Depois dos 25 é downhill

Numa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, uma menina encontrou-se em sua cama, metamorfoseando num adulto monstruoso. Havia contas de luz pagas por todos os lados, um anti inflamatório que eu precisava tomar, um post-it “pegar roupas na lavanderia quarta feira”. Uma dor nas pernas, porque fiz alguns exercícios há dois dias. Meu namorado encontrou um cabelo branco na minha cabeça. Da noite pro dia celulite, 3 graus em óculos de armação discreta, dificuldade pra pintar as unhas do pé. Chegou minha hora.

Me disse outro dia que depois dos 25 é downhill. Ladeira abaixo!

Semana passada, uma crise imensa envolvendo alucinações e fobias durante todo o meu expediente. Por algum motivo eu dei de pensar que tenho todas as doenças que ouço falar. Sempre penso que estou prestes a sofrer um derrame. Preciso marcar otorrino, neuro, ginecologista, gastro, psiquiatra, ortopedista… Esqueço minhas senhas, meus pertences, vivo cheia de lembretes no celular. Talvez eu tenha mesmo alguma doença. Ou talvez meu corpo esteja me avisando que eu já sou grande.

Nunca pensei que fosse ter esse conflito interno de personalidade, de amizades, de carreira, de sanidade mental. Quando eu era adolescente, no meu quarto, eu não sabia que a vida acontecia fora daquele quadrado. Não pensava em nada, pra falar a verdade, nem queria crescer, nem era tão rebelde assim. De repente é difícil de uma forma totalmente nova. Não é mais a solidão. Não é a incerteza, nem os desamores. É a própria existência, que ultimamente tem pesado uma tonelada em cima dos meus ombrinhos magros. E não digo que estou infeliz. Alias, nunca estive melhor ou mais realizada.

É só a dificuldade de permanecer estável por um grande período de tempo quando estou sozinha com meus próprios pensamentos. No final, às vezes eu entendo porque estamos aqui. Olho pra cara de anjinho que ele tem dormindo – narizinho – não consigo não abrir um sorriso largo. Lembro da minha aula de literatura e de como eu gosto de ouvir aquele senhor falar. Lembro dos cachorros que quero ter. Penso: Como quero envelhecer? Sei que não quero. Por outro lado talvez, quando eu for mais velha, eu não seja mais essa alma ansiosa que precisa de uma explicação pra tudo, que se sente um monte de matéria orgânica ocupando espaço e tem dúvidas sobre a veracidade do seu próprio ser. É com a idade que vem a sabedoria, eu suponho. E talvez eu entenda e possa, assim, parar de gastar tempo me preocupando com esse tipo de coisa.

Quero dizer que a gente se transforma, uma hora ou outra, pro bem ou pro mal.

Um dia você acorda de sonhos intranquilos e vê que virou essa coisa. Essa coisa que é outra coisa, mas não é você. É um adulto, um ser qualquer que pega ônibus e reclama do trânsito de manhã, que não sabe como chegou ali e que não deveria, mas não faz a menor ideia de como seguir, do que fazer, do que ser e do que pensar. É só uma bagunça, e com medidas maiores, uma bunda imensa e audição duvidosa.

Talvez eu esteja sendo sortuda. Há um outro adulto ao meu lado aguentando todas as crises supraditas, todas elas! Às vezes penso que me encolho e esqueço tudo que sou pra poder ser dele em paz. Pra poder deixar a sua mão magnânima pegar na minha e me guiar pra luz. Depois tenho saudades de mim: Coloco minhas músicas, vejo meus filmes, gravo uns vídeos cantando que nunca sobem pra internet. Mas, agora, na maioria do tempo eu sou essa pessoa. Metamorfoseei de uns tempos pra cá de um forma brusca demais, acabo de perceber, mas acho que é do jeito que deve ser. Bom, quanto às contas, à casa, ao trabalho, às dores do corpo, isso acho que não faço questão. Mas todo o resto, a dificuldade de ser (de ser, só isso, ser), isso acho que me agrada e me empurra pra quando eu olhar por cima do ombro querendo achar que não valho nada. Vou saber que valho sim, valho muita coisa.

Mas quer saber, nem é tão difícil assim! Papai deposita 3 dígitos quanto eu preciso, as vezes 4. Limpo a casa a cada 10 dias, jogo o lixo fora. Quando acaba a comida, vou ao mercado. Cumpro minhas tarefas, ganho um salário razoável todo dia 30. Espero a dor passar: na maioria das vezes sei que é minha cabeça pregando peças, então eu espero. O que da trabalho é o próprio viver, o quanto tempo perdemos pensando “será que estou bem?”.

Dizer essas coisas em voz alta é assustador. Me sinto uma louca varrida, uma lunática. Da mesma forma, sei que não sou a única. É normal questionar aos 25, ou ter problemas pra subir escadas. Suponho que todo mundo tenha medo de remédios ou de chuva. Suponho que todos larguem o que conhecem até então pra ser outro, pra virar essa metamorfose. E talvez alguém de 30 anos venha me dizer que eu ainda não vi nada e pra eu parar de fogo no cu. Que seja.

Tenho essas crises – e sei que todos têm. Esperneio, penso “Deus, ou Deuses, porque estou aqui?!” Mas no final do dia sei que gosto de morder a orelha daquele menino, de maquiar minha mãe, ver meu pai caindo de sono no sofá da sala e meu melhor amigo fumando no escuro sempre que chego em casa. E, por enquanto, é isso que me mantém firme essa amante da vida.  Certamente melhor do que virar um inseto.

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Até encontrar um não-babaca

Conheci muita gente nos últimos seis, sete meses e, quando a gente conhece gente nova, é meio que certo que duas coisas acontecem. Primeiro que sempre querem saber quem somos e de onde viemos. Segundo que nós mesmos queremos saber o que as pessoas pensam que somos e o que acharam quando contamos de onde viemos. É assim mesmo. A gente quer se enxergar, ser “aquela pessoa bacana que faz tal coisa”. Eu faço isso sempre que conheço alguém: de uma forma bem genérica, enfio esse alguém num saco. “Menino-meio-nerd-bacaninha-curte-anime”, “menina-patricinha-bolsa-da-gucci”, “senhora-mãe-de-3-faz-crossfit”. Hoje é arriscado falar tudo isso sem parecer um babaca alguma-coisa-fóbico, mas a gente sabe lá no fundinho da alma que é verdade. E não tem problema também porque é meio mútuo e completamente inofensivo, assim não machuca ninguém. Ultimamente eu vi que eu sou a “menina-de-óculos-com-namorado-não-babaca”. Eu conheço muito bem essa laia, eu costumava desejar a morte a essas meninas, quer elas usassem óculos ou não, e principalmente se não usassem – porque além de tudo enxerga bem, essa vaca! E, olha só a vida, hoje sou eu.

Apesar do que minha mãe falava quando eu era pré adolescente, eu sou, sim, todo mundo, e todo mundo julga os outros e é malvado e acha que todo mundo é uma garrafa fechada de qualquer refrigerante com um rótulo. Ainda por cima, todo mundo acha que todo mundo nasceu assim, vai morrer assim. Aquele lance da “primeira impressão é a que fica” e essas coisas. Devem achar que eu sempre falei bom dia com voz de bebê e sempre liguei pra avisar que cheguei em casa. Que eu sempre fui a linda bem resolvida que tem um abraço quentinho pra ficar enrolada numa sexta a noite. Eu achava isso. Eu achava que a menina que tinha encontrado um cara maneiro sempre tinha tido um cara maneiro e tinha mais é que ficar quieta e me deixar afogar no rio da solidão em paz. E ir a merda depois, é claro.

