Glenda, Glendinha (i)

– Você já ficou com alguém e de repente pensou “nossa, que boca enorme”, e vocês não estavam nem se beijando?
Perguntou a Glenda no meio de um torneio de basquete da segunda série, ela que trabalhava lá só desde o começo do semestre. As outras professoras, boquiabertas, pensaram que talvez as pessoas compartilhassem demais e isso era um malefício advindo do excesso de exposição nas redes sociais.
– Glendinha, meu bem, olhe a boca, disse a mais velha, com medo de algum aluno ouvir e interrogar “mas o que vocês faziam, prô?”.
Glenda dava dessas às vezes. Mal pensava e já estava lá, no mundo, só aguardando a reação dos outros.
Outro dia passou por um gato na rua, pegou, acariciou o bicho desconhecido e o devolveu para a calçada, continuou andando e coçando os olhos, o nariz, como se não pudesse pegar uma doença nessas épocas em que tudo tem germes. Na escola estava há poucos meses com um esforço tremendo, já que não era muito fã de trabalhar. Tinha feito o magistério em 1999 como se não fosse ultrapassado, já no final dos anos noventa, “fazer magistério”. Nunca mais estudou e por muito tempo trabalhou de babá de crianças ricas da zona sul. Agora que completara quarenta anos redondos, a cautela passava longe.
Semana passada fez um bolinho e chamou a meia duzia de amigas para cantar um parabéns. O Júlio César também, o único homem do bando.
– Não vai cortar o bolo, Glendinha? O primeiro pedaço é pra quem?. disse o Júlio César, porque estava com fome. Glenda não só deu o primeiro pedaço como preparou-lhe uma cilada para ele ser o último a deixar sua casa de 3 cômodos no Jardim Clemência. Tomaram cerveja em copo americano, fizeram um pouco de amor e depois seguiram sendo amantes escondidos mesmo que não tivessem compromisso com ninguém.
Na escola Glenda era conhecida pelas unhas roídas em carne viva. Minha ansiedade, reclamava, cheia de band aids e esparadrapos. As mães buscavam as crianças, horrorizadas, passando álcool gel até na alma. Mas Glenda era bem limpa, uns dois banhos por dia porque suava muito. Totalmente desatenta da ojeriza que causava, entregava as lições de casa junto com a criança chorosa e ranhenta, ou um bilhete de mal criação. Dava um tapinha nas costas, mandava um beijo beijado molhadamente na mão.
Júlio César tinha dentes bons, pensava Glenda sempre que o via da esquina antes de seus pequenos encontros. Dentes bons igual cavalo, retinho, bom pra morder. Glenda tinha dessas coisas, mordidas, nem sempre marcava, o que já estava de bom tamanho. Se encontravam meio que na hora do almoço para trepar no depósito da bar onde Júlio César trabalhava, Glenda fazia um esforço imaculado para conter o barulho, embora achasse pecado conter genuínos gritos de felicidade. Prazer, felicidade, é tudo questão de terminologia, de hora do dia, pensava enquanto equilibrava-se na ponta dos pés 39, porém delicados, na medida do possível.
Tinha manias inexplicáveis como a de tomar banho de chinelos e depois ter que esfregar com bucha o chão lamacento e cor de chumbo, porque o chinelo era o mesmo com o qual passeava pelo bairro. Queria subir na vida, tinha crenças, mas não achava que o Júlio César era pau para toda obra como um companheiro deveria ser. Por isso ele não sabia que ela guardava uns dois terços de seu salário numa caixinha feita de palitos de sorvete que havia ganhado de um aluno depois da aula de artesanato. Todo mês colocava o terço do salário de pajem escolar enrolado e amarrado com um elástico amarelo. Diariamente, de manhã, espiava a caixinha que ficava enfeitando um criado mudo de design moderno, que em nada combinava com o resto da casa térrea sem quintal. Plantava bromélias em um vaso minúsculo para representar sua existência, pois também era imbicada e folhuda, robusta demais para aquela casinha/vidinha modesta, que tinha preguiça demais de mudar.
Tinha alma de mulher metropolitana porque achava pouco ter só o Júlio César lhe adentrando de vez em quando. Tinha um fogo incontrolável na mexerica, como sua mãe costumava dizer, e tinha plena consciência de que podia e devia distribuir seu amorzinho modesto na cidade. Como não era adepta de celulares e afins, usava o velho método de sair e tomar umas cachaças, dançar uma dança por aí e achar um benzinho temporário para lhe acalmar a chamuscaria. Nada contava a Júlio Cèsar, já que pretendia mantê-lo como o macho fixo embora oculto. Todos eram ocultos, na verdade, porque mantinha o ar assexuado na frente das crianças e parentes, como se fosse uma virgem de 40 anos, embora falasse putarias aleatórias na hora da merenda. No fechar das paredes sabia encostar as mãos nos pés, e fechava-se com uma tábua de passar, como se pudesse facilmente sair em turnê com um circo. Dormia em cama de viúva, mas amava solteira com desenvoltura, na maioria das vezes tapava a boca do visitante quando nele estava sentada e gostava de olhar muito para sua caixinha. Pensava em progresso, e encher a caixinha, em preencher um vácuo seu ao mesmo tempo.
Chegava de manhã e abria o portão da escola com vontade, beijava as crianças no centro da cabeça com uma pureza de aquecer o coração.
– Tia Glenda, por que sua boca solta pelinha?, as crianças mais observadoras diziam, e ela se ria, passava manteiga de cacau depressa como se adiantasse já que raramente bebia água.

Júlio César sugeriu fazer um ménage à trois com Glenda e sua amiga Roberta, numa terça feira depois das 18 horas, podia ser lá no bar mesmo. Glenda ficou surpresa pelo lado sem vergonha que nunca imaginou em JC e curiosa por que havia de ser a Roberta, que tinha peitos minúsculos. Sempre que se imaginava tocando outra mulher queria só saber de peitos grandes, como se tivesse sido aculturada na América dos anos 90. E se imaginava de vez em quando com umas moças mais novas, normalmente irmã de aluno, mas não deixava de achar mais negócio sair com macho.
– Tudo bem, vamos fazer méjage à toá, achei bacana.
Glenda passou a semana fazendo abdominais na cama de viúva, porque pensou que mulheres são mais exigentes, conhecem seus corpos muito melhor, não iam se contentar com uma barriga flácida. Homem tudo bem, que gosta de “ter onde pegar”. Mulher deve gostar de corpo saradinho. Limpou a casa também porque estava disposta a sugerir seus aposentos como cenário, o depósito do bar cabe dois no máximo, ia ficar muito cheio, podiam quebrar alguma coisa. Era zelosa com coisa dos outros, isso era, apesar de andar mulambenta na rua. A cama de viúva por sua vez rangia como velha surda a cada abdominal. Rangia porque era velha, de segunda mão. Imagina três pessoas trepando nessa cama, os vizinhos vão chamar a polícia e Glenda detestava incomodar a vizinhança com barulho. Ligava um CD com músicas do Buddy Holly todo domingo quase no volume 100 porque não considerava isso barulho, e nem sabia quem era Buddy Holly porque o CD não tinha capa. Glenda tinha dessas.
Foi nas Lojas Marabraz comprar uma cama nova, por isso, recorreu à caixinha de palitos, porque não gostava de fazer dívida. Carnê era a morte. Comprou então a cama de alumínio cor magenta, com espirais intermináveis na cabeceira e pontas douradas e um colchão do mais barato. Mandou entregar mas teve que postergar o encontro a três por conta do prazo de entrega da cama.
No dia seguinte lembrou que havia esquecido de contar a novidade para Roberta, a pajem moça da Escola Professor João Neto, a Netinho da rua Abraão. Moça mesmo porque se emperequetava toda, chegava na escola emperequetada todo santo dia, cheirosa que só. Devia de ter seus 20 anos, julgando pela bunda firme. E era a única que dava mais ouvidos à Glenda quando ela desembestava a falar asneira.
– Se você quer saber, eu que não como coração de galinha. Seria como se eu comesse o amor de dentro de seu recipiente. Uma loucura.
– Glendinha, coração não tem amor, é na cabeça que está o amor.
Glenda tinha convicções estáticas mesmo sabendo quase nada de nada.

