que estava voltando do trabalho? Eram quatro da tarde de uma terça feira azul com nuvens, uns quarenta porcento de chance de chover, vinte graus. Eu tinha tido uma crise de pânico dentro do ônibus, daquelas que sempre tenho em transportes públicos e estar sozinha me deixou ainda mais aterrorizada.

Senti vontade de saltar do ônibus umas três vezes em pontos aleatórios que ficavam em lugares extremamente distantes da minha casa, mas o pensamento de me perder ao tentar voltar a pé me dava mais medo, então sosseguei meu facho até chegar.

Não te dá medo pensar que você pode morrer na rua sozinho e que ninguém ficaria sabendo por muitas horas ou dias?

Acho que é por isso que eu vivo enfiando os estranhos que eu encontro por aí dentro das minhas possibilidades. Por questões práticas: às vezes preciso que segurem minha mão e digam que eu não estou louca, que nada é apenas parte da minha imaginação, que eu vou chegar em casa bem.

Cheguei em casa, lavei os cabelos. Senti ainda mais solidão quando preparei jantar só pra um.
Dos amores, esse é o tipo que eu mais gosto. O que some na ciclofaixa e não se dá ao luxo de decepcionar.

Um Texto Honesto Sobre a Utilidade do Tinder

Estou, há três meses, em uma relação de amor e ódio com os aplicativos. Pra ser mais exata, com essa beleza chamada Tinder.

Uma noite, saí com uns amigos, bebi umas 17 cervejas e, como era de se esperar, quando soaram 4 badaladas de um relógio imaginário, encontrei-me aos prantos lamentando sobre o recém final de um relacionamento. Não que não tivesse chorado sóbria, mas entorpecentes aumentam a potência do sentimento de perda e, conseqüentemente, o volume de lágrimas.

Estava sentada, já sem os sapatos, em frente ao meu carro, meus óculos no chão, assim como minha cara, minha voz 5 oitavas acima do normal. Meu amigo me consolava com o discurso de sempre:

– Você é linda, maravilhosa, popozuda, glamurosa, rainha do funk. Se estalar os dedos aparecem 50 Zés te querendo.

Por algum motivo as pessoas pensam que ouvir isso é ótimo para a auto estima de uma pessoa que teve seu coração partido, quando é o exato oposto. No mesmo momento me veio uma música do Smiths na cabeça que diz, resumidamente, que se você é tão fodona, querida, ta fazendo o que sozinha aí?

Obviamente, disse isso a ele, gritado, e chorei mais 6 litros.

Ele pegou meu telefone e, magicamente, digitou minha senha – preciso repensá-la, aliás. “Espere e lhe provarei tudo que disse!”, claramente de saco cheio de todo o drama, porque, segundo ele “amores vem e vão, são aves de verão, o inverno vai passar e apaga a cicatriz”.

Instalou um certo Tinder, sincronizou meu facebook, deu unfollow no meu ex e fez upload de uma foto sensual que tirei de brincadeira. Certamente, se me conhece, você sabe que não sei o significado de metade desses termos internéticos e que sempre os uso de maneira inadequada. Mas pra direita curte, pra esquerda descarta. Aprendi!

No dia seguinte, além da dor de amor, a dor de cabeça. Nada que eu não saiba lidar. Todos sabem que sou praticamente uma PhD em ressaca e sou grandinha, sei me virar. Mas meu celular, que sempre soube claramente suas funções (ligar, despertar e me mostrar as horas) começou a apitar freneticamente enquanto eu preparava uma vitamina. Demorei alguns minutos para relembrar tudo o que houve na noite anterior, com um pouco de vergonha, e alívio (não liguei pra ele, apesar da vontade – meu amigo me parabenizou depois por isso). Um caso raro de mixed feelings.

Que diabos é esse foguinho vermelho com 36 notificações?