Me ocorreu que o mínimo que pode ter ocorrido a essas pessoas que conheci nos últimos seis, sete meses é que eu sempre tive um cara maneiro e que eu podia ir à merda também. Tudo bem, mea culpa, errei. Eu julguei tanta gente e algumas dessas meninas também foram meio infelizes e mal amadas, assim como eu fui, antes de poderem admitir pra sociedade que estavam em um relacionamento sério com um não-babaca. Então pra ninguém me odiar, pra ninguém vomitar quando eu estiver trocando denguinhos com o meu namorado não-babaca, eu vou mostrar agora que eu também já tomei muito no cu.

Uma vez um cara, com quem eu estava ficando há uns 3 meses, se despediu de mim e sem querer ficou com a chave da minha casa e eu tive que dormir na rua enquanto ele ia pra uma festa até as 5 da manhã, festa para a qual ele não tinha me convidado.

Eu sou 8 ou 80. Ou santa ou puta, não tem meio termo. Eu fui virgem até os 20, o que implica em dizer que minha vida amorosa sempre beirou o inexistente. Ter 20 anos e ser virgem é sinal de que nenhum cara maneiro sequer chegou perto de desbravar os inimagináveis horizontes da minha vagina. Mas não era só isso. Não tinha a ver com minha vagina. Era um sinal de que eu não levava jeito nem pra um sexo sem compromisso, quanto mais para um amorzinho, assim, de leve. Até os 20 não tinha amor, nem sexo, era a idade das trevas, era o eterno testemunho da felicidade alheia. E depois que a barrerinha foi rompida, num aniversário muito do bêbado, muitas águas rolaram e nenhum amorzinho, nenhum cara maneiro deu as caras. Aí é fácil ter raiva da menina que namora um príncipe bem nas suas fuças.

Uma vez eu saí correndo da casa de um cara no meio de um sexo muito do pervertido porque ele pediu pra cheirar cocaína na minha barriga.

Ter vivido tão sem clichês românticos por um lado foi divertido. Por outro foi desesperador. Tinha nuances de empolgação – conhecer um cara tomando sorvete, ficar de conversinha por horas; e humilhação – o gatinho lindo que eu quero conhecer está entrando no elevador e adivinha quem acabou de peidar? É difícil ser solteira com vinte e poucos, sua família não entende! Depois que um carinha meio engraçadinho resolveu transar comigo no dia do meu aniversário de vinte anos enquanto eu estava meio bêbada, tudo deslanchou só que de forma ruim. Foi um babaquinha atrás do outro. Entre eles passaram uns caras até que bacanas por quem eu fiz o favor de não me apaixonar, mas no geral, babacas! Meu primeiro namorado sério era duvidoso demais pra ser levado a sério. Primeiro que ele morava na Ásia. Pra falar onde ele morava eu tinha que citar o continente, isso é no mínimo hilário. “É tipo entre a China e a Austrália, mãe!”. Eu queria lançar um manual pra explicar pra todos que me perguntavam como foi que eu arrumei um namorado que não só era estrangeiro como era um completo babaca. Terminamos porque descobri – depois de muito insistir, no dia seguinte de uma festa, que a gente tinha transado de um jeito do qual ele sabia que eu não gostava. Eu tinha bebido ao ponto de ficar inconsciente e cu de bêbado não tem dono, né, querida (estou sendo irônica). Depois de um ano de namoro eu não achei que deveria me preocupar com isso, mas a dor no dia seguinte era bem verdadeira e isso me mostrou que era chegada a hora de descer da nuvem. Depois quis lançar um manual pra explicar porque terminamos. Teria sido mais fácil.

Uma vez estava transando com um cara num carro e quando já estava pelada, um táxi bateu na gente e uma multidão ficou aglomerada em volta do carro. Ele jogou minhas roupas na minha cara e pediu pra eu sair.

Olha, eu te desafio a terminar um namoro tão tragico e tão tragicamente e não virar uma puta alucinada que acha que o amor é uma morte lenta. Eu me mudei dois anos depois pra morar num mini kitnet com um amigo. Quando percebi estava chorando pela solidão de dia e falando que meu nome era Thaís a noite. Podia ser porque eu não queria, mas amor nenhum bateu na minha porta, nem mesmo quando eu tentava ser meiga e ia ler na Livraria Cultura domingo a tarde. Na primeira semana no emprego novo já saí com um dos mensageiros, bebemos muitas cervejas e ele acabou se despedindo de mim só na manhã seguinte. Ficamos amigos depois, tudo bem. Eu que me auto-depreciava achando que era ruim dar pra muitos caras. Não era. O ruim era ter que fingir que tava tudo bem se eu não achar ninguém, se ninguém quiser ficar comigo por mais do que 24 horas, se todos os caras por quem eu já tive uma lasquinha de interesse tivessem, de algum jeito, me sacaneado. Aí, amiga(o), a auto estima não sobe de jeito nenhum, não adianta. Ainda mais pra mim que sou uma romântica escrota que acredita em se apaixonar pra vida. Agora eu sei que dá, pela primeira vez estou mais segura disso, mas antes era tudo intangível, era coisa pros outros.

Uma vez saí com um pessoal do trabalho, fiquei superchapada e fui pra um motel com um colega que, no dia seguinte, pediu pra eu fingir que nada aconteceu.

Então agora eu me dou ao luxo de chamar meu namorado de baby lindo, de postar foto beijandinho e de mandar uma piscadela pra ele toda noite. Eu me dou ao luxo de ser uma romântica escrota, de escrever poeminhas, de multiplicar tudo por dois porque quando tudo era pra um eu reclamava, eu tinha inveja da “menina-com-namorado-não-babaca”. E agora eu fico feliz por ela e desejo muito mais que ela de sorvete na boca dele na lanchonete ali da esquina. Porque ninguém é feito de presente, todo mundo tomou muito no cu pra chegar a usar o moletom do boy. E vomitem o quanto quiserem, vou mandar beijos pro meu gatinho lindo e morder a orelha dele em público sim.
E se reclamar, vai ter “namolado”.

Ode Ao ser Normal

Quando a gente da de cara com aquele monte de azulejo branco a gente entende. Quando da de cara com os cortes na pele da menina com a mãe naquela sala. Eu e ele fomos parar numa roda comandada por uma moça de jaleco que pedia que a gente compartilhasse, dizendo, primeiro, nosso nome. Todos diziam oi logo em seguida.

Eu não tinha porque estar ali, nem ele.

Saia da sala pra fumar escondido (mãe, eu fumava às vezes, não fica brava), era sempre umas 9 horas. Não sei, sinceramente, se caia mais chuva ou lágrima. Não conseguia manter o cigarro aceso, por isso desistia. Pensava, de uma forma contínua, achando que isso me ajudaria a entender, “como chegamos aqui?” e ele continuava lá dentro, sozinho.

Voltava e um cara com marca de corda no pescoço falava, sem expressão muito gritante, sobre como derrubou o banquinho posto abaixo dos seus pés. Outra, com cabelo bagunçado igual sua feição contava os comprimidos pra doutora, chorosa, querendo dizer que não estavam adiantando, “me dá mais!”.

Quando saíamos, via que a sobrancelha dele ganhava alguma expressão, depois de tanto tempo.

– Quero ir embora, Grace. Aqui só tem louco.