Júlio César queria saber em que pé andava o convite para Roberta. Glenda por sua vez queria saber que tanto JC enchia seu saco por conta do ménage se ela já havia concordado.
– Não dá pra fazer de qualquer jeito também, pare de ser desleixado!
No mesmo momento ficou com a pulga atrás da orelha porque querendo ou não era ciumenta. Deitou pela última vez na cama de viúva pensando que talvez o JC não desse a mínima para trepar de três, só queria mesmo era ver a Roberta pelada. Ela queria também, mas JC tinha que segurar o facho. Depois pensou que JC não lhe deve nada porque nem mesmo eram um casal oficial real e depois de incluir mais gente é que não iam ser mais porcaria nenhuma. Não que Glenda quisesse, só pensou porque vivia pensando em possibilidades. Será que nunca vai ler essa meia duzia de livros que comprou por causa da capa? Não vai contar para Júlio César que costuma passar mel na mexerica, ele que detesta abelha? Se achava desonesta porque escondia essas coisas.

Na feira pedia sempre verduras orgânicas: Vou querer orgânica, viu Seu Antonio, orgânica. Gostava como isso soava mesmo sem fazer ideia do que de fato era orgânica. Quando ia lavar roupas usava vinagre de maçã. A moça do Bem Estar disse uma vez que tira mais os germes da roupa. Mesmo assim, não gostava de lavar as mãos depois de ir ao banheiro porque demora muito tirar todos aqueles anéis.

A cama tinha chegado há dois dias mas ela nada disse a Júlio César, porque estava arrumando o resto da casa. Algum móvel havia de ser descartado para acomodar a cama nova, de casal, porque ela já estava na idade de ter cama de casal. Desfez uma cômoda com chave de fenda e tudo e jogou as taboas na esquina mais suja de seu bairro, como todo mundo costumava fazer, afinal, depois os lixeiros passam e pegam ou algum mendigo dá bom uso. Tudo que estava sobre a cômoda ficou sem propósito: uma fotos de seus pais quando jovens num porta retrato em formato de coração; uma concha gravada de Porto Seguro de quando ficou sete dias lá por conta de um pacote da CVC; um Bom Ar; um batom da MAC; Os Sofrimentos do Jovem Werther, em alemão; um abajur. O livro jogou na pilha com outros livros no canto da sala, que usava para apoiar as cervejas quando se sentava na cadeira de balanço em frente à TV. O quadro dos pais guardou na primeira gaveta do criado mudo aproveitando para se livrar desse julgamento quando estiver trepando de três na semana seguinte. O abajur e a concha manteve ao lado da cama e o batom passou a usar todos os dias.

Mas a casa ainda não estava boa para o evento, apesar de dormir agora muito mais esparramada. Tinha menos dores na lombar, pelo menos. Julio César não insistia tanto na proposta já que Glenda posava com aquela boca mais carnuda cheia de batom, ficava mais mulherão. Por isso se encontraram novamente no depósito para mais uma vez a sós antes de incluírem Roberta, que nesse dia já não foi mais o centro da conversa. Júlio César se lambuzava do batom rosa, embora tenha passado mais tempo ao sul dessa vez, o que deixou a Glenda glendíssima, um mulherão.

Roberta ficou tentada quando Glenda a convidou para o evento, duas semanas depois, embora se considerasse uma puritana. Pensou, será que tudo bem fazer essas coisas, meu deus!. Olhou para Glenda de cima a baixo, viu que a calça marcava um dáblio salientíssimo, mas desanimou-se com os culotes pontudos demais, uma bromélia! Mulheres devem mesmo ser mais exigentes. Mas aceitou mesmo assim porque pensou que no mundo de hoje as mulheres tem que tomar posse de sua sexualidade, esta que pode ser sempre muito flexível para as mulheres na mente dos machos. Ela via uns pornôs normais.

Glenda foi para a escola no dia 3 de maio usando uma cinta modeladora porque percebeu os olhares afiados de Roberta e assim ficou super atraente naquele grande dia. Júlio César a olhou do bar com grande atenção, ela parecia um sino balançando a bunda pra lá e pra cá.
– Oi Roberta, tudo bem?, disse segurando seu queixo, o que pareceu uma piada interna entre as amigas, por isso ninguém disse nada embora tenham achado bastante perturbador. O dia demorou a passar. Várias crianças tiveram diarreia, o que nunca acontecia, mas era um dia especial. A merendeira fez polenta com almôndega e molho Pomarola.
No jogo de basquete da segunda série, Glenda finalmente permaneceu calada, olhando os peitos minúsculos de Roberta, que agora pareciam um pouco mais divertidos, ela devia estar sem sutiã. No vai e vem das bolas o dia passou arrastado. Glenda comeu polenta, ficou toda satisfeita, lambia os dedos sensualmente porque já se aquecia.
Chegando em casa, com a cama nova, sem o porta retrato, retocou o batom.
– Entra Júlio César, Roberta, meus queridos.
Lhes serviu água da torneira num copo de requeijão, com muita vergonha, por que foi se esquecer de comprar taças?
Os três sentaram-se na cama de alumínio, ouvindo um pouco de Buddy Holly para criar um clima: Glenda achava esse gringo um tesão embora nunca tivesse visto sua face. Julio César tirou de debaixo do braço uma sacola verde de mercado contendo um vinho branco pelo qual pagara mais do que o usual e sugeriu que começassem bebendo. Puxou assunto.
– Então Roberta, tudo bem? Não nos vimos desde o aniversário da Glendinha, que coisa, não?
– Pois é, disse Roberta um pouco encabulada olhando as unhas sujíssimas segurando aquela sacola de mercado meio molhada.
– O que vocês acham um do outro, disse Glenda do alto de sua falta de cautela.
– Eu acho você um mulherão, Roberta.
Glenda pegou a garrafa de vinho da mão de JC e levou para a cozinha onde encheu três dos copos de requeijão. No fundo ficou ofendida, pois achou que mulherão era um adjetivo exclusivo seu agora que usava batom da MAC. Foi ao banheiro, passou um lenço umedecido na vagina, ao invés de tomar banho, e manteve a cinta. Quando voltou com os três copos numa bandeja prateada, deparou-se com JC e Roberta inclinando-se para um beijo. Achou esquisito pois os quadris estavam muito distantes, isso devia significar que eles estavam nervosos.
– Já começaram, então, queridos? Que pressa.
Curiosamente ficou glendíssima com as formas que faziam na parede iluminada pelo abajur solitário. Os três beberam o vinho, se despiram, salivaram, usaram todos os centímetros da cama novíssima de Glenda, como se tivessem nascido para trepar de três. Quem nasce para amar de dois, nasce para trepar de três, Glenda pensou já toda recomposta, deitada à direita enquanto Roberta deitava-se à esquerda de Júlio César.
– Vocês querem fumar? Vi que as pessoas fumam depois de fazer putaria.
Roberta riu e descobriu que nenhum deles fumava.
Júlio César abriu os braços como quem faria um anjo na neve e acariciou as mexericas das meninas, levantou-se e botou de volta uma camisa de mangas curtas, péssima.
– Tchau Glendinha, Roberta! Foi um prazer.