Tempo passa, aprendi a mexer naquilo, claro, cometendo erros. Primeiro os mais leves como não filtrar a distância e achar o amor da minha vida lá em Osasco. Depois, colocar uma foto pseudo artística e descobrir, da pior maneira, que estava pagando peitinho. Irrelevante perto dos benefícios de se entupir o cérebro com elogios e confetes quando se quer tirar da mente uma decepção. Ou seja, achei divertidíssimo.

Além disso, sou a melhor pessoa em se tratado de primeiras impressões. Sou engraçada, sexy, interessante, criativa, inteligente. Claro que, num segundo contato,  isso se perde mas quem precisa de segundo contato com tanta gente me dando “like” (uma coisa que eu odeio dizer mas é como a juventude chama gostar da sua cara em uma foto e apertar o coraçãozinho).

No primeiro mês deletei o aplicativo 3 vezes por semana, o que deixa implícito que ele também foi reinstalado logo em seguida em todas as vezes. É difícil estar em negação de uma tristeza sem nenhum entretenimento. Não tenho televisão, nem cachorro, meu amigo nunca está em casa. Também passo muito tempo sozinha com meus pensamentos. Esquecer alguém é um terror pra mim, porque eu tenho tendência a analisar o inanalisável (talvez essa palavra não exista, mas ela se fez necessária).

Ao mesmo tempo que ficar brincando de escolher o príncipe com um simples deslizar de dedos parece patético, é completamente compreensível o porque do imenso sucesso da brincadeira. Passa o tempo, infla o ego. E vou além: mostra o quanto o mundo é grande, quanta gente tem só nos 50 quilômetros ao seu redor e, devemos admitir, falar merda com estranhos até que é divertido. Mas os dias são uma montanha russa, pelo menos pra mim, e assim não pude evitar de viver em eterno conflito.

Inevitável é achar alguém. Alguém, qualquer alguém que pareça um pouco adequado, será que é essa a palavra? Bom para o momento, ou o que tem pra hoje? Sei lá! Digo, meio encabulada que, considerando meu estado mental do momento, eu não era das mais seletivas, e acabei cometendo um erro um pouco mais grave no segundo mês.

Tive uma crush um pouco mais elaborada por um menino que, a princípio, era a maior belezinha do mundo. Sua maior qualidade, além de me despistar da depressão, era ser engraçado. Também compartilhava dos mesmos interesses que eu, isso é, cinema, música (quando viu meu nome lembrou-se de Grace do Jeff Buckley e não de Grace Kelly, como a maioria dos seres humanos, o que fez meu coração acelerar ligeiramente). E tudo mais, tudo mais.

Ficamos. Conversa, risada, apaguei o Tinder por um tempo mais longo, porque YES! Já achei!

Pra não florear mais uma história que não merece, digo que, quando dei meio passo pra trás, o que quer dizer no meu mundo, não quis ser tão rápida no que diz respeito a sexo, levei um chute na bunda de leve, causando uma sensação de ISSO ESTÁ MESMO ACONTECENDO, BRASIL?

Muito embora eu consiga perfeitamente separar sexo casual de um potencial relacionamento, acreditei, dentro da minha ingenuidade, que eu estava caminhando pra frente quando esse menino não. Não sei em que momento nos desencontramos, porque, acredito que eu deixaria claro se só quisesse sexo com ele. Havia uma sintonia, eu dava bom dia de manhã por mais idiota que eu ache que isso é porque eu estava tentando ser uma pessoa normal (pra ver se assim paro de me foder na vida). Se eu quisesse só transar com alguém eu, com toda a certeza, ligaria pra algum dos caras da minha agenda com quem eu já tinha saído pra não correr riscos. Por que cargas d’agua eu ia ter todo esse trabalho pra ter a possibilidade de ele ter o pau pequeno, ou ser broxa, sei lá (mulheres são escrotas assim, deal with that!).

Depois me ocorreu: qual é mesmo a utilidade do Tinder? É achar sexo mais fácil, ou podemos perfeitamente fazer amigos, encontrar o amor da vida naquela porcariazinha?

