Sutilezas

Fiz um pacto comigo mesma de não escrever sobre coisas difíceis ou textos dos quais eu saia aos prantos. É assim que costuma acontecer, porque a escrita é uma forma de descarrego e por mais merdas que sejam seus frutos, esses momentos de digitação aliviam o peso dos meus ombros. Se é que tenho peso, ou ombros.

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Tenho certa antipatia por cobradores de ônibus. Aliás por qualquer pessoa cuja presença me sugue pra uma atmosfera na qual me sinto em desvantagem, como quando fico refém do transporte coletivo e só tenho no bolso uma nota de vinte, para a qual eles nunca têm troco. A implicância, na verdade, é menos um desprezo gratuito do que uma sensação de que esses estranhos têm certo poder sobre mim. Porque eles têm, de verdade, o poder de decidir se eu vou ou não atravessar a catraca e, embora eu tenha saído sem pagar em muitas ocasiões, coisa que me colocaria em vantagem, sempre desço as escadas do ônibus me sentindo a passageira mais impotente. E então fecho a cara, pareço ser muito mais desagradável do que realmente sou. Jogo a nota de dinheiro em cima daquela gavetinha cinza onde ficam as moedas com tanta força que se cédulas fossem mais pesadas talvez eu quebrasse alguma coisa. E então me olham de canto julgando meus passos pesados e raivosos como se eu não tivesse o direito de ficar emputecida com essa pessoa maldosa que não quis calcular o troco pra mim. Se tem uma coisa que desestrutura a gente é o posicionamento de indivíduos na vertical. Essas pequenas autoridades aleatórias têm exatamente o poder de ditar se seu dia vai ser tranquilo ou turbulento, se você irá sentado ou em pé pro trabalho. E é também por isso que eu comprei uma bicicleta.

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Todo dia me impressiono com a minha capacidade de tomar decisões equivocadas. Começa quando decido parar para amarrar os sapatos na rua e, nessa fração de segundos, acabo perdendo o ônibus. Na verdade, se você for parar pra pensar, tudo começa quando eu decido pegar o elevador que tem espelho ao invés do sem espelho, que é muito mais rápido, só pra poder arrumar o cabelo antes de dar as caras na rua. Mas, por outro lado, se eu não decido sair pela porta da cozinha e sim pela porta da sala eu não esbarro no vaso de plantas que tem perto do batente da porta e não tenho que limpar toda a sujeira. Tudo parece desandar, na verdade, quando eu decido passar fio dental depois de escovar os dentes, coisa que eu só faço raramente e quando tenho tempo, e eu nunca tenho. Mas se eu não decido comer um sanduíche de queijo com orégano de manhã eu não tenho que me preocupar com aquela coisinha verde presa no meu sorriso. Na verdade eu não devo decidir comprar orégano quando tenho a oportunidade de não comprar e eu preciso decidir ir pra cama mais cedo para assim poder acordar no horário e conseguir arrumar meu cabelo no espelho da minha casa e não no do elevador.

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Jessica terá um bebê e este será o seu segundo bebê. Talvez no ano que vem eu tenha um cachorro e este será o primeiro.

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Há um moço no metro butantã, loiro de cabelos um pouco emaranhados até os ombros que sempre que passo lá está admirando seu próprio reflexo no vidro da esquerda pra quem vem da Vital Brasil. De cara, parece um mendigo que elegeu a estação como seu mais novo lar, que tem umas alucinações loucas e que é super narcisista. Se olha, se arruma, conversa consigo mesmo, às vezes como numa conversa de bar, às vezes tomado por uma raiva mística de modo que grita e bate no vidro com força. Reparei que troca de roupas sempre. Esses dias passei e estava usando uma camisa vermelha e enfiava os pés imundos num chinelo Havaianas que parecia recém comprado. No dia seguinte usava calças – limpas e passadas -, e um Crocs – não tão limpo. Nunca o vi conversando com ninguém além de si mesmo ou pedindo alguma coisa, acho também que ele não fede tanto. Apesar da roupa limpa, não parecia ter lavado o cabelo naquela semana. O cabelo fino, a pele branca e bronzeada, um e sessenta de altura, mais ou menos, e magro, mas não raquítico. Fico intrigada com esse rapaz. Ontem, entrei no ônibus indo pra USP e ele estava sentado no primeiro banco, aquele logo atras do motorista e lia um livro de bolso de páginas amareladas, talvez em alemão. Usava o mesmo Crocs sujo e parecia ainda não ter lavado o cabelo.