 

(…)

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Junho é o sexto mês

O dia 3 de junho desse ano caiu numa sexta-feira. Julie, que era geminiana e completaria 24 anos no mesmo mês, trabalhava há meses no projeto gráfico de uma empresa chamada Hegs, cujo produto era a produção e distribuição de ovos orgânicos. O projeto caminhava pobremente, “aos trancos e barrancos”, como costumava responder aos amigos que a indagassem. Às sextas-feiras, Julie trabalhava numa Starbucks a quatro quarteirões de sua casa, assim como às segundas trabalhava no Fran’s Café de Pinheiros, às terças na padaria da rua Caetes e às quartas no Parque Vila Lobos. Quinta-feira descansava, porque quarta à noite jogava futsal no Sesc Pompeia.

A Hegs queria inaugurar seu primeiro website no dia 6 de junho, por isso o dia 3 era tão importante. Depois de contadas quinze idas e vindas de seu projeto, Julie estava pronta para receber o seu pagamento e deslanchar de uma vez a ascensão do império orgânico de ovos na Zona Oeste de São Paulo. Às 4 e pouco enviou o projeto final em 3 emails e fechou seu MacBook. Logo depois pediu outro frappuccino tamanho venti e ficou sentada olhando notificações no celular.

Jaime, por outro lado, fazia contabilidade freelance para empresas de pequeno porte em seu modesto HP de 15 polegadas, enquanto tomava um expresso de baunilha. O dia 3 de junho era especialmente tocante para ele, pois há exato um ano ele se mudava para um apartamento minúsculo na Rua Vanderlei, onde viveria sozinho depois de uma conturbada separação em que não lhe sobrou nem Brutus nem Cleo, seus dois cães – que ficaram com Alissa, sua ex. Jaime não ia a encontros românticos desde sua separação, pois dizia que “as coisas andavam fracas pro seu lado”, e queria se dedicar ininterruptamente à sua carreira profissional.

Alissa ficou com o apartamento e com os cachorros, Jaime não quis criar um grande caso por isso. Jaime visita o vira lata Brutus e a dálmata Cleo umas duas vezes por mês, quando os leva para passear. A visita dura umas quatro ou cinco horas e acontece, normalmente, no final de semana. De vez em quando, Alissa desmarca em cima da hora, como acontecera naquela sexta-feria, dia 3, o que deixou Jaime irremediavelmente desmotivado.

Estavam há quatro mesas de distância e Jaime olhava de tempos em tempos para Julie que, discretamente, olhava de volta de modo que seus olhares se cruzavam de vez em quando. Quando se encontraram na fila para mais um frappuccino e um expresso, respectivamente, Julie e Jaime tocaram no assunto do tempo. Estava frio, na opinião dela, e nem tanto na dele, já tivemos invernos piores. O tempo em São Paulo é até que ameno, concluíram, e concordaram que era desnecessário manter o ar condicionado no mais frio, dado que a temperatura fora dali já estava baixa – mas “Starbucks são assim mesmo: querem que a gente experiencie o clima do hemisfério Norte”, ele disse.

Fisicamente, Julie era um pouco andrógina e Jaime um pouco bombado. Ambos tinham miopia, mas Jaime usava lentes. Deram-se conta de que usavam quase a mesma camisa azul bebê, só que ela abotoava até o final e ele não. Julie estava um pouco abaixo do peso, por isso continuava a engolir as 270 calorias do frappuccino diariamente. Tinha os olhos verde água e não raramente pesava a mão na maquiagem. Jaime, por sua vez, mantinha o corte de cabelo muito rente, gostava de levantar peso e ouvir Calvin Harris no fone de ouvido enquanto ia pra casa. Quando se cumprimentaram na fila do caixa, mutualmente pensaram que eram atraentes um ao outro, mas de uma maneira completamente improvável.

Se Jaime estava melancólico, Julie estava exausta na mesma proporção. O final de um pesado projeto e o aniversário do final de um casamento são, no mínimo, momentos de reflexão. São possíveis e talvez desejáveis os novos inícios, e a próxima página parecia estar em branco e à espera de tinta. Sentaram-se, então, na mesa onde Julie estava e contaram um ao outro o que faziam por ali durante a tarde.

A conversa não retrocedeu muito aos passados. Julie obviamente não contou que tinha saído com 12 rapazes nos últimos três meses e que quase todos estavam no momento bloqueados em seu iPhone. E não havia um padrão. As pessoas nem sempre têm afinidade, pensava, e para evitar as chatas conversinhas resultantes de certas carências de fim de noite, ela fazia bom uso da tecnologia, que permitia o apagamento de pessoas da memória do telefone. E nenhum foi, por completo, um dito “babaca”. Julie simplesmente não achou que fossem agradáveis, e até mesmo entrou em acordos prévios sobre a casualidade de cada situação. Sem ressentimentos. Aos quase 24, tinha amigos, um Instagram com mais de mil seguidores e nenhum relacionamento remotamente sério na conta.

Jaime já teve uma banda, assim contou a Julie depois de uns 15 minutos de entusiasmado bate-papo. Quando se formou, há 7 anos, perderam o contato e, então, ele deixou o baixo de lado. Tocavam uma espécie de post-grunge. Julie imediatamente imaginou uma versão nacional de Nickelback, o que achou tanto patético quanto fofo. A conversa estava engajada, queriam sem dúvidas encontrar o ponto de convergência que os mantivesse ali por mais um tempo, porque Jaime percebeu a pontinha de uma tatuagem nas costas de Julie quando ela se levantou para arrumar sua cadeira, e Julie notou que os braços de Jaime eram super firmes quando encostou nele a fim de deixar outra pessoa passar.

Estavam assistindo Atlanta, a série da FX, e essa era a primeira coisa que tinham em comum. Julie tinha grandes considerações a respeito do movimento negro e seus desdobramentos, e tinha forte interesse sobre sua origem – ostentava as trancinhas minúsculas na cabeça com tamanha propriedade. O assunto não rendeu muito porque, para Jaime, aquela não era a mais frequente das pautas e, do alto de suas sardas, achava-se pouco competente para discutir, além de ter pouco interesse. Julie via Atlanta pela relevância e Jaime pela comédia. Tal divergência, no entanto, não foi causa de grande estranhamento. Jaime demonstrou genuíno respeito, embora sempre muito neutro, ao dizer poucas palavras a respeito do polêmico tema e Julie não se prolongou até virar uma chata – isso o agradou.