Fiquei com essa dúvida, porque no começo era um passa tempo, mas depois me perdi. Em algum momento do vai e vem de caras disponíveis achei que ia ser fácil, assim, superar uma desilusão com outro amor genérico. Que amadorismo! Eu devia saber que eu não sou uma mulher de tecnologias desde que não consegui baixar o Snapchat ou quando deletei o Pinterest por nunca ter aprendido a usar.

Quando deletei definitivamente essa coisa do meu telefone e ele voltou a só despertar e a mostrar as horas, percebi que já tinham se passado 90 dias e eu só tinha aprendido a camuflar esse incômodo (vulgo solidão, ou carência), e assim que o ícone foi parar na minha lixeira, todas as lágrimas voltaram e veio à tona uma enxurrada de sentimentos que eu estava escondendo de mim mesma por todo esse tempo. Caminhei, caminhei e estava no mesmo ponto, só que agora com mais uma decepção na bagagem e infinitos megas de internet desperdiçados.

Não sei até que ponto poderia ser eu a mulher do casal com tatuagem do logo do Tinder, mas só agora posso dizer com propriedade que percebi pra que isso serve: nada!

Claro que talvez eu baixe de novo essa merda semana que vem porque, todos sabem, eu sou retardada (todo mundo é). Mas por hoje, adeus foguinho vermelho, nos vemos no inferno!

Amigo Amante Amante Amigo

Ele não é nenhum estranho pra mim. Acho que só uma parte dele passou a ser, depois da primeira vez. Já estamos na quinta e tudo que mudou foi que agora transamos e talvez, que somos um segredo.

Um segredo mal guardado. Não fazemos muita questão de mantê-lo. Afinal, não parece ser uma grande coisa pra nenhum de nós. Saímos, bebemos e acabamos na minha cama. Uma combinação que vem dando certo por um tempo surpreendente, até que eu, burra, coloquei os óculos 3D. Ou o dividi em dois: amigo e amante. Por algum motivo nunca pensamos em unir os dois.

Me irrita o tipo de pensamento que separa o amigo do amante. O mesmo pensamento que, talvez, tenha inventado a friendzone e toda essa baboseira. Também me irrita que precisemos ficar sempre calados e que eu não faça ideia do que se passa dentro da cabeça dele, e vice versa.

Todas as vezes foram exatamente iguais: Festa estranha, amigos em comum, shots de tequila, se Deus ajudasse dividiríamos um cupido ou, se Deus ajudasse mais ainda, encontraríamos alguma coisa vermelha do Canadá. Não dava pra saber exatamente se as luzes agiam, se os comprimidos faziam nossa cabeça. Não dava pra saber se teríamos a mesma ideia sóbrios num cinema, vendo algum filme de super herói. Afinal, nunca tivemos ideia nenhuma antes.

Ao mesmo tempo tudo isso não faz sentido. Se já o conhecia há pelo menos uma década, como não sabia dizer nada sobre ele, de uma hora para outra? Como ele virou esse ponto de interrogação e como ele vira meu estômago de cabeça pra baixo agora, toda vez que o vejo?

Encontrei-me pensando no túnel mágico que passamos entre o BFF e o gelo na barriga, enquanto comia, casualmente, um prato de batata palha com maionese Heinz. A cada mastigada crocante, um olhar dele me vinha na cabeça. O olhar de quando nos conhecemos, o olhar de quando viramos amigos e o olhar de quando acordamos de ressaca lado a lado. Eram coisas distintas, de alguma forma, mesmo que os olhos fossem os mesmos.

Demorei pra me dar conta de que ele não era a primeira coisa que eu pensava ao acordar antes de tudo, e que ele não tinha covinhas quando sorria (coisa mais adorável!). No sexto dia seguido que me peguei pensando nisso, não pude evitar de ter uma discussão séria comigo mesma dentro da minha cabeça: Você, por um acaso, está desenvolvendo algum tipo de sentimento não carnal pelo Fulano, hein menina?