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A faculdade de filosofia, letras e ciências humanas da USP é uma espécie de parque do desconforto ao qual você quer ir sempre. É onde se juntam pessoas que tem um coração bom mas não sabem usa-lo e pessoas que sabem, mas são ruins. Todo dia chego adiantada uns trinta minutos e tenho vontade de morrer durante todo o tempo em que a aula não começa. Não posso evitar de ouvir as conversas alheias e de ficar irritada com a prepotência desmotivada dos alunos recém saídos do ensino médio ou com o clube de percussão que se encontra toda quinta debaixo da janela da minha aula de fonologia e fonética do português. E é somente durante a aula que entendo por que estou lá. No dia seguinte sempre fico ansiosa pra pegar o 8022 e parar na frente da FAU ou antes, assim caminho um pouco pra perder a barriga.

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Não entendo como é possível descobrir, só depois de velha, que o meu corpo não é exatamente simétrico. Existem dobras infinitas na minha barriga agora e demoro mais pra me recuperar de hematomas. Sei que estou na chamada flor da idade e que pareço uma babaca reclamando de mudanças corporais acarretadas pelo envelhecimento, mas isso é menos uma reclamação do que uma reconhecimento. Sinto que finalmente entendo as dimensões do meu quadril e entendo que não há problema algum em pedir o número 42 e não comprar mais na Forever 21. Os sutiãs não necessariamente precisam de bojo e, na verdade, nem sei mais se é tão vital de fato usar um sutiã. O ruim é perceber isso quando seu guarda roupas já está, de alguma forma, estabelecido. Não é do dia pra noite que se aumenta um tamanho em todas as suas peças. Demanda investimento financeiro e aceitação. Não tenho tido muito a primeira e estou realmente querendo trabalhar a segunda. E é também por isso que eu comprei uma bicicleta.

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Não posso evitar de identificar a grande metamorfose ideológica pela qual passei desde que me mudei pra São Paulo, em 2014. Me lembro muito bem de parar no farol na minha velha cidade, com o meu golzinho quadrado 91, e entregar um cobertor, que nem meu era, a um mendigo que me pedia moedas através do vidro. Era inverno, meados de maio. Na verdade acho que era outono mas ventava frio, acho que eram umas cinco horas da tarde. Eu usava aquele cobertor velho pra aquecer quem quer que estivesse desacordado na volta de alguma festa em Campinas ou pra cobrir os vidros quando resolvia transar no carro. Simplesmente peguei o cobertor do banco de traz e o entreguei ao pedinte que logo deu um belo sorriso banguela enquanto se enrolava naquela manta azul. Hoje passo pelas infinitas esquinas onde essas pessoas se achegam e só consigo sentir a satisfação de me lembrar sempre de tampar o nariz. E é só isso. E em muitas das vezes não são só esquinas, mas ruas inteiras cheias de lixo, mau cheiro e tristeza e nem isso é capaz de me comover ou me indignar. Um dia, lembro que senti um desconforto ao ver, do táxi, um homem chorando enquanto empurrava um carrinho de mercado, descalço e na chuva. Mas não era emoção, era como quando se entende o sentido de dignidade e se percebe que esse homem não tem nenhuma. Mas me surpreendo quando isso acontece porque é esporádico, digo esse desconforto. Na maioria das vezes consigo plenamente saber que uma mulher está cagando na rua, nas calças, e que não irá se limpar por um mês (ou mais) e não me importar. E pior, tendo a pensar que isso não é da minha conta. Meus colegas de sala com certeza me desprezariam, mas a apatia é aquilo que me salva nessa cidade sem piedade que só quer saber de prosperar.

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Não deu.

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Maionese ou Outra Coisa

Confeccionada a partir da emulsão de óleo e ovos e enriquecida com o sabor de vários temperos, a maionese tem origens datadas de meados do século XVIII, na Europa meridional. Excelente acompanhamento para diversas classes de comidas (do pão de batata ao frango assado), encontra seu ápice do sabor quando misturada ao molho de mostarda e sutilmente derramada em cima da batata palha.A Espanha diz deter o pioneirismo maionesístico, no entanto, há relatos de que os franceses foram os primeiros a utilizar o molho. Não podemos saber ao certo o que ocorreu na época, porque há de se falar fluentemente o francastalão (francês + castelhano + catalão) para conseguir traduzir fielmente todos os mais de 250 mil documentos acerca da Maionese encontrados entre o Toulouse e Barcelona nos últimos dois séculos. Sabe-se que Portugal foi proibido, durante a Assembleia de Condimentos de Origem Europeia em 1839, de se pronunciar sobre o assunto, mesmo com todos os deliciosos pratos que são capazes de preparar utilizando a Maionese como base, pois, segundo transcrição feita através do tradutor Google de línguas mortas, “não pode haver roubo de protagonismo”.