Hegs era um nome bem interessante, pensou Julie em dado momento, enquanto Jaime contava sobre seus cachorros. Ela não era a mais simpatizante da arte de criar bichos de estimação. Por isso, ao ouvir como Brutus chegou até Jaime, Julie distanciou-se brevemente da conversa e disfarçou um bocejo – ela estava acordada desde as 6 da manhã. A verdade, pensou, é que hoje é sexta-feira e alguém precisa ajudar a comemorar que o diretor de marketing aprovara o projeto, como ela viu de relance em seu celular em cima da mesa. A notificação, que não passou despercebida por Jaime, fez com que Julie desabotoasse aquele último botão de sua camisa sob a vigilância rente de Jaime. “Vai fazer algo hoje a noite?” Ela perguntou quando decidiu abrir o segundo botão. Jaime tinha um aniversário pra ir, mas falou que estava livre porque achou charmoso o contorno da clavícula dela, agora amostra.

Jaime era péssimo em relacionamentos, mas se considerava um romântico. Dizia sempre que possível que Alissa o havia traído com seu terapeuta, coisa que nunca foi comprovada. Quando ele era pré adolescente, ia ao quartinho dos fundos da casa de seus pais, onde uma vez encontrou uma modesta coleção de revistas Playboy, e folheava rapidamente as empoeiradas páginas, só para trancar-se no banheiro em seguida dizendo que ia tomar banho. Sempre teve uma excelente memória e gostava particularmente das moças de peitos mais volumosos. Mas fazia de tudo pra ser rápido e imperceptível. Achava um pouco nojento o que estava fazendo e sentia uma espécie de constrangimento – o que não o impedia. Quando conheceu Alissa, era como uma criança pouco crescida, cheia de vergonhas e receios. Tinha 18 anos e fazia movimentos virginais na primeira vez em que se deitou com ela. Recatado, gostava quando Alissa ficava de quatro, mas quase não tocava nela, como se a fosse quebrar caso fizesse. Casaram-se aos seus 23 anos e mantinham uma rotina quase mecânica de fazer amor com cautela e, por isso, Jaime sempre acreditou que ela o traia. Quando verbalizou a acusação, a mais grave discussão emergiu de um jantar antecipado do dia dos namorados, onde o vinho da taça dela encontrou a camisa branca dele e acabou de uma vez com a relação.

Saíram, Julie e Jaime, e decidiram ir a pé para uma exposição de arte que ficava no caminho da casa dela, uns trinta minutos de caminhada. Jaime disse que Julie tinha olhos bonitos, o que desencadeou numa risada meio forçada, como quando se joga a cabeça pra trás e se pode ver virtualmente a úvula. Com isso, também o tocou novamente no braço, como uma forma de validação do caminho que estavam fazendo.

Julie não costumava sair com caras como Jaime. No geral eles não tinham bons empregos, ou cortes de cabelo. Perdeu a virgindade aos 16 anos na casa de um cara que dava festinhas e chamava adolescentes como ela pra fazer brincadeiras. Quando pensa nisso nos dias atuais, sente-se meio violada e meio poderosa, porque o sujeito era bem mais velho, mas ele acabou fazendo tudo que ela queria, por um instante. Quando tinha uns 10 anos, se esfregava numa almofada e achava que ia ficar grávida de almofadinhas, – disso ria sem parar no mesmo quarto em que assistia TV Globinho.

A exposição de arte estava fechada. Julie sabia disso, havia se lembrado no meio do caminho, mas preferiu não dizer nada para não estragar a caminhada e para onde ela poderia os levar. Falaram sobre seus trabalhos, Julie já havia se familiarizado com termos como amortização e depreciação. Jaime ficou sabendo da Hegs e pensava que diferença poderia haver entre os ovos normais do supermercado e os dessa empresa. Na surpresa com o horário de funcionamento da galeria, olharam-se com dúvidas sobre o que fariam a seguir, até que Julie sugeriu abrir uma garrafa de vinho em sua casa, que “ficava logo ali”. Não é como se esse convite fosse totalmente inapropriado: conversavam há pelo menos duas horas e já sabiam o básico um sobre o outro. Jaime estava há tanto tempo sem sair com ninguém que ficou contente, mas perplexo, a princípio, com a iniciativa tão precoce de Julie, que não achou aquilo nada de mais.

Entraram e ela pôs duas taças enquanto ele se sentava sobre o sofa-cama na entrada do apartamento. “Você gosta de plantas, não é?”, Jaime disse depois de mais ou menos um minuto de silêncio. Julie explicou que era de seu colega de quarto “que é gay, na verdade”, antecipando-se para evitar algum mal entendido. Quando se sentaram frente a frente perceberam que não havia, de verdade, mais assunto sobre que poderiam falar. A inesgotável conversa que durava desde as cinco da tarde haveria de acabar uma hora, por isso Julie se aproximou, sem dizer nada, e beijou Jaime na boca, apoiando-se em sua coxa, numa inclinação quase completa, em que por pouco não deixava seu lugar no sofá. Jaime não moveu nenhuma das mãos, e enquanto ela tentava enfiar a língua devagarzinho dentro de sua boca, Jaime esquivou-se ligeiramente para trás. A esquiva pareceu mero reflexo, então Julie apoiou o que faltava de seu corpo sobre ele, que dessa vez a segurou em um dos ombros, mas ao invés de a trazer para mais perto, a empurrou sutilmente para que pudesse dizer que precisava ir ao banheiro. Julie ficou sentada e deu um gole no vinho, pensando que talvez devesse pegar mais leve, embora estivesse, na verdade, com raiva. Jaime fez xixi, olhou-se no espelho e levantou a camisa, como que para certificar-se de que sua malhação estava em dia e pensou que talvez fosse legal deixar a Julie fazer o que ela quisesse, mesmo que estivesse sentindo uma mistura de pudor e repulsa, mas preferiu pensar que isso era só nervosismo, ou ansiedade. Também pensou que mulheres não deveriam ser tão atiradas assim.

Jaime voltou e Julie já tinha terminado a taça. Sentiu que tinha sido um pouco rude ao deixa-la daquele jeito e cortar o clima que estavam tentando construir, por isso sentiu necessidade de ser muito mais simpático e permissivo do que era preciso ser naquele momento. Quando sentou-se de novo, Julie tinha ligado a TV e passava o filme De Olhos Bem Fechados, que já devia estar no final. Trocaram meia duzia de palavras sobre Tom Cruise e, de novo, Julie havia iniciado um movimento que nessa segunda vez parecia muito mais feroz do que a primeira. Sentou-se sobre ele, buscando sem sucesso o cabelo para puxar. Jaime pensou que se o amigo chegasse, aquilo seria bastante desconfortável para todos e que Julie parecia não dar a mínima para essa possibilidade. Estavam na sala e as cortinas estavam abertas, ainda não estava completamente escuro, e Julie insistiu tanto que já estava abrindo o zíper de Jaime com bastante energia. Jaime preferiu pensar que era o vinho, naquele momento.