– Defina sentimento!

Foi essa a resposta, a óbvia resposta.

Vivemos numa era em que é perfeitamente aceitável sexo sem amor, sem compromisso, sem nenhum contrato implícito. Eu mesma sou a mais adepta desse modelo moderno de amor pra vida toda que dura um dia (ou uma noite). Mas será que existe tanta diferença assim entre o lindo do Tinder e o amigo de longa data? Porque é tão mais fácil desenhar o limite quando se trata de um estranho? Essa dinâmica não faz muito sentido quando analiso da seguinte forma: O estranho one night stand pode vir a ser um relacionamento não casual se a fadinha do amor flechar nossos corações. O amigo é amigo, é um decreto que, mesmo tendo oportunidades prévias, a primeira opção foi a amizade pura e sem benefícios e porque haveria de mudar por conta de uma noite de sexo, se o sexo não implica em amor instantâneo?

Pensei em dizer isso a ele. Mesmo sem ter conseguido entender, mesmo sem ter certeza de nada. Mas me contive. Não quero estragar nossa amizade. Não quero estragar nossa amizade? Como definir se o que temos é amizade? E como definir amizade se tudo parece tão misturado e desregrado agora? Talvez ele esteja pensando o mesmo que eu.

Ou não.

Ou eu divago sozinha sobre o que é só sexo e sobre o que eu penso ao acordar. Talvez eu esteja sozinha como estou na maioria das vezes nesse rio. Eu remo só. E se eu estiver remando só? Tudo que a gente já viveu vai se perder, tudo que temos agora talvez (e provavelmente) se perca. E tudo pode ser só confusão, só carência.

Só fico intrigada: Porque nada mais tem graça se não é com ele?

Minha razão diz que não. Que é melhor não arriscar. E que talvez seja melhor continuar a virar a tequila e a tomar os comprimidos e depois acordar enrolada no mesmo edredom que ele, e pensando: talvez eu te ame, mas é arriscado, então deixa estar…

Mas tudo que eu realmente queria dizer, já disseram e nada tem a ver com isso.

Será preciso ficar só pra se viver?

Pedro ou Como Eu Ensinei Cultura Pop e Sexo

E me olhava o Pedro, esse sensível, imaturo, intenso, confuso, delicioso e adorável menino. E também quantos mais forem os seus atributos. Não é o Romantismo um amontoado de adjetivos? Deixa, então, eu caracterizar esse sujeito! Adoro uma análise sintática.

E esse magrelo e lindo me olhava por cima dos óculos pelo retrovisor, me despia com os olhos pelo retrovisor. E pouco se destacou o Josh Homme que cantava no rádio, a metade da lua que apontava no céu ou a festa que rolava na rua e que a gente deixou pra trás às 3 da manhã de uma quarta feira.

Pedro pode ser duas pessoas.
Pode ser parte da minha imaginação. Pode ser o que você quiser. Mas, permita-me! Não exagero, não minto uma só palavra ao descrevê-lo. Cru, como um alimento não preparado, e inocente, empurrou o rapaz parado entre nós e, apoiando-me numa parede rabiscada, beijou-me com uma urgência admirável. Pegou sua cara de moleque e seu sotaque indeciso entre São Paulo e Curitiba e cismou com o meu umbigo quando já estávamos a sós, dentro do meu carro.

Era quarta feira e tinha festa. Férias são o absoluto êxtase entre os 18 e os 22, quando ele era calouro e eu era veterana. Pedro ia ficar em seu quarto, vendo um Lars Von Trier, quando o enviei uma mensagem de texto eufórica demandando que ele viesse. Ia ter cerveja, uma banda, estava calor o suficiente pra não precisar de casaquinho. Todo mundo ia estar lá, eu ia estar lá. Além do mais, eu precisava dar a largada. Já era julho.