Claro, chama-se reabilitação, ou terapia em grupo. Ou o que você quiser. Tinha peso psicológico e a gente precisou ir parar lá pra ele aprender.

Perguntava por que ele se sabotava tanto.
Essa pergunta servia pra qualquer um de nós. Desde que me entendo por gente vejo auto sabotagem. Mamãe, papai, irmão. Todos tomam pílulas. Todos veem médicos, tiram licença. Que mal é esse que abraça minha família?

Fumando na chuva, entendia.

Veja só quanta média, classe média! Dinheiro? Tem. Carro tem, empregada tem. Tem jardim, jardineiro. Tem os brinquedos da Estrela empilhados no quarto, por cima do Play Station. Tem sucrilhos no prato.

Ele me falava:
– Porque quero um pouco de drama Grace, esse vazio me sufoca.

Justificando a nota de dinheiro enrolada e os pais presentes. Só eu não tinha percebido. Depressão dá mais em quem não tem por que. Não tem por que chorar, não tem por que reclamar. Depressão te dá o porquê.

A vida é perfeita pra nós, irmão. Ela é, tem casa, cachorro, quintal. Que mais cê qué? Percebi que o que tava entalado nas nossas gargantas chamava-se tudo-no-seu-devido-lugar.

E ele tentou fazer isso várias vezes. Quando demorava demais dentro do quarto eu já sabia: ia rolar um pouco de hospital e choro do lado de maca. Uma tentativa constante de se sentir vivo era tentar morrer. Agora compreendo. É que a gente fez isso diferente.

Eu fugi. Eu fui dar uma volta pelo Atlântico, fui tirar umas fotos na popa do mundo. Ele foi ver a proa da tarja preta. De jeitos distintos a gente tava buscando fazer a mesma coisa. A gente tava buscando sair da classe média da mente.

Porque a gente cresceu na casa que tinha tudo na mão, mas rodeados de gente que passava necessidade e usava isso de muleta pra não andar direito nunca. E, irmão, menosprezam a gente por isso.

A vida inteira ouvi: Cê tem sorte, menina. Olha só quanta gente queria estar no seu lugar! E apanhava na rua “vaza, patricinha!”

Nada que fazíamos tem o mesmo valor, ou a mesma luta. Porque meu pai resolveu trabalhar duro antes d’eu nascer e me pagar mesada. Já levei uns tabefes por causa disso, também, na saída da escola pública que me matricularam, mesmo podendo pagar ensino de qualidade porque “não somos melhores que ninguém”, diziam, certíssimos. Mas esqueceram que é uma jaula de leões se você não for selvagem também. E por isso a gente queria mexer a nossa vida com colher de pau. Um cheirava e a outra sumia, e ainda some.

Meu irmão, te entendo agora, anos depois.

Me dizem, pra desmerecer o lugar onde me encontro.
– Mas você que nasceu com o cu virado pra lua. Vem tudo sempre de mão beijada.

E talvez venha mesmo, irmão.
Mas desde quando a vida boa que nossos pais conseguiram nos dar tira nossos méritos? Nós passamos a vida, a infância, pedindo desculpas pela vida que a gente levava. Tentando ter mais histórias de superação pra contar.

“Sobrevivi a rehab“, dizia contente e sorridente, como se fosse uma coisa pra se orgulhar. Eu sei que ele queria provar pra todo mundo que a gente também tinha problemas. Que apesar da família perfeita também éramos gente com lágrimas. Nossa paz não era indestrutível. E que bosta que qualquer um possa nos invejar, porque aqui se gasta horrores com divã exatamente por isso.

Irmão, você não faz mais isso, mas sei que foi importante você ter arrombado aquele cadeado naquela vez. Me fez ver que não tem nada de errado em ser normal. E você não precisa mais se trancar no quarto pra gente perceber isso. Alias, não faça mais isso! Me destruiu, um pouquinho. Mas me abriu os olhos e me fez perceber que tanta angústia cerca a nossa existência.

Irmão, sei que veremos muitos médicos ainda.
Só quero que deixem a gente em paz. Nenhuma vida é tão perfeita assim. E agora eu sei que a gente não precisa cortar os próprios pulsos pra entender isso.

Nossa vida não tem que ser documentário do Fantástico, com órfãos, fome, divórcio pra gente sentir que vale alguma coisa. Ninguém precisa chorar lendo a nossa biografia. Pode ser só normal. Quem define se nossas conquistas foram fáceis ou difíceis somos nós.

Parabéns, você chegou!

Parabéns, você chegou ao fundo, bonita. Sei que não procurou, conscientemente, chegar até aqui. Mas fez por onde. Saltou amores, boicotou alegrias, ignorou sorrisos, fugiu da casa de mamãe.

E sinto lhe dizer, já vi esse filme.

Te dou uns dias, talvez uns meses (poucos) até sua malinha ficar pronta. Porque eu sei que você não tem mais fluido pra escorrer dessa sua cara de pau. E que você se sente exausta de sucatear todas as suas memórias pra tentar fazer mais suco do mesmo limão. Mas, bonita, eu sei que você vai. Que você pensa que não tem mais o que te dar esse lugar. E que lá no fundo te gela o estômago pensar que talvez você se mude e nada mude.

E que talvez nunca mude. E que se esgota seu otimismo, junto com seus ânimos. Você se sente fatigada. E pensa em quanto tempo mais vai durar toda essa merda e que você não tem mais nenhum motivo mesmo pra ficar aqui.

Sei de tudo que se passa na sua cabeça. Toda a loucura, todo o medo. E toda a preguiça de começar tudo de novo, e medo de ser tudo de novo só mais uma tentativa frustrada de não ser tão vazia. Não sei quando acaba sua busca e começam seus achados, quando você vai parar de se iludir com o que vem disfarçado, ou quando você vai parar de achar que te enganam. Quando você vai construir qualquer lasca de auto estima e, ao mesmo tempo, deixar de ser essa egoísta escrota que você sempre foi, é, e sempre será.

Você, bonita, não vai mudar nunca. Então, desculpa ser tão ríspido, mas quem te rodeia jamais vai fazer a menor diferença, bonita. Porque a laranja podre no meio das laranjas boas apodrece o resto – só pra constar a laranja podre é você.

Pode arrumar suas malas, pode lamentar que não achou o que procurava (pra começar você nem sabe o que é). Pode chorar mais, se conseguir. Pode andar com essa cabeça baixa por mais quantos quilômetros você achar que deve.

Mas já te aviso.

Nunca vai melhorar, se você não melhorar. E talvez você nunca melhore.

Dizem que é chato chegar a um objetivo num instante, mas você está exausta. Exausta!

Amigo Amante Amante Amigo

Ele não é nenhum estranho pra mim. Acho que só uma parte dele passou a ser, depois da primeira vez. Já estamos na quinta e tudo que mudou foi que agora transamos e talvez, que somos um segredo.

Um segredo mal guardado. Não fazemos muita questão de mantê-lo. Afinal, não parece ser uma grande coisa pra nenhum de nós. Saímos, bebemos e acabamos na minha cama. Uma combinação que vem dando certo por um tempo surpreendente, até que eu, burra, coloquei os óculos 3D. Ou o dividi em dois: amigo e amante. Por algum motivo nunca pensamos em unir os dois.

Me irrita o tipo de pensamento que separa o amigo do amante. O mesmo pensamento que, talvez, tenha inventado a friendzone e toda essa baboseira. Também me irrita que precisemos ficar sempre calados e que eu não faça ideia do que se passa dentro da cabeça dele, e vice versa.