Ontem comemos cheeseburgers do Joakins, depois de uma ótima festa entre nossos chegados e, ao recebermos uma pequena quantidade de maionese em um potinho, iniciamos uma interessante reflexão. Felipe clama que, sim, os Portugueses devem ter o total direito de dar pitacos a respeito da invenção da maionese pois, como nação pertencente ao continente europeu, e ao mundo, e portadora de opiniões próprias e bocas, deveriam ser capazes de engordar a discussão e, de repente, poderiam até ser o pivô de uma reconciliação entre as duas partes. Num mundo perfeito, a maionese é consumida em larga escala, por países dos 6 continentes (até mesmo pelos esquimós, eu presumo) e não há disputa sobre quem é o protagonista do pioneirismo da descoberta do “puro suco do ovo”, para citar o próprio Felipe. Se temos papilas gustativas, não há nada que possa impedir o livre consumo da maionese sem a preocupação de quem a detém como principal invento e qualquer discussão que ultrapasse essa linha de pensamento faz-se irracional e deve ser tratada como uma afronta à diplomacia e aos bons costumes. Concordo, como batata smile sendo engolida por umas 100 gramas do assunto da noite, e bocejo. Felipe é sábio. Sabe reconhecer a ignorância de quem briga por pouca coisa e deslegitima uma causa nobre e digna de consideração, feito o caso da maionese, visto o quanto ela lutou para ser reconhecida, depois da invenção do catchup.

Felipe está certo. Não importa quem inventou a maionese mas sim todos os benefícios que ela pode nos trazer: Diminui a ingestão calórica das refeições, dá a sensação de maior saciedade (os lipídios têm digestão mais lenta), evita excessos nos próximos alimentos e é gostosa pra caralho.(Fonte: Revista Corpo a Corpo da Editora Escala).
Não, espera.
Tenho a impressão de que não era sobre maionese que gente tava falando.

Falemos um pouco sobre as filas

Introdução

Sei bem de todo o esforço que se aplica a discussões de hoje em dia sobre qualquer questão remotamente polêmica que venha a surgir ou que já seja estabelecida como desmancha amizades tais como política, religião, a fome na África, e o chamado feminismo no enem. Sei bem que, de fato, as questões supraditas representam uma intensa relevância na vivência humana e demandam importantes debates embasados em vocabulário esdrúxulo feito esse parágrafo que vai ser logo interrompido devido ao seu conteúdo frívolo e extremamente desdenhoso. No entanto, percebo o imenso apreço que me toma toda vez que me permito falar bobagens e usar linguagem do cotidiano pra dar meus dois centavos sobre assuntos banais e sem importância, como as filas, por exemplo.

Filas

As filas, inevitavelmente, são parte de nossas vidas e nos levam a muitos lugares diariamente ou simplesmente servem para ficarmos sabendo de alguma notícia que nos tenha fugido, que talvez não fizesse tanta diferença saber ou não mas que de alguma forma remota nos promove de alienado pedestre à posição de cidadão informado (se você for enxerido na conversa alheia feito moi). Deixando de lado toda a reflexão acerca da necessidade de se formar filas – que na maioria das vezes inexiste, sejamos honestos ao ponto de admitirmos que há conhecimentos que podem ser adquiridos através da espera em pé e em ordem, também conhecida como fila indiana. Aprende-se sobre origami, atos ilícitos envolvendo vale alimentação, valor do prêmio atual da mega sena, resultado do jogo de ontem e quem está sendo sacaneado pelo encarregado da firma. Há de se reconhecer que as dicas de culinária adquiridas nas filas de banco, em geral, são de grande utilidade no preparo do feijão, do macarrão de gravatinha e do ensopado de frango. Na minha ultima transferência bancária, por exemplo, aprendi a fazer empadão. Infelizmente, eu não passei da fase inicial da vontade de cozinhar, porque para mim ela dura aproximadamente até o final do assunto, no máximo até a minha triunfal entrada na cozinha de casa onde costumo ceder para a comida congelada, toda vez. Fico feliz de ver que é possível preparar uma refeição não agridoce ou com toque de óleo de dendê da Amazonia. Me aquece o coração saber que nem tudo é gourmet.