Com ele, sentia-me ligeiramente superior. Porque retrucava seus argumentos com sabedoria, usava palavras que aprendera no meu curso superior quase concluído – o mesmo que ele dera início seis meses antes. Falava com propriedade de todos os lugares para onde fui, todas as comidas que provei e todas os filmes que vi. Ele ouvia, muito atento, muito calado, olhando pros meus olhos, no fundo, numa admiração boba que, ao mesmo tempo, parecia imaginar a que horas o vocabulário afiado dava lugar pra qualquer coisa mais física. Assim, do jeito que eu gosto!

Antes disso, a coisa mais adorável era como ele sempre esperava o próximo elevador só pra dar tempo de eu chegar. Como ele lia todos os livros que eu recomendava só pra gente poder bater papo na cantina à tardezinha. Ele até começou a gostar do Palahniuk, ele até ouviu todos os 14 álbuns do R.E.M, sem pestanejar.

Jamiroquai, ele ouviu. Ouviu Cyndi Lauper, viu episódios perdidos do Snoopy deitado do meu lado.
O Jeff Buclkey, aquele cara com um álbum em minha homenagem, ele deve ouvir até hoje.
Depois de um tempo, podíamos discutir por horas sobre todas as formas como o Woody Allen é maravilhoso.

É por tudo isso que ele foi uma coisa deliciosa de se descobrir naquela quarta feira. Porque ele me provocava orgasmos intelectuais, ele ria das minhas piadas sarcásticas sobre gente gorda ou com citações de sitcoms norte-americanos. Se ele podia ser esse nerd comigo, ele podia ser esse nerd com a pegada (surpreendentemente) mais deliciosa do universo comigo. E iniciar toda uma vida de gente grande comigo, sou ótima nisso!

Até ele virar esse nerd que conheceu uma ruiva (são sempre ruivas!) e foi pro dorm dela sem mim. Mas até esse infortúnio acontecer, era tudo uma mistura de cultura pop e sexo no meu carro e quem mandava naquela merda era eu!

O resto é história enterrada na minha caixinha-de-guardar-ex.
O resto é só ok.

Vinícius ou Como Comecei a Fumar

Quando acendia o fogo só deixava mornar. Nenhuma leiteira derramou leite e nada nunca queimou, ardeu, fez-me espalhar creme dental na pele. Até que em 2011, ou ano passado conheci o Vinícius.

E ele foi fulminante.

Não me lembro direito que background figurou naquela noite. Lembro só que era noite. Porque ele não deixava espaço pra cenários, eu não conseguia focar. Lembro-me que havia fumaça e quanta fumaça. Vinícius fumava três cigarros toda noite no mesmo banco de madeira do deck 3. Nunca o encontrei em nenhum dos outros 14 decks.

Eu, com bagagem mínima da vida, 18 anos, semi desvirginada, olhava pra ele como quem assiste um pornô escondido dos pais. Todos os meus romances tinham sido só da pele pra fora. Ninguém aligeirava coração nenhum aqui dentro antes dele. Ninguém dava suadouro, tremedeira, gagueira. Ninguém me deixava tonta. E eu, possivelmente, nem sabia que podia sentir tudo isso e que seria intoxicantemente bom, antes de ficar ruim.

Uma noite subi as escadas que davam na parte de trás do banco onde ele costumava se achegar pra tragar seus 3 cigarros e, arrumando o decote, sentei-me ao seu lado e pedi um. Eu sabia exatamente a aparência de ninfeta que me adornava e tudo que isso podia me proporcionar. Não porque eu tivesse uma intenção pré existente, mas porque ele me despertava toda a sexualidade do universo.

Eu nunca havia colocado um cigarro na boca. Alias, uma educação rígida e religiosa me impedia disso.

Vinícius não tinha nada de incomum, e por conseguinte, nada de sexy por assim dizer. 27 anos, calos nas mãos. Apertava os olhos pra tragar, segurava com o indicador e o dedão uma bituca amarela. Atmosfera despreocupada e despretensiosa, como quem pouco se importa com tudo que parece importar. Enquanto ali estava, olhava o tempo passando, o mundo acontecendo e eu sabia que jamais poderia compreender o que flanava por dentro da sua cabeça. E esse conjunto era excitante como a primeira vez de qualquer coisa controversa: Sexo, drogas e Rock n Roll.