Julie o chupou por uns trinta segundos e voltou a beijá-lo, segurando levemente o seu pescoço como se o enforcasse de mentirinha, e estourou, sem querer, um botão de sua camisa. Jaime ainda recusava timidamente, e tentava transformar beijos muito molhados em desastrados selinhos, porque achava que ela o iria acompanhar. “Espera”, disse pouco depois, ofegante, somente para ser contestado prontamente em uma inesperada exclamação “por que é, então, que você está aqui?”

– Sua puta! – disse empurrando-a de volta para onde ela estava sentada no início. Saiu. Deixou a porta aberta, em pleno junho.

 

Parte II

Tinha chegado há 3 dias e as malas ainda estavam na entrada do quarto, chamava isso de “meu novo armário”. Minha colega de quarto – a chamava assim, agora, ao invés de amiga – fazia yoga na sala todos os dias e isso me fazia querer ficar ainda mais dentro do meu quarto. Minha mãe me emprestou dinheiro, se eu só almoçar consigo viver com isso por uns 2 meses. Não que eu tenha me dado ao trabalho de fazer as contas. Confio na minha intuição.

Confio? Eu devia ter previsto. O conheço há 15 anos, talvez alguma pista tivesse escapado nos 10 anos que vivemos sob o mesmo teto. Por outro lado, como é que eu ia imaginar que meu meio irmão ia ser o protagonista da cena mais sexy da qual participei em meses? E digo sexy com certa repulsa, admito, pois quem é que quer dizer ao mundo que beijou seu próprio irmão mesmo que tenha sido por 3 segundos e tomando Coca Cola?

Minha vida está ótima agora que brigamos. Literalmente só meu pai me aguenta. Ele me ligou ontem, preocupado, querendo saber o que foi dessa vez. Antecipei minha partida em 30 dias mas não havia sinal de dano em parte alguma da minha família, a não ser o que já havia deixado em outros carnavais. É no mínimo intrigante. Não tinha sinal de emprego, de namorado, de amigo. Fiquei de ver depois o que foi que aconteceu quando desliguei o telefone sem mais nem menos na cara do meu pai. Uma desculpa ia surgir, deixei pra depois como já era de praxe. Era véspera de ano novo e a última coisa que eu queria era explicar o paradeiro das mãos e da língua do seu enteado naquela tarde. E então, a partir daí, nem meu pai me aguenta.

O bar para o qual concordei em ir com esse cara era comprido e estreito adornado com uns 300 espelhinhos 15 por 15 na parede do nosso lado. E ele era um sujeito que me permiti conhecer de dentro do meu quarto pelo telefone. Eu não creio em amor moderno. Eu acho que não creio em amor nenhum, pra falar a verdade, e tudo que eu queria era não precisar sair de casa pra conseguir alguma atividade sexual que incluísse outra pessoa sem dar margem pra um possível incesto, mas dessa vez não deu. Paciência! Quando transbordei das escadas rolantes, então, para encontrá-lo, coisa que não aconteceu de imediato mas rápido o suficiente pra não precisarmos nos telefonar, aprovei de cara sua aparência e, na verdade, àquela altura pouco deveria me importar se nos daríamos bem ou se eu o veria em outra ocasião. Nos sentamos e logo quis saber sobre a minha tatuagem mais visível. Clássico. Ótimo. Direto ao ponto, à superfície. Quem é que quer saber detalhes da vida da mais nova desempregada com temperamento levemente agressivo? Fomos pra casa dele, transamos. Transamos como dois estranhos que éramos, não me lembro como é mesmo que se faz amor. De manhã me despedi, beijei sua bochecha, saí. Agora que penso nisso não sei se seu nome é Vítor ou Flávio.

Quando eu tinha uns 9 anos minha mãe costumava costurar no quarto depois das 10. Eu aprendi alguns pontos, fazia bordado às vezes, pra passar o tempo. Às vezes era quase 10 e ela não vinha. Eu pegava as peças atrasadas e dava andamento, mesmo com o risco de “matá-las”, como ela mesma diria. Um dia ela disse o nome da minha madrasta numa discussão com o meu pai do outro lado da casa enquanto eu caprichava no ponto cruz. Não foi até muitos anos depois que eu percebi que minha madrasta já estava destinada a entrar na minha vida muito antes de a minha mãe deixar a gente em 1998. Quando vi não existia mais eu, ela e meu pai.

Não que antes eu fosse muito sensível, mas aí me dei conta de que ser fria era uma característica minha. Também não sei se a culpa é da minha mãe, do meu pai, da minha madrasta. Não sei como foi que o amor deles começou e morreu, não sei como isso se dá no geral, de qualquer maneira. Acho que nunca amei e desamei pra saber.

Um dia ela chegou e disse que não o amava mais. Na minha cabeça foi assim que ela fez, ela decidiu que não amava mais o meu pai e quando viu já estava embarcando pra Manchester sem passagem de volta. Não sei se ela foi sozinha, se a princípio pretendia voltar. Sem todos esses detalhes resta a minha imaginação e ela me diz que nunca teve amor lá pra começar. Eles dizem que se conheceram acidentalmente, meu pai a confundiu com uma prima distante no aeroporto e desde então saíram, casaram, tiveram uma filha temperamental e com comportamento um pouco psicótico.

E então ela parou com a costura. Eu vendi aquela máquina quando fiz 18 anos, não tinha porque guarda-la já que nessa época eu ainda a odiava com certo emprenho. Talvez eu me arrependa no meu leito de morte de não ter procurado o motivo do desamor dos meus pais. O resultado eu sabia: um irmão postiço, muitas brigas e alguns momentos embaraçosos e uma outra mãe pra me ignorar.

Minha madrasta provavelmente não sabe nada sobre mim apesar de termos um relacionamento razoável e nos tratarmos por “mãe e filha”. Não posso dizer que ela não tenha feito o seu papel que era ir a reunião de pais e me dar dinheiro aos finais de semana. Mas de alguma forma a figura mais materna que eu tive na infância – e tenho até hoje -foi  meu pai. Também não sei como o amor deles começou e como é que ele sobrevive através do tempo. Como é que alguns amores sobrevivem e outros não. Com a minha idade meus pais já estavam na metade do caminho para separação. Eu, tudo que tenho é uma meia dúzia de ex namorados que não duraram o suficiente pra serem vagamente lembrados, aliás todos foram, de certa forma, descartáveis. Não dava pra saber se o “te amo” que dizíamos foi real até muitos anos depois e posso garantir que os nossos não foram. Sei porque eles foram facilmente substituídos por baseados e por masturbação.

Há um jeito de perceber que alguém nos está perdendo? Há um alarme, um sinal? Dificilmente percebemos, quando muito desconfiamos e mesmo assim é tarde demais pra nos darmos ao trabalho evitar. Como é que um amor morre, como é que ele sobrevive? Meu pai disse, quando perguntei, que o amor desmorona quando os dois lados não seguram mais com a mesma força. Quando minha mãe descobriu seu caso secreto com a minha madrasta, meu pai já não estava segurando do mesmo jeito que ela há tempos e na verdade os dois já haviam deixado o amor rolar ladeira abaixo, de qualquer maneira. Segundo ele era difícil demais lembrar do porque estavam juntos e, embora eu fosse um belo motivo para que eles tentassem, uma nova oportunidade bateu na porta dele e ele deixou entrar. Eu não tive culpa, eu nem sabia ou sequer me importava na época. Essas dúvidas todas, essa curiosidade, surgiram anos mais tarde e não por eles, mas por mim que já estava na idade madura e queria entender como é que tudo isso funcionava. Não sem antes ficar extremamente confusa com o meu relacionamento com todas as pessoas ao meu redor que, como de súbito, havia mudado radicalmente.

