Alface e Tapioca

– Pois eu te digo! Saí do mercado, o carro, um preto devia ser um punto preto, ou outro mas é que eu gosto do nome punto, ia saindo de uma garagem, eu te juro, ele já tinha saído todo, ele já tinha saído meio metro depois que acabava a garagem e é só por isso que eu fui passar atrás dele. Eu jamais iria passar atrás de um carro que não tivesse saído totalmente da garagem porque é simples questão de física que dois corpos não ocupam o mesmo espaço e ninguém ainda inventou o poder de atravessar as coisas, portanto eu posso te dizer com toda a certeza que aquele punto, ou seja lá que porra de marca era aquele carro, se é que se diz marca, também, não sei, só sei que punto é fabricado pela Fiat e a marca é Fiat e não punto, que seja, o punto já tinha saído e eu estava cheia de sacolas com alface e tapioca que eu ia comer mais tarde, mas não alface com tapioca, eu ia comer uma salada de alface e depois ia fazer tapioca de Nutella, e eu sabia que eu devia ter comprado Nutella, mas acabou que eu não comprei, e depois que o punto saiu, assim como você saiu da minha vida aquele dia, meio metro mais ou menos, eu achei que você já tinha passado, assim como tinha passado o punto e por isso fui passar por trás com meu alface e tapioca e sem a Nutella e o que houve foi que o carro me atropelou, porque deu ré, como você fica dado ré e não olha o retrovisor e me acerta em cheio toda vez. O punto não me viu, não viu a tapioca, não viu os milhões de pedacinhos de tapioca que se espalharam pelo chão, e nem você viu todos os milhões de pedacinhos do meu coração que ficaram no mesmo chão e vocês dois saíram, cantando os pneus, e me deixando e a tapioca. Mas aí levantei e voltei a andar pra casa. Comi meu alface, que foi salvo, mas não muito, larguei a tapioca lá. Pouco importa, eu não tinha comprado Nutella mesmo.

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Autossuficiência, por favor?

Que completude é essa que não esgota, que não sacia, me diz pra andar sozinha, que não completa da pele pra dentro, preenche com vento o meu interior? Diz que não preciso de você, que não preciso de ninguém, que devo amar a mim antes de amar outrem. Diz que devo fazer as contas de casa, lavar, passar, cozinhar, abrir o pote de palmito. Engolir medo, angústia e tudo mais que omito. É a mesma merda que o altruísmo do saquinho individual de açúcar.
E todo mundo já pode viver numa ilha.

Não amo!

Mas eu não amo ele
nem ele outro.
nem ninguém.
Não sei se amei, se sofri, se sofro, se choro ou se engulo o choro.
se sinto muito, se pouco, se existiu tampouco amor lá pra começar.
ou se em qualquer lugar
que já estive, pus o dedo, que encostei mesmo com medo
de doer (nunca doeu)
Só sei que não amo ele nem o amo, pra falar correto.Não sei se afeto (substantivo ou verbo) já me pertenceu ou se pertenci

a alguém.
Mas parabéns!
por parecer encher um espaço
que nem existia, de qualquer maneira.
e me empurrar pra qualquer beira que pareci cruzar (e não cruzei).
Mas eu não amei ele.
ou não o amei.
E nem vou futurizar qualquer feeling
porque não estou willing
a fazer isso, anyway

Uma agulha (fora do palheiro)
costuro ou furo pra ver vermelho.
Ou se fui feita de pano (por engano)
Pois não amo ele.
ou não o amo.

Um Oferecimento

Quero pontuar-te, ó capítulo, antes de pincelar as novas linhas. Porque o que há de ser escrito doravante não pode e não deve vir de você e nem ser em tua função. Assim não te remonto, não te reescrevo. Não te revivo, não te repito. Não faço de ti uma muleta. Não faço de ninguém um passatempo. Não faço de mim mesma um ponto sem nó. Quero desassociar-te e prender-te num cubo de vidro, onde a física há de ser por mim, dessa vez, e enxergar-te só quando eu bem entender. Tu, capítulo, já acabou, escafedeu-se. Melhor deixar o papel em branco, a mente vazia, antes do novo numeral romano.

Voltamos após os comerciais!

Um oferecimento: Besteiras que o Tom Jobim inventa Ltda e Me Curte no Tinder, Inc.

Um Peixe Troxa

“Não há nada mais possível que isso!” Disse, enquanto devorava um imenso hot dog. Derrubava todo o molho, vermelhíssimo, no vestido jeans dos anos 80. Era 2015 recém começado e eu de jardineira jeans e keds. Não importava. Falávamos sobre os vinte e poucos e sobre quantas vezes o único papel que a gente interpreta na peça da vida é o de troxa. Eu e o Toby Imaginário.

