Aviso

Att todos
Aos que não tiverem reunião na sexta-feira, podem vir casual
Itens não permitidos:

Regata

Camiseta 

Chinelo

Tênis 

Mini saia

Bermuda

Shorts

Bone 

Pochete

Roupas de academia 

Chapéu

Crocs 

Short-saia

Ombreira 

Botina

Avental 

Turbante

Quepe

Bota de montaria

Maxi colar

Aplique

Cocar

Canga

Boina

Gladiadora

Capa de chuva 

Macacão 

Sombrero

Burca

Pantufa

Samba canção 

Boá

Bolerinho

Colã

Munhequeira

Touca de banho

Joelheira

Fedora

Peruca

Bico de pato

Polaina

Calça bailarina 

Cinta liga

Viseira

Bandana

Meia arrastão 

Babador

Espartilho

Tererê

Suspensório 

Calçolas 

Sapatênis 

Jaleco

Jardineira

Coturno

Vestido balonê

Calça saruel

Babydoll 

Cartola

Chuteira

Kilt

Farda

Pé de pato

Quimono 

Frente única 

Poncho

Abs
A direção

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Soneto acromático

Parece que amarelo não existe
Nas roupas dos banqueiros e assistentes,
Distintos desfilando aqui na frente
De branco, azul-bebê e um bege triste.
Às vezes usam verde mas bem claro.
Pra ver o pigmento só com lupa.
Laranja só se for um sal de fruta.
Cinzentos seguem dentro de um Camaro.
O dia em que vestirem amarelo
Será como assistir um quarto escuro
Se encher de repentina claridade.
Mais fácil ser daltônico que um belo
E oco milionário já maduro
Vestindo um verde opaco e sem vontade.

A frigideira

É possível, eu pesquisei. É cômico, trágico, é uma tragicomédia que protagonizo. Agonizo, tem dias que agonizo, num texto conciso, aviso: cansei.
Mas não canso, repenso, romance, suspense. Tão certa da gente que até me calei.

Todos os dedos, a palma das mãos, os joelhos, todos se dão com lençóis. Mas é sonho, é desejo num beijo que na composição não molha, não se atreve, não tem nada a ver com os pelos. Pelo contrário, os põe pra dormir, os endireita, em linha reta e penteados, não importa se raspados, aparados, libertos ou intocados.

Não volto a rimar tão cedo, não alitero mais nada. A frigideira não frita e “não importa”, mas minhas partes estão mortas, atrofiadas.

E não há quem tenha culpa. É só assim que é.
Pelo menos tenho dedos, alma, televisão. E já posso acordar.

Alheio 

Curioso ver que as partes desintregram
As partes da memória, da nossa memória, das fotos na sala
Colaram sua cara de menino no corpo de um homem
cultivaram barba rala
Enquanto se arrancava de dentro tudo o que tinha de humano

E ver que não foi você quem cresceu comigo
Certamente não foi com você que eu brincava
Não tem nada a ver o seu tom de voz
as suas mãos cortadas
Com seus olhos serenos, seus olhos sem danos

Os brinquedos são os mesmos mas agora com sangue
carimbando digitais, como outra carteira de identidade
Não há mais desenhos, só cartas
promessas, não honestidade
De um remetente desconhecido

Mas é você que a mim não conhece
Fosse o caso não me diria o que disse, nunca teria escrito
não se atiraria, não voltaria nunca
repito
Me conhecesse nem sequer teria ido

E dessa vez o que?

Contava os dias da semana como uma roleta russa. Sábado saia, sabia: domingo arrependia. Domingo não saia da cama 2 por 97. Colecionava camisetas e correntinhas. No lixo, camisinhas. Jogava o saco fora enquanto era silêncio e segunda feira. Que dia a bala sai do gatilho, pensava.

