Bifurcação

Quando medido em palmos, não em léguas
Passada com deleite a noite em claro
O jogo da distância dava tréguas
Ao som de seu alarme e suas regras
Jurava em meus lençóis o pouco caso.

Mas agora

Quem sou eu? Quem é você?
Que caminhos diferentes nós trilhamos sem saber?

Não tenho que exigir o olhar atento
Se fosse meu direito, um benefício
De noite coroar-me com seu tempo
De dia ver-me como um monumento
O pouco quanto peço, um sacrifício

Foi-se o tempo!

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Memórias póstumas 

Amor, não me vem com natureza morta
Ressuscita primeiro sua malandragem
Mostra que poesia não é feita de pôr do sol
E que o sol se pôs porque no entardecer da gente cê já não importa.

Fecha a porta de vez, então, vê se me erra
Deita na cama que você fez, mas não comigo, que eu não carimbei trouxa na testa.
Me resta olhar você me olhando com o olho e lambendo com a testa, imaginando um portal de viagem no tempo pro tempo em que o nosso jardim florescia todo em floresta

Mas viva o desmatamento!

Contentamento descontente não é mantimento, é como aguardente
Que desce queimando, te ilude, te da um barato
Te prende, te rende, só que dessa vez eu conheço um pulo do gato

Só um corpinho as mina não quer, amor

Pontos e pintas 

Revisitando as sardas
E as formas geométricas que formam
Se eu ligar os pontos
Desenho de volta sobre suas costas
As linhas apagadas
Que, escritas a lápis,
Ainda assim marcaram,
com profundidade,
A folha de papel.
Releio então as linhas
Das pintas ruivas redondas
Lindas!
E defino em tinta
Todos os rascunhos que fiz
Sempre sabendo
que esta seria afinal
A minha melhor versão

Aviso

Att todos
Aos que não tiverem reunião na sexta-feira, podem vir casual
Itens não permitidos:

Regata
Camiseta
Chinelo
Tênis
Mini saia
Bermuda
Shorts
Boné
Pochete
Roupas de academia
Chapéu
Crocs
Short-saia
Ombreira
Botina
Avental
Turbante
Quepe
Bota de montaria
Maxi colar
Aplique
Cocar
Canga
Boina
Gladiadora
Capa de chuva
Macacão
Sombrero
Burca
Pantufa
Samba canção
Boá
Bolerinho
Colã
Munhequeira
Touca de banho
Joelheira
Fedora
Peruca
Bico de pato
Polaina
Calça bailarina
Cinta liga
Viseira
Bandana
Meia arrastão
Babador
Espartilho
Tererê
Suspensório
Calçolas
Sapatênis
Jaleco
Jardineira
Coturno
Vestido balonê
Calça saruel
Babydoll
Cartola
Chuteira
Kilt
Farda
Pé de pato
Quimono
Frente única
Poncho

Abs
A direção

Soneto acromático

Parece que amarelo não existe
Nas roupas dos banqueiros e assistentes,
Distintos desfilando aqui na frente
De branco, azul-bebê e um bege triste.
Às vezes usam verde mas bem claro.
Pra ver o pigmento só com lupa.
Laranja só se for um sal de fruta.
Cinzentos seguem dentro de um Camaro.
O dia em que vestirem amarelo
Será como assistir um quarto escuro
Se encher de repentina claridade.
Mais fácil ser daltônico que um belo
E oco milionário já maduro
Vestindo um verde opaco e sem vontade.

A frigideira

É possível, eu pesquisei. É cômico, trágico, é uma tragicomédia que protagonizo. Agonizo, tem dias que agonizo, num texto conciso, aviso: cansei.
Mas não canso, repenso, romance, suspense. Tão certa da gente que até me calei.

Todos os dedos, a palma das mãos, os joelhos, todos se dão com lençóis. Mas é sonho, é desejo num beijo que na composição não molha, não se atreve, não tem nada a ver com os pelos. Pelo contrário, os põe pra dormir, os endireita, em linha reta e penteados, não importa se raspados, aparados, libertos ou intocados.

Não volto a rimar tão cedo, não alitero mais nada. A frigideira não frita e “não importa”, mas minhas partes estão mortas, atrofiadas.

E não há quem tenha culpa. É só assim que é.
Pelo menos tenho dedos, alma, televisão. E já posso acordar.

Alheio 

Curioso ver que as partes desintregram
As partes da memória, da nossa memória, das fotos na sala
Colaram sua cara de menino no corpo de um homem
cultivaram barba rala
Enquanto se arrancava de dentro tudo o que tinha de humano

E ver que não foi você quem cresceu comigo
Certamente não foi com você que eu brincava
Não tem nada a ver o seu tom de voz
as suas mãos cortadas
Com seus olhos serenos, seus olhos sem danos

Os brinquedos são os mesmos mas agora com sangue
carimbando digitais, como outra carteira de identidade
Não há mais desenhos, só cartas
promessas, não honestidade
De um remetente desconhecido

Mas é você que a mim não conhece
Fosse o caso não me diria o que disse, nunca teria escrito
não se atiraria, não voltaria nunca
repito
Me conhecesse nem sequer teria ido

Primeiro amor

Contava os dias da semana como uma roleta russa. Sábado saia, sabia: domingo arrependia. Domingo não saia da cama 2 por 97. Colecionava camisetas e correntinhas. No lixo, camisinhas. Jogava o saco fora enquanto era silêncio e segunda feira. Que dia a bala sai do gatilho, pensava.