Mas, sabe, eu derrubei todo aquele molho foi de espanto. Fiquei pasma! Quando concebi essa incrível conclusão fiquei ao mesmo tempo alegre e triste. Alegre porque despencou, finalmente, a ficha e triste porque isso demorou pra acontecer. Não importa quanto aviso tive. Quantas tias queriam pregar minhas pálpebras pra trás com fita crepe como na perturbadora cena de Tom & Jerry em algum episódio que não me lembro mais. Não importavam os filmes, os livros, as histórias que ouvia ao pé do ouvido toda hora todo dia. Por algum motivo, sempre me achei diferente, ou que o ser-troxa-de-alguém não me atigia.

Primeiro porque a vida inteira tive o pensamento de princesa da Disney de que “se você quer muito alguma coisa e seu coração é puro, coisas maravilhosas acontecem!”. Ou porque sou mimada mesmo e nunca tive que lidar com muitas perdas, a não ser perda de peso quando quis ser anoréxica, ou perda de memória quando quis ser alcoólatra. Eu sempre vivi dentro dessa bolha onde todo mundo é gentil e usa as palavras mágicas. Quando percebi o tamanho da minha ignorância, o mínimo que poderia acontecer era mesmo perder aquela charmosa jardineira para o molho de tomate. O mínimo que eu poderia fazer era sentar na calçada em frente a barraca de cachorro quente e chorar.

O mundo é cruel, dizia. O homem é mau! A humanidade está perdida, a perversidade tomou conta de nós! Era tudo que proferia. Podia ter sido culpa das cervejas que eu tinha tomado, mas também podia não ser. Álcool me deixa mais dramática, mas por outro lado, nada daquilo era hipérbole. É um absurdo ter boas intenções e no final ser uma troxa. Pelo menos era o que eu pensava.

Aí fiquei puta!
Meu amigo, fiquei emputecida! Joguei o ultimo pedaço de salsicha na calçada, caiu molho no chão. Enxuguei a correnteza saindo dos olhos (desejei estar na cantareira pra fazer a diferença na sociedade). Disse “Foda-se!”. O maior foda-se daquele quarteirão – muita gente diz foda-se. E fiz promessas pra mim: não acredito mais, não ouço mais, não me dou mais, não mais. Nada mais! E pedi pros anjinhos pra eu ser mais fria daquele momento em diante. Os anjinhos que eu inventei no meu conto de fadas. Depois disse “Fodam-se os anjinhos também!”. Hardcore!

Hardcore! Nenhum coração bateu de amor depois do molho de tomate. Até eu ver que a gente faz os outros de troxa sem querer. Ou que sentir-se troxa era uma coisa pessoal e instransferível. E que não havia nada mais possível do que isso. E quem se sente troxa, nem sempre foi feito de troxa de propósito. É simplesmente muito possível e aceitável ser troxa.

E também, afinal, quem lê o troxômetro? Quem diz, quem julga? A comissão julgadora de troxas e troxisses? Qual a linha que separa o apaixonado do troxa? Mas devo ser troxa mesmo. Ou otimista, ou honesta, ou a princesinha da disney! E devo ter a memória de um peixe. Um peixe troxa.

Porque te juro!
Derrumo molho na roupa a cada 6 meses!

* Trouxa e troxa são coisas distintas.

Mercado de Trabalho

Seguimos trancados
em banheiros
Doando trocados
quase inteiros
Pra migalhas de sonhos
Pra artistas risonhos
Que arrancam sorrisos
Mas não nos completam.

Seguimos guardados
a sete ou mais chaves
Seguindo parados
chutando nas traves
Com esperança mas medo
Contando segredos
contando nos dedos
os que são verdade.

Mas seguimos mudados
ao menos em partes
Tentando, atrasados,
olhando os encartes
Pra não ter o trabalho
de ver quanto eu valho
ou quanto me pagam
por essas palavras.

Porque não só faço poemas.

No mais nos movemos
pra mais perto e mais longe
do desfecho e do início
respectivamente.
Não importa. Seguimos
alheios, dementes.

Semana Passada

Semana passada minha cachorra morreu.

Eu tinha 11 anos quando ela foi ser minha cachorra de estimação. Ela era branca e tinha orelhas marrons. E, ah, era linda.

Ela brincava, latia, corria, mordia, tudo que qualquer cachorro faz. Não posso dizer que era especial. Não por ser. O que era especial nela é que ela era um pedacinho da minha adolescência. E perder a bonequinha me fez perder isso também.

Me fez perder o tempo, perder a noção de tempo.
Me fez voltar no tempo.