Todas as vezes foram exatamente iguais: Festa estranha, amigos em comum, shots de tequila, se Deus ajudasse dividiríamos um cupido ou, se Deus ajudasse mais ainda, encontraríamos alguma coisa vermelha do Canadá. Não dava pra saber exatamente se as luzes agiam, se os comprimidos faziam nossa cabeça. Não dava pra saber se teríamos a mesma ideia sóbrios num cinema, vendo algum filme de super herói. Afinal, nunca tivemos ideia nenhuma antes.

Ao mesmo tempo tudo isso não faz sentido. Se já o conhecia há pelo menos uma década, como não sabia dizer nada sobre ele, de uma hora para outra? Como ele virou esse ponto de interrogação e como ele vira meu estômago de cabeça pra baixo agora, toda vez que o vejo?

Encontrei-me pensando no túnel mágico que passamos entre o BFF e o gelo na barriga, enquanto comia, casualmente, um prato de batata palha com maionese Heinz. A cada mastigada crocante, um olhar dele me vinha na cabeça. O olhar de quando nos conhecemos, o olhar de quando viramos amigos e o olhar de quando acordamos de ressaca lado a lado. Eram coisas distintas, de alguma forma, mesmo que os olhos fossem os mesmos.

Demorei pra me dar conta de que ele não era a primeira coisa que eu pensava ao acordar antes de tudo, e que ele não tinha covinhas quando sorria (coisa mais adorável!). No sexto dia seguido que me peguei pensando nisso, não pude evitar de ter uma discussão séria comigo mesma dentro da minha cabeça: Você, por um acaso, está desenvolvendo algum tipo de sentimento não carnal pelo Fulano, hein menina?

– Defina sentimento!

Foi essa a resposta, a óbvia resposta.

Vivemos numa era em que é perfeitamente aceitável sexo sem amor, sem compromisso, sem nenhum contrato implícito. Eu mesma sou a mais adepta desse modelo moderno de amor pra vida toda que dura um dia (ou uma noite). Mas será que existe tanta diferença assim entre o lindo do Tinder e o amigo de longa data? Porque é tão mais fácil desenhar o limite quando se trata de um estranho? Essa dinâmica não faz muito sentido quando analiso da seguinte forma: O estranho one night stand pode vir a ser um relacionamento não casual se a fadinha do amor flechar nossos corações. O amigo é amigo, é um decreto que, mesmo tendo oportunidades prévias, a primeira opção foi a amizade pura e sem benefícios e porque haveria de mudar por conta de uma noite de sexo, se o sexo não implica em amor instantâneo?

Pensei em dizer isso a ele. Mesmo sem ter conseguido entender, mesmo sem ter certeza de nada. Mas me contive. Não quero estragar nossa amizade. Não quero estragar nossa amizade? Como definir se o que temos é amizade? E como definir amizade se tudo parece tão misturado e desregrado agora? Talvez ele esteja pensando o mesmo que eu.

Ou não.

Ou eu divago sozinha sobre o que é só sexo e sobre o que eu penso ao acordar. Talvez eu esteja sozinha como estou na maioria das vezes nesse rio. Eu remo só. E se eu estiver remando só? Tudo que a gente já viveu vai se perder, tudo que temos agora talvez (e provavelmente) se perca. E tudo pode ser só confusão, só carência.

Só fico intrigada: Porque nada mais tem graça se não é com ele?

Minha razão diz que não. Que é melhor não arriscar. E que talvez seja melhor continuar a virar a tequila e a tomar os comprimidos e depois acordar enrolada no mesmo edredom que ele, e pensando: talvez eu te ame, mas é arriscado, então deixa estar…

Mas tudo que eu realmente queria dizer, já disseram e nada tem a ver com isso.

Será preciso ficar só pra se viver?

Como Se Define Azar

Quando eu esqueço o guarda chuva, chove. Quando eu lembro do guarda chuva, chove e eu esqueço ele em algum canto da cidade. Se visto uma blusa, faz calor, se visto uma saia rodada, venta. Se acordo atrasada, meu compromisso começa mais cedo. Se chego adiantada, atrasa. Se esqueço a chave de casa, minha reserva some. Se lembro da chave, perco em algum canto da cidade. Essa tem sido minha vida. Olá!

Sempre fui do tipo pessimista, porque, sejamos diretos: sou zicada! Tudo que pode dar errado comigo, dá. E eu não digo isso por simplesmente ver sempre o copo meio vazio. Digo porque, eu até nasci otimista, mas a vida foi me ensinando que é melhor esperar o pior.

Primeiro porque assim você não se frustra tanto. Acordo de manhã e penso: Estou preparada para qualquer coisa que possa acontecer: Chuva, cair e esfolar a cara no chão, um chiclete grudar no meu cabelo, um mendigo me bater, perder o ônibus, quebrar a unha. Se chover vou me molhar, se cair e esfolar a cara tenho cartão da farmácia. Se grudar chiclete, tesoura. Se me baterem, sei correr. Se perder o ônibus, atrás vem outro e se quebrar a unha, band aid.

Mas cada um desses itens do meu kit SOS foi sendo adicionado conforme eu ia me fodendo na longa estrada da vida. Em 1998 apanhei de uma menina dois metros maior que eu porque… Bom, porque eu era “patricinha” ou “nerd”. Ou um menino chamado Marcos gostava de mim, ou algo dessa natureza. Acho que Marcos era namorado dela, ou qualquer coisa que você possa ser aos 8 anos de idade. Eu andava tranquilamente pelo corredor da escola, sozinha, quando senti um puxão de cabelo. Ela pegou minha trança com a mão direita, deu uma volta, puxou e me derrubou no chão, assim de bunda. Todo mundo riu! Depois disso parei de usar rabo de cavalo com trança e até hoje acho tenebroso prender o cabelo, inconscientemente.

Em 2001, aprendi a não usar melissinhas pra beijar os garotos. Meu primeiro beijo foi a coisa mais desastrosa do universo graças ao chão liso do pátio da escola e à sola do meu sapato de plástico. Só tenho um pouco de sorte por ter sido antes da disseminação dos dispositivos com câmera e do Youtube. Eu teria sido viralizada! Em 2004 parei de jogar handball depois de um desvio de septo e nunca mais pratiquei nenhum esporte, alô minha flacidez! Em 2007 aprendi a não comprar armações de óculos tão caras pra depois perder, bêbada, em alguma festa do pijama em casas vazias com quintais de terra. Nessa época também aprendi a não dormir de conchinha e criar expectativas com um ex ficante por quem eu fui obcecada durante todo o ensino médio pra depois descobrir que ele ficava com a minha melhor amiga também.

Quando cheguei aos 18 anos, eu já tinha adquirido todo tipo de escudo que você possa imaginar. Leite condensado com vodka? Nem pensar! Cortar a franja com tesoura cega? Você tá louco!? Dirigir bêbada, de chinelo, fumando, mandando mensagem de celular, em depressão às 3 da manhã numa véspera de natal? Os dois carros estacionados e a prostituta que anotou minha placa sabem que nunca mais! Mas nunca era suficiente. As coisas foram mudando de intensidade conforme eu ia ficando mais velha. Quando fiz 21, o nível de azar já era o de ficar perdida no aeroporto Charles de Gaulle em Paris e ainda assim conseguir perder todos os meus documentos, provavelmente, numa cabine telefônica, enquanto chorava alucinadamente para me alocarem no próximo vôo (que acabou sendo 6 horas depois). Pra chegar em Veneza e pegar o transfer de outra pessoa por engano, ir parar em outro hotel e aprender o que “vaffanculo” significa da pior maneira possível.