Porque é que minha impressão do meu irmão mais velho havia se transformado nessa coisa pegajosa que não tem e pé nem cabeça e me faz querer voltar no tempo, onde o amor começa, termina, sobrevive – se der – pra ver se isso tudo faz algum sentido. Não tivesse morrido o amor entre meus pais não teríamos sido apresentados, não estaríamos bebendo Coca Cola em pijamas e ele jamais teria cheirado o meu cabelo em ocasião nenhuma.

Na manhã seguinte o cara da semana passada me ligou e eu concordei em vê-lo de novo desde que pudéssemos nos encontrar direto na casa de um dos dois porque eu estava sem dinheiro. Nós sabíamos que iria acabar dessa maneira, não tem porque romantizar um encontro que só valoriza o sexo sem compromisso. Ou seria assim o início do amor entre a gente? Eu sinceramente não sei mais o que pensar agora que revisitei a ascensão e a queda do amor dos meus progenitores tendo chegado a lugar nenhum, mais uma vez. Quantas vezes o amor nasce e morre, quantos amores existem? São todos eles apenas uma face de um amor maior? Nos encontramos na casa dele, não queria dar meu endereço ainda, não tinha certeza. Quase não trocamos palavras principalmente porque eu desconversei de toda investida que ele ousou dar. Que coragem!

Me gritou, fora de contexto: você nunca vai começar um amor com ninguém desse jeito! Tudo bem, não foi totalmente fora de contexto. Conversávamos sobre meus pais, sobre os pais dele, finalmente conversávamos, já no terceiro encontro. Tudo que eu quis dizer foi que ele não precisava inventar firulas porque eu não tinha esperanças de que nada ia de fato acontecer entre nós, em resposta à pergunta “você quer ir comigo ao teatro?”. E então fui de metrô pra casa deletando, ao mesmo tempo, o seu número do meu celular. Ninguém tem que me dizer como viver minha vida não é mesmo? Fazia tempo que eu não chorava. Chorei baixinho, sentada na privada e minha colega de quarto nem percebeu enquanto fazia yoga, nua, na sala.

Parte I

Nesse natal, acho que nada vai acontecer de interessante, então não vou fazer suspense. Estou no interior, na casa dos meus pais, faz calor como em Recife e mesmo já estando aqui, não sei se estou preparada mentalmente para conviver de novo com a minha família. Passei em frente ao espelho que fica na sala de jantar e percebi que com aquela camiseta larga, sem maquiagem, e com o cabelo oleoso até a cintura, eu pareço mesmo com um roqueiro decadente, como ressaltou o meu irmão mais velho. Depois voltei a sentar no sofá velho na sala de estar. Todos aqueles móveis, os quadros da minha mãe, os enfeites de elefante já fizeram parte de um passado não tão distante assim, emoldurado na minha cabeça como se nunca tivesse existido de verdade. Voltar pra casa depois de quatro anos é ser um peixe e mergulhar pra fora d’água. Porque nada parece diferente e, ainda assim, tudo parece estranho.

Eu não sabia onde estavam as colheres, porque mudaram tudo de lugar. Mesmo assim, quanta coisa não mudou. Minha avó continua na casa dela. Meus primos estão casados, agora têm filhos de alguns meses. Mas o papo continua o mesmo: Como está a vida longe de casa? Já se adaptou? Fico pensando no que isso significa, e por que a obsessão com adaptação.  Sim, claro, já devo ser praticamente paulistana, tia! Mas na verdade eu não sei o que se adaptar significa. Se eu estou confortável lá? Se já sei onde fica o caixa eletrônico mais próximo? Quatro anos é bastante tempo, tia, mas não tem gente que passa a vida toda sem se adaptar a nada? E além do mais, quatro anos não é muito tempo coisa nenhuma! O que se pode aprender em quatro anos, de verdade? Se você for parar pra pensar, nada demais. Eu continuo empacando na esquerda, mandando mensagem de texto em frente ao Rinconcito. Depois de todo papo de adaptação, fiquei pensando no que realmente aconteceu nesses anos enquanto assistia desenho animado na mesma sala em que eu fazia isso aos 5 anos de idade. Não dava pra saber direito o que eu tinha feito de significativo pra minha própria vida. Concluí que não havia me adaptado, então, e entrei numa crise curta. De qualquer forma, era véspera de natal então suponho que seja assim mesmo. Tenho certeza de que vão me perguntar sobre minhas viagens de anos atrás, minha tatuagem nova, se eu resolver usar um modelito que mostre meus ombros. Acho melhor eu decorar meu texto, botar minha cara de blasé pra trabalhar.

E foi lá mesmo, no espelho da cozinha, que comecei a montagem. Aquele cabelo imenso tinha a serventia de cobrir minha cara de pouco interesse. A questão é: saí de casa, aluguei um apartamento há quatro anos, e agora? Toda vez que eu visitar meus pais vai ser assim? Ou até me acontecer algo mais interessante: um filho ou, sei lá, um câncer, quem é que vai saber? Não dá pra deixar de me sentir estranha perto da minha própria família com tanto interrogatório: mas esse alargador serve pra quê? Acho que desde adolescente me incomoda a curiosidade alheia sobre mim e ao mesmo tempo me agrada inconscientemente. Talvez eu alargue as orelhas pra ser questionada e depois finjo que acho isso um saco. A mesma coisa com o sapato amarelo de plástico que a minha prima tirou sarro em 1999. Eu dava um jeito de ser sempre a esquisitona da família com algum adereço inusitado pra depois protestar sobre minha liberdade de parecer tão estúpida quanto eu quisesse.

Então nesse ano eu, parecendo um homem, me olhava no espelho da minha antiga casa e me sentia como nunca uma desconhecida. Depois passei maquiagem, falei com a minha mãe, bem apática. Minha tia me lembrou de quando eu fui pra Nicarágua – faz 4 anos. Não tia, nós terminamos, já namorei 3 caras depois disso. Não. Eu estou solteira no momento. Aliás, estar solteira em família, em pleno natal, é algo que já está enraizado no terreno da minha existência. Aos 15 anos era completamente normal e até preferível, mas agora que tenho 28 as coisas mudaram. Minha avó faz cara de quem quer um bisneto antes de morrer. Minha prima, que teve trigêmeos semana retrasada, quer me dar uns conselhos.