E questionar cada pedacinho do caminho que me trouxe até aqui.
E parar: Como foi mesmo que eu cheguei até aqui?

Porque mesmo eu sai de casa, porque eu fugi de la? Porque eu sempre fujo?

Uma enxurrada de questões que eu não sei responder, não sei nem pensar nelas. Só sei que ela morreu. E quem se procurou, se procurou continua perdida, só que agora sem ela, sem a adolescência.

Ou eu só precisava chorar essas lágrimas acumuladas.
Ou eu só precisava crescer.

se eu conseguisse dormir

se eu conseguisse dormir
eu poderia estudar amanha
e ser alguem na vida
na vida de alguem.

se eu conseguisse pensar
eu poderia trabalhar amanha
e ser alguem na vida
na vida de alguem.

se eu parasse de dormir
parasse de pensar
um minuto

eu poderia:
– ser feliz
– amar
– sorrir

eu poderia ser:
– menos chata

e ser alguem na vida
na vida de alguem

e ter energia para:
– ser feliz
– amar
– sorrir

se eu conseguisse dormir.
se.

eu poderia parar de pensar se conseguisse dormir.
eu poderia dormir se eu parasse de pensar.

mas é tudo hipotese.
mas é tudo sonho.
sem dormir.

é insônia, é solidão, é carência, é dúvida, é rotina, é vazio.
é mil coisas, e nenhuma.

mas se eu conseguisse, só um pouquinho.
já conseguiria começar:
– de novo
– outro dia
– outro rumo

onde pensar e dormir não são:
– problema
– relevantes
– tópicos de textos mal escritos e mal interpretados

se eu conseguisse dormir, já nem aqui estaria
mais.

A Lâmpada

Olá, lâmpada!
Nos encontramos de novo e você permanece aí calada,
no meio do teto, centralizada, fosca.
Nem sequer me dá conselhos mais.
Me deixa regressar, olhando, pensando.
Que distância tem até o teto virar parede?
E a ambulância, a pura movimentação urbana, funde-se com sua trilha sonora: o acelerado batimento de um coração que, não fosse a pele (e todo o resto),
encostaria em mim.
Sei que quer ser acesa, também quero. Quem não quer?
Mas quem lhe apertará o botão? É por isso que está assim tão muda, então?
E passa o carro, o helicóptero, e que lição aprendo de você?
Que olhar emudece, como você mesma.
Que descrever distancia, como a parede de você.
Que personificar entristece, como aquele acelerado coração.
E a respiração linguaruda já me contou tudo. Digo a ele: dorme, bem quietinho,
enquanto eu falo com a lâmpada, enquanto a ambulância passa, enquanto
eu fico muda, e seus braços pesam mais sobre mim.
No mais, amarela bolinha de vidro apagada, seja breve se for se acender. Seja dura, seja definitiva. Porque de que adianta se a luz toca só virtualmente a parede?
Queria estar de olhos fechados, tranquilos, e conversando com gente.
Você, lâmpada, muito me preocupa.

Atelier

Comprei calças novas na semana passada.

Estava precisando. As que tinha já não me serviam mais, e, não sei porque eu achava que podia continuar usando pra sempre. Algumas estavam apertadas demais, algumas rasgadas. Outras me vestiam como um saco de batatas. Algumas eu tinha que costurar as barras, ou fazer pensas nas costas, ou até mesmo usar um cinto pra segurar. Viviam cheias de alfinetes, me espetavam. Tinha uma que não combinava com nenhum dos meus sapatos, outra que me deixava marcada nas panturrilhas.

De qualquer jeito, precisava renovar aquela gaveta barulhenta.

Mas tinha essa calça preta, rasgada nas coxas, velha, gasta. Me incomodava, e mesmo assim eu não parava de usar. Quando rasgava demais, eu costurava. É um pouco difícil me desfazer dela, por algum motivo. Se você parar pra pensar, não foram nada de inesquecíveis, ou tão marcantes assim, mas quando usava, me sentia eu mesma.

Essas calças novas me servem perfeitamente. Não me apertam. Abotoam e fecham o ziper quase que sozinhas, sem esforço nenhum. Não preciso dobra-las, não estão rasgadas, são da minha cor favorita e combinam com todos os meus sapatos. Nem cinto preciso usar! Mesmo assim, não consigo correr com elas. Aquele par de calças pretas ainda eram melhores pra correr.

Talvez falte um pouco de tempo até essas calças novas se acostumarem com as minhas pernas. E eu também podia fazer logo outro uso das calças pretas, um pano de chão, um tapete, alguma coisa, rasgar ela de uma vez.

Pensando bem…

Precisava mesmo é me desfazer dessa máquina de costura.