Na noite do meu primeiro cigarro, que foi também a noite de várias outras primeiras coisas, eu não era nenhuma ignorante sobre ele. Eu já o havia visto lá, fitava seus movimentos por detrás, tinha uns bons sonhos semi-eróticos (que são eróticos, mas românticos, se é que essas duas coisas podem coexistir nos dias de hoje, apesar de deverem). E nessa noite não pude mais me conter. Eu queria, no mínimo, ouvir sua voz pigarrenta – como ela era nos meus sonhos. E finalmente quebrar essa timidez que durante a vida toda me fez sombra.

Quando traguei o primeiro ele riu.

– Você nunca pôs um cigarro nessa sua boca, não é menina?

Me chamava de menina, por muito tempo, mas a única vez em que senti um beliscão foi nessa primeira vez. Um beliscão em todo canto. E então ele fez-me observá-lo para aprender. Por três tentativas, falhei. Quando finalmente consegui, tudo se perdera: virei fumante e apaixonada. Veja tudo que me fez esse homem.

Fumamos mais dois e seguimos pra sua casa.
Durante esse tempo, falamos sobre tudo e nada. Não me recordo de ter mencionado nenhum passado. Nem eu e nem ele. Não me recordo de ter perguntado seu nome. Não me lembro de nada além do banal. E quando chegamos, para minha surpresa, eu já estava madura o suficiente pra não precisar esperar nenhuma atitude.

– Posso dizer só mais uma coisa?

Antes que ele pudesse replicar, eu já apoiava as mãos unidas em sua nuca e jogava meu peso todo pra cima dele. E ficou claro que eu não queria lhe dizer coisa alguma e que palavras eram totalmente desnecessárias, como sempre são. Na minha cabeça e no carro, o Jimi Hendrix cantava “Are You Experienced” e eu respondia que sim. Agora sim. Porque qualquer droga não me daria tanto barato quanto aquilo.

Era a primeira vez em que eu estava totalmente no controle de alguma situação, nem que isso fosse uma sensação existente só dentro do meu cérebro. Mas, veja, não havia nenhum outro que pudesse dizer de boca cheia “Ela procurou por mim”. Eu era a medrosa das relações amorosas, e tudo que veio antes do Vinícius foi passivo, sem graça, e mundano.

Apesar disso, foi com ele o maior número de caquinhos em que se partiu meu coração, 15 meses depois. Tudo porque eu ainda não tinha os poderes mágicos de hoje que apitam quando eu sinto que vou ser sacaneada por alguém e era só uma adolescente com muita libido. No entanto, nunca me recordo dele sem molhar a calcinha, nunca me recordo dele como um dos babacas que me machucaram.

Ele é simplesmente Vinícius, o cara que me ensinou a fumar.
Que me ensinou a usar o fogo alto e desconstruiu a ideia do tanto-faz.

O resto é história enterrada na minha caixinha-de-guardar-ex.
O resto é só ok.

Júlio ou Como Deixei de Ser Vegetariana

Só tinha uma nuvem contínua no céu, um borrão suspenso de água condensada. E um sol tímido por trás criando o contexto num alaranjado borrado espalhado, querendo esvair de uma vez e pretejar logo a casa das estrelas.

Ou não, também. Você acha que eu estava olhando pro céu? Só quis romantizar pra falar do Júlio. Ah o Júlio!
Essa história aconteceu em 2010, ou não aconteceu nunca, ou mês passado. Você Decide remasterizado, falecido da TV Globo.