Tudo bem, espero que todos tenham notado que a crise dos 28 anos estava pairando sobre a minha cabeça e era evidente que dessa vez as coisas estavam piores do que nunca. Todos os anos eu tinha uma crise correspondente ao número de anos que eu estava completando. A pior crise até então tinha sido a dos 24 em que eu fiz permanente nos cabelos depois que terminei com o Juan, o nicaraguense. Na época chorei por três quartos do ano, larguei a faculdade, virei bissexual por um tempo e fui morar em São Paulo, porque eu não aguentava mais gastronomia e achava a Maria Vânia bonita. Só isso. Depois passou, fiquei em paz comigo mesma, fui fazer jornalismo, namorei o Daniel, o Frederico e o João. Vou me formar ano que vem porque tomei bomba de um terço do curso e já terminei com o Daniel (bafo horrível), o Frederico (me traiu) e o João (foi traído por mim). Eis então que é natal, eu estou mal humorada até a extremidade dos meus pelos.

A crise desse ano começa com a enorme concentração de gordura nos meus culotes. Lembro vividamente de ter 18 anos e olhar para a barriga da minha mãe, absolutamente enrugada, e pensar que ela já tinha nascido assim. Não passou pela minha cabeça que ela era tão magra quanto eu com a minha idade na época e que eu não teria a barriga plana assim a vida toda. Hoje sento e são tantas dobras! Não sei a história de nenhuma delas, elas simplesmente estão aqui agora, como se sempre estivessem bem ali, assim como na minha mãe. Pela primeira vez na vida minhas roupas não me servem e eu temo a balança como o diabo teme a cruz. Além do mais, a Fiona Apple não faz mais tanto sentido assim. Não tenho mais nenhum ídolo que não seja um youtuber que faz cover do Abba com uma gaita. Às vezes eu quero focar no meu curso, ler mais, ser mais intelectual, e às vezes quero reproduzir tutoriais de maquiagem de blogueiras de 18 anos na minha própria cara e, como se espera, fico sempre muito frustrada.

Voltar é especialmente estranho porque não é mais a minha casa. Na verdade nenhuma casa tem sido completamente minha nos últimos anos, principalmente porque eu não deixo. Compro coisas descartáveis e depois reclamo que não finco logo as raízes, não entendo. Talvez eu devesse ver menos vídeos de decoração e efetivamente decorar o meu apartamento. Até parece que nem desfiz as malas em quatro anos. Nunca dá certo de organizar tudo que eu levei de casa e tudo que compro acaba sendo inútil e quebra logo. Pra completar, parece que tudo sempre volta num looping de acontecimentos. Já comprei cortina pra sala três vezes e também a minha tia sempre me pergunta as mesmas coisas, “e o francês, parou mesmo?”. Parei tia, parei o crossfit também depois de três aulas, parei de usar alpargatas porque é ridículo, parei de sair com aquele cara que tinha tesão pela minha panturrilha. Parei, simplesmente parei! Não tem gente que para de comer, de viver? Às vezes a gente só para, tia.

Eu pareço mal humorada e desgostosa quase sempre agora também, é meu novo preto. A vida inteira eu tentei ser no mínimo agradável e então agora que eu fiz 28 anos eu decidi que não precisava mais ser assim já que isso nunca me favoreceu em nada. Façamos as contas: estou em um nível temível de autodepreciação. Tanto que costumo acordar e rir de mim mesma até abrir os olhos, às vezes choro, de leve. Também estou descrente do amor, como noventa porcento das pessoas desse planeta e pra completar meus amigos estão absolutamente ausentes. Outro dia cheguei em casa e minha amiga, que não fuma, estava fumando. O som apático do seu oi pigarrento não sai da minha cabeça. Primeiro porque ainda não esqueci que ela quebrou meu pó de arroz de cento e sessenta reais enquanto estava chapada. Segundo porque eu nem lembro mais por que é que resolvemos morar juntas. Quatro anos parece tempo suficiente para se arrepender de algumas decisões e foi depois de perceber isso que olhar pra cara dela tem sido particularmente maçante nos últimos meses. Tentamos conversar às vezes e é como se nunca tivéssemos sido apresentadas. E não é só ela. Todo o meu grupo de amigos, os quais eram carregados com muito apreço do lado esquerdo do meu peito e com quem eu costumava dividir muitas vodkas, está insuportavelmente impossível de se conviver. Decidiram que gostam de frequentar o meu lugar menos favorito na face da terra e, se eu quiser desfrutar de suas amabilíssimas companhias, tenho que me sujeitar a  respirar o mesmo ar que provavelmente o Alexandre Frota. Por isso estou ficando em casa desde outubro e, agora que o natal chegou,  resolvi passar uns tempos grudada na minha família.

Acho que depois ficou claro pra mim o arrependimento. Não da pra saber se todo mundo me irrita porque todo mundo é, de fato, muito irritante, ou se eu estou numa fase em que é muito, muito fácil me irritar. Eu realmente sinto muito de ter enfiado o algodão doce do filho do meu primo de 5 anos no lixo quando ele veio me oferecer um pouco na ceia, ontem a noite. Não pude evitar. Minha amiga tinha me mandado uma mensagem perguntando se podia usar meu vestido jeans e na última vez em que isso aconteceu, ela estragou a minha camisa de seda com o ferro de passar. Mas agora não tem volta. Já falei pra minha mãe que vou ficar até o aniversário de São Paulo, já que fui demitida, não tenho saco pra ficar no meu apartamento e pretendo pedir ajuda para pagar o  aluguel desse mês.

Eu trabalhava numa empresa que faz assessoria de imprensa pra algumas subcelebridades. Foi um estágio que consegui no terceiro ano e eu tinha sido efetivada há quatro meses. Não tinha nada de muito interessante. Eu dava suporte para o assessor do Theo Becker e às vezes ele aparecia por lá e me cumprimentava com um beijo na bochecha. Teve uma época em que eu me gabava disso para os meus amigos, mas depois que ele saiu d’A Fazenda tudo despencou e cada dia parecia mais patético que a ida dele até o meu trabalho fosse o ponto alto da minha semana. Uma vez ele caiu de uma cadeira enquanto estávamos numa reunião sobre a ida dele para Moçambique. Ele fraturou o tornozelo, e quem chamou os bombeiros do prédio fui eu. Contei para os meus amigos no happy hour daquele dia e aquela foi a última vez em que eu mencionei o Theo Becker porque foi aí que eu percebi que o meu trabalho era mesmo tacanho. Vieram à tona todas as brincadeiras sobre como uma aspirante a jornalista poderia se sujeitar a encomendar almoços para o assessor de um participante de reality shows enquanto que a Folha de São Paulo estava abrindo vagas para treinees. Eu desconversava. Não dava pra trocar um salário certo e até que bom por uma nova jornada de 20 horas semanais por quase nenhum dinheiro. Um ano depois, o programa “Dança dos Famosos” da TV Moçambique foi cancelado e minha empresa resolveu que faria cortes. Não estavam relacionadas as duas coisas, mas tudo aconteceu na mesma semana, então tive a impressão de que o subsucesso de um ator/modelo/cantor controlava as rédeas da minha vida profissional e me senti, mais uma vez, patética.