Em 2012 aprendi a não namorar com caras que moram no continente asiático, por motivos óbvios. Em 2013 aprendi a não mostrar os peitos pra uma foto na balada e a não ficar apaixonada por um cara que era, obviamente, gay. Quando 2014 chegou, eu já tinha aprendido quase tudo: Não usar trança ou praticar esportes, só comprar óculos na loja de R$ 1.99. Não reatar sentimentos pelo ex, não dirigir bêbada (apesar de que só aprendi de verdade dois carros estraçalhados mais tarde), tirar cópias e mais cópias dos meus documentos e não ficar deslumbrada com o francês alheio, além de gesticular e falar alto com os italianos (para impor respeito). Não namorar a distância, não beber muito – essa eu ainda não aprendi e considerar a sexualidade alheia antes de virar stalker.

2015 chegou e eu tenho essa bagagem enorme de infortúnios!

Aí olho pra minha conta no banco, que mais poderia ser o nome de um batom ou de um esmalte, assim como Escarlate ou Rubro. Olho pra minha carreira moribunda na hotelaria. Bom dia Senhor, Boa tarde Senhor, Check in Senhor, Check out Senhor? Olho pra minha frustrada tentativa de bolsa de estudos pra pessoas pobres, sendo pobre mas “nem tanto”.

Como eu vou olhar pra frente e dizer que eu posso conseguir alguma coisa quando o azar e o bad timing me rodeiam tanto e cada vez me isolam mais do mundo e das possibilidades?

Entrei num elevador e olhei para o espelho, com todos esses pensamentos martelando meus pés no chão como um prego na parede, entre o 23º e o 1º andar. Ninguém mais entrou. E pensei, por reflexo e sem querer: Como meu cabelo está bonito hoje! E essa jaqueta que eu achei num brechó por R$ 2 é simplesmente demais! Eu ganhei uma medalha de melhor aluna da escola em 1998. Eu aproveitei pra apender violão ao invés de beijar garotos em 2001. Eu aprendi a ler livros ao invés de praticar esportes e comecei a escrever minhas próprias histórias também na mesma época. Eu sempre tive armações de óculos diferentes e descoladas e meu ex ficante acabou sendo um dos amigos mais memoráveis da minha adolescência. Eu bati 3 carros entre 2009 e 2012 e não sofri nenhum arranhão (só um olho roxo que sarou em 5 dias). Eu fui à Paris e à Veneza no verão de 2010, por Deus, e muitas outras cidades maravilhosas em 2011. Eu namorei um Filipino, eu realmente amei aquele filho da puta. Eu curti cada festa insana que fui em 2013, eu quase converti um gay! Eu moro sozinha na cidade mais caótica do país e mesmo assim consigo voltar pra casa todos os dias, deitar a cabeça no travesseiro, às vezes só cansada, às vezes cansada e triste, às vezes cansada e imensamente feliz (a maioria).

Se isso tudo for azar, me desculpa, acho que precisam mudar o dicionário.

Lá no térreo, pisei com tanta confiança pra fora daquele elevador que nem parecia mais eu mesma. E pensei: Esse ano, aconteça o que acontecer, chova o quanto tiver que chover, eu vou azular minha conta, mudar de emprego, passar na faculdade e o que mais eu tiver que fazer. Esses meros detalhes que servem pra eu dar boas risadas em mesas de bar nunca me impediram de realizar meus sonhos, apesar de me darem essa impressão às vezes.

Talvez aquele elevador seja mágico, ou eu só precisava acordar pra vida e ver que azar é uma coisa que depende se você olha pra ele de baixo ou de cima.

Onde estará meu guarda chuva nessa SP?

Uma meia dúzia de atores ali, outros fumando um beck na esquina de mesas no canto do salão. Óculos redondos e quadrados derretendo nas linguas de algum triângulo amoroso. Lotado, mas, cacete, me sinto tão só!

Meu amigo sai pra pegar uma cerveja dando as mãos pro cara com quem ele está ficando. São fofos, se beijam a cada 3 palavras. Vai e vem de gente, dão dois passos e já os perco de vista. Olho praquele monte de guarda chuva no teto de um lugar charmoso na Praça Roosevelt. Quanto tempo não consigo manter um bendito de um guarda chuva! Vivo ensopada! Só esse ano já foram uns 37 sem contar os que quebraram por conta de má administração.

– Será que chove hoje, por falar nisso?

Deixo escapar em voz alta esse pensamento sarcástico. Como se eu não tivesse mais nada pra pensar, fosse tudo small talk aqui dentro.
E esse cara me fala por cima dos ombros.

– Espero que não.

Penso “Oh, não! Não quero companhia essa noite!”

Contradição pura! Esse coraçãozinho, murcho, não sabia direito o que dizia, se queria estar sozinho ou rodeado. Se era problemático, se se sentia uma caixinha de música: sem dar corda ele para de tocar. Diz que venho aqui beber ao invés de ver teatro só porque não quero ficar em casa pensando nele. E em quanta coisa eu não sei sobre ele e nem vou saber.

Me perco definitivamente do casal meu amigo naquela noite, e com tanto malabarismo e tanta ciranda cirandinha, acabo por engatar uma conversa com esse cara sobre o tempo. Gosto mais de frio, ele de calor. E depois sobre drinks. Eu mojito, ele gin tônica.

Comento sobre meu batom vermelho: Está borrado? Sobre minhas pupilas: Estão enormes? Falo da banda tocando, do baixista canhoto, o Paul McCartney! Mostro minha tatuagem nova. Falo que curto o Michel Gondry. Desconverso quando o vejo revirando os olhos. Eu falo demais quando estou deprimida. E eu sempre estou deprimida, esperando chover. Ah, a vida, que amargura eterna é viver! Quer um chopp?

Como pode eu não conseguir nem fazer meu pedido pro bar tender de tanta gente nessa merda e me sentir tão sozinha? Como pode eu sair com esse monte de caras e continuar mais solitária que um paulistano, um canastrão sem pano? Suspiro. Pego, finalmente, dois copos e me mando dali, já atacava a claustrofobia. Volto pra perto daquele monte de skate voando na parte de fora e entrego um dos copos na mão dele.

Pago bebida pra estranhos, ainda por cima.

– Sabe qual o meu problema? Eu causo uma ótima primeira impressão e não consigo manter o nível. Daqui a cinco minutos você vai enjoar de mim.

Ele ri como quem espera ver aonde eu quero chegar com aquele papo mesmo que eu, claramente, não fosse chegar a lugar nenhum. Amigo, sei que não esperava que eu fosse tão falante, mas com esse meu peito (e cara) quebrados, sinto muito, você terá que varrer os caquinhos espalhados nesse chão, já que veio puxar papo. (Castigo quem me importuna com palavras chorosas, meu jeito)

E conto, roteirizando, como eu detestei minha epifania de ir andar sozinha na Augusta em meados de agosto. Mas não detestei por completo. Não detestei em nada, pra falar a verdade e esse era o problema. Ah, Mr. Charlie Kaufman, escreve esse roteiro pra mim. Pra colocar cada coisa no seu devido lugar: esquecer ele, lembrar do guarda chuva. Viajo. Quer mais um chopp… Qual seu nome?