Gourmet

Esnobes cozinheiros ou chefs de cozinha emergentes que usam ingredientes improváveis e de difícil acesso ou simplesmente acabaram de descobrir o alho poró e insistem em chamar mandioquinha de batata baroa. Por que as pessoas não podem ser como a tia Vânia?

Tia Vânia

Tia Vânia é um sorriso ambulante, chiquérrima (cozinha de salto 15) que adivinha sempre o que eu quero comer. Quinta feira (às vezes quarta) é dia de jantar com ela – espero todo dia essa noite chegar! Semana passada, em mais um encontro lá na Vila Madalena, Tia Vânia, que não é, tecnicamente, minha tia, fez couve flor e carbonara. Sim, com bacon fritinho em cima. Tia Vânia é a mulher dos sonhos de toda menina. Aquela que as meninas querem ser no dia em que crescerem. Tia Vânia é uma daquelas pessoas que fazem a gente voltar a gostar do ser humano. É quem sabe ser espalhafatosa e sofisticada ao mesmo tempo e que contagia qualquer ranzinza com uma risada extremamente única e saborosa. Tia Vânia é apreciadora de gente feliz comendo seu pudim de leite moça e se desculpa muito tristemente por ter deixado a calda virar caramelo. É ela que nunca olha sua forma mas tudo que preenche sua silhueta no que tange o seu ser e não o seu ter. Não se prende ao vestuário.

Vestuário

Uma tristeza imensa me invade assim que me dou conta de que aquela menina está me mostrando a foto de outra menina de saia curta e se referindo a ela como “vagabunda mesmo com essa roupa”. Senti-me péssima quando notei que eu tinha o mesmo modelo de saia e que talvez alguém em outro lugar ou dimensão estivesse fazendo o mesmo comentário em relação a mim por conta dessa saia. E me pergunto, quase que instantaneamente, que tem a saia a ver com isso? Há diversos protocolos sociais envolvendo nossas vestimentas que me deixam um tanto quanto incomodada como ser humano. Eu entendo a razão funcional das roupas mas, sinceramente, não me entra na cabeça a sua função enquanto definidora de caráter.

Caráter

Vou montar o clube das pessoas que não furam filas e, principalmente, daquelas que não acham que é o fim do mundo quando alguém fura a fila delas. Isso define caráter (nem que seja só no caixa do mercado).

Já vem com créditos

De todos os caminhos entre a Av. Ipiranga e o Largo do Arouche, o que eu mais gosto é o do meio da Praça da República. Toda vez que passo em volta daquele ex-lago limpo, e em meio aos sermões de seitas ou cultos formidáveis, desacelero o passo, dou uma olhada de canto, contemplo o barulho do emaranhado de vozes pra tentar entender o que é São Paulo.

A São Paulo que eu conheço é essa: A calçada craquelada, com meia dúzia de mendigos dividindo o resto do restaurante por quilo da 24 de maio, um peruano, flautas, uma travesti de peitos redondos, três cartazes de ciganas e jogo de búzios no poste, pombas, pombas, pombas, um dread perto da Galeria do Rock, a boa qualidade do ar cinza e denso no display abaixo da propaganda de condomínio (revitalização do centro), pichação em grafite, grafite, cocô e xixi no cantinho da esquina com a banca de jornal, uma pausa para o Edifício Italia comendo bauruzinho, coxa creme, pedaços de bacon colossais na vitrine das padarias, passa uma manifestação com fome, um spray de pimenta, mas só vê latinhas, latinhas, latinhas. E ainda assim passo pelo meio da praça e imagino que tantas vidas permeiam os outros caminhos por dentro da mesma praça e que labirinto alucinado é aquele. Quando eu saio do prédio que suporta aquele monte de ar condicionado pra fora, lá da 7 de abril, e cruzo a maior faixa de pedestres que já vi (certamente a mais larga), não me imagino virando nem direita nem esquerda. Tenho que ver qualé que é a do prédião iluminado de rosa. “Chip da Tim, já vem com créditos cinco reais” (!).