Não tinha cães ou mãe ou sono. Tinha palavras chorosas, sarcásticas, risonhas e tristes. Ao mesmo tempo. Tinha muita vida, e quase vida nenhuma. Tinha livros na estante. Amargos e gentis. E músicas na playlist. Amargas. Porque gostava das problemáticas, dos problemáticos, dos problemas em geral. Nunca se deixou passar do bom dia.

E cortava as unhas da mão, pintava as do pé de azul marinho. Passava blush cor de pêssego e muito rímel. Não sabia pra onde ia, se voltava, se precisava voltar (não precisava, quem se importa!). Não tinha porta copos, nem hora pra dormir. Pode-se dizer que tinha amigos coloridos, azuis, verdes, amarelos. Mas vivia sépia depois de gozar. Fumava cigarros, fumava canetinhas, fumava um baseado na praça da República e ia pra cama com o primo de terceiro grau da ex amiga do colegial.

Não queria ser mais que uma sexta a noite pra ninguém. Vivia de olás e tudo bens e saudades, bom te ver. E sorria os dentes sem escovar com aroma de vodka. Abraçava o barman, dava em cima do barman, ia pra cama com o barman. No fundo queria se jogar de costas em braços aconchegantes e colocar mais água no café.

Às vezes tenta sair. Às vezes consegue. Depois recai.

Porque será que recai?

Se desfaz em cacos. Sábado a noite saia, sabia: que é que emenda dessa vez? Cola, prego, amor? Liga o rádio, se enrola na camisola de algodão. E tira a maquiagem, pega a correntinha do chão. E dessa vez? Cola, amor?

Dessa vez mais amor, por favor! Passava pela parede de um cemitério desejando praticar o que lia. Mais, por favor? Justo lá que nem amor quase tinha. Tinha só cores e um monte de purpurina, jaquetas e anestésicos. Nem amor quase tinha.

E não sabe o que fazer quando não pensa mais no dia da semana. Não sabe onde enfiar o vale drink da festa na Augusta. Porque nunca se permite porque tem medo de ficar estável porque quer continuar a ser a voz dos mal amados porque se sente confortável no incômodo.

Pois dessa vez o que? Cola?

Não. Dessa vez amor, por favor!

Travesseiro 

não me atrai nada que não revela os seus dentes,
monte de quadradinhos menos que beges
desbotados
numa arcada estreita como se seu formato revelasse a timidez
mas quando saltam da meia lua do seu rosto, espremem um pouco seus dois olhos
querendo me fixar na cabeça
ou só sorrir um pouco
e não tentar ser nada que não pode ser
ou tentar (deve tentar!)

pode ser,
meus dentinhos sorridentes,
meu melhor passatempo de passar um tempo feliz
e ser feliz por um tempo
na dimensão de todos os segundos que conto sem te ver
(são os mais longos)

de nada importa o que não te emociona! seu coração saltitante,
quando estou jogada sobre você,
é meu lugar favorito.

Quando a luz faz curvas?

Mesmo com todas as curvas que essas luzes percorrem no meu corpo, no seu corpo, nesses lençóis, qual o ponto que liga a minha mente com a dele se não é só nossos poros?
Mesmo com todo o egocentrismo que emano e que me é intrínseco, pra reparar nas luzes que percorrem as minhas curvas, e o quão amarelas parecem quando minha mente está vazia.
Um metro e sessenta e três percorreu seu lábio inferior com pouca saliva, muito emprenho e um alguns sons da tv. E, imóvel, congelada, segui, aguardando que ele fosse me derreter.
Tão segura quanto um cofre, guardou todos os dois olhos fixos nas minhas feições. Os meus, trancados, enxergam e apreciam. Por que não perco a consciência? Por que é relevante que um dos meus pés encosta o chão, que uma das minhas mãos está dormente e que eu me sinto tão confortável embaixo do peso dele? E ao mesmo tempo esquivo mentalmente de me permitir voltar, e volto.
Mesmo com todas as cobertas e todo o vento mudo lá fora e todos os corações envolvidos, qual o ponto que fiz com essa agulha hoje? Sei que não o conheço, tampouco a mim.
Não quero pensar em lençóis, em vento, em nada.
Quero desligar a cabeça por dois segundos e não detalhar se a língua dele deve ir pra direita ou pra esquerda. Quero sentir-me exatamente assim: segura, calma.