Luis é um cara interessante. Me ouve por mais tempo do que eu pensei. Eu sendo essa chata repetitiva. Sobre indecisão, carreira, blog, escovas de dente, irmão, cinema, chefe, doce de leite. Sobre meu triunfante 2014, costumo fazer reflexões profundas nas ultimas semanas de dezembro. Já faz quase um ano que moro aqui, sabia, Luis? Já sou gente grande! Me pergunta 10 coisas que eu aprendi?! Enumero banalidades, contando nos dedos, que nem criança.

1) A não parar na esquerda;
2) A não falar no celular em frente ao Mercado das Flores às 23h;
3) A não virar a direita saindo da estação do Brás;
4) A colocar pregador nas roupas;
5) A deixar uma cópia da chave com o meu porteiro;
6) A não roubar bananas no Anhangabaú depois do expediente;
7) A fechar a janela quando chove;
8) A não passar a noite em Santo André;
9) A não abusar de jelloshot com LSD no Largo do Paissandu;
10) A não falar com estranhos perto da Dona Antonia a noite. Não mais.

E me bate a sobriedade do final da madrugada. Vejo meus amigos segurando as mãos por entre outros braços entrelaçados naquele mar de gente feliz. Não posso evitar de me sentir ainda mais só. Olho em volta e tem gente afagando cabelo de gente, tem coraçãozinho saindo em cartoon de cada cabeça ali. Gente beijando esquisito. Luis, você me desculpa mas eu preciso ir embora.

– Te levo.

Ele é um estranho e a Dona Antonia é logo ali. Não deveria nem estar falando com ele pra mostrar que aprendi com as lições que a vida ensina. Além do mais, com a minha sorte, eu e ele estaremos separados em menos de 5 meses graças a minha interessantíssima loucura, ou mais provavelmente graças a qualquer outro motivo. E eu estarei pagando bebidas pra outro estranho.

– Desculpa, vou de taxi.

Meus amigos me dizem pra “fazer a Angélica” toda vez que eu sentir que devo. Nunca mais vi o Luis, apesar de tê-lo achado divertido e interessante. No final, choveu, mas eu não me molhei. Dessa vez não, e nem encontrei o bendito do guarda chuva.

Os Leões Voadores

– Como ta demorando pra andar essa fila!

Disse ao estranho do meu lado.

Não era totalmente estranho. Já o tinha visto passando umas duas ou três vezes. Sempre fazendo a mesma coisa: pingando colírio. Ele era até que bem apessoado, robusto mas não gordo. Lhe faltavam uns cabelos na cabeça, umas palavras no repertório. A fila estava há tanto tempo sem andar que ele até que me pareceu mais atraente, eu, louca pra largar mão de ser trouxa logo.
Era a fila do caixa numa festa insana na zona sul.

Passava das 3 da manhã. Não era tarde pros meus antigos padrões, mas pra minha idade mental do dia talvez. Depois de ouvir e ver tanto infortúnio, me senti a tia-avó. Preguiça de viver. Fui, então, parar num beco chamado “Os Leões Voadores”. Esse lugar escuro tinha uma escada tão inclinada que, lá de cima, parecia que as pessoas estavam caindo direto pro magma do inferno. Também era calor como se realmente houvesse magma por debaixo do chão de taco, mais antigo que o meu porteiro – 86 anos o danado e forte. Devia ter magma mesmo. Devia se chamar “O Magma Voador” o bendito do lugar. Mas era sobre leões.

O divertido não foi ter parado lá e sim como parei lá e ganhei de presente esse fantástico insight sobre a fila da balada, da vida. Estava totalmente sozinha na cidade numa quinta feira a tardezinha, fazia sol de 30 graus e já havia passado a hora de sol forte que a mãe da gente manda passar protetor, mas ainda tava claríssimo. Passeava por entre as árvores do Parque Buenos Aires, porque queria respirar ar puro. Lá em casa minha tia fumava como uma chaminé, e eu já estava paranoica que iria desenvolver câncer de pulmão por tabela, então saí, chutando com o joelho uma bolsa que tinha a alça comprida demais pra mim, e resmungando “Vai me matar assim, velha do inferno” pra talvez desenvolver câncer de pele (menos mau). Não nos damos muito bem, apesar de eu acha-la bem sábia.

Lá, tinha uma garota passeando com um pug. Um pug normal, vesgo, gordo, uma fofura. Tinha uma babá com um neném, vesgo, gordo, igualmente. Sentei no banco que ficava mais ou menos na parte média do parque, aquela que todos tem que passar pra circular por qualquer lugar de lá, porque queria ver as pessoas. Fazia tempo que não via pessoas normais, queria me certificar de que realmente estava num planeta repleto de pessoas normais, porque, por 4 meses estava presa numa relação de ETs. Te juro! Meu noivo, Cleber, que só era meu noivo há 4 meses ou só era meu noivo na minha cabeça, estava me deixando maluca com os papos de morar em João Pessoa.

Acontece que ele viu um comercial de cartão de crédito que dizia que se ele quisesse ele podia juntar dinheiro e ir morar em João Pessoa em menos de 4 meses. Era um comercial típico de banco com crianças brincando de roda, velhinhos beijando na boca, essas coisas tocantes da vida. E ele enlouqueceu. Por isso sentia que estava rodeada de não humanos. Minha tia fumava os pulmões pra fora do peito, meu pseudonoivo só falava dois nomes: João e Pessoa. Que me resta? Pugs e nenéns no parque?

Sentada mais pra esquerda que pra direita, contei as pedrinhas colocadas debaixo do banco. Chutei uma sem querer e percebi seu propósito na vida que, já esperava, era manter o banco quieto. Continuei sentada mesmo assim. Será que sou uma mínima parte que nem essa pedrinha, que tem função na sociedade, que apoia alguma coisa? Como não consegui responder essa questão mental nem mais nenhuma, chorei por um breve momento, escondendo as lágrimas com os óculos (melhor função para os meus dois olhos extras) e logo enxugando a face, meio com medo de borrar o rímel.

Olhei um garotinho na bicicleta, que segurava o guidão pela parte do centro, o que lhe tirava o equilíbrio. Pensei em dar esse toque para o coitado, mas senti que estaria sendo intrusa. Mesmo assim, passou, seguiu, cambaleando. Como eu mesma em quase tudo na vida. Segurando no lugar impróprio, perdendo o equilíbrio, mas insistindo em fazer desse modo. Eu sei que não daria ouvidos se alguém me falasse: Segura mais pras pontas da sua vida, assim você consegue andar sem cair muito. Eu teria simplesmente ignorado, porque quem está guiando sou eu, quem faz as regras sou eu.

Cleber era engraçado. Digo era porque era no passado mesmo. Quando nos conhecemos era o mais cômico dos seres humanos. Me arrancava uma porrada de risos, acho que nem se esforçava. Quando nos conhecemos ele era outro, com certeza. Não falava tanto em João Pessoa, não ria tanto da minha cara. No dia em que nos conhecemos, me disse “você não é os cinco patinhos mas vamos passear?” Até disso eu ri, porque realmente me arrancou esse riso.

Sentada no parque, senti vontade de rir.
Como há muito não fazia. Rir sem preparar o riso. Um riso ridículo, alto, descoordenado. Como quem não planeja nada, só ri. Era assim que eu ria antes, quando nos conhecemos. E riso era alimento. Eu vivia nutrida, com aparência saudável, bochechas rosadas. De riso.