Dessa vez então minha tia poderia se concentrar na minha carreira que agonizava no segundo plano do meio jornalístico, ao invés de relembrar os meus erros do passado durante o jantar. Minha avó poderia não me lembrar que eu não encontrei um homem bom para me dar filhos e meu irmão poderia não me dizer a todo momento que eu tinha um ar um pouco andrógeno demais, assim, sem peitos. Aliás, desde que nossos pais de casaram, meu irmão pega no meu pé por motivos risíveis. Ele não é meu irmão de verdade, mas convivemos e nos odiamos remotamente desde a pré adolescência realmente como dois irmãos de sangue, então nunca me dei ao trabalho de chamá-lo de filho-da-minha-madrasta, do mesmo jeito que eu não chamo minha madrasta de madrasta e sim de mãe. É simplesmente meu irmão mais velho, aquele cara babaca que coloca a culpa em mim quando faz alguma merda, que é mais bem sucedido e que dá mais orgulho para os meus pais do que eu. Claro que agora que estamos orbitando os 30 anos de idade as brigas ficaram mais amenas, mas ele continua não perdendo a chance de me mostrar como a minha vida – todas elas, profissional, amorosa, social – é um absoluto fracasso.

O filho do meu primo, de 5 anos, ficou chorando a noite inteira e meu primo me excluiu do facebook. Eu tinha prometido pra mim mesma que nesse ano não faria mais nenhuma inimizade, mas acho que foi um acidente porque ele apareceu na minha frente numa hora péssima. Eu e minha amiga discutíamos avidamente por mensagem de texto, uma de nós chamou a outra de vaca e eu juro que também foi um acidente porque ela quis conversar numa hora péssima em que o filho do meu primo estava encostando o algodão doce no meu vestido. Há três anos, minha avó quis conversar sobre o porquê de eu ter deixado o conforto do meu lar para dividir uma kitinete com “aquela minha amiga hippie”. Também não foi uma conversa muito amistosa e minha avó passou os dois finais de ano seguintes sem me dirigir a palavra. Sempre tem um pouco de drama nessas reuniões, acho que toda família deve passar por isso. Não posso dizer, no entanto, que seja coincidência o fato de que a maioria dos dramas familiares nas festas de final de ano sejam protagonizados por mim. Andei pensando e, realmente, talvez seja mesmo bem difícil se relacionar comigo. A família da minha mãe não tem culpa, eu entrei nela de gaiato. Acho que a culpa é, na verdade, do meu pai.

Meu pai talvez seja a única pessoa com a qual eu consigo conversar por mais de cinco minutos sem criar um grande alvoroço. Isso porque normalmente não conversamos sobre nada categórico, às vezes falamos despretensiosamente sobre a lastimável situação política do país, às vezes sobre sabonetes. Todo ano é ele quem alivia a minha barra inventando qualquer desculpa que justifique o meu comportamento. Pensando bem, não pode ser culpa dele também. Talvez eu devesse parar de caçar culpados e devesse assumir meus próprios erros. Meu irmão por exemplo. Ontem entrou no meu antigo quarto, onde eu ando dormindo num colchão velho e quis bater um papo sobre as minhas depês da faculdade. Achei muito insensível da parte dele comentar sobre isso justamente nesse momento em que a melhor coisa que anda acontecendo na minha vida são as minhas depês e isso nem sequer é uma coisa boa. Por outro lado, talvez aquilo tenha sido uma tentativa de se aproximar de mim. A última vez que o vi, numa visita à casa dos meus pais que durou apenas 10 horas, a cinco meses atrás, nós brigamos porque estava chovendo. Simplesmente porque chovia e o carro do meu amigo espirrou lama por toda a varanda. Então, quando ele entrou e me perguntou se eu tinha finalmente passado em Editoração em Jornalismo Impresso, tudo que eu ouvi foi “finalmente” e agora que penso nisso nem sei se ele de fato usou essa palavra.

Pra me redimir o chamei pra ver alguns vídeos de quando éramos adolescentes. Ele se mudou pra minha casa quando eu tinha 10 anos e nós demoramos um tempo até entendermos que éramos, a partir daquele momento, irmãos. Minha mãe biológica tinha ido pra Inglaterra, aliás não a vejo há dez anos. Não importa. Havia uma nova mãe e uma nova pessoa na minha família. Nossa primeira briga foi porque eu queria ver o show do Michael Jackson na tevê e ele não queria deixar. Agora, que ele sentava no chão da sala ao meu lado, animado por termos encontrado uma filmagem do seu aniversário de 16 anos, aquelas brigas todas pareciam tão mesquinhas. Ele fez um copo de refrigerante pra mim sem eu ter pedido e colocou a fita no video cassette empoeirado. Fiquei me sentindo meio estranha, mais ainda. Mas de uma forma um pouco mais agradável.

Fiz as pazes com a minha amiga, ela disse que parou de fumar. Conversamos então sobre um colega da minha aula de economia que tinha me oferecido carona num dia de chuva. Isso foi tudo que aconteceu e eu fiquei com a impressão de que tinha algo ali. Ele foi mais atencioso do que eu estou acostumada e me pareceu uma boa ideia que ele me chamasse para sair. Tenho ficado tão sozinha nos últimos meses e também eu faço questão de estragar toda mínima chance que tenho de interagir com um homem. Meus dias, antes da demissão, se resumiam a passar noventa porcento do meu expediente vendo gifs de cachorros, já fazia um tempo que eu não usava maquiagem. É difícil para uma mulher de quase trinta ficar seis meses sem qualquer perspectiva romântica enquanto a vida de todo mundo parece deslanchar para a felicidade plena.

Estamos numa piscina e meu irmão cheira o meu cabelo. Eu lhe dou um tapa no braço, fico emburrada pelo resto do vídeo. Ainda ficamos mais umas duas horas no chão da sala bebendo refrigerante e começo a ficar surpreendida com algumas das imagens. A verdade é que aquela foi a primeira vez em que não me senti um lixo durante toda a temporada de festas de final de ano. Por um instante não lembrei de toda a bagunça que eu teria que limpar uma vez de volta a São Paulo. Passa pela minha cabeça que devo ficar, dessa vez, por tempo indeterminado, mas logo me ocorre toda a burocracia pela qual passaria o meu relacionamento com a minha amiga já que ela não conseguiria pagar o aluguel de um apartamento como aquele sozinha. E nossa amizade estava abalada pelos últimos acontecimentos. Embora agora conversássemos por mensagem de texto sobre assuntos de amigas, não era mais a mesma coisa. Há quatro anos acho que fazia sentido, mas nós mudamos muito. Eu, pelo menos, mudei. Eu mudei de cidade por uma razão, mas permaneci lá por outra e agora desconheço todas elas. Esses vídeos todos não facilitam nada. Estou no foco da câmera, sentada na beira da piscina e meu irmão me olha estranho no fundo.

Recebi uma mensagem que começava com um pedido de desculpas. Minha amiga parecia realmente arrependida de ter saído com o meu amigo da aula de economia na semana seguinte da carona. Pareço não notar ou não me importar já que meu irmão agora se senta mais perto e me disse que quando uso maquiagem até que fico mais atraente. Devo procurar um novo emprego em jornalismo, cortar os cabelos, empurrá-lo enquanto ele tenta me beijar? São tantas as perguntas. Fico atordoada e quando vejo estou comprando uma nova passagem para São Paulo. Minhas malas pesam com o resto do peru, não aguentei até 25 de janeiro, como já havia imaginado. Fui embora e não me despedi das minhas tias, meu primo ainda não quer falar comigo. Não cabia mesmo o suspense porque ainda não sei dizer se algo aconteceu.