Não tinha cães ou mãe ou sono. Tinha palavras chorosas, sarcásticas, risonhas e tristes. Ao mesmo tempo. Tinha muita vida, e quase vida nenhuma. Tinha livros na estante. Amargos e gentis. E músicas na playlist. Amargas. Porque gostava das problemáticas, dos problemáticos, dos problemas em geral. Nunca se deixou passar do bom dia.

E cortava as unhas da mão, pintava as do pé de azul marinho. Passava blush cor de pêssego e muito rímel. Não sabia pra onde ia, se voltava, se precisava voltar (não precisava, quem se importa!). Não tinha porta copos, nem hora pra dormir. Pode-se dizer que tinha amigos coloridos, azuis, verdes, amarelos. Mas vivia sépia depois de gozar. Fumava cigarros, fumava canetinhas, fumava um baseado na praça da República e ia pra cama com o primo de terceiro grau da ex amiga do colegial.

Não queria ser mais que uma sexta a noite pra ninguém. Vivia de olás e tudo bens e saudades, bom te ver. E sorria os dentes sem escovar com aroma de vodka. Abraçava o barman, dava em cima do barman, ia pra cama com o barman. No fundo queria se jogar de costas em braços aconchegantes e colocar mais água no café.

Às vezes tenta sair. Às vezes consegue. Depois recai.

Por que será que recai?

Se desfaz em cacos. Sábado a noite saia, sabia: que é que emenda dessa vez? Cola, prego, amor? Liga o rádio, se enrola na camisola de algodão. E tira a maquiagem, pega a correntinha do chão. E dessa vez? Cola, amor?

Dessa vez mais amor, por favor! Passava pela parede de um cemitério desejando praticar o que lia. Mais, por favor? Justo lá que nem amor quase tinha. Tinha só cores e um monte de purpurina, jaquetas e anestésicos. Nem amor quase tinha.

E não sabe o que fazer quando não pensa mais no dia da semana. Não sabe onde enfiar o vale drink da festa na Augusta. Porque nunca se permite porque tem medo de ficar estável porque quer continuar a ser a voz dos mal amados porque se sente confortável no incômodo.

Pois dessa vez o que? Cola?

Não. Dessa vez amor, por favor!

Travesseiro 

não me atrai nada que não revela os seus dentes,
monte de quadradinhos menos que beges
desbotados
numa arcada estreita como se seu formato revelasse a timidez
mas quando saltam da meia lua do seu rosto, espremem um pouco seus dois olhos
querendo me fixar na cabeça
ou só sorrir um pouco
e não tentar ser nada que não pode ser
ou tentar (deve tentar!)

pode ser,
meus dentinhos sorridentes,
meu melhor passatempo de passar um tempo feliz
e ser feliz por um tempo
na dimensão de todos os segundos que conto sem te ver
(são os mais longos)

de nada importa o que não te emociona! seu coração saltitante,
quando estou jogada sobre você,
é meu lugar favorito.

Quando a luz faz curvas?

Mesmo com todas as curvas que essas luzes percorrem no meu corpo, no seu corpo, nesses lençóis, qual o ponto que liga a minha mente com a dele se não é só nossos poros?
Mesmo com todo o egocentrismo que emano e que me é intrínseco, pra reparar nas luzes que percorrem as minhas curvas, e o quão amarelas parecem quando minha mente está vazia.
Um metro e sessenta e três percorreu seu lábio inferior com pouca saliva, muito emprenho e um alguns sons da tv. E, imóvel, congelada, segui, aguardando que ele fosse me derreter.
Tão segura quanto um cofre, guardou todos os dois olhos fixos nas minhas feições. Os meus, trancados, enxergam e apreciam. Por que não perco a consciência? Por que é relevante que um dos meus pés encosta o chão, que uma das minhas mãos está dormente e que eu me sinto tão confortável embaixo do peso dele? E ao mesmo tempo esquivo mentalmente de me permitir voltar, e volto.
Mesmo com todas as cobertas e todo o vento mudo lá fora e todos os corações envolvidos, qual o ponto que fiz com essa agulha hoje? Sei que não o conheço, tampouco a mim.
Não quero pensar em lençóis, em vento, em nada.
Quero desligar a cabeça por dois segundos e não detalhar se a língua dele deve ir pra direita ou pra esquerda. Quero sentir-me exatamente assim: segura, calma.

Calma!
He’ll catch on.