Calma!
He’ll catch on.

Alface e Tapioca

– Pois eu te digo! Saí do mercado, o carro, um preto devia ser um punto preto, ou outro mas é que eu gosto do nome punto, ia saindo de uma garagem, eu te juro, ele já tinha saído todo, ele já tinha saído meio metro depois que acabava a garagem e é só por isso que eu fui passar atrás dele. Eu jamais iria passar atrás de um carro que não tivesse saído totalmente da garagem porque é simples questão de física que dois corpos não ocupam o mesmo espaço e ninguém ainda inventou o poder de atravessar as coisas, portanto eu posso te dizer com toda a certeza que aquele punto, ou seja lá que porra de marca era aquele carro, se é que se diz marca, também, não sei, só sei que punto é fabricado pela Fiat e a marca é Fiat e não punto, que seja, o punto já tinha saído e eu estava cheia de sacolas com alface e tapioca que eu ia comer mais tarde, mas não alface com tapioca, eu ia comer uma salada de alface e depois ia fazer tapioca de Nutella, e eu sabia que eu devia ter comprado Nutella, mas acabou que eu não comprei, e depois que o punto saiu, assim como você saiu da minha vida aquele dia, meio metro mais ou menos, eu achei que você já tinha passado, assim como tinha passado o punto e por isso fui passar por trás com meu alface e tapioca e sem a Nutella e o que houve foi que o carro me atropelou, porque deu ré, como você fica dado ré e não olha o retrovisor e me acerta em cheio toda vez. O punto não me viu, não viu a tapioca, não viu os milhões de pedacinhos de tapioca que se espalharam pelo chão, e nem você viu todos os milhões de pedacinhos do meu coração que ficaram no mesmo chão e vocês dois saíram, cantando os pneus, e me deixando e a tapioca. Mas aí levantei e voltei a andar pra casa. Comi meu alface, que foi salvo, mas não muito, larguei a tapioca lá. Pouco importa, eu não tinha comprado Nutella mesmo.

Autossuficiência, por favor?

Que completude é essa que não esgota, que não sacia, me diz pra andar sozinha, que não completa da pele pra dentro, preenche com vento o meu interior? Diz que não preciso de você, que não preciso de ninguém, que devo amar a mim antes de amar outrem. Diz que devo fazer as contas de casa, lavar, passar, cozinhar, abrir o pote de palmito. Engolir medo, angústia e tudo mais que omito. É a mesma merda que o altruísmo do saquinho individual de açúcar.
E todo mundo já pode viver numa ilha.

Não amo!

Mas eu não amo ele
nem ele outro.
nem ninguém.
Não sei se amei, se sofri, se sofro, se choro ou se engulo o choro.
se sinto muito, se pouco, se existiu tampouco amor lá pra começar.
ou se em qualquer lugar
que já estive, pus o dedo, que encostei mesmo com medo
de doer (nunca doeu)
Só sei que não amo ele nem o amo, pra falar correto.Não sei se afeto (substantivo ou verbo) já me pertenceu ou se pertenci

a alguém.
Mas parabéns!
por parecer encher um espaço
que nem existia, de qualquer maneira.
e me empurrar pra qualquer beira que pareci cruzar (e não cruzei).
Mas eu não amei ele.
ou não o amei.
E nem vou futurizar qualquer feeling
porque não estou willing
a fazer isso, anyway

Uma agulha (fora do palheiro)
costuro ou furo pra ver vermelho.
Ou se fui feita de pano (por engano)
Pois não amo ele.
ou não o amo.