O que mais me deixava satisfeita era não conhecer ninguém naquele parque. Nos últimos 4 meses, me senti rodeada demais de pessoas. Dos mais diversos tipos de pessoas. Nem sempre eram boas pessoas. Ás vezes eram más, como o nóia que me chutou no ônibus (juro que não fiz nada contra esse sujeito), ou o cliente que quase quebrou meu nariz com seu Iphone 6. No geral, até as pessoas que pareciam boas eram não tão boas no final do dia. Uma postava nas redes sociais que a culpa do Brasil estar uma merda era do nordeste. Outro era homofóbico. Outro era militante gay exagerado heterofóbico. Dos mais diversos tipos (ruins) de pessoas.

Por um lado, me senti livre da podridão do mundo no parque.
Digo podridão porque era como eu o via. Dinheiro, ganância, gente passando fome na minha frente, tomando chuva no barraco e abocanhando a latinha como se fosse um sanduíche de presunto com suco de tamarindo. E, mesmo assim, gente reclamando dos juros altos pra comprar roupa importada ao invés de reclamar que não pode sair na rua tarde da noite porque tem gente que te assalta mas não porque tem má índole (as vezes sim, mas não), e sim porque vive às margens, abocanha latinhas pra não sentir direito o frio.

Talvez o pug e o neném sejam mais humanos. Talvez o pug e o neném sejam mais sensatos.

O Cleber mesmo, outro dia chegou em casa com um carnê de loja de eletrônicos. Comprou um tablet e uns outros dispositivos inúteis. Alias, pra que serve um tablet, também? Enfim. Na mesma semana, o chamei pra comer um pastel no bar da Ana, que fica meio na esquina da minha casa e ele disse que estava sem dinheiro. Não entendi as prioridades dele naquele momento, mas calei-me e fui sozinha degustar um pastel de camarão.

Por tudo isso que eu estava insatisfeita com boa parte da minha vida. Fiquei lá, meio bamba no banco do parque tentando colocar na cabeça que eu já não queria mesmo nenhum riso falso do lado do Cleber. Eu queria ficar mais no parque do que com ele. E me deixava inquieta como uma ruiva que eu nem conhecia podia me deixar tão enraivecida já que ela estaria me fazendo um favor.

Cleber foi flagrado com um ruiva no ultimo carnaval e só me contaram meia hora antes de eu ir pro parque Buenos Aires naquele dia. Talvez por isso também eu tivesse ido parar lá. Estava lendo Schopenhauer pra ver como era e tomando um chá pra dor de barriga quando recebi uma mensagem por whatsapp com uma foto, uma ruiva e um riso. Que fazes com essa ruiva, hein Cleber? Pensei, serena, e tomei outro gole do meu chá. Chorei baixinho, respondi “o que é isso?” e recebi um é-seu-noivo-de-boas-sem-você.

Depois, levantei-me do banquinho chutando a pedra apoio, pra poder focar atenção não só no Cleber e na ruiva. Mas pensava que já não tinha porque sentir nada além de indiferença por aquela situação. Confiança eu já não tinha nele faz tempo. Sem confiança é tempo perdido ser noivos. E tinha a questão de João Pessoa, do carnê, do tablet. Essas coisas tão mínimas que iam, aos poucos, tirando os risos da minha feição, e desenhando, no lugar, um frown bem curvado pro norte ou pro sul dependendo da perspectiva. E também deixando ele mais feio, apesar de que ele era bem encaixado nos padrões de beleza da sociedade.

Minha tia, apesar de fumante e rabugenta, sempre me alertava que Cleber era estranho.
-Ah, minha filha, ele palita os dentes na mesa, boa pessoa não pode ser.

Ela devia estar certa, tudo a ver: palito de dente, ruivas. Tá tudo ali.

E dei uma volta no quarteirão do parque. Chutei outras pedras e pensei: A gente está mesmo chutando pedras e vendo até onde elas rolam. Olhei num poste que dizia: Voe com os leões hoje.

Precisava levantar voo um pouquinho e tirar a mente de tanta besteira. Fui correndo passar batom em casa, tossir um pouco com aquela fumaça típica de quinta feira a noite. Também não sei porque passava batom com tanta confiança. Queria pintar um riso falso na boca, acho que era isso. E, também, nenhum blush arrumou a palidez, a indiferença estampada no rosto. Mesmo assim saí o mais rápido que pude. Deixei o telefone tocar, acho que era o Cleber.

Depois de dançar até as 3 da manhã, resolvi pagar minha conta no caixa, lotado, um calor do inferno, o magma voador. E me perguntava o que tanto eu ia e voltava pra ideia daquele meu noivo desnaturado, mesmo com tanto desagrado.

– É moça, a fila realmente tá demorando pra andar.

Disse o robusto careca semi-estranho do meu lado.
Não podia estar mais certo. E pingou mais uma gota de colírio.

E O Que Sonhos Tem A Ver Com Deus

Porque será que a gente passa mais tempo sonhando do que fazendo? Ensaiando do que dizendo?

Hoje acordei às 6 da manhã e, tomando meu café preto fortíssimo de praxe, pensei na noite anterior, que foi (bem) mal dormida porque não conseguia desligar o botão do sonho. Mas não o sonho que a gente sonha enquanto dorme, o sonho que a gente vê pintado na frente e tenta alcançar a qualquer custo (ou não). Vi-me acordada e inquieta, pensando no que faço da vida pra alcançar os meus, além de apenas sonhar, ou escrever meia dúzia de palavras nos caderninhos e blogs da vida.

Quis saber, num impulso, a definição de sonho.

Digitei no amigo Google e apareceram inúmeras imagens de um pãozinho redondo recheado com creme. Fiquei com vontade, eu acho, mas a padaria mais próxima era longe demais pra 6 da manhã. Também não queria perder o foco.

Como sempre, discorri uma imensa linha do tempo e fui pendurando um a um os sonhos que já tive. Os que realizei – a minoria, e os que varri pra debaixo do tapete do tempo. Aqueles que foram nada além de imaginação, aqueles que se vestiram de gravidade e puxaram umas lágrimas pra baixo, de felicidade, de tristeza, de incompetência, dos mais diversos sentimentos. Dava pra ver uma desproporcionalidade no acumulado de sonhos com o passar dos anos.

Como sonhava mais quando não conhecia direito a realidade!
Ou a conformidade. Ou quando não sabia o que significava ser medíocre. Medíocre é uma palavra que tem conotação horrível, quase um xingamento. Mas me dou conta, pouco a pouco, que a mediocridade atinge a todos, hora ou outra, e nem percebemos. Não dá pra perceber, porque também é confortável, como abraço de mãe depois de um dia de chuva. Sair dali pode desenhar bons arranhões na nossa pele. Quem quer cicatrizes? Ninguém! Ou todo mundo.

Sempre fui meio medíocre. Sempre fui média. Nem muito boa nem muito ruim em vertentes de vertentes da vida. Nos esportes, na escola, na igreja, nas amizades, na família. Até jogando truco: média. Mas não sei se sentia isso, se percebia que ficava cravada nos 50 por cento toda hora. Porque ali é fácil de estar. Mas se passa despercebido sempre. Eu nem percebia também que eu não queria mais ser assim.