Realmente a nuvem estava solitária, que nem eu. Comprida, desgastando-se pouco a pouco com cada sopapo do vento, da vida ou à medida que o sol ia baixando. Mas ela não importa. Fui pegar uma salada na mesa. Rúcula, tomate seco e essas coisas. No mês passado, ou em 2010 eu era vegetariana, e ainda assim, estava em um churrasco muito do juvenil num lugar chamado Sítio Novo, que devia ser a área rural de uma cidade onde eu nunca morei, ou morei há cinco anos.

O sol que criava o meu contexto era o mesmo de sempre: arroxeado ou azul, não quente ou forte o bastante para um pôr do sol descente e insistia em me pintar de vulnerável. Em outras palavras: estava fodida. Fodida de um ex-amor, cantarolando Smiths e amaldiçoando quem se atrevesse a andar de mãos dadas. Era um churrasco de casamento, um clichê dos infernos, um pesadelo pra gente da minha laia. E eu pronta pra transferir todo o agrião da tigela pra minha boca e mandar pra dentro o drink azul que o bar tender preparava com todo aquele esmero (era seu debut na mixologia, com certeza!)

Quando dei de tocar naquela tesoura de salada, junto veio a mão mais bem feita por Deus, ou pela mãe e o pai desse menino loiro de olhos verdes. E rodou um filme da Katherine Heigl: Previsível, mas totalmente desejável situação romântica em câmera lenta mental. Nossas mãos se tocaram e ele disse “Primeiro as damas!” e recebeu em troca o meu olhar de canto que se traduziu em “Obrigada!” ou em “Você vem sempre aqui?” ou algo dessa natureza. Quem é fluente em Flertês que diga.

Fui sentar na cadeira de plástico mais distante do tio da noiva. Aquele que faz piada com as solteironas. Há quem diga que eu estava me escondendo. Se foi isso, agradeço ao meu instinto. Quando já estava lá nas azeitonas, sentou-se o Júlio na cadeira ao lado e puxou papo no ponto certo, como quem me estudou antes de se aventurar na arte da conversinha.

– Odeio casamento!

Será que fica mais perfeita essa criatura?

Sacou um charuto e começou a fumar, como se fosse normal fumar charutos em churrascos decadentes de casamento. Eu olhava, abismada, com um pedaço de alface no dente, dizendo que realmente casamentos são “uó!” – maldito mundo LGBT tão presente no meu vocabulário. A verdade é que eu olhava pra nuvem e contemplava sobre onde ela começa ou acaba ou se nada para a luz que refletimos de volta pro universo, isso significa que somos imortais? e sobre quando esse cara ia me chamar pra dar logo o fora daquela merda.

E sabe essa coisa típica de casamento onde a dama de honra vai trepar no banheiro com o primo de terceiro grau do noivo? Essa não é, exatamente, a história que eu estou tentando contar. É só a beleza e inocência da história de amor que começa sem saber que vai ter fim.

Júlio desabotoou a camisa branca por dentro da calça e mostrou a camiseta do Lynyrd Skynyrd que vestira por baixo (pra usar quando já fosse permitido tirar as sandálias e as gravatas), como se estivesse me contando um segredo. Pra ser justa, desabafei que estava louca pra comer um bife sangrando.

Pronto. O que mais a gente precisa saber um do outro nessa vida? Que teste é esse que a gente vai fazer no programa do Rodrigo Faro? Porra nenhuma! Almas gêmeas. Ele cortou um pedaço da picanha da mesa na nossa frente – torci para que fosse dele, – e deu na minha boca. Enquanto fazia o trajeto com o garfo de plástico, explicou porque eu deveria parar de ser idiota e jogar fora, de uma vez, todos os meus cartazes pintados com “Meat Is Murder”. E também porque eu deveria parar de procurar o pôr do sol perfeito e, ao invés disso, começar a apreciar um bom charuto.

Saímos. Escondeu-me sob seu blazer pra me proteger da chuva que veio dissipar a nuvem. Beijou-me impaciente. Tragou seu charuto. Foi como o conheci.

O resto é história enterrada na minha caixinha-de-guardar-ex.
O resto é só ok.