Pra falar a verdade, tudo que eu queria era um dia chegar lá e comprar aquele lustra-chão-do-calçadão que deixa o paralelepípedo da Barão de Itapetininga brilhando. Ou chegar um dia e dizer “quanto é que custa esse boubou preto e amarelo, lindíssimo?” Mas aí perde a graça. Eu sou expectadora de toda essa massa de gente psicodélica que caminha desnorteada. Não vou dizer que não morro de medo. Toda vez que ouço ambulância, algazarra de cracudo, carro de polícia me gela as entranhas, me apaga qualquer coisa que seja que eu vinha pensando, e só me passa na cabeça que talvez eu não chegue do outro lado. Mas, simultaneamente, no meio da voz da minha mãe que grita entre as minhas orelhas pra eu tomar cuidado por onde ando, meus olhinhos brilham e pedem pra ver mais daquele cara comendo a marmita prateada no sol. Talvez eu veja um corpo esfaqueado, ou talvez um mendigo sujo e mal cheiroso venha me falar sobre Jorge Amado e poemas do Vinícius de Moraes.

Gosto desse caminho porque piso em ovos, mas sempre tenho o que contar pra próxima pessoa que eu ver (ou no meu futuro livro, ou só pra gravar na memória). Entre os puteiros da Rua Aurora e o moço que toca o tema de Réquiem For A Dream em um violino desafinado, na entrada do metrô, está São Paulo. E eu passeio por lá, como quem só quer atravessar a praça de uma ponta a outra, como quem só quer transitar, chegar logo na Consolação. E que, da mesma forma, é abraçada pela imundice da cidade e não quer largar mais de jeito nenhum.

Mas você, ésse pê!

Eu acho mesmo é que tô apaixonada. Não sei se é amor maduro, mas é certamente amor.

Não sei como não me apaixonei assim por Barcelona.
Troco La Rambla por Av. Paulista, fácil.

O chão dessa estação é totalmente psicodélico, ou eu tô chapada. Essa cidade é assim. É estar chapada o tempo todo. É túnel de neon a noite, é mendigo mijando na rua, é cartaz vegano no poste, é toda beleza suja.

Há 9 meses trouxe meu colchão e meus livros praquele apê, iniciante, despretensiosa. Tava na ponta do banco pra sair de lá, mas não tinha idéia se era aqui que eu queria estar. Não foi minha primeira opção, alô Campinas! Mas fui certeira, fui sortuda.

Eu já vi os extremos.
O mundão – diz minha vó nos encanados interiorismos.
Mas não há nada como aqui.

Savona, Sicília. Lisboa e Funchal. Adeus.
Manila, me esquece. Até você, linda Marselha, au revoir!
Dubrovnik. Meus olhos brilham, mas não…

Essa cidade me excita! Só de acordar de manhã e ver poluição com pássaros. Ver paradoxo diluído em monóxido de carbono. Respiro fundo, nem tanto. Mas quero mesmo ter que correr pra pegar busão lotado. O motorista sempre me sorri, belezinha.

Lá nos cafundós era diferente, te digo! Acordar era certeza de ar puro, de tédio fazendo cosplay de cidade limpa. Me poupe! Pichação de manhã é delírio, é delicia, é sentir-se vivo e rodeado de expressão em forma escrita. O que que eu vou fazer no marasmo de lá? Ficar de pulmão limpinho, conhecer meus vizinhos? Ir dormir as 10, ir pra igreja do meu batismo? Ou morro ou sou morta pela displicência. Não tenho paciência!

Mas cê quer delivery de sushi sashimi as 3 da manhã. Te dou. Cê quer exposição de Computador do Milhão no Matarazzo? Te dou, querida! Até se você quiser ser satanista, vem que tem. Tem gente costurando a vagina por aí… Vem side dish com érre moderado. Quem precisa de porta porteira portão?

Mas, ô mãe! Relaxa. Aqui não é a cabeça do Datena. Apesar de que… Prefiro que seja ao invés dessas ruas sem trânsito daí. Desculpa, mas cáos me atrai mais.

Me questiono se vou sobreviver em outro lugar. Nem mais tenho aquela cara de mochileira de quando tava com 20. Mas eu tava é perdida. Eu tava era certa de que  aonde brotei não enfincava raízes. Rompê-las foi simples e adaptação foi que nem solidão por essas bandas: fácil de curar.

Porque no final, apesar de tudo dito aqui, foi em sp que ficou ainda mais evidente: o ser humano é ao mesmo tempo (e alternadamente) maravilhoso e desprezível. E isso é fantástico.