Acho que comecei a perceber quando eu tinha uns 17 anos. Aquela idade horrenda, aquela idade mais confusa que velhinha tentando mexer no iPad. Um dia fui pra igreja com os meus pais. O típico domingo a noite na minha infância-adolescência. Pizza, missa, casa dos avós. Dentro da igreja – que sempre me dava calafrios e eu nunca soube explicar, pela primeira vez, senti um vazio que beirava o insuportável. E nenhuma hóstia consagrada me saciou. Nenhum versículo, nenhum sermão. Comecei a questionar: O que faço aqui? Quando saí de lá, abismada ou simplesmente experimentando pontos de interrogação pairando sobre a cabeça, não pude deixar de pensar, indignada: O QUE FAÇO AQUI!? Eu não pertenço, nem nunca pertenci!

Hoje sei: fazia parte de ser medíocre. Talvez se eu não tivesse ficado lucida naquela noitinha de domingo eu nunca teria percebido, eu nunca teria feito nada que fiz, nem arriscado nada na vida. Teria sido católica, e só. E posso te dizer, com toda a competência como é difícil largar da mão da falsa fé quando se sente ela. Anos e mais anos! E ainda é difícil dizer alto: Não acredito em deus! Hoje consigo, mas nem é com muita propriedade. Arrebentar essas correntes, minha filha, é a coisa mais difícil. Continuar a fingir religiosidade é cômodo num lugar rodeado de gente assim. É ser medíocre.

Digo tudo isso agora, sete anos depois, porque sinto que a primeira barreira que quebrei para realizar sonhos foi essa. E era uma barreira bem densa, considerando o lugar que eu vivia, o berço onde nasci. E demorou tanto tempo! Às vezes divago se é por isso que também demoro tanto tempo pra fazer o que quero, ou pra, pelo menos, cogitar o que quero. Ao menos depois disso, sinto-me inquieta o tempo todo, querendo passar do meio desse cabo de guerra que é a vida. Derrubar logo o outro lado. O que mudou foi só que tomei consciência, talvez.

Contudo, ainda sinto-me fraca.
Sinto que leva tempo demais até conseguir engatinhar e ser o que eu quero ser.
Mas ser não é uma coisa espontânea? Ou não? Planejamos ser? Não sei, deveríamos, mas nem tanto.

Mas sonho, todo dia, toda hora. Não sei se ajo tanto quanto sonho. Não sei se deixarei, um dia, de ser medíocre, apesar de desejar firmemente que esse dia chegue. Tem tanta gente na rua, tanto sonho nas ideias dessa gente, e eu, mais uma.
Pelo menos quero ser mais uma que sonha, ao invés de uma católica que aceita o destino que vem sem perguntar por que, disso tenho certeza.

Confesso, fica um pouco difícil engatar a primeira e sair cantando os pneus pra realizar um desejo, uma vontade quando se tem consciência da grandeza dos nossos arredores. Às vezes olho em volta e me sinto no meio de uma produtiva fábrica de desilusões. Onde tem gente boa passando por má e vice-versa. Gente que vale, pra mim, muito mais do que eu. E me passa um sussurro “você jamais vai conseguir” pelos ouvidos, bem sacana, bem tentando pregar meus pés no chão. Penso, qual meu valor? Porque eu deveria gastar energia tentando ser? Esse mecanismo automático que comprime a mola da existência para ela não se expandir, de jeito nenhum, pra cima e alcançar outros níveis, outras alturas. Esse pessimismo! Ah, às vezes eu fico pesada, comprimida.

Quanta força se pede pra vencer isso?

Sinto-me andando pra frente, mas tão devagar que é quase imperceptível. Um slow motion assustador. Não que eu queira um fast forward, porque parte do sonho é também o caminho, sei disso. Só queria me sentir mais relevante às vezes.

Pra aliviar um pouco essa nuvem negra que, às vezes, estaciona por cima da minha cabeça, eu fico saudosista. Tento pegar as coisas que conquistei, os trocados que eu ganhei fazendo malabarismo no semáforo da vida profissional e pinto com novas cores as minhas metas. Pra não ser repetitiva, porque, com o autoconhecimento que vem embutido em cada primavera que completo, já sei que sou cheia dos altos e baixos, e os baixos são profundos. Se eu bobear não consigo mais sair do fundo do poço que minha cabeça me inventa de vez em quando. Por isso eu olho fotos, ou leio textos. Pra ver o que eu consigo fazer quando o negativismo e a depressão me deixam livre-leve-solta.

E cada vez vou deixando pra trás o que me pesa na mochila. O que me pesa e não serve pra nada.
Mesmo que com passos de formiga. Mas eu quero ser isso, e hoje sei que só querer não me basta. Só não quero ficar satisfeita com o que me é dado, apesar de sempre grata.

Sonho um pouco enquanto tomo café. Mas o dia está lindo lá fora, também é preciso respirar.

A Lista Dos Perecíveis ou As Mil Vidas

Pra envelhecer não tem idade, tem?
Não tem segunda feira certa, ou primavera certa. Não tem nada certo. Basta estar lá, quieto e contente e pronto: envelheceu.

Porque nesse processo, que é longo, imperceptível de início, um dia você acorda. Um dia você sobe uma escada. Um dia você tenta variar o kama sutra e percebe.

No entanto, não.
Não é só físico. Não é minha flexibilidade reduzida que me mostra isso.
Posso ter 20 e poucos, mas as vezes parece que já vivi mil anos.

O tempo é curto apesar de que Einstein tem razão, é relativo. Por isso não venha me dizer que sou jovem demais pra ser velha. Não me venha com essas baboseiras! Já sentiu o peso da maturidade tão forte nos ombros que precisou joga-lo de lado por um minuto e enlouquecer, gritar, correr, comer manga com leite?

Ou a tenebrosa sensação de auto-suficiência?

Ah, ela!
A maldita! Onde já se viu não precisar de ninguém, nem pra trocar a lâmpada. Que vida! Mas finjo.

– Amor, abre esse pote pra mim?

Mas a verdade é que consigo fazer tudo sozinha e isso me deixa impotente, controversia e tudo mais.

Talvez seja minha memória sofrível que deixa o aspecto de longevidade. As vezes parece que já se passaram mil vidas dentro só de uma. Um momento parece distante. Uma palavra se perde no vendaval do tempo dentro dessa cabeça vacilante que carrego. Me sinto velha, admito. Assustador!

Mas sabe, me perco. Me jogo dentro de roupas de rebelde sem causa, dentro de cintos de rebite que só fazem sentido aos 15 anos. E tento disfarçar a pele da alma com maquiagem caríssima. Até falo gírias, sacou?

Pra dizer que não estou velha demais pra aprender a tocar piano, ou matemática.
Pra dizer que não se fica obsoleto depois de duas décadas e uns quebrados.

Tento analisar a mim mesma, até isso! Mas é também porque… Cadê dinheiro pra pagar terapeuta? La vai:
Meu tempo é ágil e passa rápido. Sou volúvel e me desprendo das mãos que me seguram os pulsos com a facilidade de a, b, c, um, dois, três ou dó, ré, mi. Essa sensação de mil vidas vem porque são mesmo mil vidas. Meu tempo é pequeno, minúsculo. Nunca deixo ele dilatar.

Queria ter o mesmo emprego por 10 anos.
Queria ter o mesmo namorado por 10 anos.
Queria ter a mesma casa por 10 anos!
Como tanta gente por aí.

Mas não me permito!
E depois reclamo a impressão de envelhecimento, de caducar antes da hora.

Se eu nasci a dez mil anos atrás mesmo, isso explica tanta dor nas costas, tanta consciência, tanta prepotência.

Me joga na lista dos perecíveis, por favor?
Estou exausta de ser sênior camuflada de junior.

E começar tudo outra vez, outra vez.